Resolvi fazer um post sobre um assunto que pode interessar a todos, viajantes temporários ou de mudança definitiva para um outro país . Um assunto que muitas pessoas vêem como tabu ou se envergonham de falar a respeito. Não sou psicóloga, nem antropóloga, mas já vi e li muito a respeito. Também participei no passado de fóruns de discussão pela internet e acho que posso levantar o tema por aqui.

O que é o choque cultural ? De maneira muito superficial podemos dizer que se define por:

  • Um cansaço físico associado a desconforto psicológico e cultural.
  • Uma crise de identidade + ansiedade e mal estar quando num país estrangeiro.
  • Um “piripaque” momentâneo durante uma visita turística. Um “apagão”.

Tudo isso são manifestações de choque cultural, uma tema muito estudado em países que recebem um número muito grande de turistas e emigrantes provenientes de culturas muito diversas.

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Em quase duas décadas fora do Brasil já vi turista em Israel que do dia para a noite se achou a encarnação de Cristo, amiguinha brasileira que desmaiou durante uma promoção relâmpago de bolsas de grife na Galeria Lafayette,  holandês que se perdeu sozinho na Floresta da Tijuca… A lista é bem mais longa que isso, claro. E o sofrimento físico e mental acontece basicamente porque as pessoas sofreram um choque cultural, geralmente não premeditado. Ou seja: julgaram uma situação a partir de seu próprio ponto de vista cultural, sem levar em consideração a geografia / costumes / tradições / clima locais.

Para ilustrar, um exemplo bobo: Os bosquezinhos na Holanda tem caminho para os pedestres e caminhos bem marcados para os ciclistas. A intervalos regulares você vê marcadores com indicação da distância já percorrida e entre as árvores você vê à distância outros grupos de pessoas (ou até mesmo onde você estacionou o carro). Aí acontece de uma pessoa que nasceu num país assim querer visitar uma “floresta tropical urbana” no Brasil e achar que é tudo sinalizado. Porque justamente é “urbana”, pensam que é fácil. Que vai ter cerquinha, plaquinha e informação a cada 100 metros. Leva um choque quando descobre que não é bem assim.  Há muitos europeus que nunca saíram da sua gaiolinha dourada e quando vão à Ásia, America Latina ou cantos remotos do mundo (Alasca, Montanhas Rochosas, deserto australiano) acham que vão dominar a situação com o preparo que tem de fazer barraquinha de camping no quintal de casa. Aí já viu. É um tal de moça que cai do abismo na Turquia, casalzinho que achou hotel na zona sul do Rio muito caro e acaba se enfiando na favela, garotão que se perdeu atrás da primeira duna no Saara, marido que foi fazer a barba ali na beira do lago na Austrália do lado da caravan e jacaré engoliu ele até as botas.

O choque cultural não acontece apenas com pessoas provincianas, ou “fracas da cabeça”. Longe disso! Eu já li relatos em blogs sobre garotas cosmopolitas (do Canadá e da Austrália) que vieram morar em Amsterdã e acabaram tendo uma deprê séria. O caso que mais me marcou foi de uma canadense que veio acompanhar o namorado transferido a trabalho para Amsterdam. Veja bem: eles tinham dinheiro para gastar com turismo e bens materiais (tv, internet, celular, apartamento amplo e bem localizado), ela tinha a companhia dele que fala a mesma língua, ela nasceu num país ocidental, ela tinha inclusive uma parte da genética holandesa (um dos avós era holandês). Ainda assim caiu em depressão após um ano. Achou tudo muito diferente, difícil de se adaptar. Terminou o namoro e voltou para o Canadá onde concluiu o mestrado, arrumou outro namorado e hoje vive sorrindo no blog pessoal. Acho que a depressão  no ano que viveu na Holanda foi porque tinha uma vidinha bem confortável  e independente por lá (Canadá) e por aqui (Holanda)  era… uma simples desconhecida, apenas mais uma loura no meio de tantas outras. No Canadá ela tinha uma vasta rede social de parentes e amigos. Aqui os coleguinhas da faculdades já tinham seus próprios amigos e não a incluíram – demora tempo mesmo. Depois dos meses iniciais fazendo turismo o entusiasmo dela murchou, amizade nova não rolou, o mestrado mixou e o namoro acabou.

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Não há maneira 100% segura de evitar totalmente o choque cultural. Todo mundo vivendo no exterior tem numa certa medida um pouco de choque.  No entanto, se você planeja se mudar para um outro país, para reduzir o impacto do choque cultural seria bom levar em consideração os seguintes pontos:

Busque informação sobre o país que irá visitar. Informações grandes e pequenas. O transporte público é organizado e seguro ou você vai ter que fazer tudo de carro (e voce de-tes-ta dirigir) ? É um país machista ? Ou é uma país individualista (“cada um por si”) e você é do tipo que “vai para a galera”? Dá para beber água direto da torneira ? Você suporta bem a solidão?

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Use sua sabedoria e paciência. Procure ter uma visão a longo prazo. Alguns países tem uma burocracia insuportável e tudo demora muito tempo para ser resolvido. Muito. Outros países são eficientes na burocracia sim, mas são ríspidos e desconfiados dos estrangeiros.

Procure ver o humor nas situações sem precisar usar de sarcasmo. Não deboche na cara dos locais sobre os costumes, a comida, as roupas, o sotaque ou a religião.

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Tenha confiança em você mesmo. Pense que vai dominar a língua, conhecer pessoas e fazer amizades, descolar endereços de cursos e passatempos legais. Se nada disso acontecer na velocidade que você esperava, tudo bem.

Tome riscos calculados. Prepare-se em dobro se for fazer aventuras radicais, esportes extremos ou visitar lugares isolados sozinho (a). Coloque-se no lugar dos locais e pense se faz sentido o que você está planejando, se a logística está adequada. Comente com os locais seus planos e escute com muita atenção opinião deles.

Não tenha pena de você mesmo, caso os locais o critiquem muito ou o isolem. Simplesmente, ria do seu próprio sotaque e faça uma auto-análise.  Será que você está ouvindo bem, com atenção ? Será que precisa fazer um curso de imersão em fonética ?  Veja se não é hora de usar outras roupas e sapatos, outro corte de cabelo, questionar seus próprios dogmas e opiniões, falar menos e falar mais baixo – ou não falar nada em várias situações.

Não compense as frustrações (com a nova língua, novos hábitos, incompreensão dos locais, etc.) com COMIDA. Muito estrangeiro cai de boca em todas as delícias locais como maneira de anestesiar o sofrimento. Fique de olho aberto e consciente desse perigo! Não preciso nem recomendar para também não abraçar o álcool nem as drogas…

Descanse bastante à noite. O estímulo mental para um estrangeiro é muito grande. Não use as horas da madrugada para longos papos com o país de origem via internet  por causa do fuso horário. Se você tiver que estudar / trabalhar no dia seguinte vai ficar acabado.

Durante o dia tenha intervalos para comer. Isso vale para quem está fazendo turismo tanto para quem mora definitivamente em outro país. É muito comum estrangeiros que começam num novo emprego pularem o almoço para demonstrarem “serviço”. Tolice. Ou turistas que entusiasmados por tudo que estão vendo vão empurrando o almoço para mais tarde, mais tarde, mais tarde… até que desmaiam no meio da rua / loja de departamentos / museu, etc.

Beba água a intervalos regulares. Parece um conselho inútil mas não é não. Há pessoas que se mudam para países frios e desde então param de beber água (?!?) porque acham “que não precisam mais”. Come on people! Isso provoca dor de cabeça e altera o metabolismo – de quem já tem que se acostumar a um novo clima.

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Não idealize o Brasil. Algumas pessoas que se mudam para um outro país, passada a fase de lua-de-mel começam a sofrer com diferenças culturais. Nesse momento exato começam a idealizar o Brasil. Que o tempo é sempre bom no Brasil (não é). A comida é sempre maravilhosa no Brasil (não é). As pessoas são sempre amigas, ajudam, são abertas, riem (não, não, não).  Que no Brasil há liberdade para se fazer o que se quer, sempre (oi ?!). Que o Brasil é sempre divertido, não tem preconceito… Ai, ai. Caia na real. Nenhum país é perfeito.  Nem países muito ricos e desenvolvidos são perfeitos.

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Peça ajuda emocional a familiares e amigos. A manutenção do contato social é importante para a saúde mental. Releve e perdoe se alguns familiares no Brasil começarem a agir de forma “diferente” ou não ter muito tempo para você. Releve e perdoe as pessoas do país que você adotou para morar se elas não entendem seu desabafo, não tem tempo ou jogam na sua cara: “Não está gostando daqui? Então volte para seu país de origem, lá para o Brasil!” Procure ajuda especializada psicológica se for o caso. Ouça o seu corpo e não ignore sinais (mudanças repentinas de humor, grande perda ou ganho de peso, profunda irritabilidade e tédio, taquicardia…).  Não adie tratamento até ser tarde demais!

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Você  já passou por um choque cultural? Como foi sua experiência ? Por quais fases você passou (lua-de-mel / negociação / ajustamento / mestria)?  Desabafe aqui com a gente! Sugestões, críticas? Concorda, discorda? Compartilhe conosco! O seu desabafo pode ajudar outras pessoas a compreender um desajuste cultural. Agradecemos.