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Ricos, felizes… e endividados ?

24/09/2014

bz_holanda  Ana Fonseca, Amsterdam – Holanda

Duas notícias de cunho financeiro me chamaram a atenção essa semana:

1 – Após a Suíça, EUA e Bélgica a Holanda é o país com um dos povos mais ricos do mundo  (fonte: Dutchnews.nl).

O valor médio da riqueza de cada cidadão foi calculado levando em consideração as economias pessoais, investimentos e possessão de propriedade, subtraindo em seguida as dívidas – tais como hipoteca da casa própria. O mais interessante dessa notícia é que “o mundo inteiro ficou mais rico” nos últimos 12 meses (fonte: nltimes.nl). E notícia nem tão nova assim: um povo mais rico tende a ser mais feliz. Os holandeses são sempre listados no top dos povos mais felizes do mundo (fonte: iamspat.nl), também em quarto lugar para ser exato !

2 – Riqueza e felicidade à parte, a imprensa holandesa vem anunciando há algum tempo (pelo menos durante os últimos três anos) que boa parte dos jovens holandeses está endividada.

A Holanda por ser justamente um país tão rico e com tanto subsídios para pesquisa, frequentemente monitora o desenvolvimento da população em diversas áreas (sexualidade, finanças, bem estar social, etc.) . Segundo uma pesquisa feita pelo NIBUD (National Institute for Family Finance Information)  1 em cinco jovens entre 18 e 24 anos já está com dívidas sérias e não tem como pagar seu seguro de saúde ou provedor de telefonia. Vários já tem multas acumuladas e atrasados com impostos. Um quinto dos jovens tem uma dívida de cerca de €2,500, segundo o NIBUD. A pesquisa foi feita com 1,500 jovens entre 12 e 24 anos. Um ponto positivo que resultou da pesquisa foi o fato de grande número de entrevistas declarar que conversam com os pais sobre finanças pelo menos uma vez por mês. “Os pais podem usar de influência para ajudar as crianças a ter os pés no chão sobre suas próprias finanças”, segundo o NIBUD.

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Disse no início que duas notícias me chamaram a atenção, mas devo confessar que me chamaram a atenção como bom mote para escrever um texto. As duas notícias são relativamente velhas para mim. Os holandeses são de fato ricos. Foi aqui que surgiu a primeira multinacional do mundo (a VOC – Companhia das Indias Orientais), e o mercado de ações. A influência inicial da religião calvinista se disseminou em um estilo de vida, que caracteriza a maior parte da população branca holandesa. Não, Jean Calvin não era holandês – mas em nenhum outro lugar do mundo seus ensinamentos morais encontraram solo tão fértil como na Holanda comercial do século XIX (seguido da Suíça e… EUA! Coincidência ? Hummm). Apesar de na fachada ser considerado um dos países mais liberais do mundo, na verdade os holandeses são reservados, resilientes, movidos a mil as regrinhas de comportamento, muito frugais com seus gastos, prósperos e industriosos. Esse comportamento é disseminado por todo país, todas as classes e profissões. Adoram design e teconologia, mas no geral não fazem compras por impulso, buscam sempre uma pechincha, e o mercado de artigos de segunda mão é imenso e dinâmico.

Como então jovens provenientes de uma cultura comedida nos gastos estão a se endividar cada vez mais ? Minhas conclusões pessoais, baseada puramente nas minhas observações são as seguintes:

– Nunca as gerações anteriores estiveram sobre influência da mídia como essa agora que está entre os 12 e 24anos. A TV bombardeia as crianças com bonecas, games, jogos, roupas das stars do Disney Chanel e Nickelodeon.

– Essa geração é “filha” de mães que pela primeira vez entraram no mercado de trabalho. Ao contrário de, por exemplo, a geração do meu marido que tinha estritamente o necessário para o lazer (nem de mais, nem de menos) essa geração de agora pode ter uns “extras”:  férias no exterior (de avião), ter sandálias Birkenstock (€50 o par!), clubinhos de esportes (não apenas o tradicional e barato “judo-dança ou futebol” mas golf, hipismo), aulas de música (não só piano ou violão, mas violino, harpa…). Enfim, o ingresso de mulheres no mercado de trabalho a partir dos anos 70-80 permitiu criar uma geração com mais luxos.

– A venda online de artigos. Fácil, rápido, com descontos e promoções. A Holanda é um país com um marketing bem sofisticado, e as escolas/faculdades de comunicação são de ponta. Há muita promoção, desconto ofertas bem distribuídas ao longo do ano.

– A oferta de trabalhos para jovens. Okay, os salários tem sido reajustados – para baixo-  com frequência na última década e o ritmo de produção é alucinante (rápido, eficiente). Mas um jovem holandês não precisa trabalhar em condições agonizantes como: ajoelhado em campos de tulipas no inverno, fábricas mal ventiladas, etc. Nada disso.

– Há inúmeras opções de lazer só para jovens. Mais bares e restaurantes. Concertos e shows o ano inteiro. Conheço meninas de 11 anos que usam toda a mesada para ir com os pais a show de “One Direction”, em Roterdã. E pais que colocam fotos no FB de filhos indo para o memso show com amiguinhos de… li-mu-si-ne. Oi ? Adolescentes muito classe média-média que usam seus salário em spas, fins de semana com os amigos em capitais européias.

As razões para jovens se endividarem vão obviamente muito além das citadas por mim acima. Atenção: são jovens (até 18 anos) que ainda moram com os pais – e isso me parece alarmante! Afinal esse é um país onde a maoiria das mães  praticamente não usam maquiagem ou esmaltes (apesar da imensa oferta), todos comem muito básico, não pagam empregados ou ajudantes de qualquer tipo, passam as férias em campings, o acesso a bilbiotecas é baratíssimo.  Começo a ver que institutos de apoio à pais e mães começam a divulgar workshops sobre finanças (quando cheguei aqui os cursos eram mais tradicionais: “Como estimular a auto-confiança da criança”, etc.) e as escolas também começam a dar dicas a respeito: nas newsletters pedem mais comedimento durante as festas de aniversário, roupas mais discretas na escola. Até o primeiro ministro holandês volta e meia pede um “retorno dos pais a normas e valores”, o que a imprensa chama de “apelo à necessidade de um neo-calvinismo”.

Eu já bati papo algumas vezes em festinhas sobre gastos infantis, mas não discuto mais. Percebi que a opinião geral dos pais é que se eles tem dinheiro vão dar sim para os filhos tudo que eles queiram.

Eu tenho a opinião que uma criança deve sentir “um pouco de frustração financeira” até conseguir que deseja. Eu fui criada assim: quando precisava de algo (um sapato, por exemplo) isso era discutido com minha mãe e ela falava o prazo que iria levar (“Esse mês não vai dar, dá para você aguentar mais um ou dois meses ? Eu tenho que ver também para seu irmão e sua irmã”). Ou seja; saber que as compras não são automáticas, que os recursos financeiros são obtidos de modo suado. Assim quando minha filha anuncia em voz alta no meio da recepção da escola de dança: “Minha sapatilha de balé está apertada, TEM QUE COMPRAR OUTRA”. Eu aviso que não precisa ser bem assim, num estalar de dedos. Calma aí mocinha, não vou pular na loja Papillon em Amsterdam e pagar uma nota em sapatilhas a cada 6 meses. Nesse caso eu dei uma olhada para ver se podia afrouxar o elástico transversal, eliminá-lo ou colocar outro. A dona da academia olhou na hora e disse: “Compra outra sapatilha não. Eu tenho um saco de elásticos e você escolhe e costura outro, mais frouxo.” A maioria das mães ouvindo concordou que era uma boa idéia e reclamaram como sapatilhas eram caras. Já meu filho vivia comentando que o violão que ele tinha era pequeno, sem recursos – não dava mais. E não dava mesmo. Meu marido procurou, procurou e encontrou um modelo excelente de segunda mão via internet pelo Marktplaats. Quando meu filho quer comprar um brinquedinho durante as férias, avaliamos primeiro esse desejo dele. Comparamos com outros produtos e ele já sabe que vai ter que pagar da mesada dele. Estamos sempre de olho, não é fácil – e fica sempre mais complexo. O melhor mesmo é os pais darem o exemplo pois só aconselhar nem sempre dará resultados.

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Ana Fonseca mora na Holanda. Curtam nossa página no FB e nossa conta no Twitter para atualizações da vida no exterior. Quer ver fotos lindas de Amsterdã e outras cidades pelo mundo? Sigam nosso perfil no Instagram. Blog Brasil com Z, um blog feito por expatriados brasileiros, vivendo nos quatro cantos do mundo! 

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Fontes (todas em inglês):

Riqueza e felicidade dos holandeses:

http://www.dutchnews.nl/news/archives/2014/09/the_netherlands_has_fourth_ric.php

http://www.nltimes.nl/2014/09/23/netherlands-fourth-richest-country-world/

http://world.einnews.com/article__detail/225353457?lcode=K2y6e6yjSZ6POb1uTdsK3Q%3D%3D

http://www.iamexpat.nl/read-and-discuss/expat-page/news/netherlands-fourth-happiest-nation

Dívidas dos jovens holandeses:

http://www.dutchnews.nl/news/archives/2014/09/many_youngsters_already_in_deb.php

Holandeses: campeões de dívidas na Eurozone:

http://www.rnw.nl/english/article/dutch-are-rich-debt-laden

Calvinismo:

http://www.expatica.com/nl/news/news_focus/The-Netherlands_-The-_most-Calvinist-nation-in-the-world__14301.html

3 Comentários leave one →
  1. 24/09/2014 11:37

    Beleza teu post e concordo contigo. Tá muito difícil manter nossas crianças co,m a simplicidades que tanto queremos, vivemos e pregamos. Elas convivem com primos, amigos, famílias que gastam, torram tudo e mais um pouco, elas tem de tudo desde que nascem. Não sabem nem precisam mais sonhar em ter alguma coisa como nós. Elas ganham e depois deixam largado. Tá faltando educação e não ter medo de impor limnites e dizer NÃO aos filhos, por parte dos pais! bjs, chica

    • 25/09/2014 12:02

      Chica, o mundo quando eu era criança era outro. Claro que agora as possibilidades são muito maiores. Mas o objetivo básico das nossas vidas não é consumir nem ser escravo do capitalismo.

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