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O copo meio cheio ou meio vazio?

26/01/2015

bz_portugal

Edijane Costa – Portugal

As impressões de uma brasileira em Portugal

Quando decidi embarcar para Portugal sabia que a frase “o copo meio vazio” aplicava-se muito bem à maneira como os portugueses percepcionam os acontecimentos da vida. Expressões como “vai se andando”, “ri-te, ri-te que amanhã choras”, “isto está a me estragar a vida”, “que remédio” é comum ouvir este tipo de jargões em Portugal e são utilizados em situações rotineiras.

Inicialmente, e apesar de ser psicóloga, não compreendia muito bem o porquê deste pessimismo. Mas, após um período de convivência comecei a compreender que os portugueses (não todos!) tinham uma forma peculiar de expressar suas emoções e desagrados.

Sim. Na minha perspectiva alguns continuam rezingões e a encarar os infortúnios (e até os fortúnios) da vida pelo lado negativo, mas isto não os impede de irem a luta, de serem minuciosos e dedicados aos seus afazeres. São conhecidos na Europa e no mundo afora como indivíduos trabalhadores e empreendedores.

Terreiro do Paço em Lisboa

Terreiro do Paço em Lisboa

Podemos analisar este espírito pessimista de alguns portugueses como uma forma de auto proteção ao adotar padrões que os possibilite prever possíveis situações de adversidade e assim, preparam-se para elas. Isto desfavorece o bem-estar psicológico, concorrendo para o desenvolvimento de psicopatologias, tais como a clássica Depressão que atinge um número elevado da população.

A crise econômica e social que atravessamos neste momento na Europa e, sobretudo em Portugal, vieram fazer com que algumas das dificuldades percebidas e a auto-flagelação dos portugueses de simbólicas se tornassem concretas. Porém, hoje noto que este estado de espírito faz parte da herança histórica e cultural deste povo, da sua identidade. Tanto mais que aqueles que são otimistas e bem-humorados se destacam em qualquer ambiente e destes dizem logo “até parece que veio do Brasil!”

Ponte da Arrábida no Porto

Ponte da Arrábida no Porto

Não é por menos que o jeito otimista e alegre do brasileiro contrasta com o pessimismo de alguns portugueses. Talvez por isto tenhamos tanta dificuldade de inicialmente aceitar e compreender que do lado de cá do Oceano Atlântico “o copo é meio vazio”. Em contrapartida, me questiono se o otimismo brasileiro (em alguns casos até excessivo) que nos motiva agir sempre com boa disposição e sorriso no rosto e até nos auxiliar a superar imensas adversidades, talvez não seja apenas o resultado do tropicalismo do nosso país, mas também de uma certa dificuldade de enfrentarmos as vicissitudes da vida de forma mais realista e sensata (apesar de reconhecer que em alguns casos, seja muito protetor).

O ideal mesmo seria encontrarmos um equilíbrio entre estas duas formas de perspectivar a vida, ou como costumamos dizer não sermos “nem oito, nem oitenta”. Pois afinal de contas, sempre poderá haver um dia em que o copo estará “meio cheio” e outro “meio vazio”.

13 Comentários leave one →
  1. 26/01/2015 8:51

    Interessante seu post.
    Eu sou muito crítica antes de começar qualquer projeto. Isso não diminui em nada minhas ambiçoes e volume de resultados concretos. Eu não gosto muito de começar nada na base de vagas expectativas. Acho muita ingenuidade os que acham que podem abrir muitas portas com apenas um sorriso e sem preparação sólida. E não me acho alguém que vê a vida pelo “copo meio vazio”.

    Há que se ver também que os europeus sofreram muito ao longo dos milênios. Muitas guerras, invasões, carestia, opressão. Faz parte da cultura deles quando perguntados sobre como vão / o que acharam de algo dizer: “Not too bad!”. Os brasileiros já começam uma pergunta positivamente: “Tudo em cima?”, “Como vai essa força?”

  2. Carla - Sonhos na Itália permalink
    26/01/2015 8:59

    Realmente brasileiro é visto como otimista e animado em todos os lugares, aqui na Itália não é diferente. Não posso dizer que o italiano chega a ser pessimista, mas vendo você descrever os portugueses, posso dizer que são bem parecidos. Acho que o que a Ana falou pode ter um fundo de verdade, todas as guerras, períodos difíceis que ficaram na história e solidificaram esse sentimento do copo meio vazio nos europeus.

  3. 26/01/2015 9:18

    oi Edjane, benvinda!

    se eu não soubesse que você é psicóloga, teria sido fácil deduzí-lo pelo teu olhar sobre os portugueses. Senti a preocupação com o bem-estar das pessoas e a busca de compreender os porquês das atitudes. No entanto, tua escritura vai muito além do psicologuês, quando leio ‘rezingões’, ‘infortúneos’, ou mesmo ‘jargões’, termos que levam a linguista em mim ficar curiosa quanto às origens. Convenhamos, são palavras antigas no Brasil (não sei em Portugal), e raramente conhecidas (e muito menos usadas) por pessoas de tua geração.

    considerações literárias à parte, concordo com o que você escreveu. E pergunto: será que o famoso bom-humor brasileiro não é de fantasia? ou disfarce para um total ‘num tô nem aí’? slogans do tipo ‘afinal tudo acaba em pizza’ não são indicativos de um fatalismo que busca justificar a omissão do povo em relação aos graves e crônicos problemas do Brasil?

    a pergunta está no ar.

    • Edijane Costa permalink
      26/01/2015 12:55

      Me despertou a atenção para algo muito interessante, é verdade que começo a utilizar na minha escrita termos muito portugueses 😀

      Em algumas situações considero que o “excesso” de bom humor brasileiro é também reflexo de alguma ingenuidade ou ignorância do povo brasileiro perante os problemas da nossa sociedade. E certo que em alguns casos considero que se torna fator protetor diante de tantas mazelas que assolam o nosso povo.

  4. Ilda Torrão permalink
    26/01/2015 12:43

    Sou portuguesa e concordo em pleno com o texto acima descrito. Penso que é uma visão muito real da nossa sociedade e como os portugueses pensam habitualmente face às contrariedades da vida.
    Ilda Torrão

  5. 26/01/2015 12:50

    Muito show o seu texto Edijane, quando eu crescer quero escrever assim.

    Não conheço Portugal, ainda. Mas conheço bastante Portugueses que moram aqui no Reino Unido.

    Realmente não é muito diferente daqui, com os Ingleses, e os Italianos como Carla diz.

    Me passou um filme pela cabeça, em situações onde, no trabalho, na escola, colégio, amigos em comum se encontram, sempre comentam, de nossa disposição e alegria, animados para fazer tudo “aqui e agora”.

    Sem querer generalizar, já generalizando, acho que somos bem assim, e as vezes no sentimos meio que peixe fora d’água, mas pelo menos comigo sempre fui bem recebido e com uma certa curiosidade sobre nossa disposição.

    Realmente percebo a frieza (não sendo negativo) e imparcialidade de se aventurar a fazer alguma coisa. Um certo receio de tomar uma decisão sem ser minuciosamente planejado.

    Ou gostam ou não gostam, ou fazem ou não fazem.

    Ai onde entramos, com o nosso “Jeitinho” Brasileiro, que confesso antigamente criticava e ficava com vergonha disso, porém após aceitar que somos assim e como podemos fazer para sermos o melhor que podemos do jeito que somos na terra do tio sam?

    O “jeitinho” é especial para situções de decisão, para aqueles momentos em que o time, o grupo não decide se vai ou se desce.

    Por tanto, nos últimos anos, decidi, ser mais aberto a absorver o que há de melhor em cada situação, lugar, cultura e aplicar combinada ao nosso jeitinho.

    Até então vem surtindo um efeito positivo.

    A pergunta é – “O seu copo está meio cheio ou meio vazio?”

  6. josé permalink
    30/01/2015 19:58

    Muito bem escrito, e de acordo com a realidade bem portuguesa. Parabéns.

  7. Marília Gomes permalink
    25/02/2015 15:43

    Gostei muito de ler o seu texto. Acredito que após muitos anos a viver em Portugal estou a ficar com o meu copo meio vazio também. bjs

    • 25/02/2015 17:16

      oi Marilia, me permito sugerir: encha-o com novas experiências.
      boa sorte!

    • Edijane Costa permalink
      26/02/2015 17:50

      Olá Marília, as mudanças e adaptações são exigências necessárias, embora que, por vezes, não intencionais, na vida de qualquer imigrante. Pense nisto! Bjs

  8. Arlete permalink
    08/04/2015 6:28

    Oi Edijane
    É interessante o seu modo de ver o jeito português de ser. Eu estive em Portugal e achei os portugueses muitas vezes mal-humorados. Como aquela era a primeira vez que eu estava fora do nosso continente, isso me surpreendeu um pouquinho. Acho que, como vc disse, um pouco disso faz parte da cultura desse povo mesmo.
    Aqui na Suíça é um pouquinho diferente, mas não muito. Eu me pergunto se isso seria assim pelo verão curto, o inverno longo ou a falta de sol que eu, depois de apenas seis anos começo a sentir também.
    Os suíços não são negativos de um modo geral, mas super discretos, tão discretos que muitas vezes isso se confunde com distância no comportamento deles, o que não é real. Os suíços, segundo o que tenho vivenciado até agora, são pessoas extramamente solícitas e simpáticas, mas praticamente nunca dão o primeiro passo na comunicação e aí, fica assim, cada um no seu quadrado até um latino puxar conversa ou perguntar alguma coisa.
    Essa falta de contato influencia muito o cotidiano de todos, acho. E aí parece que às vezes o copo fica meio vazio, principalmente no inverno.
    Eu me pergunto se a alegria e o positivismo do brasileiro vêm da vitamina D emanada pelo sol :-), pq apesar de não ter tido guerras como as dos europeus, dificuldade, falta de oportunidade e tensão é o que não falta na vida do brasileiro, diariamente.
    Um abraço

    • Edijane Costa permalink
      08/04/2015 11:21

      Olá Arlete, somos conhecidos pela nossa alegria de viver e boa disposição, apesar das dificuldades. Acredito que além do tropicalismo, também há uma vertente sociocultural que nos impulsiona a acreditar que o amanhã sempre será melhor, para uns poderemos chamar de fé, para outros é uma forma de perspectivar a vida com o copo meio cheio. Abç

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