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A crise europeia e a ascensão da esquerda radical espanhola‏

02/02/2015

bzEdu Justo

La Coruña, Espanha

Edu

A crise econômica que sacudiu boa parte do mundo em 2008 foi especialmente devastadora para quatro países: Portugal, Irlanda, Espanha e Grécia, que acompanhavam impotentes e atônitos como seus índices macroeconômicos ruíam como um castelo de areia.

A Espanha, onde o PIB contraiu-se 3,7% em 2009, experimentou um pequeno crescimento de 0,3% em 2010 e 0,4% em 2011, para novamente sofrer uma retração de 1,3% em 2012. Toda esta contração repercutiria diretamente a taxa de desemprego do país que aumentou de 8% em 2007 para inacreditáveis 26% em 2012. Incapaz de encontrar uma saída para o furacão que estava arrasando o país, o presidente socialista José Luiz Rodriguez Zapatero viu como sua ineficiente gestão era punida nas eleições presidenciais espanholas. Seu principalmente oponente, o candidato conservador Mariano Rajoy, foi eleito com maioria absoluta no congresso, o que lhe permitiu governar livremente sem depender de alianças com partidos menores.

O novo presidente, fiel às resoluções da Troika (composta pela Comissão Europeia, Banco Central Europeu e o FMI), começou a aprovar uma série de medidas impopulares, como cortes na saúde e educação pública e congelamento dos salários e pensões. A reação popular não demorou a chegar e o povo foi às ruas manifestar a sua indignação em várias cidades espanholas, porém o governo se mostrou irredutível.

Apesar de impopulares, as medidas adotadas pelo governo de Mariano Rajoy melhoraram sensivelmente os índices econômicos espanhóis. Há meses, a economia espanhola recupera seu dinamismo: o consumo e os investimentos voltam a crescer, o setor da construção, devastado após a explosão da bolha imobiliária de 2008, renasce e o capital estrangeiro está de volta ao país. Tudo isso se traduz em uma recuperação do crescimento, estimado em 1,4% em 2014, após uma forte recessão, o que permite às empresas contratar novos trabalhadores.

A taxa de desemprego, no entanto, permanece altíssima. O desemprego caiu na Espanha em 2014, mas se manteve em uma elevada taxa de 23,7%, sendo o maior desafio para a recuperação econômica vivida pelo país após seis anos de crise.

Até aqui, tentei de ilustrar o cenário econômico espanhol desde o começo da crise em 2008. Porém, o tema central deste post é ascensão da esquerda radical na Europa, um fenômeno exclusivo dos países mais afetados na crise, principalmente a Espanha e a Grécia. No domingo passado, os gregos elegeram o líder do partido Syriza, Alexis Tsipras, para ocupar o cargo de presidente do país, um fato que, apesar previsível, ligou todos os alarmes dos países vizinhos, já que a sua plataforma pode colocar em risco a sensível estabilidade do continente europeu. O país deve 320 bilhões de euros, o que corresponde a 175% de seu PIB. A proposta imodesta do Syrisa é dar calote em 50% — isto é, reduzir a dívida, de saída, à metade — e decretar a moratória dos outros 50%. Como o PIB da Grécia corresponde a 0,2% do PIB europeu, muitos analistas econômicos consideram que o impacto de qualquer calote grego não deveria provocar grandes danos.

O perigo reside exatamente na Espanha, que tem experimentado um crescente movimento nessa direção, com a ascensão do “Podemos”, um partido formado há apenas um ano, mas que produziu um grande choque ao ganhar cinco assentos nas eleições para o Parlamento Europeu, em maio do ano passado. Atualmente está liderando as pesquisas de opinião na corrida para as eleições locais, regionais e nacionais neste ano. Seu líder, Pablo Iglesias, um ex-professor universitário prometeu acabar com a política de austeridade promovida por Rajoy (e supostamente imposta pela Troika), aumentando o salário mínimo espanhol e ampliando a verba para a saúde e educação. De onde Iglesias tirará dinheiro para conseguir cumprir suas promessas é uma incógnita. Só dando um calote mesmo, estratégia pretendida pelo novo presidente grego. O fato é que os espanhóis terão quase um ano para acompanhar o trabalho do partido Syriza na Grécia. Ao mesmo tempo em que o sucesso do projeto antiausteridade grego pode ajudar a extrema esquerda espanhola, um fracasso pode ter um efeito devastador.

3 Comentários leave one →
  1. 02/02/2015 8:12

    Era hora mesmo de mais um post aqui no blog sobre a crise no sul da Europa.
    Segui com atenção semana passada sobre a eleição na Grécia. Os canais holandeses cobriram bem, com entrevistas à gregos que vivem em Amsterdam, com enviados especiais na Grécia, etc.. Pessoalmente não acho que o governo do A. Tsipras deva ser acompanhado pelos espanhóis como referência – seus planos dando certo ou não. Mas isso vai depender muito de como a mídia espanhola decidir acompanhar e divulgar o governo dele ao público espanhol, não ?

  2. edujusto permalink
    02/02/2015 9:35

    O que preocupa é que o Syriza e o Podemos são “irmãos”, quero dizer, nasceram durante a crise, compartilham os mesmos ideiais, tem grande apelo popular e declararam guerra aberta a “Troika”. Na verdade são estes típicos partidos de esquerda extrema “útopicos” que desenham um mundo muito bonito, mas dificil de concretizá-lo. A Grecia é a Espanha são muito diferentes, apesar de compartilharem vários fatores comuns. O PIB da primeira corresponde a 0,2% do PIB europeu enquanto a Espanha é a 4ª economia do bloco. A Grecia teve 2 resgates a Espanha nenhum, e o risco país da Grecia supera atualmente os 1000 pontos enquanto a o da Espanha é inferior a 100. É possivel que Podemos ganhe as eleiçoes para presidente, mas se isso ocorrer nao acredito que se sustentem por muito tempo. O barco vai começar a fazer água. Se fazemos parte de um clube (no caso a UE) temos que jogar de acordo com as regras do jogo. Se você começa a se rebelar, irão todos contra você.

  3. 02/02/2015 20:25

    oi Edu, você trouxe um fato importante: não podemos fazer de conta que não entendemos os objetivos das manobras políticas. A partir de análises pertinentes como a tua (parabéns!) é que podemos pensar nossa participação como aceite ou negação de certos discursos.

    por exemplo, pregar o calote como alternativa para resolver-se situações de dívidas deveria ser considerado inaceitável em qualquer caso. Quando esta indecência parte de representantes do governo de qualquer país, acho que é tempo de se questionar a legalidade de certas leis e a governabilidade em si.

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