Todo país/nação tem seus ótimos, bons, maus e péssimos traços culturais. Geralmente, as pessoas praticam esses hábitos em grupo e há tanto tempo que nem percebem como é inconveniente ou invasivo. Creio que é muito importante a pessoa não levar a vida no “piloto automático” e sempre se perguntar se age como “manada” e porquê.

Essas são algumas coisinhas que eu e outros estrangeiros com os quais já conversei acharam esquisito na Holanda:

1- Não fazer fila;

Quando esperam para entrar e um trem se acumulam na porta do mesmo sem deixar espaço para os que precisam sair. É uma barricada. Para um ônibus, também não fazem fila. Durante a pausa de um concerto, show, teatro etc. não fazem fila na cantina. Fazem um pouquinho de fila no guichê da prefeitura, nos caixas das lojas e supermercados…  Para qualquer outras situação não se enfileiram.  Meus sogros e marido ficaram impressionados como no Brasil fazem fila bonitinho e retinho para entrar num ônibus, banco, museu, etc.. e dar prioridade a grávidas e idosos.

2 – Comer tortas antes do jantar ou de uma recepção;

Pode ser que você seja convidado para uma festa de casamento, aniversário, churrasco e primeiro ser servido torta ou bolinhos, chá e café. Há depois uma “pausa” no serviço, que recomeça com amuses e/ou refeição direto. Se você está mesmo interessado no jantar, pode recusar gentilmente sem problemas a torta, não é ofensa nenhuma. Os holandeses são fáceis e flexíveis em protocolos. No final da refeição, e se já foi servido torta antes, geralmente não é servido nenhum doce depois – talvez apenas um sorvetinho e geralmente só para as crianças.

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A torta É a comemoração. Não é servida no final da festa. Logo depois da torta, são servidos uns tira-gostos (crackers, salsichinhas, queijinhos), etc..

3 – Dizer que uma comida é “suja” quando não gosta do que provou;

Em holandês quando algo está bem preparado e gostoso dizem “lekker“. Nada mais nada menos. Fato. Não são um povo elogioso, não perguntam quais os ingredientes ou como foi preparado, etc.. Por outro lado, quando não gostam de algo dizem que é sujo: “vies“. Acho feio isso. É pácabá ! Ensino minhas crianças a de preferência dizer: “Não obrigado (a)” quando não toleram algo. Sem mais detalhes ou cara feia. E mostrar uma certa curiosidade sobre o preparo ou elogiar quando acham algo “lekker”. Eles são muito binários nisso, os holandeses: ou é lekker ou vies. Ponto. Se você começa a contar entusiasmado(a) sobre um prato, eles cortam logo com a pergunta: “Mas… é lekker?”

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                                   Hmmm, lekker !                                                              Bah, vies ! 

4 – Especificar o que quer ganhar de presente de aniversário ou pedir uma quantia;

Um hábito curioso: muitos especificam no convite/email o que querem ganhar (principalmente crianças) ou se preferem dinheiro para um determinado objetivo – mas ok: não dizem a quantia. Como são um povo super prático, isso facilita a vida do convidado. Tudo bem. Por outro lado acho um pouco demais quando um dos convidados decide fazer vaquinha com um valor fixo por contribuinte (geralmente bem mais alto do que a média que se normalmente dá em aniversário/casamento) para proporcionar uma viagem, um fim-de-semana em hotel etc para o aniversariante que comemora uma data “redondinha” (40, 50, 60 anos…). Isso sem o aniversariante dar uma recepção mais “tchan”. Você vai lá com os outros convidados e o envelopinho na mão, e o aniversariante nem investiu nos comes e bebes.

5 – Fingir que não ouviu nada quando um familiar/amigo é insultado;

Vamos deixar claro: Eu não acho que você deva se ofender por comentários anônimos ou de estranhos ou de loucos. Mas fica difícil levar na esportiva deboches, insinuações e insultos provenientes de um colega de trabalho, parente, vizinho… Gente com quem você é obrigado (a) a conviver e os insultos são puramente baseados em falta de controle, sem embasamento dos fatos. E os holandeses “não tomam as dores” de um amigo ou familiar direto quando esse é insultado indevidamente. O “sem noção” que insultou com uma piadinha, deboche, etc. não fica com o filme queimado nem perde os admiradores. Coisas de uma sociedade super individualista. Eu já cheguei para colegas de trabalho que foram grosseiros ou pouco pacientes com colegas novos e disse pra pegar leve / explicar de novo, etc.. Porque já tinha sentido isso na pele.

6 – Corrigir uma pessoa publicamente;

Meu filho mais velho sempre soube que podia me corrigir discretamente, no pé do ouvido quando escorrego no holandês. Mas ultimamente, entrando na pré-adolescência, andava falando em alto e bom som, na frente de grupos: “Mãe, errou! Tem que ser assim e não assado”. Tive uma conversa breve com ele um tempo atrás, e expliquei que não se deve corrigir a mim ou qualquer outra pessoa pessoa em público. Pois isso pode constranger e humilhar, dependendo da sensibilidade da pessoa (que a gente nunca sabe bem quanto é). Penso que ele entendeu.  Infelizmente, muitas pessoas nesse país nunca tiveram uma conversinha com a mãe sobre esse tema.

Os holandeses também são meio “preachers” com regrinhas – isso deve ser uma coisa germânica, já ouvi algo igual sobre os alemães. Se você faz alguma coisa super boba, ou até mesmo no âmbito pessoal, mas que eles consideram “errado” eles te chamam a atenção com dedo em riste e voz elevada e vão mostrar como fazer. Por exemplo: circular como visitante numa academia de ginástica usando os sapatos (tem que botar uma pantufa de plástico), estacionar no lugar marcado como “kiss & ride” (é só para deixar a criança sair do carro e não ficar estacionado, claro), botar lixo uma noite anterior na rua (eles te acham associal), enxugar as mãos no pano de prato ao invés da toalha de cozinha (te acham burro e é anti-higiênico), podar plantas no seu próprio jardim numa época muito cedo do ano,  etc..  Eles te corrigem publicamente. Eu vou lavar meu carro, e a vizinha vem dizer que está errado. Eu vou lavar meu janelão e a sogra diz que tem que ser de outro jeito…

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“Dat mag niet !” = Isso não pode! You bad, bad girl !

7 – Entrar na loja sem cumprimentar o vendedor e mexer em todas as mercadorias;

Vendedor de roupas e sapatos na Holanda não vive de comissão, então ele não está preocupado em te empurrar produtos. Ele está na loja para arrumar a mercadoria, trabalhar no caixa, fazer trocas… e não para alavancar as vendas. Eu gosto muito disso, mas confesso que volta e meia tenho vergonha alheia do comportamente de outros desconhecidos em lojas. Os potenciais clientes em lojas olham tudo, provam as roupas, jogam de volta na prateleira ou largam as peças penduradas nas cabines e vão embora. Você vê isso em lojas como H&M, Zara, Mango etc.. E a maioria dos holandeses de férias no exterior agem assim: entram numa loja e querem ver preço e tirar o produto do lugar sem ter a menor intenção de comprar. Fuçam barganhas e quando não econtram nada a preço de banana saem da loja sem nem dobrar a roupa, colocar o produto exatamente no mesmo lugar ou dar adeus ao vendedor.

8- Não lavar as roupas de inverno com frequência;

Os holandeses tomam banho diariamente. A água aqui é farta, barata e de primeiríssima qualidade. Tanto a água da pia quanto do vaso sanitário são potáveis e máquinas de lavar roupa são bem acessíveis finaceiramente. Agora, não dá para entender que uma pessoa faça jogging e depois coloque um casaco de inverno de lã  ou um suéter por cima e prossiga seu dia como se nada tivesse acontecido. Ou vá de bicicleta para o trabalho pedalando intensamente por uma hora e começa a trabalhar com a mesma roupa, sem lavar a axila e colocar uma outra camisa. O casaco/roupa absorve os odores que ficam encroados e precisa ser trocado e depois lavado em casa. Pendurar só no quintal para arejar ou jogar numa cadeira não adianta nada, vamos combinar. O mesmo vale para peles, cachecóis, luvas, roupas de cama, cobertores, edredons. Quando inverno chega você sente aquele cheiro de murrinha vindo das roupas das pessoas.

9 – Mudar para o inglês se o holandês do interlocutor for ruim;

Um holandês mesmo que tenha apenas rudimentos de um língua estrangeira adora mostrar para os nativos daquela língua que ele sabe alguma coisa. Agora, um estrangeiro que está aprendendo holandês e sai pela Holanda hesitantemente tentando falar holandês pode levar uma risada na cara. E os holandeses ainda acrescentam: “Você parece um robô!”, “Me diga: Quanto tempo você mora aqui?”. Ou ficam tentando medir seu nível cultural e de inteligência: “Você vem de que parte do Brasil ? Qual sua profissão / qual estudo fez?”  Eles ficam pasmos quando mudam para o inglês e você sendo brasileiro(a) automaticamente sai respondendo em inglês também. Chegam a dar uma engolida a seco. Ou perguntam: “English?” e eu respondia: “Sim, inglês. Ou espanhol, francês. Qual você prefere ?” Eles gostavam de ver que eu sabia inglês e outra línguas e aí sim perdoavam eventuais erros meus em holandês. E só aí depois de uns minutos a gente retornava para o holandês. Ufs.

10 – Comer banana verde;

Sem comentários…

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Os itens que mais me irritam e deprimem são os números 3, 5, 6 e 8. São hábitos muito feios arraigados e não há a menor perspectiva de que isso venha a mudar. Perguntas querendo mais esclarecimentos ou exemplos sobre os itens acima podem colocar nos comentários. Claro que há outros traços culturais inconvenientes não enumerados aqui. Atenção: adoro minha vida na Holanda, para todo esclarecimento.