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Autores convidados: Chile – O país que está aprendendo a ser latino

09/02/2015

Começamos mais uma semana apresentando um autora convidada, a Joy, que mora no Chile.

Joy, bem-vinda  ao Brasil com Z!!!

bz_chile-transparenteJoy Matta

Chile

Apesar da localização geográfica indicar que o Chile é parte da América Latina, ainda há muito no comportamento social que pode trazer dúvidas aos que decidem visitar o país, especialmente se decidem sair dos lugares turísticos. E ainda mais quando decide ficar definitivamente!

Quando se fala de povo latino a gente pensa em calor humano, toque, pele a pele, muitas cores e sabores… mas a realidade chilena, particularmente a santiaguina, não é exatamente assim.

A cordilheira dos Andes parece criar uma barreira que vai muito além da geografia, a carga da ditadura que existiu neste país parece correr nas veias de muitos dos chilenos e as temperaturas parecem influenciar o comportamento das pessoas em geral.

Mas vamos por partes. O Chile é um país cujas cicatrizes da ditadura parecem estar ainda bem abertas. E volta e meia algo no comportamento dos chilenos te faz sentir de volta àquela época, mesmo que você não a tenha vivido.

Por exemplo, quando você se apresenta estando nestas terras andinas, como brasileiro, a tendência é só dizer o nome e pronto. Um chileno mais tradicional costuma perguntar seu sobrenome imediatamente e geralmente não é uma questão de formalidades, mas uma forma discreta de tentar saber em que tipo de pessoa você se enquadra. Há sobrenomes de famílias tradicionais que denotam maior pode econômico, sobrenomes que remetem à certas religiões e diversas pequenas variáveis que eu, sinceramente, ainda não aprendi a identificar. Os mais entendidos do assunto quase podem adivinhar sua tendência política depois de saber seu sobrenome. É quase um dom.

Os santiaguinos costumam insistir bastante em saber o bairro onde cada um mora, o que pode causar certo desconforto. Rapidamente os brasileiros aprendem que se costuma dividir a cidade em “Plaza Itália para arriba” e “Plaza Itália para abajo” ou oriente e poniente, não somente por questões geográficas, mas por motivos socioeconômicos: aqueles que moram acima da Plaza Itália são considerados por muito como pessoas mais “bem de vida” e muitas vezes isso também pode ser um indicativo de posição política.

A "famosa" Plaza Itália.

A “famosa” Plaza Itália.

E há mais alguns pequenos costumes dos chilenos que aos poucos começam a incomodar os brasileiros, que mesmo acostumados com uma certa “invasão de privacidade” sentem que algumas perguntas e posturas soam mais a uma análise fria e calculista do que uma real tentativa de conhecer um ao outro.

Claro, quando você muda de país não deveria esperar que todos sejam como em sua terra natal, deve haver um respeito pelos costumes locais e muita paciência no processo de adaptação, coisa que muitos estrangeiros parecem não entender e acabam na eterna comparação com o lugar de onde vieram e nas críticas sem fim ao lugar onde decidiram morar por diferentes motivos.

Eu era do time das ‘reclamonas’ quando cheguei aqui em Santiago. Mesmo com minha ascendência chilena e minhas múltiplas viagens de férias pra ver a família que tenho aqui, passei por um processo de adaptação longo e sofrido, que só passou quando percebi que nunca ia conseguir que um país inteiro se comportasse do jeito que eu espero. Sou mãe e nem sempre consigo que meu ‘serzinho’ se comporte bem, imagine só uma nação inteira!

Desde que decidi a manter meu sorriso, boa educação e passei a responder as perguntas que considerava impertinentes com bom humor, parece que a resposta do lado dos chilenos passou a ficar cada vez mais positiva. E mesmo quando o comportamento deles não é como eu gostaria, a sensação é de que os que estão perdendo uma boa oportunidade, são eles. Assim a vida fica mais leve pra mim e algumas vezes, pra eles também.

Com um pouco da malemolência brasileira, um certo toque de sinceridade e uma dose de paciência dá pra superar a barreira de desconfiança que alguns criaram ao redor de si e é possível criar excelentes laços de amizade.

Vista da avenida principal de Santiago: a Alameda.

Vista da avenida principal de Santiago: a Alameda.

Nas áreas turísticas, a situação já mudou há algum tempo e é possível inclusive encontrar alguns garçons que falam (ou tentam) falar português. Obviamente o comportamento do turista brasileiro dificilmente se assimila ao daquele que mora aqui, especialmente no quesito idioma. Quem vem como turista costuma se apoiar na ideia de que português e espanhol são similares o suficiente e esperam compreender e ser compreendidos.

E o mesmo acontecia desde o outro ponto de vista e muitas vezes empresas de turismo ofereciam passeios em português quando na verdade tudo o que conseguiam era um guia com bastante personalidade e muito portunhol. Hoje em dia a situação mudou e além de muitos brasileiros com empresas de turismo, podemos encontrar guias que realmente estudaram nosso idioma e são capazes de compreender e serem compreendidos.

Com o aumento de turistas, imigrantes e expatriados brasileiros e de outras partes da América Latina, os chilenos começaram a modificar algumas de suas condutas pra fazer seus visitantes se sentirem mais confortáveis.

Eu quero acreditar que esse comportamento, apesar de ter começado por interesses comerciais, eventualmente passará a ser parte do dia a dia chileno e eles começarão pouco a pouco a ser um pouco mais “latinos”. Enquanto isso não acontece, creio que manter uma atitude positiva frente às adversidades pode ser uma das melhores opções para levar um estilo de vida saudável e mais alegre durante o processo de adaptação. E é importante sempre avaliar qual é o peso que certas coisas que não lhe agradam do novo país em que se decidiu morar têm. Enquanto valer a pena, fique e seja feliz. Mas não esqueça que não somos árvores com raízes fixas e temos a habilidade de sair dos lugares que não gostamos.

————–

Joy Matta mora no Chile há 6 anos (entre idas e voltas) é jornalista de formação, professora de espanhol por vocação e mãe de corpo, alma e coração.

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16 Comentários leave one →
  1. Carla Guanais permalink
    09/02/2015 9:08

    Ótimo texto! Parabéns! Realmente somos nós que temos que aprender a respeitar e tentar nos adaptar à cultura e costumes do povo do país onde fomos viver. A troca de experiências nesse sentido é a maravilha de se viver em outro país. Nós também não somos do jeito que eles esperam que somos, pro lado ruim ou pro bom, não importa. São os estereótipos sendo quebrados, preconceitos superados e laços que vão se formando, ou não. Eu não conheço quase nada do Chile, será um prazer ler seus textos aqui. Bem vinda! Baci

    • joymatta permalink
      09/02/2015 9:32

      Pois é, Carla. Muitos mudam do Brasil mas querem que algumas coisas sejam como lá. E, de certa forma e especialmente no começo, me incluo nesse grupo. Mas acabo sentindo que mudar de país é como apaixonar-se por alguém. O relacionamento fica mais fácil e lindo quando você passa a aceitar as “falhas” em vez de tentar mudá-las. Obrigada por me receber aqui 😀

  2. edujusto permalink
    09/02/2015 9:24

    Muito interessante. Só que você falou que o chileno costuma perguntar qual é o seu sobrenome como “uma forma discreta de tentar saber em que tipo de pessoa você se enquadra”, eu não acho isso nada discreto 🙂 !!!! Pelo visto no Chile existe o mesmo preconceito socio-econômico que existe no Brasil, o do pior tipo, que te avalia pelo que vocè tem e não pelo que você é !

    • joymatta permalink
      09/02/2015 9:34

      Edu, pois é… tem alguns que são mais agressivos ao perguntar, mas geralmente eles dão um jeito de parecer casual. Tanto que no começo você até “cai” bastante nessa.
      E apesar de estar extremamente relacionado com o lado socio-econômico, também tem muito de política no sobrenome. Abraços!

  3. 09/02/2015 10:05

    Oi Joy, bienvenida ! Nunca tivemos uma pessoa do Chile no BZ, portanto tudo que você contar será novo para os autores e leitores do blog. Meu interesse pelo Chile foi despertado no início dos anos 80 com La Casa de Los Espiritus da I. Allende. É um país que penso em conhecer quando for visitar o Brasil nos próximos anos. Um abraço !

    • joymatta permalink
      09/02/2015 10:25

      Oi, Ana!! O Chile é um país encantador de se conhecer, cheio de belezas naturais e muito contraste. Espero mostrar um pouco do país pra vocês aqui, através dos meus textos. Muito obrigada por me deixar participar deste projeto tão bacana!!! E Isabel Allende é uma delícia de ler, sempre. Recomendo “Mi país inventado”, onde ela retrata suas memórias sobre sua infância e adolescência aqui no Chile. Abraços!

  4. marisol permalink
    09/02/2015 12:49

    Gostei ..bem sintetisado

    • joymatta permalink
      09/02/2015 15:26

      Que bom que gostou Marisol!! Um beijo!!

  5. Marchhhh permalink
    09/02/2015 13:51

    Muito bom mesmo seu texto estou encantada .
    Parabéns , aguardo ansiosa os próximos .
    Abraços !!

    • joymatta permalink
      09/02/2015 15:27

      Aguarde, aguarde!!! Logo, logo tem mais 😀

  6. Jutta permalink
    09/02/2015 18:57

    Parabéns pelo texto.
    Também sou brasileira e resido em Santiago tem 3 anos. Felizmente nunca passei pela pergunta sobre o meu sobrenome, etc., pelo contrário.
    Pra mim, nem sempre o fato de ser “latino” é 100% bom. E foi também aí (no fato de não serem tao “latinos”) que seguramente me apaixonei pelo Chile.
    Tudo e todos tem um lado bom ou ruim, aí será questão de avaliação e enquadramento pessoal à cultura/formação de cada país, não é mesmo?!
    No mais é isso.
    Mais uma vez parabéns pelo texto e felicidades!

    • joymatta permalink
      10/02/2015 12:17

      Oi, Jutta… pois é, toda regra tem suas exceções. Tem muito brasileiro que não se sente latino também! E isso não é melhor ou pior do que a postura de quem o é. São somente maneiras diferentes de ver e viver a vida! Abraços!

  7. 09/02/2015 22:38

    Muito legal o seu texto Joy. Bem vinda ao BZ.

    Sempre tive vontade de conhecer o Chile. A muito tempo atrás, quando eu ainda estava no colégio, tinha um expatriado Chileno – Yeris era o nome dele. Gente boa pra caramba.

    Me lembro que foi até na época da Copa do mundo 1998. Ele e família foram um dos entrevistados. O pai dele era professor na Universidade Católica se não me engano.

    Não tenho mais contato desde então, logo vim para a Inglaterra e aqui estou até hoje.

    Sempre pensei que de uma certa forma deveríamos falar Espanhol fluente, devido aos nossos vizinhos latinos americanos. Mas isso é uma questão cultural que hoje já aceito, de uma certa forma, temos que nos mover e querer fazer algo.

    Tenho muita vontade de explorar a américa do sul. Quem sabe um dia. 😉

    Já estou curiosos para ver mais do que irá nos contar dessas bandas dai.

    • joymatta permalink
      10/02/2015 12:19

      Oi, Rogério, obrigada pela acolhida. O Chile tem muito a oferecer e espero conseguir mostrar um pouquinho daqui em cada texto e fazer aumentar essa vontade de conhecer este país tão cheio de contrastes.
      Será muito bem-vindo quando vier.
      Abraços!

  8. 10/02/2015 10:33

    oi Joy,

    você me levou a uma viagem no tempo…estive em Santiago em 1985, Pinochet no poder e o povo muito maltratado, sofrido, de rosto triste. Falar de política era quase suicídio, ninguém ousava. Pairava o medo. Me lembro da triste surpresa que tive ao verificar que ruas inteiras tinham bonitas fachadas de casas e prédios que escondiam terrenos baldios, abandonados e destruídos.

    claro que estes longos anos deixaram marcas profundas no povo chileno. Mas o Brasil também passou recentemente por uma ditadura e parece que a latinidade verde-amarela não ficou tão abatida, né?

    gostei muito da tua análise sobre o povo, seus hábitos, sua necessidade de ‘situar’ os desconhecidos, antes de um contato mais próximo. Andinos, sim. Latinos de clima temperado.

    já se vê que tropicalidade é mais estado de espírito que conceito geogáfico, né?

    parabéns pelo texto!

    • joymatta permalink
      10/02/2015 12:23

      Touché, além dos terrenos baldios, há casas, estádios e fazendas lindas e maravilhosas que escondiam belos centros de tortura. Algumas viraram museu, outras parques, alguns lugares voltaram a ter seu “uso original” e tem até aquelas foram condenadas a ser um eterno terreno baldio.
      Conheço muitas pessoas que fugiram da ditadura chilena e preferiram ficar no Brasil onde também se vivia o mesmo estado político, mas que parecia ser muito mais ameno e brando do que o daqui.
      Alguns dizem que o fato de ter existido somente UMA figura que simboliza todo o golpe de Estado aumentava a sensação de medo, vai saber….
      Obrigada pelo elogio!!

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