Começamos mais uma semana apresentando um autora convidada, a Joy, que mora no Chile.

Joy, bem-vinda  ao Brasil com Z!!!

bz_chile-transparenteJoy Matta

Chile

Apesar da localização geográfica indicar que o Chile é parte da América Latina, ainda há muito no comportamento social que pode trazer dúvidas aos que decidem visitar o país, especialmente se decidem sair dos lugares turísticos. E ainda mais quando decide ficar definitivamente!

Quando se fala de povo latino a gente pensa em calor humano, toque, pele a pele, muitas cores e sabores… mas a realidade chilena, particularmente a santiaguina, não é exatamente assim.

A cordilheira dos Andes parece criar uma barreira que vai muito além da geografia, a carga da ditadura que existiu neste país parece correr nas veias de muitos dos chilenos e as temperaturas parecem influenciar o comportamento das pessoas em geral.

Mas vamos por partes. O Chile é um país cujas cicatrizes da ditadura parecem estar ainda bem abertas. E volta e meia algo no comportamento dos chilenos te faz sentir de volta àquela época, mesmo que você não a tenha vivido.

Por exemplo, quando você se apresenta estando nestas terras andinas, como brasileiro, a tendência é só dizer o nome e pronto. Um chileno mais tradicional costuma perguntar seu sobrenome imediatamente e geralmente não é uma questão de formalidades, mas uma forma discreta de tentar saber em que tipo de pessoa você se enquadra. Há sobrenomes de famílias tradicionais que denotam maior pode econômico, sobrenomes que remetem à certas religiões e diversas pequenas variáveis que eu, sinceramente, ainda não aprendi a identificar. Os mais entendidos do assunto quase podem adivinhar sua tendência política depois de saber seu sobrenome. É quase um dom.

Os santiaguinos costumam insistir bastante em saber o bairro onde cada um mora, o que pode causar certo desconforto. Rapidamente os brasileiros aprendem que se costuma dividir a cidade em “Plaza Itália para arriba” e “Plaza Itália para abajo” ou oriente e poniente, não somente por questões geográficas, mas por motivos socioeconômicos: aqueles que moram acima da Plaza Itália são considerados por muito como pessoas mais “bem de vida” e muitas vezes isso também pode ser um indicativo de posição política.

A "famosa" Plaza Itália.

A “famosa” Plaza Itália.

E há mais alguns pequenos costumes dos chilenos que aos poucos começam a incomodar os brasileiros, que mesmo acostumados com uma certa “invasão de privacidade” sentem que algumas perguntas e posturas soam mais a uma análise fria e calculista do que uma real tentativa de conhecer um ao outro.

Claro, quando você muda de país não deveria esperar que todos sejam como em sua terra natal, deve haver um respeito pelos costumes locais e muita paciência no processo de adaptação, coisa que muitos estrangeiros parecem não entender e acabam na eterna comparação com o lugar de onde vieram e nas críticas sem fim ao lugar onde decidiram morar por diferentes motivos.

Eu era do time das ‘reclamonas’ quando cheguei aqui em Santiago. Mesmo com minha ascendência chilena e minhas múltiplas viagens de férias pra ver a família que tenho aqui, passei por um processo de adaptação longo e sofrido, que só passou quando percebi que nunca ia conseguir que um país inteiro se comportasse do jeito que eu espero. Sou mãe e nem sempre consigo que meu ‘serzinho’ se comporte bem, imagine só uma nação inteira!

Desde que decidi a manter meu sorriso, boa educação e passei a responder as perguntas que considerava impertinentes com bom humor, parece que a resposta do lado dos chilenos passou a ficar cada vez mais positiva. E mesmo quando o comportamento deles não é como eu gostaria, a sensação é de que os que estão perdendo uma boa oportunidade, são eles. Assim a vida fica mais leve pra mim e algumas vezes, pra eles também.

Com um pouco da malemolência brasileira, um certo toque de sinceridade e uma dose de paciência dá pra superar a barreira de desconfiança que alguns criaram ao redor de si e é possível criar excelentes laços de amizade.

Vista da avenida principal de Santiago: a Alameda.

Vista da avenida principal de Santiago: a Alameda.

Nas áreas turísticas, a situação já mudou há algum tempo e é possível inclusive encontrar alguns garçons que falam (ou tentam) falar português. Obviamente o comportamento do turista brasileiro dificilmente se assimila ao daquele que mora aqui, especialmente no quesito idioma. Quem vem como turista costuma se apoiar na ideia de que português e espanhol são similares o suficiente e esperam compreender e ser compreendidos.

E o mesmo acontecia desde o outro ponto de vista e muitas vezes empresas de turismo ofereciam passeios em português quando na verdade tudo o que conseguiam era um guia com bastante personalidade e muito portunhol. Hoje em dia a situação mudou e além de muitos brasileiros com empresas de turismo, podemos encontrar guias que realmente estudaram nosso idioma e são capazes de compreender e serem compreendidos.

Com o aumento de turistas, imigrantes e expatriados brasileiros e de outras partes da América Latina, os chilenos começaram a modificar algumas de suas condutas pra fazer seus visitantes se sentirem mais confortáveis.

Eu quero acreditar que esse comportamento, apesar de ter começado por interesses comerciais, eventualmente passará a ser parte do dia a dia chileno e eles começarão pouco a pouco a ser um pouco mais “latinos”. Enquanto isso não acontece, creio que manter uma atitude positiva frente às adversidades pode ser uma das melhores opções para levar um estilo de vida saudável e mais alegre durante o processo de adaptação. E é importante sempre avaliar qual é o peso que certas coisas que não lhe agradam do novo país em que se decidiu morar têm. Enquanto valer a pena, fique e seja feliz. Mas não esqueça que não somos árvores com raízes fixas e temos a habilidade de sair dos lugares que não gostamos.

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Joy Matta mora no Chile há 6 anos (entre idas e voltas) é jornalista de formação, professora de espanhol por vocação e mãe de corpo, alma e coração.

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