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Joy Matta – Chile

Todo mundo sabe que no Chile o idioma oficial é o espanhol. O que poucos compreendem antes de vir pra cá é que, apesar de ter a mesma base que os demais países hispano falantes, aqui há todo um dialeto específico e uma forma de falar muito particular: o “chilensis”, ou chilenês. E ainda dele sai um derivado muito específico que é o “flaite”, um idioma falado quase que exclusivamente pelos “manos chilenos”.

Aconteceu com alguns de meus estudantes de espanhol, amigos que vieram para cá de passeio e com vários compatriotas que escolhem o Chile para estudar, trabalhar e/ou morar. Semestres e semestres de estudo do idioma espanhol para ficar completamente perdido ao andar pelas ruas de Santiago!

E não estamos falando somente de gírias, mas também de dicção e conjugação. O chileno tem certas peculiaridades ao falar, como por exemplo, a mania de falar entre dentes, o que dificulta MUITO a compreensão. Eu mesma vivo reclamando pro meu marido e alguns conhecidos que tem horas que eu não entendo o que eles falam , especialmente quando estão nervosos ou agitados.

Além disso, o S ou Z finais das palavras nunca são ditas. Por exemplo, a palavra feliz aqui é dita como “felíh”; nariz é “nar-ih”; plurais como “los lápices” soam aos meus ouvidos: “loh lápiceh”. Claro que de qualquer forma, esse péssimo hábito até que não dificulta tanto a compreensão do que se quer dizer.

Mas as manias não param por aí. As conjugações verbais parecem ser um grande problema para a maioria dos chilenos, que costumam trocar as terminações por um “i”. Dificilmente um chileno te pergunta: “¿cómo estás?” e sim “¿cómo estai?” ou “¿qué hací?” pra saber “qué haces?”. E o mais estranho aos meus ouvidos é escutar um “erí” ao invés de “eres”. E claro, estão as “muletas” usadas aqui como se fossem vírgulas: “po” e “cachay” são as mais populares. “po” seria como o nosso “né” e cachay vai depender do contexto, mas em geral seria como “sacou”.

archivo Biblioteca Congreso Nacional de Chile

archivo Biblioteca Congreso Nacional de Chile

Estão também as palavras derivadas dos idiomas falados pelos nativos, especialmente pelo mapudungun de raíz mapuche e aí os chilenos chamam os milhos de “choclo”, a barriga de “guata”, o namorado de “pololo”. O bebê geralmente é a “guagua” e muitas ruas, cidades e bairros têm seus nomes com essa origem. O principal rio de Santiago é o Mapocho, que significa “água que se perde entre as pedras”, um dos bairros mais top da cidade é Vitacura, ou “pedra grande”.

Também, como em quase todos os países, fala-se muito usando palavrões. Mas vamos segurar as pontas e falar sobre isso em outro post, depois que a gente se conhecer melhor e ficar mais íntimo, sabe?? É, porque sair falando de palavrão com pessoas que estou começando a conhecer pode soar mal, não é mesmo?

Mas voltando ao assunto, a pessoa passa meses e meses estudando aquele espanhol todo formal e correto, treina a pronúncia por horas, ouve músicas e as traduz. Se sente preparado para encenar seu próprio “Diários de Motocicleta” e quando chega no Chile, diz no melhor espanhol possível: “Buenas tardes, señor. ¿Me podría decir como llegar a la Plaza de Armas” pra ter que decifrar um “Es súper fácil! Sigueh derecho por doh cuadrah y vai a ver la plaza en seguida, cachai?”.

A pessoa acena e agradece e fica uns minutos tentando se recuperar do choque até que pouco a pouco as coisas vão fazendo um certo sentido e passados uns minutos sua mente consegue desembaralhar o quebra cabeça e você percebe que a pessoa quis dizer: “É muito fácil! Continue em frente por dois quarteirões e você verá a praça em seguida, sacou?”.

Javiera Pradenas Meneses Chilean slang for the english-speaking tourists. https://www.behance.net/gallery/9256811/Cachai

Javiera Pradenas Meneses Chilean slang for the english-speaking tourists. https://www.behance.net/gallery/9256811/Cachai

Apesar de não recomendar o país pra quem quer aprender o espanhol, por outro lado, se você entende o espanhol chilensis não deveria ter problemas em nenhum país de fala hispana!

E você querido leitor? Já esteve no Chile? Tem alguma história sobre o idioma pra compartilhar com a gente?

Joy Matta mora no Chile há 6 anos (entre idas e voltas), colabora também nos blogs Brasileiras Pelo Mundo  e Mãe Mundo Afora e, é jornalista de formação, professora de espanhol por vocação e mãe de corpo, alma e coração.