Como eu vim para a Holanda aos 30 anos de idade minha personalidade já estava formada. Eu aprendi a lidar com os holandeses (e várias outras nacionalidades) do jeitinho que eles esperam e estão acostumados, mas minha visão crítica por se expatriada é maior que a deles. Por outro lado, não posso dizer que minha personalidade depois desses anos todos tenha ficado intacta e fechada para influências externas, isso seria um retrocesso. Eu aprendi mais do que umas 10 coisinhas com os batavos, claro… Mas vamos lá, o que aprendi vivendo na Holanda e convivendo com tantos estrangeiros:

1 – Uma nova definição de liberdade.

A Holanda tem mil e uma regrinhas para tudo: no trânsito, na escola, no espaço público, na vestimenta apropriada para o esporte, no cuidado com os pets, na separação de lixo, na manutenção do carro, nas vacinações, na cor da pintura externa da casa… a lista é muito longa e chata. Por outro lado há a possibilidade de ser muito livre e fazer muitas escolhas pessoais também, pois a pressão e julgamento social são menores. Assim vejo muita gente que mesmo tendo adquirido de repente uma posição econômica mais alta na vida não transforma radicalmente a aparência física: não cobre os cabelos brancos, nem diminui o tamanho do nariz, nem emagrece, melhora os dentes ou cobre a calvície. Se faz algo na aparência, faz pouco (a não ser que seja uma pessoa do mundo artístico). Aqui ninguém julga muito pelo visual. Quer dizer: até pode ser que julguem, mas guardam para si, No Brasil eu não saía de casa sem um batom nem morta. Aqui saio sem maquiagem sem constrangimento. Também o conceito de liberdade está relacionado à mobilidade física. Na Holanda você pode relativamente viver confortavelmente sem carro, pois há bondes, ciclovias e trens para todo lado e os centros das grandes cidades tem estacionamentos muito caros. Eu uso meu carro como última opção. Outro item importante no conceito de liberdade é que menores de idade tem uma opinião que é levada em consideração na tomada de uma decisão familiar, assim como os muito idosos ou muito doentes. Aqui ate as árvores tem direitos. E não há essa loucura de processo judicial pra tudo e contra todos como em outros países. Tudo isso que citei acima ampliou meu conceito de liberdade de uma forma positiva.

2 – Ampliei meu paladar e minhas técnicas culinárias subiram vários patamares.

A Holanda não é um país importante em termos de gastronomia, nem os holandeses tem interesse em cozinhar. As frutas e verduras geralmente tem perfeição mas não tem gosto, pois vem de estufas onde ao invés de receber luz do sol recebem luz de lâmpadas. Ou são tratadas à base de radiação. Mas o que disse no título não é nenhuma contradição. Se você for exigente (e estiver disposto a pagar um pouquinho mais) pode encontrar produtos frescos que vem com gosto de sol e vitaminas: melões Galia e abacaxis do Ceará, aspargos peruanos, tomates napolitanos crescidos em terras do Vesúvio, laranjas sevilhanas e israelenses, queijos ingleses e franceses, super foods… Os supermercados holandeses são fartos em produtos importados da melhor qualidade, sem ter preço exorbitante. Aqui tem uma meia dúzia de tipos de ovos, e isso me fez abrir os olhos para a crueldade da bio indústria – mas também as falácias do vegetarianismo.  E também ultimamente restaurateurs e food experts andam promovendo os “legumes esquecidos”, feios porém cheios de vitaminas – é um mundo novo de sabores para mim. A variedade de revistas, livros e programas culinários é impressionante. Sem falar nos workshops. Para comer fora na Holanda você paga mais do que nos países vizinhos (França, Inglaterra, Bélgica ou a Alemanha), é verdade, mas você tem acesso a um nível muito bom de culinária internacional que no Brasil você teria que ter uma carteira muito cheia para comer nesse mesmo nível.  As lojas de produtos e acessórios de cozinha também são um mundo fascinante, que me fizeram descobrir pistola a gás para caramelizar, pote de pressão para fazer espuma de leite, mini panelinhas de cobre, woks para comidas orientais, formas quadradas com laterais removíveis, mini bufês elétricos para catering na sua própria casa, churrasqueira em forma de ovo, slow cooker, porcelana fina turca ou finlandesa… a lista é longa. Tudo isso no Brasil é caríssimo mas aqui você pode achar por um preço menos louco.

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Foto: Ana Fonseca

3 – Aprendi sobre o reino botânico

No Brasil apesar dos meus pais terem sempre morado em casas com quintal grande eu nunca me entusiamei nem para jogar um copo d’água numa planta moribunda. Depois morando sozinha no Brasil eu só cuidei de um par de violetas africanas. A primeira coisa que aprendi sobre plantas morando num apartamento na Holanda é que mesmo durante o clima gélido você pode manter ervas finas frescas de ótima qualidade dentro de casa se tiver a sorte de ter uma janela que pegue um bom sol. Cebolinha, salsinha, coentro e hortelã o ano todo… Isso é muito prazeroso (e por isso é que tem gente que aqui cultiva maconha dentro de casa, rs rs… mas por lei só pode no máximo 5 plantas da mardita). Depois morando numa casa eu não tinha janelas em posição que me permitissem cultivar ervas aromáticas dentro de casa, foi chato. Mas no jardim da frente e no quintal aprendi a plantar, podar, semear, adubar e arrancar. As estufas/lojas de jardim na Holanda foram um mundo novo de descobertas para mim. São imensas e possuem várias seções: sementes, plantas, mudas, mini árvores, pedras decorativas, ferramentas, vasos de vários materiais, jardineiras, móveis de jardim, churrasqueiras, aquários, acessórios, adubos, mini chalés de madeira, aquecedores para o ar livre. Aprendi também vários nomes de plantas e suas características. Aprendi a fazer meus próprios buquês e composições, a preservar hortênsias secas. Há vários programas na televisão mostrando como dar um tapa no layout do seu quintal e mesmo em espaços exíguos os holandeses dão um jeito de embelezar com uns verdinhos. Isso é algo muito especial dos holandeses, valorizar e embelezar cada centímetro com a natureza. Horticultura se aprende também durante um ano na escola de ensino fundamental, na prática. Já tive filho chegando toda semana com bolsas de espinafre, abobrinha, cenoura… trabalho duro das crianças e que ajuda a valorizar a agricultura biológica sensata e consumo dos vegetais.

4 – Aprendi sobre minha saúde

Vamos combinar o seguinte: corpos latinos e tropicais sofrem no clima frio e precisam ajustar o metabolismo ao novo ambiente. Por isso nós brasileiros engordamos quando vamos para países temperados ou frios. Isso me fez, por exemplo, abrir os olhos para os malefícios do trigo (eu desprezava pães e massas no Brasil, aqui eu adoro mas me policio). Como sou alérgica a poeira doméstica desde que nasci, aqui minha alergia ao pólen tomou proporções absurdas desde que me mudei para a Holanda a ponto de ficar meses com muita dor muscular e até alguns dias de cama sem conseguir abrir os olhos. Isso também teve seu lado positivo: descobri as super foods (espirulina, chlorela, pólen, chia, maca, hennep, semente de linho, óleo de côco) que me dão uma maior resistência imunológica na primavera e alegria durante os meses sombrios de inverno. Aqui um dia de chuva forte ou temporal não é motivo para não andar de bicicleta. As crianças são incentivadas a enfrentar a chuva “para ficarem mais fortes”. Sorvete ? Tomam durante todo o inverno. Parto é sem anestesia, e geralmente em casa. Grávidas aliás, são estimuladas a usar a bicicleta até os dias antes do parto. Idosos geralmente no mundo todo são inseguros sobre usar a bicicleta, tem medo de cair e terminar numa cadeira de rodas. Aqui na Holanda eles seguem pelos seus 80 anos pedalando por toda parte. Holandês fica velho mas não fica empenado ! Aqui as pessoas tomam muita responsabilidade sobre o funcionamento dos seus corpos e não acham que o médico é que seja o único responsável por restaurar a saúde de um paciente. Já vi na porta de um médico de família a seguinte plaquinha: “A maioria das enfermidades curam-se por si mesmas”. Pois é.

5 – Novos conceitos de amizade

No Brasil muitas vezes agrupamos em “amigos” pessoas que na verdade são apenas ótimos conhecidos,  vizinhos muito prestativos ou excelentes colegas. Viver na Holanda me fez ter certeza de algo que já desconfiava: você pode conhecer pessoas muito boas, interessantes, que gostam de você e tem muitas coisas em comum – mas não devem ser necessariamente chamadas de “amigos”.  Muita gente na Holanda está de passagem (mesmo que tenha trabalho fixo com contrato e hipoteca da casa própria) ou só querem manter contato durante uma fase da vida (por exemplo: quando os filhos são amiguinhos na mesma escola de ensino básico). Convivi por aqui com muito expatriado, de passado e gostos muito diversos e que um dia decidiu voltar para onde nasceu. Essas pessoas e amizades curtas e intensas me modificaram de certa maneira e quando partiram concluí que a amizade foi verdadeira e cumpriu sua função por um tempo. Mas amigos mesmo eu conto nos dedos de uma mão. Por exemplo: Eu não conto os amigos e amigas do meu marido como sendo “meus”amigos também, apesar do intenso contato social – já que nossos contatos são sempre feitos em grupo e não comigo diretamente. Eu morei na minha primeira casa própria na Holanda durante uns 10 anos e não era amiga de nenhuma vizinha, apesar do contato amigável sim. Por outro lado no meu novo endereço eu e meu marido fizemos muito rapidamente amizade com um casal septuagenário  que posso dizer são muito mais que vizinhos.

6 – Aprendi a ser prática, a reutilizar

O mercado de segunda mão aqui é fantástico. Meus carros são usados, duas mesinhas e umas cadeiras, a guitarra do meu filho, minha primeira bike também eram. Santo marktplaats.com Batman! Aprendi a escolher plantas de baixa manutenção e algumas que ficam verdes durante todo o inverno – super prático. Congelo muito pão direto, já fatiado, coisa que nunca fiz no Brasil. 

7 – Aprendi a ser direta e a dizer “não”

O que não posso, não sei, não quero… informo logo. E informo só uma vez. Aqui tem até workshop para a pessoa aprender a defender seus pontos de vista e se negar a fazer algo que cause angústia/embaraço. Em suma: Curso para aprender a dizer “não”, na boa.

8 – Aprendi vários conceitos de “lar”

Uma época fiquei anos sem ir ao Brasil e quando fui tive vários choques culturais. Muita coisa que não funcionava, atrasos, frustrações já no aeroporto com mala arrombada, agentes da alfândega que não te olham no olho, carimbam teu passaporte e dizem alto “passa!” pra te dispensar como cachorro. E muita decepção durante o mês todo junto com alegrias, tudo misturado.  Quando voltei à Holanda e no aeroporto Schiphol pediram para ver minha mala e meu passaporte para controle eu ouvi do agente tão gentil: “Ah, mevrouw…  een Nederlandse ? Alles in orde. Welkom thuis!” Aí a ficha caiu e esgasguei: percebi que minha casa era a Holanda. Quer dizer: também. ‘Thuis, ‘thuis, ‘thuis… ficou ressoando na minha cabeça.

 9- Aprendi mais sobre as pessoas

O europeu no geral quando não gosta de você deixa isso claro. Aqui ninguém se fascina muito por títulos, cargos, posses materiais, beleza física, inteligência, influência, carisma…  nem busca amizade por esses motivos. Holandês até se afasta (de inveja?) se souber que você tem algo mais do que ele. Nos primeiros anos aqui fui concluindo que cada um tem o direito de pensar o que quiser e eu não tenho que ficar esclarecendo e explicando ou justificando a ninguém sobre o Brasil e sua mazelas ou sobre mim. Aprendi a ter auto-confiança sobre meu valor mesmo quando faziam uma imagem distorcida sobre minha pessoa. Aprendi que muita rejeição não deve ser vista como algo pessoal. Conheci pessoas exercendo profissões que não existem no Brasil, lutando por causas utópicas, praticando esportes esdrúxulos e hobbies idem. Ou tendo pets estranhos. Pessoas que dizem na cara um “não” bem redondo quando realmente não podem e não estão a fim – não fica aquela coisa escorregadia do brasileiro que desaparece, fica em silêncio ou diz “talvez” para livrar a cara mas te amarrar na base da possibilidade vaga. Percebi também que muitas mulheres casadas fazem toda a administração financeira da casa: analisam e escolhem o melhor plano de saúde, preparam a declaração do imposto de renda, decidem como e onde gastar o dinheiro das férias, fazem investimentos bancários, pesquisam o tipo de carro a ser comprado, etc.. E dão mesada para o marido (sim, ele provavelmente trabalha mas entrega tudo “na mão” dela) . Sim, há homens casados que preferem trabalhar menos que a mulher quando ela é mais ambiciosa e mais interessada na carreira do que ele. E claro há até homens que preferem parar de trabalhar (ou não conseguem voltar ao mercado de trabalho) e ficam em casa limpando, cozinhando e criando os filhos com muito prazer  – adoro saber que isso existe !

10 – Sobretudo aprendi que não somos “especiais”: a maioria absoluta de nós vai passar umas décadas (se muito) na superfície do nosso planeta e deixar o quê para trás? Um par de filhos, uma filosofia, um livro, um jardim? Morar na Europa e visitar museus com peças de civilizações poderosíssimas e que desapareceram da face da Terra ou ver prédios por toda parte onde está escrito o ano de construção sendo anterior ao descobrimento do Brasil te dá muita perspectiva da brevidade da vida humana.  Isso te faz ser tolerante também.

*Você que mora no exterior concorda com algum ponto? Se não teve ainda a experiência de morar fora e tem vontade, como acha que aprenderia mais com a experiência?