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Não consigo me adaptar no novo país. E agora?

10/04/2015

bz_portugalEdijane Costa – Portugal

A experiência de adaptação a um ambiente estrangeiro, como ocorre na imigração, é tão intensa e complexa que pode tornar-se significativamente modificadora dos nossos referenciais. E por quê? Ora bem, em algumas pessoas o choque com uma nova cultura, o distanciamento dos laços familiares, afetivos, linguísticos, entre outros poderá originar mal-estar subjetivo, distress emocional e sentimentos de inadequação.

Esta experiência poderá ser semelhante ao luto. Entretanto o objeto de luto, ou seja o país de origem, continua vivo e até mais enaltecido, o que torna mais complexo o processo de resolução deste luto, convertendo a adaptação ao novo país numa experiência mais dolorosa, complicada e demorada, principalmente em situações de maior vulnerabilidade social (escasso suporte psicossocial) e econômica.

E neste sentido, para algumas pessoas a experiência de imigração, após o período de fascínio pelo novo país, poderá não ser positiva e edificadora, sendo antes potencializadora da perda da identidade, da autoestima e de sentimentos de solidão, insegurança, sintomas de irritabilidade, hostilidade, nostalgia, tristeza e ansiedade. O stress crónico ou múltiplo, dos quais estes sintomas fazem parte é denominado por Elsa Lechler (2007) como a “Síndrome do imigrante”.

A ausência da estrutura familiar e de outros elementos da rede de apoio social podem aumentar a vulnerabilidade psicoemocional. Por outro lado, as estratégias positivas de adaptação e ajustamento psicossocial do imigrante dependem de seus próprios recursos favorecidos por elementos caraterísticos do país que o acolhe (língua, cultura, etc.).

adaptação no exterior

Então, o que fazer quando a adaptação torna-se lenta e dolorosa? O reconhecimento de que algo não vai bem é sempre o primeiro passo. Normalmente, o sofrimento subjetivo apenas é percebido após bastante tempo (até anos), e passa a ser compreendido como parte da estrutura pessoal do imigrante que apesar de notar constantes alterações emocionais e de humor (tristeza, insônia, apatia, irritabilidade, baixa tolerância à frustração, etc.) acredita que estas fazem parte da nova pessoa que se tornou após a emigração. Sendo certo que a “aculturação” (integração e assimilação de uma nova cultura) provocará mudanças “saudáveis” nas estruturas identitárias da pessoa que emigra, mas não o sofrimento psíquico.

De qualquer forma, deve procurar nutrir sentimentos positivos nas interações com pessoas e elementos de outras culturas para aumentar a eficácia intercultural e (re)visitar sempre o país de origem, seja através de uma viagem, seja através da preparação de um prato típico, do convívio com os conterrâneos, ou fazendo uso das novas tecnologias (redes sociais, skype, whatsapp, viber, etc.) para manter contato com os familiares e amigos.

Convém ainda ressaltar que não temos a intenção de problematizar (ou patologizar) a nossa situação de expatriados, mas é necessário estarmos atentos para alguns sinais de alerta que, embora não seja comum a todos, poderão afetar alguns imigrantes brasileiros.

Edijane Costa é psicóloga e pedagoga, vive em Portugal desde 2008. Para ver fotos da Edijane e outros autores acesse o nosso Instagram. Para seguir nossa fanpage no Facebook clique aqui. 

11 Comentários leave one →
  1. Carla Guanais permalink
    10/04/2015 8:59

    Ótimo texto! Parabéns! A adaptação é realmente um obstáculo a ser superado. No início principalmente pode ser muito evidente esse problema em adaptar-se a uma nova realidade se não se vem aberto ao novo, ao diferente, com a consciência que será difícil mas possível de ser feito. Quando se vem com objetivos traçados, de maneira clara, foi planejado, etc. acredito que a adaptação pode ser muito mais fácil. Ter contato com as origens, seja por internet, telefone ou visitas, é fundamental para o equilíbrio.

    • Edijane Costa permalink
      10/04/2015 11:53

      É isso mesmo Carla, é muito importante para quem esteja com projetos de emigrar ter em mente os obstáculos que serão enfrentados e procurar encarar as situações de forma mais realista possível, para que não haja frustrações e arrependimentos posteriormente. Bjs

  2. 10/04/2015 15:27

    Mudar-se para outro país não é fichinha. Quanto mais se for para outro continente, outra língua e outro clima. O choque cultural nunca deve ser subestimado, já falei ano passado sobre isso: https://blogbrasilcomz.com/2014/04/09/choque-cultural-um-mal-necessario/

    Eu sugiro que as pessoas que se mudam para outro país não visitem o Brasil nos primeiros dois anos, pelo menos. Que se aperfeiçoe na língua, adquira um hobby e visite o país adotado nas férias para se inteirar melhor da nova realidade. Caso contrário a adaptação fica difícil. Depois de um par de anos que tiver emprego, estudo, amigos, rotina… aí sim, visitar o Brasil regularmente. Principalmente não esquecer as antigas amizades. Quanto mais o tempo passa mais vejo que a dedicação, o desprendimento, o nível de intimidade e profundidade das amizades brasileiras não se equiparam às amizades holandesas. Santo Skype, santas mídias sociais !

    • Edijane Costa permalink
      10/04/2015 15:45

      Otimas dicas Ana!!!! Obrigada 🙂

  3. J. Eduardo Caamaño permalink
    10/04/2015 15:27

    Sempre achei (posso estar enganado) que Portugal seria o país onde a adaptação é menos traumática. Quando estive em Portugal me senti como se estivesse no Brasil. A arquitetura, a gastrônomia e até os programas de TV tem um vínculo direto com o nosso país. (fora o idioma, que é o mesmo, ainda que existam diferenças no vocabulário)

    • Edijane Costa permalink
      10/04/2015 15:58

      Olá Edu, também acredito (e mais ainda tendo em conta os diversos fatores que aponta) que a adaptação ao nosso país irmão Portugal seja mais fácil, entretanto esta é uma questão transversal a todos os países e soma-se a isto uma série de outros elementos da pessoa e da microsociedade que acolhe (bairro, colegas do trabalho, escola, etc.). Obrigada. Bjs

  4. Arlete permalink
    13/04/2015 8:12

    Oi Edijane,
    Normalmente, as dificuldades do imigrante no novo país não são levadas em conta até pelos próprios expatriados. Mesmo porque, a gente só percebe que “não é só alegria”, depois de algum tempo, quando tudo vira rotina. O distanciamento dos antigos amigos do Brasil pela dificuldade de contato, o novo cotidiano, novo clima entre outras coisas podem levar à constantes frustrações e até à depressão. Na minha opinião, é muito importante viver isso de maneira consciente, pois como vc disse, o primeiro passo é reconhecer que algo não vai bem e cuidar de si mesmo a partir daí. Obrigada pelo artigo.

    • Edijane Costa permalink
      14/04/2015 14:45

      Obrigada Arlete! Que bom que gostou :). Abraços

  5. auto-exilado permalink
    24/04/2015 7:17

    Nesse ponto, acho que tive sorte e devo ser uma exceção, pelo que ouço de outros brasileiros por aqui pelo Reino.

    Comigo, mudar para a a Irlanda e depois para a Inglaterra não foi tão traumático. Fiquei meio inseguro com o aspecto financeiro, já que negociei mal meu salário, ainda no Brasil, sem saber muito do alto custo de vida de Dublin.

    Mas depois, a mudança para a Inglaterra foi “plug & play”!

    Acho que o sentimento precoce de ter nascido no lugar errado e se sentir um peixe fora da água no meu próprio país, Brasil, onde não gostava do calor excessivo, do caos urbano, da falência institucional do Estado, da violência comparável a uma guerra civil, da inversão de valores, do individualismo, da mentalidade colonial e classista, da filosofia do “cada um por si e salve-se quem puder”, do superficialismo e hipocrisia da classe média me ajudaram e muito me “assentar” nas maravilhosas Ilhas Britânicas!

    Brasil? Só pela TV, sem ir há 8 anos (and counting)!

  6. Rafael Paz permalink
    11/05/2015 1:02

    Meu sonho quando estava no Brasil era vir morar na Austrália, agora que estou aqui(estou morando aqui há 1 mês), me sinto um pouco desanimado com o local. Não pelo país em si, que via de dúvidas é um país muito bonito e desenvolvido, mas acredito que pelas restrições do meu visto de estudante que tenho. Só posso trabalhar 20 horas semanais. Eu trabalhava com TI no Brasil, aqui você tem várias vagas na minha área, porém somente pra pessoas com visto full time. Pra fazer uma faculdade você desembolsa aqui cerca de 20 mil dolares ao ano se for estudante internacional, se você é residente paga apenas 8 mil dolares. Emprego tem, mas é muito indicação, no meu caso, sou novo por aqui aí fica mais díficil, mesmo subempregos… Acho que tudo isso, somado ao choque cultural esta pesando na minha adaptação por aqui… Espero conseguir superar isso e ter sucesso, pois quando penso em voltar para o Brasil, infelizmente vejo muitas limitações vivendo por lá..

    • Edijane Costa permalink
      11/05/2015 22:27

      Obrigada pelo comentário Rafael. Realmente, são muitas as dificuldades que um emigrante enfrenta, algumas esperadas outras nem tanto, mas me parece que você está bastante determinado. Boa sorte! Abraço

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