bz_russiaAndré Fernandes – Rússia

Busco com este post expor a cultura russa que os programas de TV não tem mostrado sobre o país além do clima extremamente frio, vodka, mulheres lindas e Vladimir Putin. A não ser com base no pouco que pude ver, não vou entrar em questões políticas, por serem complexas demais a serem resumidas, dadas as particularidades culturais e históricas da Rússia, dos jogos de interesses e propagandas na imprensa (seja russa, internacional, brasileira, etc).

A Rússia é um misto de Europa e Ásia, se formou isolada do resto do mundo durante séculos, sob o domínio mongol, seguidos de mais 300 anos de czarismo e o regime soviético. As origens da etnia russa estão no atual território de Kiev, na Ucrânia. Com guerras e migrações, houve a expansão até o atual território em torno de Moscou.

Tal isolamento contribuiu para a construção de uma cultura própria, que não é compreendida por quem não fala russo (inclusive eu): literatura, filosofia, música, cinema, internet, etc.; fato que torna a Rússia e a cultura russa interessantes de se conhecer. Soma-se ainda o fato de o país abrigar 50 grupos étnicos diferentes: como uzbeques, mongóis, tartar, chineses, ossetas, etc.

É importante também compreender que as condições extremas moldaram o modo de os russos viverem e de ser: o jeito durão, direto ao ponto e na lata (sobretudo entre os homens), o espírito de improviso, o se virar nas circunstâncias duras. Não tenho dúvidas que os invernos longos e rigorosos decisivamente contribuíram para isto. Imagina viver debaixo de -20ºC, -30ºC, -40ºC ou até mais abaixo! Hoje ainda existe eletricidade e calefação, nem vou imaginar como eles viviam há 150 anos, por exemplo. Achei interessante ver como russos e ucranianos encaram o frio: “Ok, está frio e a vida continua!” Hoje, quando vejo alguém reclamando do inverno do sul do Brasil – que além de não ser tão frio, tem sol e você anda nas ruas sem nenhuma neve cobrindo metros de chão – só posso rir e pensar como seria uns 6 meses debaixo de uma escuridão e congelando até os ossos.

O meu contato com a cultura russa começou, de fato, durante a minha travessia na Ucrânia e continuou ao longo da travessia nos países bálticos (Lituânia, Letônia e Estônia): pessoas falando russo, turistas russos, bonecos da Cheburashka (um cartoon do tempo soviético), pop russo nos carros e baladas, comidas russas etc .

Foi em Kiev, na Ucrânia, que descobri a Cheburashka, cartoon da época do regime soviético e um dos ícones culturais daquela época

Foi em Kiev, na Ucrânia, que descobri a Cheburashka, cartoon da época do regime soviético e um dos ícones culturais daquela época

Okroshka, sopa russa feita por minha host em Lviv, Ucrânia

Okroshka, sopa russa feita por minha host em Lviv, Ucrânia

A barreira costuma ser o idioma, não muita gente na Rússia fala inglês, é comum russos terem aquela mentalidade de que você deve falar russo, eis o porquê o russo é língua oficial em quase todo os países que faziam parte da antiga União Soviética. De qualquer jeito, o russo é falado em todo o Leste Europeu, onde quer que haja turistas russos e empresas vendendo para russos. É interessante notar como os russos se enxergam como etnia e impõem sua cultura até mesmo onde são minoria. Conheci pessoas que nasceram na Ucrânia, no Cazaquistão, no Uzbequistão e…cresceram falando russo, estudaram em escolas russas e se mudaram para algum outro país onde podem viver falando russo.

Até o McDonald's em cirílico. Na Rússia, é tudo em russo!

Até o McDonald’s em cirílico. Na Rússia, é tudo em russo!

É válido também lembrar que, entre os países que formavam a antiga União Soviética, é possível viajar de trem para quase todas as principais cidades. Se não houver linhas de trem de uma cidade a outra, é possível ir até a capital do país e pegar outras linhas que fazem a conexão ferroviária. De Moscou, então, é possível viajar de trem para todas as capitais e principais cidades dos países vizinhos: seja para Kiev (Ucrânia), Minsk (Bielorússia), Astana (Cazaquistão), até para Mongólia e para China.

E justamente de trem que muitos locais nestes países viajam a lazer e para visitar familiares em outros países vizinhos por ser mais barato e pelo conforto nas longas viagens. De Kiev para Moscou, por exemplo, são 27 horas de viagem. Logo, uma das melhores formas de entrar em contato com o modo de vida local.

Cabine do trem que peguei de Kiev para Lviv, umas 10 h de viagem.

Cabine do trem que peguei de Kiev para Lviv, umas 10 h de viagem.

Bom lembrar que brasileiros não precisam de visto em caso de turismo, é possível ficar até 90 dias sem visto na Rússia. Até os cidadãos de países da União Européia que fazem fronteira com a Rússia precisam de visto, que costuma ser uma interminável burocracia. Por que não aproveitar?

 Sobre a questão política

Vladimir Putin goza de alta popularidade entre a maioria da população russa, sobretudo após encarar como mão de ferro a oligarquia e reformular a política de preços do petróleo e do gás, os principais produtos de exportação do país. Para o russo comum, a palavra democracia é associada às privatizações e reformas marcadas por fraudes e corrupção durante o governo de Boris Ieltsin, que contribuíram para mergulhar o país numa profunda crise social e econômica até o início dos anos 2000.

Liberdade política não é algo que existe no país. Logo no meu primeiro dia, vi a polícia cercando todo o centro de São Petersburgo devido a um protesto ocorrido em Moscou, viaturas e caminhões por todos os cantos e as pessoas correndo pra casa. Com estrangeiros, costuma ser sossegado, mas com os locais é normal ver policiais abordando pessoas nas ruas e estações de ônibus/trem e perguntar por documentos, pedir propinas. Não preciso dizer porque não tirei fotos do policiamento.

Reuniões em grupo são proibidas sem permissão e não é permitida a venda de bebidas alcóolicas se não me engano a partir das 21h. Os russos costumam dar um jeitinho, mas de qualquer forma, é necessário tomar o cuidado, se a polícia pega… Fica a dica!

____________

*André Fernandes, nascido em Santa Catarina para ser um nômade pelo mundo. Voltou ao Brasil e já está pensando nas próximas aventuras! Saiba mais sobre ele clicando aqui. Sigam-nos no Facebook e Twitter para atualizações sobre viagens, turismo, estudar e morar no exterior. Quer ver fotos das nossas andanças pelo mundo? Sigam o nosso perfil no Instagram