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O jeito russo de ser – Parte 1

21/05/2015

bz_russiaAndré Fernandes – Rússia

Busco com este post expor a cultura russa que os programas de TV não tem mostrado sobre o país além do clima extremamente frio, vodka, mulheres lindas e Vladimir Putin. A não ser com base no pouco que pude ver, não vou entrar em questões políticas, por serem complexas demais a serem resumidas, dadas as particularidades culturais e históricas da Rússia, dos jogos de interesses e propagandas na imprensa (seja russa, internacional, brasileira, etc).

A Rússia é um misto de Europa e Ásia, se formou isolada do resto do mundo durante séculos, sob o domínio mongol, seguidos de mais 300 anos de czarismo e o regime soviético. As origens da etnia russa estão no atual território de Kiev, na Ucrânia. Com guerras e migrações, houve a expansão até o atual território em torno de Moscou.

Tal isolamento contribuiu para a construção de uma cultura própria, que não é compreendida por quem não fala russo (inclusive eu): literatura, filosofia, música, cinema, internet, etc.; fato que torna a Rússia e a cultura russa interessantes de se conhecer. Soma-se ainda o fato de o país abrigar 50 grupos étnicos diferentes: como uzbeques, mongóis, tartar, chineses, ossetas, etc.

É importante também compreender que as condições extremas moldaram o modo de os russos viverem e de ser: o jeito durão, direto ao ponto e na lata (sobretudo entre os homens), o espírito de improviso, o se virar nas circunstâncias duras. Não tenho dúvidas que os invernos longos e rigorosos decisivamente contribuíram para isto. Imagina viver debaixo de -20ºC, -30ºC, -40ºC ou até mais abaixo! Hoje ainda existe eletricidade e calefação, nem vou imaginar como eles viviam há 150 anos, por exemplo. Achei interessante ver como russos e ucranianos encaram o frio: “Ok, está frio e a vida continua!” Hoje, quando vejo alguém reclamando do inverno do sul do Brasil – que além de não ser tão frio, tem sol e você anda nas ruas sem nenhuma neve cobrindo metros de chão – só posso rir e pensar como seria uns 6 meses debaixo de uma escuridão e congelando até os ossos.

O meu contato com a cultura russa começou, de fato, durante a minha travessia na Ucrânia e continuou ao longo da travessia nos países bálticos (Lituânia, Letônia e Estônia): pessoas falando russo, turistas russos, bonecos da Cheburashka (um cartoon do tempo soviético), pop russo nos carros e baladas, comidas russas etc .

Foi em Kiev, na Ucrânia, que descobri a Cheburashka, cartoon da época do regime soviético e um dos ícones culturais daquela época

Foi em Kiev, na Ucrânia, que descobri a Cheburashka, cartoon da época do regime soviético e um dos ícones culturais daquela época

Okroshka, sopa russa feita por minha host em Lviv, Ucrânia

Okroshka, sopa russa feita por minha host em Lviv, Ucrânia

A barreira costuma ser o idioma, não muita gente na Rússia fala inglês, é comum russos terem aquela mentalidade de que você deve falar russo, eis o porquê o russo é língua oficial em quase todo os países que faziam parte da antiga União Soviética. De qualquer jeito, o russo é falado em todo o Leste Europeu, onde quer que haja turistas russos e empresas vendendo para russos. É interessante notar como os russos se enxergam como etnia e impõem sua cultura até mesmo onde são minoria. Conheci pessoas que nasceram na Ucrânia, no Cazaquistão, no Uzbequistão e…cresceram falando russo, estudaram em escolas russas e se mudaram para algum outro país onde podem viver falando russo.

Até o McDonald's em cirílico. Na Rússia, é tudo em russo!

Até o McDonald’s em cirílico. Na Rússia, é tudo em russo!

É válido também lembrar que, entre os países que formavam a antiga União Soviética, é possível viajar de trem para quase todas as principais cidades. Se não houver linhas de trem de uma cidade a outra, é possível ir até a capital do país e pegar outras linhas que fazem a conexão ferroviária. De Moscou, então, é possível viajar de trem para todas as capitais e principais cidades dos países vizinhos: seja para Kiev (Ucrânia), Minsk (Bielorússia), Astana (Cazaquistão), até para Mongólia e para China.

E justamente de trem que muitos locais nestes países viajam a lazer e para visitar familiares em outros países vizinhos por ser mais barato e pelo conforto nas longas viagens. De Kiev para Moscou, por exemplo, são 27 horas de viagem. Logo, uma das melhores formas de entrar em contato com o modo de vida local.

Cabine do trem que peguei de Kiev para Lviv, umas 10 h de viagem.

Cabine do trem que peguei de Kiev para Lviv, umas 10 h de viagem.

Bom lembrar que brasileiros não precisam de visto em caso de turismo, é possível ficar até 90 dias sem visto na Rússia. Até os cidadãos de países da União Européia que fazem fronteira com a Rússia precisam de visto, que costuma ser uma interminável burocracia. Por que não aproveitar?

 Sobre a questão política

Vladimir Putin goza de alta popularidade entre a maioria da população russa, sobretudo após encarar como mão de ferro a oligarquia e reformular a política de preços do petróleo e do gás, os principais produtos de exportação do país. Para o russo comum, a palavra democracia é associada às privatizações e reformas marcadas por fraudes e corrupção durante o governo de Boris Ieltsin, que contribuíram para mergulhar o país numa profunda crise social e econômica até o início dos anos 2000.

Liberdade política não é algo que existe no país. Logo no meu primeiro dia, vi a polícia cercando todo o centro de São Petersburgo devido a um protesto ocorrido em Moscou, viaturas e caminhões por todos os cantos e as pessoas correndo pra casa. Com estrangeiros, costuma ser sossegado, mas com os locais é normal ver policiais abordando pessoas nas ruas e estações de ônibus/trem e perguntar por documentos, pedir propinas. Não preciso dizer porque não tirei fotos do policiamento.

Reuniões em grupo são proibidas sem permissão e não é permitida a venda de bebidas alcóolicas se não me engano a partir das 21h. Os russos costumam dar um jeitinho, mas de qualquer forma, é necessário tomar o cuidado, se a polícia pega… Fica a dica!

____________

*André Fernandes, nascido em Santa Catarina para ser um nômade pelo mundo. Voltou ao Brasil e já está pensando nas próximas aventuras! Saiba mais sobre ele clicando aqui. Sigam-nos no Facebook e Twitter para atualizações sobre viagens, turismo, estudar e morar no exterior. Quer ver fotos das nossas andanças pelo mundo? Sigam o nosso perfil no Instagram

17 Comentários leave one →
  1. 22/05/2015 8:54

    Acho que devido aos vários anos de repressão a Rússia ficou muito afastada do desenvolvimento cultural do mundo ocidental. Quando fiz um curso de holandês em 2000 conheci russos e europeus orientais que se vestiam (e se maquiavam, tinham cortes de cabelo) como nos anos 80. Um casal de ucranianos comprou nossa primeira casa à venda, e quando fui visita-los um ano depois fiquei supresa com a decoração. O casal já mora há três anos na Holanda, são jovens e tem emprego em sales & marketing. A estética pessoal para decorar a casa eu achei super ultrapassada: sofá bem grande todo branco (e eles tem 2 crianças pequenas e a casa era pequena!!) com detalhes em dourado, quadros no corredor com imagem de ursos polares ou husky siberianos bordados em ponto cruz, luz meio de discoteca no quarto de casal. Oi? Aqui e ali meio bling-bling, meio oriente misturado com móveis geométricos/clean e tecnologia. Dois mundos em colisão. Quando meses depois vi “Meet the Russians” programa da BBC sobre mega-ultra milionários russos que tentam se integrar à vida britânica a qualquer custo (contratando consultora de modas e professores de inglês, comprando arte, dando festas nababescas, aprendendo regras de etiqueta inglesas) compreendi um pouco o modo de encarar prosperidade do casal ucraniano que comprou minha casa. É um referencial estético, um gosto pessoal totalmente diferente da Europa e Estados Unidos ! Há cem mil russos muito ricos em Londres no momento e esse show da BBC tem vários episódios. O que mais me fez sorrir foi a pop star Kamaliya e o marido paquistanês dela o tycoon Mohammad Zahoor. Puros, puros, puros de coração e super ambiciosos ao mesmo tempo ! Sugiro que entre no Youtube e busque por ela, “Kamaliya super star” / “Kamaliya – Butterflies”/ “Reality couple Kamaliya and Mohammad Zahoor” / interview Kamaliya etc.

  2. 22/05/2015 13:43

    Oi Ana,
    Eles tem uma cultura própria mesmo e tem muito orgulho de sua história e raízes. Pelo menos entre os da minha geração, não vi muita diferença quanto à moda e jeito de se vestir.
    As mulheres enfatizam a maquiagem e os sapatos, sobretudo no inverno, já que não dá pra botar roupas curtas debaixo de uns -30ºC. No verão, nada diferente do que elas vestiriam no Brasil, por exemplo.
    E há muitas mulheres na Rússia e na Ucrânia, a ponto de muitas emigrarem por falta de homens no país. Na Rússia, há umas 11 milhões de mulheres sobrando. Então, russas tem emigrado para o mundo todo, incluindo Brasil, por causa de namorado/marido.

    • 23/05/2015 13:40

      Quando eu cheguei aqui (1999-2000) tinha um grande gap cultural entre europeus ocidentais e os estrangeiros da Rússia e Europa oriental. Dava para ver claramente pela moda, vestuário e mentalidade. Tanto se percebia isso nas ruas quanto em programas de TV como o super cafona Eurovision Song Contest. Fiquei de boca aberta ao ver uma década atrás as edições do “Eurovision”. Eram algo totalmente fora de qq estética apresentada e processada pelo ocidente. Meu marido me informou que era uma espécie de “festinha do bloco oriental”, com sua cultura pop totalmente defasada. Esse gap vem fechando, claro. Na Holanda (e suspeito que na Alemanha, Canadá, EUA, etc..) há um número ligeiramente maior de homens que mulheres. Polenbruiden “noivinhas polonesas”, oekrainse bruiden “noivas ucranianas” são termos usados para mulheres encontradas pelas internet e que se casam “por amor” com holandeses.

  3. 23/05/2015 23:48

    E a comida, a cozinha russa é muito diferente? Pra nos brasileiros (além dr outras nacionalidades)?

    • 24/05/2015 23:46

      Oi Jason,
      A comida não é tão diferente para brasileiros, pelo menos para mim (considerando que já vivi na Índia e tive que me virar na dieta vegetariana). Eles comem de tudo um pouco: carnes, frutas, sopas, massas. O que mais notei de diferente foi que, como muita coisa eles tem que importar, acaba sendo mais caro.

  4. 26/05/2015 4:14

    André, adorei o teu texto. Terminei um longo relacionamento com um russo há pouco tempo e entendo bem o que tu escreveste. Embora o meu ex e sua família vivam em Israel (onde eu morava há até pouco mais de 1 mês) desde 1990, ainda vivem tudo em russo: tv, jornais, idioma do celular, idioma no trabalho, comida, etc. Eles me deram um Cheburashka que eu amo e guardo com todo carinho. Acho lindinho ❤
    Sempre me impressionou como os russos leem, frequentam teatros, vão a concertos de música clássica e a outros eventos culturais super interessantes. Não há nada mais perfeito que uma apresentação de balé de uma companhia russa. É de cair o queixo.
    Não cheguei a aprender russo, mas entendo algumas coisas e sei falar o necessário para não morrer de fome ou sede (de água ou de vodka hehe) na Rússia ou entre russos. Pretendo estudar seriamente, pois há tanto o que se ler e descobrir sobre a cultura russa que acho um desperdício não encarar este desafio.
    Aguardo outros textos teus sobre os russos e sua terrinha.

    • 26/05/2015 12:57

      Oi Arina, eu até não mencionei o teatro, o balé, é realmente válido. Inclusive, tem uma escola de balé bolshoi em Joinvile/SC, a única fora da Rússia. O hábito da leitura também é visto em todos os lugares, até nos metrôs.
      A vida cultural é bem marcante entre os russos e muito não chega a quem não fala russo. Até entre meus amigos – russos, ucranianos, uzbeques, etc – eu pude perceber isso e aprendi muito convivendo com eles. Eu ainda pretendo conhecer mais a Rússia e atravessar a Transiberiana. Vamos ver quando!

  5. Arlete permalink
    26/05/2015 8:01

    Oi André, gostei muito do texto, que é uma aula sobre um pouco da história e da cultura russa. Meu marido e eu temos o sonho antigo de chegar até a China com a transsiberiana, por isso é sempre interessante saber algo mais sobre os russos.
    Abraço

    • andrefanjos permalink
      26/05/2015 13:01

      Oi Arlete, eu ainda não atravessei a Transiberiana. Sei que direto de Moscou até Vladivostok, são uns 7 dias de viagem. Vi que tem rotas de trem que atravessam o país, passam pela Mongólia e chegam até Beijing.

  6. 19/06/2015 2:29

    Sou autor do blog “O descobridor da Rússia”, tendo passado um mês no país e só esperando o dólar baixar para virar o ano naquele país.
    O artigo tem pontos interessantes que até vivenciei, mas é um equívoco tremendo dizer que “não existe liberdade política no país” e tenho plena convicção do profundo equívoco do autor e dou até exemplos disso.
    Eu visitei a Biblioteca Lenin, a maior da Europa e uma das 4 maiores do mundo, além das grandes livrarias do país como a Globus e a Tchitay Gorod. Inspecionei cuidadosamente cada prateleira (e tenho até fotos de algumas), e lá há livros falando a favor do comunismo, mas também há livros falando contra. Há livros falando bem do império e mal do império, bem da URSS e mal da URSS. O clima de pluralidade é muito maior! Aliás os programas de TV russos são muito mais plurais, basta ver o Poyedinok (Duelo) com Vadim Solovyov ou “Sud Vremeni” com Svanidze e Kurginyan.
    As livrarias russas são totalmente diferente das brasileiras, onde só se publica basicamente uma linha. Se você quiser algo sobre a URSS, então só há autores antissoviéticos, quase nunca há um favorável. Se quer algo de um autor da revolução russa só encontra livros de Trotsky (que era antissoviético). Se olha na vitrine só há balelas de auto-ajuda ou livros de Olavo de Carvalho.
    Quanto a policiais acompanhando manifestações, eu não sei em que interior vive o autor, mas isso acontece em qualquer parte do mundo. Aqui mesmo em Fortaleza, moro perto da sede do governo, e quando tem um protesto as ruas ao redor mais parecem estar comemorando o 7 de setembro, pois fica cheio de tropas policiais.
    Com relação aos locais, eu conheço vários russos e conheci ainda mais pessoalmente, não vi nenhum único pedido de passaporte ou de propina nas ruas. Passei por Moscou, Tula, Kazan, Ulyanovsk e não ouvi uma única queixa nesse sentido ou vi qualquer ação de um policial. Aliás, em muitos lugares onde passei fui tomado por um russo, pois falo a língua a um nível quase nativo, além de estar sempre vestido como um e não vi qualquer “propinagem”.

    • André Fernandes permalink
      19/06/2015 2:47

      Oi Cristiano, o fato é que eu vi policiais pedindo documentos e propinas durante várias ocasiões. Estava com amigos russos, muitas vezes em lugares onde eu era um dos poucos estrangeiros, inclusive tivemos que sair de fininho durante uma festa na rua – nada mais que estudantes em volta de 2 rapazes com violão e percussão – assim que viaturas chegavam e corriam para prender quem podia. Falar de liberdade deste jeito? Reuniões em grupos são simplesmente proibidas, os russos não a cumprem, mas quando vem a polícia, ninguém quer ficar.
      E a corrupção no país é evidente, tal qual no Brasil. A parte política já é outra história, mas o fato é que o país é governado a mãos de ferro, sem nenhum julgamento de positivo ou negativo.

  7. João Pandit permalink
    20/06/2015 1:25

    Tudo bem? Você escreveu´´considerando que já vivi na Índia e tive que me virar na dieta vegetariana“ num dos seus comentários.
    Sou vegetariano há 25 anos e visitei a Índia nove vezes nos últimos 17 anos, sendo que já fiquei mais de 3 meses por lá em 2009. É sabido que somente 20% dos hindus são vegetarianos, então fiquei curioso em saber em que lugar você teria morado. Abraço

    • André Fernandes permalink
      20/06/2015 1:35

      Oi João, sim, eu vivi na Índia durante 2012, na cidade de Jaipur, Rajasthan. Não me adaptei à dieta vegetariana, acostumado a comer carne e churrasco desde sempre. Como normalmente ocorre com muitos estrangeiros que vivem por um longo tempo na Índia, perdi uns 10 kg.
      20% dos hindus são vegetarianos? Não foi o que eu vi. Em Jaipur, onde se achar carne além do bairro muçulmano, vendas de muçulmanos e mercados para expats? E a higiene das vendas e dos matodouros não estimula. Adaptar ou não é uma questão individual, o fato é que sem carne eu não me vejo.
      Abraço

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