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O povo suíço sob a lupa de uma expatriada

03/06/2015

bz_suica

Arlete Dotta – Suíça

Concordo com aquela famosa frase do Caetano Veloso em que ele diz que “de perto ninguém é normal”. Mesmo assim, como expatriada, eu não tenho como deixar de me divertir e comentar algumas peculiaridades da cultura suíça e dos suíços. Inspirado em alguns posts dos meus colegas aqui do Brasil com Z, nasceu este sobre os estereótipos suíços.

1- Um povo educado
O povo suíço é, no geral, muito educado, mas quase demais. Eles agradecem toda hora, pedem muito licença e dizem “saúde” TODAS as vezes que alguém espirra (pra uma pessoa que tem rinite como eu, chega a ser constrangedor agradecer toda hora). Uma conversa com um cliente ao telefone, termina dos dois lados sempre com intermináveis “tenha um bom dia”, “obrigado”, “pro senhor também”, “obrigado”, “bom início de semana”, “obrigada”, “de nada”, “tchau”, “tchau”, “obrigado pela ligação”, “não tem de quê”, “obrigado”, “obrigado a você”.

2 – Ligados na moda?
Usar meia branca aqui é motivo de piada e, como a gente sempre tem que tirar os sapatos quando entra na casa de alguém e também, sempre tá de meia porque o tempo é uma beleza, sempre rola uma piadinha ou um olhar meio torto quando aparece um par de meias brancas nos pés de alguém. Meia aqui é praticamente só preta, com algumas poucas exceções. Mas usar meia com sandálias do tipo papete é normal (isso se a meia não for branca, claro). Vai entender.

Sandálias: com meias brancas, não! – Foto: creative commons

Sandálias: com meias brancas, não! – Foto: creative commons

3 – Noções de geografia
Os suíços sabem o nome das montanhas por onde vão. Se há montanhas por perto de onde se está passando, sempre se escuta algum suíço falando o nome e a altura de cada uma delas. Outra coisa que eles sabem muito bem é se localizar. Sabem se estão caminhando pro norte, leste, oeste ou sul, em que direção fica determinado bairro ou lugar que eles querem mencionar numa conversa, etc. E vêm com perguntas do tipo: “qual é a altura da montanha mais alta em São Paulo?”, “qual a cidade mais alta?” etc.

Matterhorn: uma das mais altas e famosas montanhas suíças - Foto: Andrew Bossi, Wikimedia Commons

Matterhorn: uma das mais altas e famosas montanhas suíças – Foto: Andrew Bossi, Wikimedia Commons

4 – Esporte
De um modo geral, a maioria é bastante esportiva. Faça chuva ou faça sol eles estão ou na academia ou ao ar livre praticando algum esporte, sempre. As temperaturas podem estar entre 30 e -30 que isso não os impede mesmo de, por exemplo, correr ao ar livre. Até no trabalho, as pessoas usam a hora do almoço pra ficar em forma.

5 – Alimentação
Como em todo lugar, por aqui a comida nem sempre é saudável, embora haja uma certa preocupação neste sentido. Pratos típicos como o fondue ou o salsichão com mostarda, por exemplo, são pesados e gordurosos, apesar de saborosos. Mas se come pouco doce (com exceção do chocolate) e quando tem sobremesa, é bem pouco açucarada. O lanchinho das crianças integra, com muita frequência, pepino, pimentão, tomate-cereja e cenoura picados e eles gostam mesmo porque são acostumados desde cedo. Claro que o chocolate, como um produto nacional, também entra no lanche às vezes, mas só vale comer depois dos legumes ou da fruta.

Foto: Simon A. Eugster, Wikimedia Commons

Foto: Simon A. Eugster, Wikimedia Commons

6 – No trem
De manhã impera um silêncio absoluto, exceto quando tem um grupo de adolescentes. As pessoas chegam a cochichar pra conversar. Dá pra tirar uma soneca indo pro trabalho de tão tranquilo.

7 – Associações
Existem inúmeras e de todo tipo (só de pais, só de mães, só de costureiras, só de praticantes de um certo idioma, só de jogadores de cartas, de simpatizantes de castelos e costumes da idade média, etc. A lista é infinita) e as pessoas adoram participar, é algo que pertence à cultura suíça há muitas gerações. Algumas chegam a ter mais de cem anos de fundação, outras centenas de anos. Geralmente, no site das prefeituras tem uma lista com todas as associações daquela cidade. Participar de uma associação é coisa séria. As pessoas se encontram regularmente pra praticar a atividade em comum.

8 – Jeito suíço de paquerar/namorar
Tranquilo, devagar, porém constante. Cheguei aqui em 2009 e desde então, recebi uma única cantada explícita na rua e acho que o tipo nem era suíço. Os suíços são tranquilos, discretos e porque não dizer distraídos. Isso dá uma liberdade imensa pras mulheres se vestirem sem se sentirem mal quando passam perto de uma construção ou por qualquer outro lugar.

9 – Pontualidade
Não é a toa que a Suíça é famosa por seus relógios. Eles estão por toda parte: grandes, pequenos, bonitos, feios, clássicos e modernos. Suíços são muito pontuais e dão muito valor à pontualidade. Se alguém é convidado pra jantar num determinado horário, chega pontual, nem um minuto a mais, nem a menos. No começo achei um pouco estranho, sempre estava um pouco atrasada com os preparativos de um jantar, almoço, etc. agora acostumei e preparo tudo com um pouco de antecedência ou digo que é o estilo latino.

A pontualidade suíça e seu relógios por toda parte – Foto : JuergenG, modified by Rainer Z, Creative Commons

A pontualidade suíça e seu relógios por toda parte – Foto : JuergenG, modified by Rainer Z, Creative Commons

10 – Exatidão no que se faz e valorização dos produtos nacionais
No geral, os suíços são bem disciplinados e quando realizam uma tarefa, procuram fazê-la da melhor maneira possível. Isso tem muitos lados positivos, mas também nem tudo são sempre “flores”, digamos. Um dos lados bons é que se pode confiar na qualidade dos serviços e produtos suíços, as pessoas dão preferência a produtos nacionais e têm orgulho de serem bons no que fazem. Por outro lado, o nível de exigência e a pressão do cotidiano são altos e isso com certeza deve influenciar a taxa de suicídios aqui que não é baixa.

11 – Previsão do tempo
Faz parte da vida de todo cidadão. As estações são bem definidas, mas o tempo muda muito rápido. Todo mundo tem a previsão do tempo semanal na ponta da língua e este é também sempre o principal assunto em um small talk de elevador.
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12 – O dialeto suíço-alemão
Amplamente falado. Os suíços têm muito orgulho e fazem questão de falar dialeto em todas as classes sociais e ambientes. Se por um lado isso é uma das facetas da identificação com a própria cultura, é, por outro lado, alvo de muitas críticas. Estrangeiros se sentem muitas vezes excluídos por aprenderem o alemão clássico e não entenderem nada do que é falado no cotidiano. Suíços se sentem muitas vezes desconfortáveis de terem que falar alemão clássico para serem entendidos, já que nas principais cidades o número de expatriados não é pequeno. Mas no geral, todo mundo se entende e a convivência é pacífica, apesar da resmungação de ambas as partes.

13 – Abuso no uso de eufemismos
Baseado nas minhas experiências de até então, posso dizer que os suíços são, na maior parte das situações, supergentis mesmo que isso pareça meio artificial muitas vezes. Se querem reclamar ou dizer alguma coisa diretamente a você, usam e abusam de eufemismos. Coisas do tipo:
“Ele é muito gentil” (pra não dizer que a pessoa é feia), “Ele faltou com a verdade” (pra não chamar o indivíduo de mentiroso), “Ele vivia de caridade.” (pra não falar esmolas), etc. Quando acham que você errou em alguma coisa que fez, procuram iniciar a frase mais ou menos com: “mas você não acha que fazer isso assim ou assado poderia, talvez, nesse caso, ser mais adequado?”, “talvez, quem sabe, isso poderia ser repensado e se fazer daquele x modo”, “o que você acharia se…blá blá, blá” etc.

14 – Política e religião não se discutem mesmo!
Ninguém conversa sobre que opinião política se tem ou discute sobre a religião do outro. No caso de uma votação, não se fala em quem se votou, ninguém vai perguntar e fala-se muito pouco sobre o resultado, seja ele qual for. Esse ponto é bem interessante: geralmente se aceita com bastante tolerância a escolha da maioria.

Essas são apenas algumas observações sob a visão de uma brasileira vivendo há alguns anos na terra dos alpes.

*Arlete Dotta, Desde 2009 vive cercada pelos Alpes, na Suíça, para saber mais sobre a autora clique aqui.

16 Comentários leave one →
  1. Carla Guanais permalink
    03/06/2015 13:10

    Adorei! A questão da meia branca é igual aqui na itália ! hahahah Até eu não compro mais meias brancas. Essas geralmente são pra quem pratica esporte. beijo

    • Arlete Dotta permalink
      04/06/2015 6:16

      Nem eu, acredita?! O pior é que sempre gostei de meia branca. Agora só uso pra dormir. 😀

  2. 03/06/2015 13:15

    Que interessante, Arlete!E, como eles tem similaridades com os japoneses!Muitas mesmo!Fiquei impressionada!Era exatamente assim la no Japao. Um abraco e tudo de bom ai!

    • Arlete permalink
      04/06/2015 6:15

      É mesmo, Juliana?! Que interessante, não imaginava. Bjs

  3. Arlete permalink
    03/06/2015 13:34

    Nem eu, acredita?! O pior é que sempre gostei de meia branca. Agora só uso pra dormir. 😀

  4. 03/06/2015 14:25

    Há similaridades com os holandeses: adoram esportes, são pontuais, adoram os proprios produtos, silenciosos no trem, devagar com namoros, as crianças tem como snack na creche e na escola pepinos/cenouras/tomates, previsão do tempo na ponta da língua. Se orientam que é uma beleza (norte, sul, diagonal 500 m etc.) . Só que o número 1 aqui não cola. É “bye” (dag) no final da conversa e batem o telefone com força MESMO.

    • Arlete Dotta permalink
      04/06/2015 6:27

      Que engraçado, Ana. Lendo os seus posts, sempre achei cada vez mais semelhanças entre os batavos e os helvéticos, eis aí uma diferença. Os holandeses aqui são vistos como alegres e extrovertidos.

  5. 03/06/2015 14:52

    Oi!!! mesma impressão que tenho!!
    Até encaminhei por mail teu relato para meus familiares!!!
    Hoje mesmo falei com um policial que foi extremamente gentil, que nem fiquei tão chateada de ter recebido as orientações: estava de bicicleta e fiz algo errado… ele me parou e me orientou… A saber: pedestres e ciclistas TAMBÉM podem ser multados!!!
    Depois me desejou um ótimo dia, que não tivesse mais problemas de trânsito e por final, me falou “obrigado” em português!!! 😀
    Espero que tenhas mais alguns insights prá compartilhar em breve!
    E, quanto as meias… eu e meu marido brincamos direto: sabemos que são suíços pelas meias pretas!!! ou seja… eles podem fazer piadas das nossas meias… mas nós acabamos fazendo piadinhas das meias pretas deles.. 😀
    Abraço, Maira

    • Arlete Dotta permalink
      04/06/2015 6:44

      Oi Maira, só me esqueci de comentar no texto que essas são minhas observações sobre a Suíça alemã. Na verdade, na Suíça francesa e na italiana, muda um pouco. Vc não acha? Mas isso seria assunto pra outro post.
      Porém, o fato de serem educados e simpáticos na maioria das vezes, vale pra toda a Suíça.
      Obrigada pelo comentário e um abraço

      • 04/06/2015 9:25

        Verdade! fui somente visitar a parte francesa e a Italiana… acho-os mais elegantes no vestir… e sim, complica a língua… a gente vai achando que italiano é parecido com português… nem sempre acho fácil não… 😀

  6. 03/06/2015 21:19

    È cada coisa interessante que quem é curioso (como eu) aprende acompanhando esta página.Agora por exemplo conheci algumas curiosidades sobre os suiços que nunca imagnei.E de quebra fui la em minha mala que estou preparando para visitar a Suiça e retirei todas as meias brancas que ja havia colocado.Agradeço a autora pelo otimo post.

    • Arlete Dotta permalink
      04/06/2015 6:46

      Oi Antonio, obrigada pela sua presença aqui no blog. A gente que escreve os posts acaba aprendendo bastante também e, às vezes, até descobrindo coisas que nem imagina sobre o país em que estamos vivendo. Agora vc já sabe: meia branca, não. 🙂

  7. 26/06/2015 14:39

    menina…por que será que eles condenaram as meias brancas ?????????? quem sabe você se anima de tentar pesquisar e explicar? porque este tipo de coisa, assim, fora de um contexto histórico, fica muito estranho!

    deve ser dureza para os suiços terem que fazer tudo sempre direitinho, né? muita cobrança social acaba por deixar as pessoas cansadas. Talvez daí a busca do esporte, para manter o pique!

    gostei muito do post, muito interessante.

    • Arlete Dotta permalink
      27/06/2015 7:21

      Então Touché, sobre as meias brancas, acho que não tem muita história pra contar, não. Minha sogra disse que isso é coisa de moda, recente, pq no tempo dela, usar meia bem branquinha não tinha problema nenhum. 🙂
      Realmente tem muita gente que não aguenta a pressão de fazer tudo direito, mas o que se tem notado é que mais e mais pessoas tentam “pegar leve”. Talvez uma influência da cultura estrangeira…

      • 27/06/2015 12:00

        …e tem culturas que pegam TUDO muuuuiiiito leve!…
        acabei escrevendo dois comentários sobre o mesmo post, não por ser necessário, mas por cansaço: ontem fiquei horas lendo/comentando (e ainda não acabei) e não me dei conta de que já te havia escrito.
        meno male, né? sempre acho melhor excesso do que falta.

        bisou

  8. 26/06/2015 15:31

    oi Arlete,

    tadinhas das meinhas brancas!!!! fiquei curiosa sobre os motivos.
    gosto muito de te ler e a Suiça me desperta sentimentos contraditórios, entre aplaudir o ‘tudo direitinho’ e temer a decantada neutralidade, que sabemos não ser neutra…dinheiro de qualquer cor é protegido pelos segredos…hm.

    siga escrevendo, tá?
    abraço de quem gosta de meia branca e não tem conta numerada.

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