EUARenata Kotscho Velloso – San Francisco, EUA
 

Recentemente foi notícia em todo o mundo a doação de 150 milhões de dólares do Stephen Schwarzman criador do grupo Blackstone para a universidade de Yale, onde ele estudou. A notícia chamou ainda mais atenção no Brasil onde esse tipo de doação é algo impensável. Mas o que está por trás de tantas doações que os americanos costumam fazer? O que podemos aprender para o Brasil?

Vou começar pelo lado bonito. De fato tanto as doações quanto o trabalho voluntário estão impregnados na cultura americana. Desde bem pequenos, ainda na pré escola os americanos são incentivados a doar parte do que possuem e do seu tempo para ajudar outras pessoas. E ainda crianças aprendem também ajudar os outros faz tão bem para quem doa quanto para quem recebe. Eu acredito que até mais.

Nas escolas os alunos se comprometem a dedicar um número expressivo de horas ao trabalho comunitário e há uma infinidade de oportunidades onde a criança ou o jovem podem contribuir de acordo com os seus interesses: hortas comunitárias, cuidados com animais abandonados, preparo de comida, limpeza da praia e participação em eventos comunitários. Com isso além de ajudar eles já começam também a acumular alguma experiência profissional, o que será ótimo para eles no futuro. É uma matemática em que todos ganham.

Mas tem também o outro lado, nem tão bonito. As doações são, em sua maioria, dedutíveis do imposto de renda. Em geral uma pessoa pode doar até 30% do que deveria recolher de imposto. O imposto aqui é bem alto, então o valor “doável” também pode ser grande. Uma pessoa com salário de 100 mil dólares deve pagar de imposto cerca de 40.000 dólares, se doar 30% temos um valor de 12.000 que pode doar e deduzir do imposto a ser pago. Com isso, na minha opinião, doar 12.000 dólares não significa ser generoso, significa escolher onde quer que o seu imposto seja alocado. Qual o problema disso? O problema é que nem sempre as minhas prioridades são as prioridades de toda a comunidade.

Por exemplo eu moro em um bairro afluente na Califórnia e minhas filhas estudam na escola pública do bairro. É um lugar onde a grande maioria dos pais poderiam pagar escolas particulares para os filhos, mesmo com preços exorbitantes cobrados pela educação particular dos EUA. Se eu faço uma doação para a escola pública onde as minhas filhas estudam estou beneficiando um grupo de crianças já cheio de privilégios. Beneficio minhas filhas, aumento o valor do meu imóvel (já que o valor das propriedades é muito atrelado a qualidade das escolas públicas disponíveis naquela região) e acabo tirando recursos dos impostos que poderiam ser utilizados para ajudar crianças mais carentes.

Captura de Tela 2015-06-10 às 11.21.24

Doar para crianças privilegiadas não é ruim, mas será que é prioridade na alocação dos impostos? Fonte: Hillsboro Schools Foundation

Claro que eu posso racionalizar e dizer que melhor o meu dinheiro ser aplicado em uma escola do que financiando guerras malucas que o governo americano adora declarar. Mas mesmo assim, é fato que melhorar a educação de crianças ultra privilegiadas não deveria ser a prioridade na arrecadação dos impostos e confesso que eu me sinto meio mal quando sou agradecida pela minha “enorme generosidade” ao doar para a escola, já que esse dinheiro teria que sair do meu bolso de qualquer maneira.

Se doar para uma escola fundamental pública já é questionável, doar para ter o seu nome exposto em um centro de artes de uma universidade particular é ainda mais. Não seria se o país já tivesse resolvido todos os problemas relacionados a pobreza, mas esse não é o caso mesmo nos Estados Unidos.

Doar 150 milhões de dólares para uma universidade particular: generosidade?

Doar 150 milhões de dólares para uma universidade particular: generosidade? Fonte: Revista Época

No Brasil acredito que um modelo como esse ampliaria ainda mais o abismo social que já existe no país. Portanto temos sim muito o que aprender: desenvolver oportunidades de trabalhos voluntários para crianças e jovens, diminuir a burocracia que inibe tantas pessoas que querem fazer o bem e estudar mecanismos de incentivos fiscais que canalizem as doações para áreas prioritárias. Com isso acredito que temos o melhor dos dois mundo.

 
*Renata Velloso é médica e autora do Bulle de Beauté e também é responsável pelo projetoDoctors on the Cloud . Para saber mais sobre ela  clique aqui.