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Por que os americanos fazem tantas doações?

12/06/2015

EUARenata Kotscho Velloso – San Francisco, EUA
 

Recentemente foi notícia em todo o mundo a doação de 150 milhões de dólares do Stephen Schwarzman criador do grupo Blackstone para a universidade de Yale, onde ele estudou. A notícia chamou ainda mais atenção no Brasil onde esse tipo de doação é algo impensável. Mas o que está por trás de tantas doações que os americanos costumam fazer? O que podemos aprender para o Brasil?

Vou começar pelo lado bonito. De fato tanto as doações quanto o trabalho voluntário estão impregnados na cultura americana. Desde bem pequenos, ainda na pré escola os americanos são incentivados a doar parte do que possuem e do seu tempo para ajudar outras pessoas. E ainda crianças aprendem também ajudar os outros faz tão bem para quem doa quanto para quem recebe. Eu acredito que até mais.

Nas escolas os alunos se comprometem a dedicar um número expressivo de horas ao trabalho comunitário e há uma infinidade de oportunidades onde a criança ou o jovem podem contribuir de acordo com os seus interesses: hortas comunitárias, cuidados com animais abandonados, preparo de comida, limpeza da praia e participação em eventos comunitários. Com isso além de ajudar eles já começam também a acumular alguma experiência profissional, o que será ótimo para eles no futuro. É uma matemática em que todos ganham.

Mas tem também o outro lado, nem tão bonito. As doações são, em sua maioria, dedutíveis do imposto de renda. Em geral uma pessoa pode doar até 30% do que deveria recolher de imposto. O imposto aqui é bem alto, então o valor “doável” também pode ser grande. Uma pessoa com salário de 100 mil dólares deve pagar de imposto cerca de 40.000 dólares, se doar 30% temos um valor de 12.000 que pode doar e deduzir do imposto a ser pago. Com isso, na minha opinião, doar 12.000 dólares não significa ser generoso, significa escolher onde quer que o seu imposto seja alocado. Qual o problema disso? O problema é que nem sempre as minhas prioridades são as prioridades de toda a comunidade.

Por exemplo eu moro em um bairro afluente na Califórnia e minhas filhas estudam na escola pública do bairro. É um lugar onde a grande maioria dos pais poderiam pagar escolas particulares para os filhos, mesmo com preços exorbitantes cobrados pela educação particular dos EUA. Se eu faço uma doação para a escola pública onde as minhas filhas estudam estou beneficiando um grupo de crianças já cheio de privilégios. Beneficio minhas filhas, aumento o valor do meu imóvel (já que o valor das propriedades é muito atrelado a qualidade das escolas públicas disponíveis naquela região) e acabo tirando recursos dos impostos que poderiam ser utilizados para ajudar crianças mais carentes.

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Doar para crianças privilegiadas não é ruim, mas será que é prioridade na alocação dos impostos? Fonte: Hillsboro Schools Foundation

Claro que eu posso racionalizar e dizer que melhor o meu dinheiro ser aplicado em uma escola do que financiando guerras malucas que o governo americano adora declarar. Mas mesmo assim, é fato que melhorar a educação de crianças ultra privilegiadas não deveria ser a prioridade na arrecadação dos impostos e confesso que eu me sinto meio mal quando sou agradecida pela minha “enorme generosidade” ao doar para a escola, já que esse dinheiro teria que sair do meu bolso de qualquer maneira.

Se doar para uma escola fundamental pública já é questionável, doar para ter o seu nome exposto em um centro de artes de uma universidade particular é ainda mais. Não seria se o país já tivesse resolvido todos os problemas relacionados a pobreza, mas esse não é o caso mesmo nos Estados Unidos.

Doar 150 milhões de dólares para uma universidade particular: generosidade?

Doar 150 milhões de dólares para uma universidade particular: generosidade? Fonte: Revista Época

No Brasil acredito que um modelo como esse ampliaria ainda mais o abismo social que já existe no país. Portanto temos sim muito o que aprender: desenvolver oportunidades de trabalhos voluntários para crianças e jovens, diminuir a burocracia que inibe tantas pessoas que querem fazer o bem e estudar mecanismos de incentivos fiscais que canalizem as doações para áreas prioritárias. Com isso acredito que temos o melhor dos dois mundo.

 
*Renata Velloso é médica e autora do Bulle de Beauté e também é responsável pelo projetoDoctors on the Cloud . Para saber mais sobre ela  clique aqui.
4 Comentários leave one →
  1. 12/06/2015 11:03

    Por isso que tantos artistas do show bizz fazem tantas doações: ficam com a imagem santificada na mídia (bom para a fama) e tem uma devolução do imposto de renda (bom para o bolso). Mas como você mesma disse: nÃo necessariamente bom para o desevolvimento da sociedade em geral.
    Doações são facas de dois “legumes”(rs rs). Eu venho refinando meu pensamento nos últimos anos a respeito disso, desde que vivo na Holanda (um dos maiores doadores de causas internacionais, junto com o Canadá e Japão). Assunto para um post. Sem falar que a doação feita por milionários para institutos de pesquisa, universidades, etc. podem vir com certas “condições”: direcionar tal pesquisa para tal resultado de caráter duvidoso, justificar a alocação de recursos para fins questionáveis, privilegiar uma linha de conduta discutível, etc..

  2. 12/06/2015 11:23

    Muito interessante. Até então eu não havia parado pra pensar no lado nem tão bonito.

  3. 12/06/2015 15:10

    No Brasil, “doações” acabam sendo patrocínios para grandes eventos e esporte, pra não dizer futebol, que dão grande visibilidade às marcas que expõem. E não vai muito além disso….
    Até a turnê de um cantor sertanejo acaba recebendo “apoios” de R$500.000 como projeto cultural, enquanto milhares de brasileiros nem sequer tem acesso à cultura. Esse mesmo dinheiro seria mais que suficiente para manter muitos projetos culturais em bairros carentes, por exemplo.

  4. Arlete Dotta permalink
    13/06/2015 9:14

    Oi Renata, o seu ponto de vista é muito interessante, eu nunca tinha visto a coisa desse ângulo. Aqui na Suíça existe um apelo enorme à doações e, fica muito difícil saber como ajudar, até porque muitas instituições gastam até muito mais com a parte administrativa do que ajudando quem precisa de verdade. Acho que a possibilidade de conhecer bem a instituição que se quer ajudar e refletir sobre quais valores se quer apoiar, são muito importantes. Mesmo o trabalho voluntário sendo talvez a melhor variante pra ajudar o próximo, até aí existem controvérsias de empresas que se aproveitam da boa vontade dos voluntários que pagam um montão de dinheiro para participar de “programas solidários” em países pobres exercendo alguma tarefa, sem que a população local chegue a receber os benefícios. :-/
    Não é fácil, não.

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