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Entendendo um pouco do sistema de castas

16/06/2015

bz_indiaAndré Fernandes – Índia

 

A sociedade indiana se distingue, entre muitos atributos, pelo sistema social dividido por castas, baseada nas narrativas da religião hindu, seguida por 80% da população indiana. São 5 grupos principais de castas – brâmanes, xátrias, vaisias, sudras e dalits/párias – que se subdividem em outras milhares e, assim, totalizam nos dias de hoje mais de 6.000 castas.  Um resumo dos 5 grupos de castas:

Divisão das castas na sociedade indiana

Descrição do sistema de castas na Índia. Imagem extraída do site http://amora2013india.pbworks.com/

  • Brâmanes: o mais alto grupo de castas, agrupa funções ligadas ao sacerdócio da religião hindu e às atividades intelectuais
  • Xátrias: grupo mais alto após os brâmanes, agrupa as funções ligadas ao militarismo e à guerra
  • Vaisias: agrupa castas associadas às funções de comércio e negócios
  • Sudras: agrupa as castas associadas aos trabalhos manuais e operacionais
  • Dalits/Párias: grupo sem casta, literalmente à margem da sociedade

Longe de ter a intenção de descrever todas estas castas, quero compartilhar o que pude perceber quando vivi na Índia durante 2012 e esclarecer eventuais curiosidades. A casta é como uma classe social, mas herdado de nascimento. Um cidadão indiano nasce numa casta e morre na mesma casta, como muito já se comenta, independente de quanto rico e famoso possa se tornar um dia.

A casta determina, de fato, a vida de um cidadão indiano: o leque profissões a seguir, as perspectivas de carreira, o capital social, o poder e as conexões individuais, com quem casar, o estilo de vida, onde morar, etc. Além de diferentes papéis sociais, as castas também tem diferentes valores e mentalidades, o que não costuma ser percebido por estrangeiros.

Pelo mundo afora, costuma-se cultivar aquela imagem de indianos associados a yoga, paz, amor, de que não são materialistas, santos e religiosos… Bom, deu de fantasias, em qualquer lugar, as pessoas são humanas, e existem boas e más pessoas, certo? Para isso, também é fundamental entender as sutilezas do sistema de castas.

Aquela Índia de paz e amor, roupas brancas, espiritualidade, religiosidade, yoga, harmonia, cuidar da mente, valorização do intelecto diz respeito à mentalidade brâmane (casta ligado às atividades religiosas e intelectuais), o mais alto grupo de castas, e o mais poderoso. Justamente pelo poder desta casta, o pensamento brâmane vem ditando os paradigmas da sociedade indiana desde os tempos que as escritas do Vedas se estabeleceram até os dias de hoje.

Do outro lado, a Índia moderna tem se projetado em valores associados à honra, glória, ação, que traduzem a mentalidade xátria (casta associada a guerreiros e militares); retratados até pelas estrelas de Bollywood e pelos astros do críquete, o esporte mais popular no país. Além de ser uma sacada e tanto, a diferença entre os pensamentos brâmane e xátria retratam um dos principais códigos culturais atualmente em vigor na Índia.

Casta não se compra, e numa sociedade orientada por poder, o dinheiro por si só nada significa. Até nos negócios, indianos costumam ser emocionais e intuitivos, a ponto de negarem vender um produto/serviço caso não forem com a sua cara, ou colocar o preço lá em cima. Bom lembrar que as castas que agrupam as funções de comércio e negócios não estão entre as mais altas. Até escrevi um post sobre isto, o cliente quer comprar e o vendedor não quer vender, isso mesmo? Pois é, isto mesmo! E para empresas que importarem da Índia, não tomar nenhuma decisão sem inspecionar os materiais, se não… existe uma grande probabilidade de abrir o contêiner/embalagem e ver algo diferente do que foi prometido.  E aí, quem paga o prejuízo? O que fazer com um contêiner carregado de materiais que nenhum cliente seu vai comprar?

Muitos indianos veem o dinheiro como um mecanismo para adquirir o que lhes proporciona conforto, desfrutar a vida com a família e amigos, como algo que passa de mão em mão. Se casta não se compra, para que focar em fazer fortuna?  Isto em nada significa que eles sejam inocentes com dinheiro! Quem já esteve lá, sabe o que falo dos cuidados nos mínimos detalhes para não ser enganado, ter que barganhar a toda hora e muita gente aparecendo no seu caminho com a mera intenção de lhe arrancar dinheiro. E a corrupção no país é massiva!

É algo mais ou menos diferente do que estamos acostumados, nem sequer sei como me posicionar a respeito.  Como brasileiro, sou de um país em que classe média está acostumada com empregada, babá, porteiro, manicure, pedicure, frentista, motoboy para entregar pizza na porta de casa, etc.  E isto também se vê na Índia. Trata-se de um sistema social milenar, com uma estrutura de poder construída ao longo de séculos, quando não alguns milhares de anos. Não se trata apenas do poder de alguns indivíduos, mas do poder e de fortunas de famílias inteiras que nada precisam fazer além de manter o que já herdaram.

Carro branco com sirene, símbolo de poder e autoridade

Carro branco com sirene vermelha, reservado a autoridades e símbolo de poder na Índia

Vi famílias que estão num determinado ramo de atividade há séculos, basta apenas falar o sobrenome delas e todo mundo sabe que eles são do ramo de jóias, do ramo X, Y ou Z.  Também vi dalits nas ruas, catando comida no lixo, trabalhando em casas no serviço doméstico por uma micharia, dormindo sentado no chão de um apartamento ou nas ruas – e condenados a esta perspectiva de vida.  Também vi pessoas que podem tudo, literalmente tudo, com dezenas de empregados nas suas casas para todas as tarefas que se imagine.

É algo que vai muito além da esfera econômica, trata-se de uma estrutura baseada em poder, e poder não é para todos.

Espero ter dado uma luz sobre este aspecto da sociedade indiana.

 

 

*André Fernandes, nascido em Santa Catarina para ser um nômade pelo mundo. Voltou ao Brasil e já está pensando nas próximas aventuras! Saiba mais sobre ele clicando aqui.

16 Comentários leave one →
  1. 16/06/2015 8:10

    Olá, André !!Acabei de receber o aviso que seu texto tinha ido ao ar! Olha, parabéns por ter falado deste assunto. Eu mesma já pensei em abordá-lo, mas ele tão, mas tão complexo que eu acabei deixando na gaveta. Sim, concordo com tudo que você escreveu, mas eu sou do time que não acredita que o sistema de castas faz parte originalmente do Hinduísmo, mas sim, foi manipulado para satisfazer interesses pessoais e políticos. No mais, as castas continuam por aqui e, mesmo que não explicitamente, tudo é muito bem definido e organizado. Um bom exemplo disso, é que muitas empregadas domésticas na Índia não aceitam limpar os banheiros, porque elas acham que isso é humilhante e deve ser feito por castas mais baixas. Por isso, muitos estrangeiros passam por um “perrengue” quando precisam contratar indianos para os vários serviços. Enfim…a Índia funciona assim há milhares de anos e, provavelmente, assim seguirá. Um abraço e parabéns pelo post!

    • André Fernandes permalink
      16/06/2015 12:44

      Pois é, o tema por si só já gera muita polêmica. Muitos indianos se sentem desconfortável, sobretudo sobre regalias, como muita gente no Brasil reage ao perguntar “por que você não limpa a sua casa em vez da empregada?”
      Sim, o sistema tem sido alvo de manipulações, que vem sendo justificadas em torno da religião. É complexo mesmo! Além de ser um pergunta constante a qualquer estrangeiro que pisa na Índia, não tenho visto muitos conteúdos claros sobre o sistema de castas além da trivial divisão de funções. Mas, fora da índia, não se tem ideia das diferenças de valores, ideais e de mentalidades entre as milhares de castas.
      Muitos tem aquela imagem fantasiosa de que indianos não são materialistas, santos e religiosos, um monte de blá, blá, blá. E não percebem como o sistema de castas implica isso.
      É um sistema milenar e só o tempo vai dizer o que será daqui pra frente!

      • 16/06/2015 13:45

        Sim, exatamente. Sem contar que eu vejo pelo minha familia, que a casta tambem funciona diretamente como a identidade cultural e etnica de uma pessoa, grupo. Cada um costuma ser muito orgulhoso de sua casta e costuma contar de onde se originaram, como evoluiram atraves dos seculos, etc. Tem algumas castas que tem ate cancoes sobre seus feitos e suas caracteristicas. Vi isso a primeira vez no carro do meu cunhado. Quando a cancao comecou a tocar, todo mundo comecou a cantar todo orgulhoso. Ai, meu esposo me contou que aquela cancao dizia “sou filho da casta tal..vim do lugar tal” e por ai vai. Imediatamente me lembrei dos hinos dos times de futebol. Uma vez Flamengo…sempre Flamengo…

  2. 16/06/2015 13:54

    Penso que o sistema e castas serve para dividir e manter a elite sendo… elite. “Cada um no seu quadrado”.
    Um colega do meu marido namorou por um tempo uma moça de origem indiana, adotada bebê por um casal de holandeses. Mil estórias sobre a viagem que ela fez a Índia com os pais adotados quando atingiu a adolescência. Mencionou que ela uma vez foi a um restaurante indiano e todos – to-dos – os comensais do lugar olhavam pra ela incomodados e com desprezo. Ela deveria ser de uma casta base ( ou talvez “intocável” ?) e eles estavam achando absurdo e indiguinados de ela estar ali naquele lugar. Pfff… Ou seja: a identificação da casta deve se dar também pela aparência física e cor da pele, já que ela (a garota indiana adotada por holandeses) fala, pensa, se veste e age como holandesa.

    • André Fernandes permalink
      16/06/2015 14:16

      Há inúmeras identificações das castas: vestimentas, acessórios como anéis, sotaque e gírias, bairro onde vive, background, etc. Estrangeiros se perdem no meio dessas milhares de percepções. É como que perceber as diferenças entre um carioca da zona sul, da zona norte, da favela, do pessoal da baixada fluminense, por exemplo.

      Na empresa onde eu trabalhava, o maior choque das pessoas que faziam os serviços domésticos foi o simples fato de eu falar com eles e agradecer quando recebia o chá, por exemplo. Foi assim durante todo o primeiro mês, depois eles se acostumaram comigo, mas os outros funcionários estranhavam mesmo. O normal era simplesmente gritar o nome de alguém naquele tom: “fulano, faz isso e aquilo pra mim!”.

  3. 16/06/2015 13:56

    De fato, sempre me intrigou essa visão da Índia pacífica e zen que alguns amigos buscam que vão pra lá quando estão cansados do consumismo e egoísmo ocidental. Acho que a trajetória de Gandhi influencia muito essa imagem parcial da cultura indiana. Isso contrasta bastante com algumas cenas no filme slumdog millionaire, por exemplo ou outros do estilo Bollywood ou com as manchetes de jornal sobre preconceito e estupro.
    Se pra quem esteve na Índia é complexo, imagine pra quem, da cultura indiana, só conhece alguns dos deliciosos pratos típicos, pratica yoga há pouco tempo e tem alguns vizinhos indianos (uma, inclusive, é cristã).
    Embora, não tenhamos castas (declaradas) no Brasil, isso me lembra a socidade lá. Não é nada fácil “subir na vida” na nossa pátria-amada-idolatrada-salve-salve.
    Obrigada por compartilhar!

    • André Fernandes permalink
      16/06/2015 14:08

      Oi Arlete, o Gandhi era brâmane, logo, ele inspirou os ideais desta casta. O slumdog millionaire já mostra um das tantas faces das favelas, como no Brasil, cada grande favela é um mundo à parte com uma cultura própria.
      Mesmo no Brasil, o “subir na vida” tira da zona de conforto, minha família veio “do nada” também, apesar de não ser rica. É fácil comprar carro, fazer casa, etc. Agora, mudar de mentalidade e adaptar a outras regras sociais, é algo que faz muita gente não dar nenhum passo pra frente. Basta olhar as diferenças entre o primo pobre e o primo rico, ainda que vivam na mesma cidade.

  4. 16/06/2015 15:31

    Que massa André. Conteúdo incrível. Amei a forma que você descreveu seu conteúdo.

  5. david permalink
    17/06/2015 20:44

    O estrangeiro que vai morar na Índia também entra neste sistema de castas ou ele simplesmente é considerado alguém que esteja fora do sistema ?

    • André Fernandes permalink
      17/06/2015 20:59

      Oi David, estrangeiro não tem casta, é algo que com certeza dificulta a inserção de um estrangeiro na sociedade indiana. Uma coisa é fazer intercâmbio e saber que vai ficar somente por um curto período. Agora, viver lá toda uma vida e lidar com a burocracia indiana, casar, arrumar um imóvel para morar, já complica.
      Estrangeiros costumam ter um tratamento VIP, chegam até ficar “famosinhos”, mas não é nada que lhes dêem poder. Pelo contrário, são até usados se não ficarem ligados.

  6. 26/06/2015 12:52

    oi André,

    abordar temas polêmicos sempre demanda uma ousadia especial, que valorizo e admiro. Parabéns pela iniciativa. Não se trata simplesmente de dizer ‘na India existe o sistema de castas’ (o que é isso?) mas de abrir a percepção dos leitores a propósito do que isto significa na prática, dentro do nosso mundo capitalista-não-zen.

    em princípio acho incrível que, após tantas e tantas gerações, este sistema ainda continue vigendo oficialmente naquele país. No entanto, além do que o engessamento social que isto significa na vida de cada um, existe a hipocrisia, a ‘absorção’ de atitudes de outras culturas, sempre que conveniente. Ou entendi mal?…

    estrangeiro não tem casta? olha…será que estrangeiro milionário é tratado igualito aos outros, os ‘párias’ descatados? I doubt it.

    valeu, muito bom ter lido teu post.

    • André Fernandes permalink
      26/06/2015 13:10

      Oi Touché, realmente o assunto casta é polêmica e na Índia causa tanto constrangimento quanto falar de sexo numa mesa de jantar. É muito complexo mesmo, porque mas milhares de castas são um monte de “mundinhos diferentes” com culturas, mentalidade e até deuses próprios.

      Estrangeiro não tem casta. O curioso é que na Índia é cool/chique andar com estrangeiros. Gringos costumam ser assediados para festas, eventos, convites no status de VIP. Por que? A pele branca é encarada como algo exótico, um padrão de beleza acima da média. Então, estar cercado de gringos e, principalmente de gringas, é como um requisito para bancar o rei do camarote. E “agrega valor”, umas 20 estrangeiras num bar, por exemplo, possibilitam cobrar altos preços pelas entradas e a rapaziada paga…

      Agora, para estrangeiro inserir na sociedade indiana é difícil, mesmo sendo milionário. A burocracia indiana já é de matar, as autoridades são corruptas e você tem que ter conexões para tudo. Tudo lá é poder, e às vezes o único jeito é você entrar em contato com alguém influente para dar um jeitinho. Até para alugar uma casa, você tem que provar até o background social ou contar com a ajuda de locais. Eu tinha planos de renovar o meu visto, providenciei todos os documentos e não rolou porque eles queriam propinas. Já que eu reclamo da corrupção no Brasil, não vou fazer o mesmo em outros lugares e nem quero ficar de rabo preso com ninguém

      • 27/06/2015 16:42

        oi André,

        que confusão, parece outro mundo. E é. E é?
        ou será que corrupção é produto globalizado, mais bem aceito em alguns mercados???

        de qualquer forma, o que você escreveu no final me transportou ao que vivi, quando fui para a Australia, anos atrás. A possibilidade de ficar lá ilegalmente era sedutora e super fácil, mas não coaduna comigo.

        a propósito dos motivos para ter partido e voltado ao BR foram objeto de um ‘Ponto de Vista’ que a Veja publicou. Se vc se interessar em ler, avise e te mando.

        abraço solidário,

      • André Fernandes permalink
        28/06/2015 0:02

        Oi Touché,

        Sim, é outro mundo em todos os aspectos. A corrupção existe em todo mundo, claro, mas é mais aceita em alguns países que outros. No caso da Índia, poder é o que decide o que acontece e não acontece. Pode me mandar a reportagem da Veja.

        Fui à Índia para intercâmbio e tinha plano de ficar mais 1 ano para conhecer melhor o mercado indiano e fazer alguma ponte com o Brasil. Daí, acabei indo da Índia ao Egito, aí já é outra história. Olhando para trás, foi melhor ter sido como foi, não sei se eu sairia da Índia vivendo lá por uns 2 anos. Não é um país onde me vejo casando e tendo uma família, a minha mentalidade não bate com a de lá. Por ter ido para ficar por um período, é bem sossegado se comparar com a situação de estar lá casado e ter lidar com a burocracia indiana, etc.

        Estou para sair do Brasil de novo – vou estudar na Suíça nos próximos 3 anos – e toda esta experiência me serviu de preparação. Se volto ao Brasil, não sei. Eu gosto do Brasil, mas além do meu objetivo de construir meu futuro profissional em viagens e turismo, tem uma mulher na história num outro país… aí, tem muita aventura pela frente. Vamos ver o que acontece!

      • 28/06/2015 11:14

        oi André,

        então brevemente seremos ‘vizinhos’, né? espero ter o prazer de te conhecer pessoalmente.
        então, para que eu te envie o texto da Veja, me mande um email, tá? desde já, teus comentários serão muito benvindos.
        inté!

      • André Fernandes permalink
        28/06/2015 19:24

        Sim, vizinhos, a nossa percepção de distância é bem diferente da dos Europeus, nós no Brasil acostumados a viajar horas sem atravessar um mesmo estado.
        Pode mandar o texto da Veja no meu e-mail: andref.anjos@gmail.com.
        Abraços!

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