bz_indiaAndré Fernandes – Índia

 

A sociedade indiana se distingue, entre muitos atributos, pelo sistema social dividido por castas, baseada nas narrativas da religião hindu, seguida por 80% da população indiana. São 5 grupos principais de castas – brâmanes, xátrias, vaisias, sudras e dalits/párias – que se subdividem em outras milhares e, assim, totalizam nos dias de hoje mais de 6.000 castas.  Um resumo dos 5 grupos de castas:

Divisão das castas na sociedade indiana

Descrição do sistema de castas na Índia. Imagem extraída do site http://amora2013india.pbworks.com/

  • Brâmanes: o mais alto grupo de castas, agrupa funções ligadas ao sacerdócio da religião hindu e às atividades intelectuais
  • Xátrias: grupo mais alto após os brâmanes, agrupa as funções ligadas ao militarismo e à guerra
  • Vaisias: agrupa castas associadas às funções de comércio e negócios
  • Sudras: agrupa as castas associadas aos trabalhos manuais e operacionais
  • Dalits/Párias: grupo sem casta, literalmente à margem da sociedade

Longe de ter a intenção de descrever todas estas castas, quero compartilhar o que pude perceber quando vivi na Índia durante 2012 e esclarecer eventuais curiosidades. A casta é como uma classe social, mas herdado de nascimento. Um cidadão indiano nasce numa casta e morre na mesma casta, como muito já se comenta, independente de quanto rico e famoso possa se tornar um dia.

A casta determina, de fato, a vida de um cidadão indiano: o leque profissões a seguir, as perspectivas de carreira, o capital social, o poder e as conexões individuais, com quem casar, o estilo de vida, onde morar, etc. Além de diferentes papéis sociais, as castas também tem diferentes valores e mentalidades, o que não costuma ser percebido por estrangeiros.

Pelo mundo afora, costuma-se cultivar aquela imagem de indianos associados a yoga, paz, amor, de que não são materialistas, santos e religiosos… Bom, deu de fantasias, em qualquer lugar, as pessoas são humanas, e existem boas e más pessoas, certo? Para isso, também é fundamental entender as sutilezas do sistema de castas.

Aquela Índia de paz e amor, roupas brancas, espiritualidade, religiosidade, yoga, harmonia, cuidar da mente, valorização do intelecto diz respeito à mentalidade brâmane (casta ligado às atividades religiosas e intelectuais), o mais alto grupo de castas, e o mais poderoso. Justamente pelo poder desta casta, o pensamento brâmane vem ditando os paradigmas da sociedade indiana desde os tempos que as escritas do Vedas se estabeleceram até os dias de hoje.

Do outro lado, a Índia moderna tem se projetado em valores associados à honra, glória, ação, que traduzem a mentalidade xátria (casta associada a guerreiros e militares); retratados até pelas estrelas de Bollywood e pelos astros do críquete, o esporte mais popular no país. Além de ser uma sacada e tanto, a diferença entre os pensamentos brâmane e xátria retratam um dos principais códigos culturais atualmente em vigor na Índia.

Casta não se compra, e numa sociedade orientada por poder, o dinheiro por si só nada significa. Até nos negócios, indianos costumam ser emocionais e intuitivos, a ponto de negarem vender um produto/serviço caso não forem com a sua cara, ou colocar o preço lá em cima. Bom lembrar que as castas que agrupam as funções de comércio e negócios não estão entre as mais altas. Até escrevi um post sobre isto, o cliente quer comprar e o vendedor não quer vender, isso mesmo? Pois é, isto mesmo! E para empresas que importarem da Índia, não tomar nenhuma decisão sem inspecionar os materiais, se não… existe uma grande probabilidade de abrir o contêiner/embalagem e ver algo diferente do que foi prometido.  E aí, quem paga o prejuízo? O que fazer com um contêiner carregado de materiais que nenhum cliente seu vai comprar?

Muitos indianos veem o dinheiro como um mecanismo para adquirir o que lhes proporciona conforto, desfrutar a vida com a família e amigos, como algo que passa de mão em mão. Se casta não se compra, para que focar em fazer fortuna?  Isto em nada significa que eles sejam inocentes com dinheiro! Quem já esteve lá, sabe o que falo dos cuidados nos mínimos detalhes para não ser enganado, ter que barganhar a toda hora e muita gente aparecendo no seu caminho com a mera intenção de lhe arrancar dinheiro. E a corrupção no país é massiva!

É algo mais ou menos diferente do que estamos acostumados, nem sequer sei como me posicionar a respeito.  Como brasileiro, sou de um país em que classe média está acostumada com empregada, babá, porteiro, manicure, pedicure, frentista, motoboy para entregar pizza na porta de casa, etc.  E isto também se vê na Índia. Trata-se de um sistema social milenar, com uma estrutura de poder construída ao longo de séculos, quando não alguns milhares de anos. Não se trata apenas do poder de alguns indivíduos, mas do poder e de fortunas de famílias inteiras que nada precisam fazer além de manter o que já herdaram.

Carro branco com sirene, símbolo de poder e autoridade

Carro branco com sirene vermelha, reservado a autoridades e símbolo de poder na Índia

Vi famílias que estão num determinado ramo de atividade há séculos, basta apenas falar o sobrenome delas e todo mundo sabe que eles são do ramo de jóias, do ramo X, Y ou Z.  Também vi dalits nas ruas, catando comida no lixo, trabalhando em casas no serviço doméstico por uma micharia, dormindo sentado no chão de um apartamento ou nas ruas – e condenados a esta perspectiva de vida.  Também vi pessoas que podem tudo, literalmente tudo, com dezenas de empregados nas suas casas para todas as tarefas que se imagine.

É algo que vai muito além da esfera econômica, trata-se de uma estrutura baseada em poder, e poder não é para todos.

Espero ter dado uma luz sobre este aspecto da sociedade indiana.

 

 

*André Fernandes, nascido em Santa Catarina para ser um nômade pelo mundo. Voltou ao Brasil e já está pensando nas próximas aventuras! Saiba mais sobre ele clicando aqui.