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Homossexualidade na Holanda

22/06/2015

bz_holandaAna Fonseca – Holanda

Como todos os autores do BZ acompanham as notícias do Brasil, estamos todos muito tristes em ouvir especialmente os relatos de tortura e morte de homossexuais que a imprensa vem trazendo ao público ultimamente. Decidimos relatar um pouco aqui no blog como é a situação em relação à diversidade sexual e aceitação da sociedade nos países que vivemos.

Na Holanda gays e lésbicas tem todos os direitos garantidos quanto a casamento, adoção de crianças, etc. . Os holandeses “blank” (que são descendentes há gerações de holandeses brancos) são extremamente tolerantes a qualquer expressão de sexualidade. Eles tem imenso respeito à individualidade e estilo de vida de cada um. Aprendem isso com os pais e com a escola. Mesmo os mais religiosos (potestantes)  são discretos – e mesmo que não concordem com a expressão e sexualidade de um amigo, membro familiar, etc. não expõem sua opinião, crítica e julgamento.

De boer

Os irmãos e jogadores famosos de futebol Frank (gay) e Ronald De Boer (hetero). Frank tem um parceiro fixo, amor de juventude. O Ronald era casado e com filhos quando do dia pra noite largou a família para ficar com outra com quem já tinha um filho. Ah, a vida dupla de um cara super safado. 

Os holandeses são muito francos em questões como sexualidade e os pais muito confiantes e solícitos com as perguntas dos filhos. Na televisão há programas onde pode ser que um casal gay apareça onde querem comprar ou decorar uma casa nova, reformar o jardim etc. Ou programas infantis que mostram crianças que optaram por mudar de nome, roupa e penteado para o sexo oposto. São programas legais, para todo tipo de público e que passam durante o dia – e que eu vejo isso com meus filhos sem constrangimentos.  Comento com meu filho: “Hey, um programa com um casal de homos (gays masculinos em holandês são chamados assim). Você já sabe o que é um homo ?” Ele respondeu: “Já, numa aula na escola. Homens que gostam de outros homens. E mulheres que gostam de outras mulheres são ‘lesbisch‘”. Simples assim. Não há espaço nem se perde tempo com risinhos, comentários depreciativos, explicações profundas, julgamento. As crianças tem que estar preparadas para saber viver no mundo com suas diversidades. Logo logo meus filhos verão que alguns amigos são homossexuais, e mais tarde colegas de trabalho, vizinhos, patrões, parentes, etc..

Eu acho legal na Holanda que pessoas famosas não escondem sua identidade ou preferência sexual. Há pessoas poderosas em várias áreas que não fazem segredo de suas opções e natureza sexual.

Geert willem

Acima, o apresentador Geert-Willem Overdijkink agora prefere ser chamado de “Monica”. Foto via Rijnmond.nl

Story

Story2

Outro apresentador de TV (programa “Het beste idée van Nederland”, o Erland Bakkers, agora prefere ser chamado de Erlynne Bakkers. Ele já deu entrevistas muito comoventes sobre o assunto da sua tranformação para algumas revistas holandesas.  Fotos via Story.nl

A Holanda tem uma grande população de estrangeiros. Essas pessoas trazem para dentro do país uma outra visão de mundo. Os turcos me parecem uma comunidade super discreta, assim como os indonésios. São trabalhadores, estudiosos e procuram se integrar na medida do possível. Agora, as comunidades que dão trabalho e causam desconforto é a de antilhanos e marroquinos. São também comunidades muito fechadas e com vários aspectos retrógrados. É constante na imprensa a tensão que a sociedade vive principalmente em relação aos marroquinos, que tem muita aversão a vários valores ocidentais. Não raro lemos na imprensa relatos de grupos de jovens marroquinos que espancam homossexuais na saída de clubes e parques nas grandes cidades, ou assassinatos ou bullying de colegas na escola, etc.. Isso é uma triste realidade de uma faixa da sociedade e que deixa os holandeses de cabelo em pé.

Homo  Revista holandesa de sucesso:  “L’Homo”. Na capa, sempre famosos assumidos.

Como eu trabalhei muito tempo na área de turismo e hotelaria, eu tive muitos colegas gays (homens e mulheres). Ouvi muitos relatos de festas que frequentavam, dos amores/casos que tiveram e também do preconceito que sofreram nos seus países de origem, tentativas de suicídio por rejeição da família… Cheguei a ouvir de primeira mão muitos anos atrás o relato de um colega italiano gay que ao sair da casa de amigos em Amsterdam durante a madrugada foi seguido por um grupo de surinameses/antilhanos que o achincalharam verbalmente pelo modo como andava, a seguir o espancaram e roubaram. Isso em pleno anel de canais da cidade européia mais famosa por sua comunidade gay. Ele ficou sem chaves de casa, sem tíquetes para o bonde e foi se arrastando até um bureau de polícia. Foi desacreditado pelos agentes de polícia, foi desacreditado dias mais tarde no nosso trabalho. Ficou com um joelho danificado pro resto da vida.

Concluo que em todo país, por mais avançado e tolerante que seja,  há grupos de pessoas ignorantes e agressivas que querem infernizar a vida de minorias. Essas pessoas merecem investigação e julgamento. As vítimas merecem justiça. A sexualidade da natureza humana é complexa, e a homossexualidade apenas um fragmento diante de tantas expressões (só os homossexuais são 7% – 10% de todas as populações, de qualquer cultura “primitiva”ou “avançada”). Sugiro a quem queira se aprofundar sobre esse assunto (homossexualismo, bissexualismo, identidade de gênero, orientação afetiva-sexual,estereótipos e pressões sociais, etc.) a ler o livro do médico psiquiatra brasileiro Dr. Ronaldo Pamplona da Costa “Os 11 Sexos”.  Procure via Google, vale muito a pena.

E para terminar, para saber como a expressão de afeto, auto-imagem e sexualidade são discutidos na escolas holandesas acesse o seguinte link (em inglês, interesantíssimo):

http://www.collective-evolution.com/2015/06/22/in-the-netherlands-sex-education-starts-in-kindergarten-heres-what-they-tell-them-why/

—————————-

Ana Fonseca é carioca e mora na Holanda desde 1999. Acesso o twitter dela via: @AnnaGFH Fotos dela e dos autores do BZ via Instagram: http://www.instagram.com/blogbrasilcomz

17 Comentários leave one →
  1. 22/06/2015 11:37

    Que otimo post, Ana! Gostei muito de saber que este assunto eh abordado e ensinado nas escolas. Que maravilha! No Japao as pessoas tambem nao costumam comentar nem fazer piadas, ainda mais porque la eh meio dificil de saber, ja que a maioria dos homens parecem mais afeminados que os ocidentais. Mas, creio que respeito tem que estar acima de dogmas religiosos, sempre. Que bom saber que seus filhos crescerao em um local onde as diferencas sao respeitadas. Um abraco e tudo de bom!

    • 22/06/2015 12:10

      Sabe o que eu acho interessante da Holanda Juliana ? É que você não necessariamente precisa compreender 100% algo para aceitar. Isso se chama “ser tolerante”. Isso é uma escolha que cada um precisa fazer para saber viver num país civilizado. Pensa que não tem muita gente aqui super evangélica que condena isso (homossexualidade, troca de gênero) ? Só que não soltam um comentário, não fazem bico se estão em círculo privado ou no trabalho. Se vc não aceita algo devido à dogmas religiosos etc. isso é um assunto privado que só diz respeito a vc mesmo (conversa intrapessoal). Viver numa sociedade civilizada é uma escolha que deve ser reinforçada constantemente.

      • 22/06/2015 12:17

        Exatamente. Eu tambem sou crista, protestante, mas acima de tudo, eu creio em um dos maiores ensinamentos cristaos que diz: “Nao julgueis para que nao sejais julgados, pois com o criterio que julgardes, sereis julgados”. Isso vale para tudo, a comecar pela religiao e opcao sexual. Fiquei muito triste quando ouvi noticias de que no Brasil estao matando gays, apedrejando criancas que seguem o Candomble e cuspindo em muculmanos. Nem na India, onde muculmanos e hindus nao se toleram e tem um historico de guerras e violencia, eles nao se comportam desta forma selvagem. Triste mesmo….

      • 22/06/2015 12:36

        As vezes duvido do Brasil ser um país ocidental. É um país de cultura Latina-miscigenada que adotou alguns valores ocidentais sem nunca te-los processado, e totalmente fora do contexto histórico em que foram produzidos. Não houve Revolução industrial no Brasil, houve industrialização de algumas áreas. Não houve Inquisição, recebeu ciganos e judeus que fugiram da Inquisição de Portugal. Também não houve Reforma e Contra Reforma religiosa, apenas recebeu ecos da Europa. Várias questões que já foram processadas há séculos atrás, principalmente na Europa, no Brasil estão em ebulição agora – de modo ilogico e desorganizado. O estado brasileiro está longe, muito longe de ser laico. Você vai a um Fórum de Justiça, a um cartório ou uma delegacia de policia e tem um crucifixo na parede. At’e em banco tem crucifixo na parede. Eu fui criada como católica, mas nunca gostei de ver símbolos de religiosidade em lugares públicos.

      • 22/06/2015 13:04

        Sim, Ana, voce disse tudo! Eu tambem sempre achei muito estranha esta definicao que temos de “estado laico” sendo que o crucifixo esta em todos os locais!! Se eh para se assumir como um pais cristao extremista, entao que assuma, mas que nao fique em cima do muro. Se tem uma coisa que eu nao gosto eh que quando as regras nao sao claras. Sempre me sentia orgulhosa de ser brasileira, ja que sempre considerei nosso povo tolerante e naquele estilo de “cada um no seu quadrado”, mas nao sei o que deu no povo nos ultimos anos!As coisas estao saindo do controle, as pessoas estao extremamente agressivas e nao aceitam a opiniao do outro caso seja diferente da sua. Vejo isso atraves dos comentarios dos blogs (do meu e outros) e dos videos no Youtube. Mas, eu, como educadora, ainda acredito que isso pode ser mudado comecando com uma boa e urgente reforma educacional!!!Beijos!

      • 22/06/2015 14:09

        Falta educação de massa de alta qualidade no Brasil, que inclua princípios de filosofia e bons estudos sociais. Mas um povo educado, questionador e de pensamento livre não interessa a ninguém, pois abala o status quo.

  2. André Fernandes permalink
    22/06/2015 12:59

    No Brasil, além dos crucifixos, algumas igrejas e pastores vem ganhando espaço no congresso. Nada contra nenhuma religião e sem querer generalizar, o que me preocupa é que muitas igrejas protestantes vem demonstrando uma linha bem intolerante e, onde são maioria, simplesmente impõem sua opinião.

    Sobre o comportamento de imigrantes marroquinos na Holanda, me faz lembrar os egípcios, que são também retrógrados (sem querer generalizar) e passionais com o que é diferente do que estão acostumados. Como a sociedade holandesa vem discutindo isso, de receber imigrantes não muito abertos ao diferente?

    • 22/06/2015 13:41

      Eles tentam de tudo. Principalmente aprovando (e dando treinamento) a líderes de comunidades marroquinas que falam “a mesma língua” dos jovens problemáticos. Esses líderes (ex.: marroquinos filhos da primeira geração que veio trabalhar aqui e que “venceu” na vida) funcionam como amortecedores entre as idéias radicais dos grupos e a regras de sociedade holandesa. Há que se ver que diferentemente da Alemanha que recrutou nos anos 60 trabalhadores turcos e marroquinos nas grandes cidades, a Holanda recrutou no interior dos países. Então praticamente entraram aqui para trabalhar nas indústrias segmentos da população desses países que já eram discriminados no Marrocos (grupos bérberes) e Turquia (curditaneses, etc.), gente analfabeta que trabalhava no campo, refugiados ou agricultores que não conheciam o estilo de vida urbano. Difícil, muito difícil a integração desses grupos.

      • André Fernandes permalink
        22/06/2015 19:09

        Sim, imagino o quanto é difícil. Mesmo nas áreas urbanas, o pessoal no Oriente Médio já não é muito aberto.

  3. 22/06/2015 13:53

    E tem mais: quando marroquinos cometem crimes violentos, de intolerância religiosa ou homofobia, a imprensa holandesa para evitar uma ” caça às bruxas”, manifestações e proteger a identidade do criminoso não publica o sobrenome dele. So isso já é motivo de piada para todo mundo ficar sabendo que o culpado era mesmo marroquino.. Foi o caso do criminoso Mohammed B. que matou a facadas e a luz do dia o jornalista e cineasta Theo van Gogh na rua. Que te diz a origem de uma pessoa que se chama… ” Mohammed B.”?

  4. 22/06/2015 14:12

    Excelente post, super informativo e educativo.

  5. Frank permalink
    23/06/2015 11:48

    Oi Ana parabéns pelo artigo abordado.
    Só um comentário, acredito que tenha se enganado ao mencionar a homossexualidade do Frank de Boer que, por infelicidade deu uma entrevista com tom homofóbico ao programa POW e depois tentou se desculpar no ano passado, se não me engano.

  6. 23/06/2015 13:46

    Muito bom post ,parabéns.Seria ótimo que os outros autores da página contassem para nós como é encarado o assunto nos respectivos países onde vivem.A Holanda me surpreendeu muito positivamente. Abraços.

  7. 27/07/2015 1:00

    Olá muito interessante o texto,pq o italiano gay foi desacreditado na polícia? Ele foi agredido e não teve atendimento policial?
    Bjos

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