bz_holandaAna Fonseca – Holanda

Como todos os autores do BZ acompanham as notícias do Brasil, estamos todos muito tristes em ouvir especialmente os relatos de tortura e morte de homossexuais que a imprensa vem trazendo ao público ultimamente. Decidimos relatar um pouco aqui no blog como é a situação em relação à diversidade sexual e aceitação da sociedade nos países que vivemos.

Na Holanda gays e lésbicas tem todos os direitos garantidos quanto a casamento, adoção de crianças, etc. . Os holandeses “blank” (que são descendentes há gerações de holandeses brancos) são extremamente tolerantes a qualquer expressão de sexualidade. Eles tem imenso respeito à individualidade e estilo de vida de cada um. Aprendem isso com os pais e com a escola. Mesmo os mais religiosos (potestantes)  são discretos – e mesmo que não concordem com a expressão e sexualidade de um amigo, membro familiar, etc. não expõem sua opinião, crítica e julgamento.

De boer

Os irmãos e jogadores famosos de futebol Frank (gay) e Ronald De Boer (hetero). Frank tem um parceiro fixo, amor de juventude. O Ronald era casado e com filhos quando do dia pra noite largou a família para ficar com outra com quem já tinha um filho. Ah, a vida dupla de um cara super safado. 

Os holandeses são muito francos em questões como sexualidade e os pais muito confiantes e solícitos com as perguntas dos filhos. Na televisão há programas onde pode ser que um casal gay apareça onde querem comprar ou decorar uma casa nova, reformar o jardim etc. Ou programas infantis que mostram crianças que optaram por mudar de nome, roupa e penteado para o sexo oposto. São programas legais, para todo tipo de público e que passam durante o dia – e que eu vejo isso com meus filhos sem constrangimentos.  Comento com meu filho: “Hey, um programa com um casal de homos (gays masculinos em holandês são chamados assim). Você já sabe o que é um homo ?” Ele respondeu: “Já, numa aula na escola. Homens que gostam de outros homens. E mulheres que gostam de outras mulheres são ‘lesbisch‘”. Simples assim. Não há espaço nem se perde tempo com risinhos, comentários depreciativos, explicações profundas, julgamento. As crianças tem que estar preparadas para saber viver no mundo com suas diversidades. Logo logo meus filhos verão que alguns amigos são homossexuais, e mais tarde colegas de trabalho, vizinhos, patrões, parentes, etc..

Eu acho legal na Holanda que pessoas famosas não escondem sua identidade ou preferência sexual. Há pessoas poderosas em várias áreas que não fazem segredo de suas opções e natureza sexual.

Geert willem

Acima, o apresentador Geert-Willem Overdijkink agora prefere ser chamado de “Monica”. Foto via Rijnmond.nl

Story

Story2

Outro apresentador de TV (programa “Het beste idée van Nederland”, o Erland Bakkers, agora prefere ser chamado de Erlynne Bakkers. Ele já deu entrevistas muito comoventes sobre o assunto da sua tranformação para algumas revistas holandesas.  Fotos via Story.nl

A Holanda tem uma grande população de estrangeiros. Essas pessoas trazem para dentro do país uma outra visão de mundo. Os turcos me parecem uma comunidade super discreta, assim como os indonésios. São trabalhadores, estudiosos e procuram se integrar na medida do possível. Agora, as comunidades que dão trabalho e causam desconforto é a de antilhanos e marroquinos. São também comunidades muito fechadas e com vários aspectos retrógrados. É constante na imprensa a tensão que a sociedade vive principalmente em relação aos marroquinos, que tem muita aversão a vários valores ocidentais. Não raro lemos na imprensa relatos de grupos de jovens marroquinos que espancam homossexuais na saída de clubes e parques nas grandes cidades, ou assassinatos ou bullying de colegas na escola, etc.. Isso é uma triste realidade de uma faixa da sociedade e que deixa os holandeses de cabelo em pé.

Homo  Revista holandesa de sucesso:  “L’Homo”. Na capa, sempre famosos assumidos.

Como eu trabalhei muito tempo na área de turismo e hotelaria, eu tive muitos colegas gays (homens e mulheres). Ouvi muitos relatos de festas que frequentavam, dos amores/casos que tiveram e também do preconceito que sofreram nos seus países de origem, tentativas de suicídio por rejeição da família… Cheguei a ouvir de primeira mão muitos anos atrás o relato de um colega italiano gay que ao sair da casa de amigos em Amsterdam durante a madrugada foi seguido por um grupo de surinameses/antilhanos que o achincalharam verbalmente pelo modo como andava, a seguir o espancaram e roubaram. Isso em pleno anel de canais da cidade européia mais famosa por sua comunidade gay. Ele ficou sem chaves de casa, sem tíquetes para o bonde e foi se arrastando até um bureau de polícia. Foi desacreditado pelos agentes de polícia, foi desacreditado dias mais tarde no nosso trabalho. Ficou com um joelho danificado pro resto da vida.

Concluo que em todo país, por mais avançado e tolerante que seja,  há grupos de pessoas ignorantes e agressivas que querem infernizar a vida de minorias. Essas pessoas merecem investigação e julgamento. As vítimas merecem justiça. A sexualidade da natureza humana é complexa, e a homossexualidade apenas um fragmento diante de tantas expressões (só os homossexuais são 7% – 10% de todas as populações, de qualquer cultura “primitiva”ou “avançada”). Sugiro a quem queira se aprofundar sobre esse assunto (homossexualismo, bissexualismo, identidade de gênero, orientação afetiva-sexual,estereótipos e pressões sociais, etc.) a ler o livro do médico psiquiatra brasileiro Dr. Ronaldo Pamplona da Costa “Os 11 Sexos”.  Procure via Google, vale muito a pena.

E para terminar, para saber como a expressão de afeto, auto-imagem e sexualidade são discutidos na escolas holandesas acesse o seguinte link (em inglês, interesantíssimo):

http://www.collective-evolution.com/2015/06/22/in-the-netherlands-sex-education-starts-in-kindergarten-heres-what-they-tell-them-why/

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Ana Fonseca é carioca e mora na Holanda desde 1999. Acesso o twitter dela via: @AnnaGFH Fotos dela e dos autores do BZ via Instagram: http://www.instagram.com/blogbrasilcomz