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Cerca? Só se for para o cachorro não fugir.

29/07/2015

bz_euabz_colaborador Stevan M. C. Corrêa,  colaborador de New York – EUA

Uma das coisas que mais me chamou atenção quando me mudei para os Estados Unidos foi a paisagem do subúrbio.

Eu já havia estado em Nova York, mais precisamente em Manhattan, a maior metrópole do mundo – uma ilha completamente tomada por prédios e arranha-céus, rodeando seu acolhedor e famoso parque urbano, o Central Park. Manhattan pode ser comparada a um gigantesco downtown (centro da cidade) e obviamente não tem nada a ver com o cenário encontrado nas demais cidades estadunidenses.

Quando me mudei para Oklahoma City, capital do estado de Oklahoma, ao norte do Texas, encontrei uma metrópole que sim, possui um centro da cidade com grandes prédios, um moderníssimo ginásio de basquete – casa do OKC Thunder, atualmente o segundo colocado na divisão oeste da NBA, comandado pelo astro Kevin Durant -, uma gigantesca arena de hockey (o Cox Center), um arranha-céu (a Devon Tower), um bairro inteiramente dedicado ao lazer (Bricktown), repleto de restaurantes, bares, pubs, clubs, cinemas, além dos teatros, museus, parques e comércio em geral, que existem em downtown. Mas fora do centro, nos bairros ao redor, a paisagem suburbana das horizontais áreas residenciais – nada de edifícios, sendo compostos inteiramente por casas ou, em alguns bairros, pequenos bangalôs ou lofts que lembram aqueles motéis que vemos em alguns seriados ou filmes hollywoodianos – me chamou a atenção por uma coisa a princípio, as cercas… na realidade, a falta delas. Aqui não existem cercas nas casas, a excessão são algumas que tem seus quintais cercados à no máximo a altura do peito, com o objetivo claro e simples de apenas manter os animais de estimação contidos. E, de toda forma, na frente das casas simplesmente não existem cercas. Não importa se trata-se de um bairro rico como o Heritage Hills ou um bairro pobre como o Asia District, as cercas simplesmente não existem.

Villa a venda em Heritage Hills

Villa a venda em Heritage Hills

Isso me faz lembrar da minha infância e adolescência e da mudança na paisagem urbana dos bairros residenciais da minha cidade-natal, a planejada Brasília. Quando eu era criança, me lembro de brincar na rua, de bete, piques variados, carniça, carrinho de rolemam, golzinho (com as traves feitas de chinelos), me lembro de andar de bicicleta, de ficar até tarde da noite na rua – sem que minha mãe se preocupasse com a minha segurança -, de poder atravessar livremente os blocos de apartamentos do meu “bairro”, o Cruzeiro Novo (na verdade uma cidade-satélite, ou região administrativa, do Distrito Federal que, a priori, não possui bairros) ou de simplesmente bater à porta da casa de um amigo no Cruzeiro Velho, “bairro” vizinho. Mas no início dos anos 90, por uma série de motivos que exigiriam um texto a parte para analisar e discutir, a criminalidade começou a aumentar na capital do Brasil e uma das atitudes da população foi começar a levantar cercas… em suas casas, ao redor de seus prédios… depois de alguns anos vieram os cães de guarda, as câmeras de segurança, as cercas eletrificadas, as firmas de segurança particular. Hoje, esse é o cenário das áreas residenciais do DF – com excessão dos blocos do plano piloto em que não é permitida a construção de cercas, por conta de seu tombamento histórico-cultural.

Alguém (eu realmente não lembro quem foi, me desculpem por isso) há muito tempo disse que um dia a população é que estaria atrás das grades e os bandidos estariam a solta. Infelizmente esse dia chegou. Hoje as pessoas saem a noite sob o fantasma de sofrerem um sequestro relâmpago, os adolescentes tem que tomar cuidado para não deixarem seus celulares à mostra quando tomam o transporte público, não se pode mais namorar no carro, as crianças não podem nem mais brincar na rua. Em algumas cidades brasileiras chega-se ao absurdo de você ter que andar com uma carteira e um celular sobressalentes para ter o que dar ao meliante se um te abordar, e pode acreditar que esse dia vai chegar, pois, segundo empíricas estatísticas, quem mora em uma grande cidade brasileira e nunca foi assaltado, com certeza conhece alguém que foi.

Acho que a minha geração, que eu considero como a geração da transição do mundo analógico para o digital, foi a última a poder tirar o melhor proveito desses dois momentos, de uma forma simplória: poder brincar na rua e também jogar video-game. Não que não exista criminalidade nos Estados Unidos, ou no caso, mais precisamente em Oklahoma City, existe sim – outro dia destes mesmo, ocorreu um tiroteio em um bairro vizinho ao meu. Ocorrência relativamente comum em uma típica cidade do “velho oeste” de um país em que o cidadão tem o direito constitucional de ter uma arma -, mas a taxa de criminalidade é tão menor e a confiança da população na segurança pública e no sistema judiciário é tão genuína, que ninguém vê motivo para colocar uma cerca ao redor de sua residência, um sistema de câmeras ou alarmes, e a maioria das pessoas não sente a mínima necessidade de ter uma arma ou mesmo um cão de guarda (das dezenas de cachorros que vi por aqui até hoje, apenas dois poderiam ser considerados de segurança, um pastor alemão e um pit-bull, os demais? Labradores, cockers, poodles, entre outros cães de companhia e/ou brincadeira, digamos assim). Só espero que um dia possamos ter aí no Brasil, uma sociedade justa o suficiente para que, assim como aqui nos Estados Unidos, não precisemos viver atrás das grades.

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6 Comentários leave one →
  1. 29/07/2015 12:13

    oi Stevan,

    como você frisou, a vida no Brasil foi ficando cada vez mais inviável. A corrupção impune e a falta de respeito aos direitos do povo tem causado a violência progressiva, e o cidadão quase sempre se sente impotente, acostumando-se a ficar omisso. Pena, muita pena, porque o país é belo e rico em talentos e recursos.

    a casa sem muros simboliza a tranquilidade à qual todos tem direito. O pior é que os brasileiros passaram a entender o viver com medo como sendo ‘normal’. Ai ai, triste belo Brasil.

    parabéns pelo post: muita gente não ‘ousa’ abordar temas deste tipo.

  2. 29/07/2015 12:52

    As diferenças sociais/econômicas no Brasil ainda sao imensas. Sequelas da escravidão, de politicas administrativas débeis (faltou investimento na educação de qualidade das massas durante o século passado já que isso não interessava as elites), repressão católica (coibindo o controle da natalidade), mil coisas. O resultado esta ai para quem quiser ver.

    Eu fui estudar no Rio (cidade onde nasci) no final dos anos 80, e o Rio era de uma violência alarmante. Sequestros, sequestros, sequestros. O caminho que eu tinha que fazer ate a praia de Botafogo para tomar um ônibus para voltar pra casa em Niterói a noite era perigosíssimo. Volta e meia eu ouvia falar de estupros de estudantes por mendigos que circulavam em baixo do viaduto na área da Universidade Santa Úrsula, exatamente o percurso que eu fazia. Todos os prédios tinham grades, porteiros eletrônicos, alarmes, garagem com sinal sonoro. Muita gente passou a preferir morar em casas em condomínios murados e de alta proteção, um fenômeno muito impressionante no Brasil. As estradas intermunicipais eram estradas da morte. Muita gente que tinha casa na região serrana só ia no fim de semana do Rio pra lá em comboio, com todos os amigos, vizinhos e parentes saindo ao mesmo tempo para se protegerem de ataques e chegarem juntos. Todo mundo se sentia acuado, apavorado 24h/dia; Muita gente saiu do Brasil durante todos os anos 80 e 90, época de Rock Brasil e muita critica politica.
    Hoje eu sinceramente vejo melhoras sim. Tive um hiato de 5 anos e agora de novo no Brasil passando férias vejo estradas bem melhores (apesar de não ser padrão primeiro mundo), mais tecnologia, mais acesso a produtos e serviços estrangeiros e informação. As massas andam botando a boca do trombone e discutindo de tudo, exigindo mais – e isso é fantástico. Claro que poderia fazer uma lista de coisas ruins e/ou que precisam ser ajustadas, mas não vale a pena aqui. Infelizmente, apesar dos progressos, devemos nos conformar com o fato de que as casas brasileiras vão continuar com muros, cercas altas, grades, alarmes, câmeras e portões por muitas décadas ainda.

    • Arlete Dotta permalink
      29/07/2015 13:08

      Oi Ana, o pior de tudo é que os muros altos não resolvem a situação. Volta e meia se ouve falar de um ou outro arrastão em um prédio. Atrás de muros altos, gente tem a ilusão de estar mais protegido, mas no fundo vive com medo do mesmo jeito e tenta seguir em frente como se fosse tudo normal. É muito triste. A situação de vizinhos como Argentina, Uruguai ou Chile, por exemplo, já é diferente, mesmo lá não sendo nenhum paraíso. Enquanto o abismo social continuar tão grande por conta da corrupção e a educação nas escolas públicas seguir tão ruim, não vai mudar nada. É difícil não perder a esperança…

    • 02/08/2015 2:09

      Ana, seu comentário mostrou um profundo respeito ao Brasil e as pessoas que aqui vivem. Parabéns!! O Brasil ainda tem jeito e, mesmo que a passos lentos, está caminhando… Abraço!

  3. Arlete Dotta permalink
    29/07/2015 12:56

    Oi Stevan, durante minha infância na periferia de São Paulo também pude brincar bastante com meus amigos na rua, até escurecer. Era muito legal. Infelizmente, parece que isso é cada vez menos frequente lá. Abraço

  4. André Fernandes permalink
    29/07/2015 14:48

    Como fui criado em cidade pequena, também pude brincar na rua e tudo o mais. Mesmo assim, a sensação de insegurança é evidente. Minha cidade em SC tá longe de ser violenta (muitos dos roubos na minha região tem ligação com droga) e quase todas as casas com muros, cachorro, alarme, grades na janela, etc. As pessoas estão acostumadas com isso.

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