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Stevan M. C. Corrêa,  colaborador de New York – EUA

 

Uma das coisas que mais me chamou atenção quando me mudei para os Estados Unidos foi a paisagem do subúrbio.

Eu já havia estado em Nova York, mais precisamente em Manhattan, a maior metrópole do mundo – uma ilha completamente tomada por prédios e arranha-céus, rodeando seu acolhedor e famoso parque urbano, o Central Park. Manhattan pode ser comparada a um gigantesco downtown (centro da cidade) e obviamente não tem nada a ver com o cenário encontrado nas demais cidades estadunidenses.

Quando me mudei para Oklahoma City, capital do estado de Oklahoma, ao norte do Texas, encontrei uma metrópole que sim, possui um centro da cidade com grandes prédios, um moderníssimo ginásio de basquete – casa do OKC Thunder, atualmente o segundo colocado na divisão oeste da NBA, comandado pelo astro Kevin Durant -, uma gigantesca arena de hockey (o Cox Center), um arranha-céu (a Devon Tower), um bairro inteiramente dedicado ao lazer (Bricktown), repleto de restaurantes, bares, pubs, clubs, cinemas, além dos teatros, museus, parques e comércio em geral, que existem em downtown. Mas fora do centro, nos bairros ao redor, a paisagem suburbana das horizontais áreas residenciais – nada de edifícios, sendo compostos inteiramente por casas ou, em alguns bairros, pequenos bangalôs ou lofts que lembram aqueles motéis que vemos em alguns seriados ou filmes hollywoodianos – me chamou a atenção por uma coisa a princípio, as cercas… na realidade, a falta delas. Aqui não existem cercas nas casas, a exceção são algumas que tem seus quintais cercados à no máximo a altura do peito, com o objetivo claro e simples de apenas manter os animais de estimação contidos. E, de toda forma, na frente das casas simplesmente não existem cercas. Não importa se trata-se de um bairro rico como o Heritage Hills ou um bairro pobre como o Asia District, as cercas simplesmente não existem.

Villa a venda em Heritage Hills

Villa a venda em Heritage Hills

Isso me faz lembrar da minha infância e adolescência e da mudança na paisagem urbana dos bairros residenciais da minha cidade-natal, a planejada Brasília. Quando eu era criança, me lembro de brincar na rua, de bete, piques variados, carniça, carrinho de rolimã, golzinho (com as traves feitas de chinelos), me lembro de andar de bicicleta, de ficar até tarde da noite na rua – sem que minha mãe se preocupasse com a minha segurança -, de poder atravessar livremente os blocos de apartamentos do meu “bairro”, o Cruzeiro Novo (na verdade uma cidade-satélite, ou região administrativa, do Distrito Federal que, a priori, não possui bairros) ou de simplesmente bater à porta da casa de um amigo no Cruzeiro Velho, “bairro” vizinho. Mas no início dos anos 90, por uma série de motivos que exigiriam um texto à parte para analisar e discutir, a criminalidade começou a aumentar na capital do Brasil e uma das atitudes da população foi começar a levantar cercas… em suas casas, ao redor de seus prédios… depois de alguns anos vieram os cães de guarda, as câmeras de segurança, as cercas eletrificadas, as firmas de segurança particular. Hoje, esse é o cenário das áreas residenciais do DF – com exceção dos blocos do plano piloto em que não é permitida a construção de cercas, por conta de seu tombamento histórico-cultural.

Alguém (eu realmente não lembro quem foi, me desculpem por isso) há muito tempo disse que um dia a população é que estaria atrás das grades e os bandidos estariam à solta. Infelizmente esse dia chegou. Hoje as pessoas saem a noite sob o fantasma de sofrerem um sequestro relâmpago, os adolescentes tem que tomar cuidado para não deixarem seus celulares à mostra quando tomam o transporte público, não se pode mais namorar no carro, as crianças não podem nem mais brincar na rua. Em algumas cidades brasileiras chega-se ao absurdo de você ter que andar com uma carteira e um celular sobressalentes para ter o que dar ao meliante se um te abordar, e pode acreditar que esse dia vai chegar, pois, segundo empíricas estatísticas, quem mora em uma grande cidade brasileira e nunca foi assaltado, com certeza conhece alguém que foi.

Acho que a minha geração, que eu considero como a geração da transição do mundo analógico para o digital, foi a última a poder tirar o melhor proveito desses dois momentos, de uma forma simplória: poder brincar na rua e também jogar vídeo-game. Não que não exista criminalidade nos Estados Unidos, ou no caso, mais precisamente em Oklahoma City, existe sim – outro dia destes mesmo, ocorreu um tiroteio em um bairro vizinho ao meu. Ocorrência relativamente comum em uma típica cidade do “Velho Oeste” de um país em que o cidadão tem o direito constitucional de ter uma arma – mas a taxa de criminalidade é tão menor e a confiança da população na segurança pública e no sistema judiciário é tão genuína, que ninguém vê motivo para colocar uma cerca ao redor de sua residência, um sistema de câmeras ou alarmes, e a maioria das pessoas não sente a mínima necessidade de ter uma arma ou mesmo um cão de guarda. Das dezenas de cachorros que vi por aqui até hoje, apenas dois poderiam ser considerados de segurança, um pastor alemão e um pit-bull, os demais? Labradores, cockers, poodles, entre outros cães de companhia e/ou brincadeira, digamos assim.

Só espero que um dia possamos ter aí no Brasil, uma sociedade justa o suficiente para que, assim como aqui nos Estados Unidos, não precisemos viver atrás das grades.

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