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Vale a pena ir viver num país menos desenvolvido?

07/08/2015

bz_colaborador André Fernandes – Mundo

Viver num país em desenvolvimento é uma experiência única. Eu me refiro àqueles países onde não muita gente imagina estar, aqueles literalmente fora da rota, que fazem seus familiares e amigos perguntar: “Tá louco? Tá doido?”. Eu, pelo menos, adoro estas perguntas.

Porém, viver num país em desenvolvimento não é uma experiência para todos e faço questão de ir direto ao ponto. É uma experiência que nos tira da zona de conforto, ou melhor, não tem zona de conforto! Além das aventuras, a vulnerabilidade a choques culturais é muito maior.

Mergulhar no desconhecido

Viver num país menos desenvolvido é literalmente mergulhar no desconhecido. Foto extraída do trevous.com.

Depende do seu objetivo, quem sou eu para julgar? Ainda mais em se tratando de decisões tomadas por outras pessoas.  É uma relação de amor e ódio, tudo ao mesmo tempo, lições para a vida toda que nem sempre ocorrem como gostaríamos, mas deixam marcas de qualquer forma.

No meu caso, por exemplo, eu fui para um longo intercâmbio na Índia pelo objetivo de ter uma experiência num país emergente; um curto período no Egito, para ter a vivência num país do Oriente Médio. Não são países onde me vejo vivendo, menos ainda casando dentro de suas culturas, ambos são conservadores demais para mim. Trata-se da minha opinião e das minhas escolhas, a sua escolha, por sua vez, deve ser influenciada por seus critérios. Nada mais!

Junto com os choques culturais, as incertezas que você vai enfrentar são inúmeras. Você, com certeza, vai mudar ao longo de uma experiência como esta dos pés à cabeça: seus valores, seu comportamento, sua mentalidade, seu estilo de vida, carreira, etc. Como e em qual escala? Só o tempo vai mostrar. É realmente uma loucura!

Se você não se sente confortável em lidar com – ou simplesmente pensar sobre – os seus pontos fracos, suas vulnerabilidades, as incertezas e no deixar se levar pela adrenalina; é sinal de que você não está pronto para esta experiência. Não é algo que se expressa por posts no Facebook ou no Instagram. Mesmo que faça isto, quantas pessoas vão entender o que você está vivendo?

Muitos que vivem num país emergente, ainda que por um curto período, encaram a experiência como uma transa sem camisinha: você curte na hora, mas não faria de novo. É uma frase que ouvi de um amigo ao resumir sua experiência no Paquistão.

Se você for através de um programa de intercâmbio, tomar bastante cuidado ao escolher a organização/empresa/ONG/o que seja. Não é porque você vai se desafiar e sair da zona de conforto que tem que aturar pilantragens e extorsões. Isto dá muito o que falar…

No meu caso, viver em países fora do radar me ensinou a lidar com o imprevisto, meio que viver em meio do mistério a busca de um propósito. Misterioso mesmo, não? As incertezas, por bem ou por mal, libertam nossas mentes a viver o presente e esquecer tudo o mais, inclusive nossos medos e pensamentos negativos. A vida flui quando não perdemos tempo enganando a nós mesmos. Pelo menos assim foi minha experiência, como é algo relativo a cada indivíduo, as opiniões tendem a ser diferentes.

A parte nada glamorosa que vemos em países menos desenvolvidos – pobreza, desigualdade social, corrupção, assédio sexual, etc. – também mostram que a vida continua independente dos aspectos externos: podemos sonhar, rir, viver e divertir. Importante deixar claro que não sugiro ignorar tais aspectos, que decisivamente influenciam na qualidade da experiência de qualquer pessoa nestes países e na proporção do desafio. Se não vai aguentar os desconfortos existentes num determinado local, simplesmente não vá!

É um misto de extremos: fascinante e assustador, apaixonante e irritante, momentos felizes e tristes. E para quem pensar numa aventura dessas, deve estar ciente disto. Espero ter dado uma luz!

*André Fernandes, nascido em Santa Catarina para ser um nômade pelo mundo. Voltou ao Brasil e já está pensando nas próximas aventuras! Saiba mais sobre ele clicando aqui.

15 Comentários leave one →
  1. 07/08/2015 12:00

    olha André, acho que quem vive no Brasil já se encaixa em tudo o que você comenta sobre estas experiências…ou não?

    • André Fernandes permalink
      07/08/2015 12:47

      Oi Touché,

      Depende hahahaha. Pelo menos, para mim, o Brasil é mais confortável, em comparação com outros países onde vivi. Passei a enxergar liberdades com que estava tão acostumado a ter que nem percebia o valor, o tempo passa de uma forma mais previsível.
      Já vi estrangeiros que encararam a experiência no Brasil como aventura e desconforto, como já vi outros que se adaptaram perfeitamente, depende do que cada um está acostumado e do que espera pela frente.

      • 07/08/2015 13:43

        Tua frase: ‘Não é porque você vai se desafiar e sair da zona de conforto que tem que aturar pilantragens e extorsões’.

        parece que estamos muuuuito acostumados a aturá-las…sem o glamour de estar-se em outras culturas… ou não? daí, o mundo conhecido sempre pode parecer mais ‘confortável’.

        yeah?

      • André Fernandes permalink
        07/08/2015 13:49

        Sim, estamos acostumados a aturar pilantragens e extorsões, a ver corrupção de tudo quanto é jeito. Até por isso, é mais fácil para nós perceber quando alguém quer nos enganar, arrancar dinheiro, “tirar vantagem” e saber como escapar disso. Precisei usar a malandragem para escapar de pessoas querendo propinas algumas vezes. Estrangeiros não muito acostumados com corrupção, como japoneses e escandinávios, por exemplo, acabam sendo mais inocentes muitas vezes.

      • 07/08/2015 13:59

        como sempre digo: TUDO tem um lado positivo!

  2. 08/08/2015 14:57

    Fantástico! Adorei o texto.
    Fiz um intercâmbio na Índia também e foi a melhor experiência da minha vida, me fez crescer muito e perceber o quanto a gente reclama das coisas. Esse ano quero fazer um na Argentina e, futuramente, no Paquistão. É meu sonho!

    • André Fernandes permalink
      08/08/2015 23:44

      Oi Maria,
      As experiências na Índia e no Egito também me tornaram muito mais forte e resiliente, pronto pra encarar o que der e vier.
      Ainda não estive no Paquistão, mas de quem esteve lá, ouvi que a escassez de água e os cortes diários de eletricidade tornam o cotidiano uma aventura diária. Um amigo meu chegava a ter que tomar banho de pano úmido porque ficava uns 4 dias sem sair água do chuveiro.
      Outro ponto a considerar é que se as autoridades paquistanesas vêem um visto indiano no passaporte, eles costumam encrencar pela rivalidade política dos 2 países.

      • 09/08/2015 7:37

        olha André, com todo respeito pela opinião de cada um, isso de curtir o pior prá poder se sentir melhor no ruim não faz minha cabecinha…

        sempre gostei de qualidade de vida. Ooops, parece que ‘foi maus’….?

      • André Fernandes permalink
        09/08/2015 18:52

        É Touché, vai de cada pessoa e da disposição em se desafiar. Eu passei a enxergar o Brasil de uma forma muito mais positiva depois das minhas viagens. Claro que tem muita coisa no Brasil que me angustia, mas não existe país 100% maravilhoso. Também percebi e passei a dar mais valor para as liberdades que tenho no Brasil, que jamais teria na Índia e no Egito, por exemplo.

      • 09/08/2015 19:09

        tá bom, André, quero dizer, tá bom procê. Porque eu 1) nunca tive necessidade de me desafiar/provar nada e 2) adorando viajar e descobrir, como você, feliz ou infelizmente o conhecimento que estas novas culturas tem me trazido não melhoram em nada o que sei/penso e sinto sobre o Brasil.

        talvez porque eu não ache/sinta/pense que o fato de se nascer em um lugar signifique uma ligação especial. Pode ser, afinal nascimento é consequência do acaso: a mãe da gente estava num país X no momento da gente chegar no planeta…Isso quer dizer que a gente tem que ter um vínculo especial com este lugar?

        100% é utopia, mas tem lugares onde o porcentual de qualidade de vida se aproxima mais dos 100 que outros. E prefiro os que se aproximam…

      • 09/08/2015 18:54

        Pois é, tenho dúvidas quanto a esse negócio do visto também… A rivalidade é bem forte, não sei se podem encrencar. Mas meu passaporte vence ano que vem, então de qualquer forma já vou ter tirado outro.

  3. Jenninha permalink
    09/08/2015 20:37

    Eu ainda só tive a oportunidade de conhecer os países mais desenvolvidos da Europa e os EUA. Mesmo não me deslumbrando e pensando diferentemente de alguns brasileiros que dizem “qualquer lugar é melhor que o Brasil”, tenho certeza que existe um “gap” em conhecimento por não ter ido a esses países que você já foi. Espero de verdade poder ir em breve. Eu também criei um Blog tentando passar essas experiências, http://jenninha.com e espero poder aumentar a profundidade das minhas visões e passar para o leitor quando eu visitar um país com uma situação ‘pior’ que a do Brasil. 🙂

  4. Arlete Dotta permalink
    10/08/2015 9:15

    Oi André, muito bom! Que legal essa vontade de ver o mundo de outro jeito, um outro mundo, na verdade. Acho demais! Ainda não tive nem a coragem, nem oportunidade de viajar pra um país menos desenvolvido que o Brasil, mas acredito no valor da experiência que vc fala. A visão da gente muda, a noção do que é bom e ruim também. Li há pouco, dois livros que me mostraram um pouquinho disso a distância: a biografia da Malala Yousafzai e um outro sobre histórias de vida em Cabul. Adorei os dois, pois pude ter uma visão melhor (além dos noticiários e jornais) do que anda acontecendo no Paquistão e no Afeganistão. Apesar de apreciar a vida na Suíça, sei que a realidade aqui é quase uma exceção e não a regra. Além do mais, claro que o grande problema dos países em desenvolvimento é a corrupção, mas não podemos esquecer que os países europeus exploraram e ainda exploram o quanto podem o assim chamado “terceiro mundo”. Vide a Suíça com seu polêmico (ainda atual, apesar das pressões externas) sigilo bancário recebendo dinheiro do mundo inteiro sem querer saber a proveniência.

    • André Fernandes permalink
      10/08/2015 13:13

      Oi Arlete, essas experiências mudaram muito minhas percepções.
      A corrupção é um ponto crítico e tanto e países mais desenvolvidos tem uma clara responsabilidade. Por mais pobre que um país seja, por mais precária que seja a infraestrutura, é comum ver uma minoria super-rica que vive na opulência, gastando uns US$ 3.000 ao dia em lugares finos como passatempo e todo tipo de extravagância pra mostrar poder…
      Vou adorar perguntar a suíços sobre o sigilo bancário, pois quase todo político corrupto, inclusive no Brasil, envia o dinheiro sujo por lá. E mesmo nos lugares conhecidos como os mais finos do mundo, sempre se vêem mafiosos construindo casas, investindo no local para lavar dinheiro. Isso dá muito o que falar

  5. 10/08/2015 15:20

    Isso é tão relativo ! Há gente que tem uma boa vida no Brasil, padrão primeiro mundo, e tem consciência de que vive num “país em desenvolvimento” (puro eufemismo para um país subdesenvolvido). Outras pessoas já acham que o Brasil é um paraíso, mesmo vivendo com muitas dificuldades. Acho que “escolher o melhor lugar para viver” depende da personalidade da pessoa. Nesses anos todo blogando e lendo outros sites, concluí que tem gente super fácil nos seus critérios de conforto e satisfação. Outras pessoas nunca vão estar totalmente satisfeitas em lugar nenhum (nada errado com isso). Há europeus que ficam super felizes de morar no Brasil e viver diariamente uma certa informalidade nas relações pessoais. Outros ficam malucos com o choque cultural e nunca procuram ler ou se informar para ter um contexto mais histórico dos fatos.

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