Continuando com os relatos dos nossos autores e os micos que já pagaram no exterior (veja o primeiro post aqui), hoje publicamos novos causos.

Mico 6

Juliana Paula, autora da Índia e Japão

Levanta a mão quem nunca passou por uma gafe ou pagou aquele mico durante uma viagem ou morando em outro país. 

A primeira gafe que aconteceu no Japão, foi na na hora de jogar o lixo. O sistema de separação de lixo varia de cidade para cidade.  Quando você muda de cidade, já tem que aprender outro sistema, o que é sempre muito confuso. Mas  eu sofri mais mesmo, quando cheguei no Japão em 2007 direto do Brasil e nunca tinha separado um lixo na minha vida.

Eu precisava jogar fora umas caixas de papelão e revistas e, segundo o manual que recebera da prefeitura (ou pelo o que entendi), os papelões poderiam ser todos picados e jogados no mesmo dia das revistas. Não sei se foi a falta de intimidade com o vocabulário de reciclagem, mas eu me enganei. E feio. Quando cheguei lá para jogar o lixo, já estava lá o time de inspeção, formado pelos moradores locais mesmo. Eles me disseram que aquele lixo estava errado e que não poderia ser jogado naquele dia. Eu já estava meio atrasada para o meu novo trabalho e não queria dar motivo para dizerem que todo brasileiro é “atrasildo”. O pessoal da inspeção me disse que os papelões deviam estar todos dobrados e amarrados, mas não loucamente picados daquele jeito. Nisso, diante do meu mico me bateu um pânico e eu comecei a chorar!

       Vendo o meu desespero, eles ligaram para a companhia de coleta e, naquele dia, aceitaram, como uma exceção, o meu lixo. Depois daquele mico, praticamente toda a vizinhança passou a me conhecer! Mas, a parte boa da estória é que toda vez que eu ia jogar o lixo, eles me orientavam e depois de um tempo, eu já não errava mais. Tanto que após alguns meses, comecei a ministrar cursos para os estrangeiros da cidade em como jogar o lixo corretamente! Um mico que se transformou em algo bom! 

Já na Índia…

O trem é um dos locais onde eu mais pago mico na Índia.  Eu não entendia o sistema de comunicação entre os passageiros. Geralmente, quando elas entram no trem, as indianas olham para quem esta sentado e perguntam onde a pessoa vai desembarcar. Não entendia que aquilo ali era apenas para marcar o lugar delas. Caso você desembarque antes dela, ela fica com o teu lugar. Mas, achei que a regra fosse outra e, para cada pessoa que perguntava, eu costumava levantar e ceder meu lugar, mesmo que eu só fosse descer muitas estações depois!

Outro mico, gente! Outra vez, ainda no trem, peguei o trem expresso para chegar mais rápido, mas com o tamanho da muvuca, não consegui chegar perto da porta para descer. Uma outra muvuca entrou e eu sobrei. Sendo assim, mais meia hora de trem. Ao ver meu rosto de desespero, uma indiana me disse: – “A saída para a sua estação era na porta do outro lado.” Aí, quando comecei a explicar que não era daqui, ela, mais que prontamente, anunciou para todo o vagão, que se comoveu com meu drama e abriu passagem até a porta para que eu pudesse descer na próxima estação sem maiores problemas. Além disso, ela ainda me perguntou de onde eu era, o que fazia na Índia, etc. Quando disse que era casada com um indiano, ela achou o máximo e não deixou de compartilhar com todo o vagão:    – Gente…ela é  casada com um indiano!

Aí, foi como um telefone sem fio: uma falando pra outra que eu era casada com um indiano. De repente, todos os rostos, abriram um sorriso em minha direção. Minha estação chegou e eu fui delicadamente escoltada por aquele exército indiano de saree.

Enfim…eu acho que sem micos e gafes não há adaptação! Quanto mais estória a gente tem para contar, significa que estamos mais e mais acostumados com a cultura local.

Mico1 Um que dá micos e não está nem aí é o nossos autor André Fernandes. Livre, leve, solto e desopilado ele é quem sai constrangindo os outros e sensualizando em vários continentes. Vejam os relatos dele:

 Beijo em público: na Índia, beijar em público é algo que causa choques para muitos cidadãos locais, até mesmo numa balada. Em países conservadores (não apenas na Índia), explicar a uma criatura o conceito de ” ficar com alguém”  é como explicar física quântica para leigos, não é comum o pessoal entender que é possível ter um relacionamento sem compromisso, muitos encaram como se fosse promiscuidade, vamos assim dizer. Confesso que nunca me preocupei com isso e por eu ser estrangeiro, não percebia como um tabu, apenas como opinião alheia.

Sem camisa: hábito bem comum no Brasil, eu costumo ficar sem camisa em casa, sobretudo no verão. E não seria diferente morando num deserto, com temperaturas acima dos 30ºC à noite. E vivendo numa “trainee house”  ao longo de 1 ano com pessoas de dezenas de países e culturas diferentes, tenta imaginar as cenas… Por exemplo, para uma muçulmana coberta dos pés à cabeça e usando um hijab, eu estava seminu, como se fosse o pecado em pessoa. E como eu reagia? Não estava nem aí. 

Queimando a boca com temperos indianos: não escondo que sou fraco com temperos. No meu caso, uma pimentinha de nada é suficiente para fazer cara feia, sentir a boca, nariz e orelhas queimando; e na quantidade de temperos que indianos comem, é como imaginar alguém que nunca bebeu álcool na vida dividir uma garrafa de vodka com um russo. Várias vezes, eu mordi alguma comida quem nem imaginava ter uma pimenta dentro, como doces, por exemplo.

Abraçar e beijar no rosto: muitas vezes, eu esquecia que não estava no Brasil e que nem em todos os lugares é comum homens cumprimentarem mulheres com abraços e beijos no rosto. Inevitavelmente, eu deixava a coitada numa situação constrangedora… Na Europa, era sossegado, mas com as mulheres do Oriente Médio e da Ásia, elas encaram como constrangimento.