Hoje temos um novo colaborador, que depois de morar duas décadas abaixo do nível do mar decidiu começar nova vida na cidade eterna. Ele nos contará nos próximos posts sobre suas viagens e marcantes aspectos culturais de cada lugar que visitou pelo mundo. 
BLOG Amsterdam plano
Via: cosbo-amsterdam.nl
Depois de 20 anos passados debaixo de muita chuva em Amsterdam, na capital dos Países Baixos, decidi me mudar com o meu parceiro para Roma, a capital da Itália. Mudança que por acaso aconteceu justamente durante um dos verões mais quentes do últimos anos, em julho de 2015. Cheguei aqui de mala e cuia, decidido a nunca mais viver em nenhuma cidade acima de Florença – no norte da Itália – onde já fazia muito frio, segundo um garçom de um restaurante onde eu costumava ir quando passei três meses estudando em Roma em 2014. Porém agora, apesar da mala e da cuia, cheguei também com mais experiência e sabedoria pois, há 21 anos quando me mudei para o norte da Europa, prometera a mim mesmo que nunca mais tornaria a viver num país latino. E olha onde vim parar depois de tanto tempo, no berço da “latinidade”, onde o latim nasceu e se desenvolveu, onde Virgílio compôs o poema épico a Eneida e onde Sêneca escreveu a seguinte frase, a qual eu preferi não prestar a menor atenção: Animum debes mutare, non caelum (Deves mudar o teu astral, não de país…). Apesar da mala e da cuia, já percebi que nada é para sempre. E que quem sabe daqui a vinte anos vou acabar me mudando para um novo país?
BLOG Roma
Via: disfrutaroma.com
E já que estamos dizendo que nada é eterno, não há cidade mais cruel do que Roma pois ela te lembra constantemente que a vida é passageira e efêmera, te confronta com a tua mortalidade e, literalmente, com as ruínas do passado. Ruínas espalhadas por toda a cidade, no centro e na periferia, esfregando na nossa cara que o tempo passa sem piedade para todos, ricos ou pobres, importantes ou não. Muitas vezes, esperando o ônibus na parada em frente ao Coliseu, me peguei pensando nos escravos que construíram esse prédio monumental, nos homens e nas mulheres que morreram nesse anfiteatro que se tornou um dos símbolos mais poderosos de Roma, no público que vinha assistir as lutas de gladiadores. Gostaria de saber como eles encaravam a vida, o que desejavam, quais foram os seus sonhos, quem amaram e em quem pensavam quando morreram. Gostaria de saber se se consideraram felizes e se, no fim das contas, acharam que fizeram e alcançaram tudo o que desejaram durante suas vidas.
Blog ROme gladi
No entanto é justamente este estado permanente de consciência da nossa mortalidade que transforma a vida em Roma numa festa diária. Em Amsterdam se vive para o futuro. Os holandeses economizam dinheiro, poupam para os anos de vacas magras que poderão assolar o país no futuro, compram seguros que os protejam de tudo, desde que nascem até darem o último suspiro. Os romanos vivem no momento presente como se o rio Tibre pudesse transbordar de uma hora para a outra ou como se os góticos pudessem retornar do passado e saquear a cidade de novo. Os romanos adoram comer bem, se divertir, sair à noite, passear, são muito faladores, apreciam um bom vinho como ninguém. Amam o belo e por isso acabaram construindo uma das cidades mais bonitas no mundo, onde as cores dos edifícios são orgânicas e combinam bem com as cores do céu, do rio e das árvores. Os romanos são bonvivants por natureza e por isso são vistos como preguiçosos pelas cidades do norte da Itália – como por exemplo Milão e Turim – onde se ganha dinheiro e onde as indústrias estão localizadas. Porém é em Roma onde se gasta o dinheiro que se ganhou com muito suor no norte. Gasta-se dinheiro em Roma porque cada momento pode ser o último, cada instante pode ser definitivo.
Quam benes vivas refert, non quam diu. O que é mais importante no fundo é quão bem se viveu, não por quanto tempo.
BLOG VIa Appia Antica
Via Appia Antica, foto de: commons.wikimedia.org