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Quando viajar dá muito errado

19/10/2015

bz_colaborador Ana Fonseca – Holanda

Algumas pessoas me escreveram e me escrevem emails contando como acham difícil se preparar para viajar para o exterior. Não falam inglês… não sabem se localizar… não gostam de excursões mas tampouco sabem se virar sozinhos… não conseguem andar muito…  e simplesmente por isso decidem que não tem o “perfil” para ir fazer uma viagem ao exterior. Ficam tristes, muito tristes, com um sonho que financeiramente poderiam realizar, mas que é destruído pela falta de coragem, falta de desapego das coisas conhecidas. Mil desculpas, mil bloqueios.

Gente, quem disse que uma viagem tem que dar sempre certinho e ser prazerosa do começo ao fim ? Quem disse que ler mil guias de viagem, mil blogs de turismo, anotar mil dicas te isenta de decepções ?

  • Eu já fiquei numa pousada romântica em Paraty, porém cheia de pernilongos. E, onde em cima do criado mudo, um aviso dizia que cobrariam extra por manchas de sangue nos lençóis devido a mosquitos mortos. Oi?
  • Já fiquei em hotéis estrelados com mini-bar enferrujados, e refeições que me causaram intoxicação alimentar.
  • Minha filha quando tinha 5 aninhos e estava sendo carregada nos ombros do pai me vomitou dos pés a cabeça numa rua do Rio. Isso uma hora antes de irmos para o aeroporto para tomar um voo para a Holanda. Sim, as malas estavam fechadas, check out no hotel já feito.
  • Alias, minha filha já me vomitou no avião, no carro, no ônibus. Em todos os casos as viagens de mais de 10h, 12h ou 14 horas tinham acabado de começar.
  • Tive café-da-manhã num países asiático que consistia em espaguete de arroz e vários curries indianos. Um dos pratos de curry tinha pés de galinhas, cada uma com um unhão ! Dava para fazer pedicure na unhas, longuíssimas e recurvadas.

BLOG galinha pe

Comida para zumbis: pês de galinha em curry verde tailandês. Peles, tendões e garras gelatinosas num molho picante. Quem se arrisca ? 

  • Tanto meu pai, quanto meu sogro passaram muito mal em diferentes ocasiões na França e na Espanha respectivamente, e nenhum dos dois falava uma palavra desses idiomas. Eu tive que praticamente resolver toda a burocracia e tradução simultânea em todas as instâncias. O caso do meu pai foi super misterioso, de um dia para outro acordou com o rosto inchado, totalmente deformado, lábios imensos olhos empapuçados. Era uma reação alérgica de uma pastilha para dor de garganta, que reagiu mal com os remédios que tomava para o coração.
  • Muitos anos atrás, uma colega de trabalho na Grécia precisou tirar dinheiro no caixa eletrônico num sábado. Digitou o valor, o papelzinho comprovante deu o valor corretinho em dracmas do que ela tinha digitado, ela recolheu o dinheiro e foi pras noites com outros colegas. Na hora de voltar para o hotel decidiu tomar um táxi. Na hora de pagar o motorista reclamou e pediu mais dracmas, apontando para o taxímetro e o valor correto. Só aí ela se deu conta que não tinha familiaridade nenhuma com a moeda local, não tinha conferido quanto recebeu do caixa eletrônico… que o caixa eletrônico tinha liberado muito menos dinheiro do que ela tinha digitado. Como disse: era um fim-de-semana e ela iria embora para a Holanda no domingo então… nem tinha como reclamar com o banco em lugar nenhum. Perdeu muita grana.
  • O filho de um casal de amigos quando tinha uns 4, 5 aninhos estava andando com os pais numa cidadezinha remota na Espanha quando viu uma moedinha no chão. Pegou e engoliu. Ficou roxinho e revirando os olhos. Isso num lugar sem táxis, no fim-de-semana e os pais sem falar um “ay” em espanhol.
  • Meu sogros decidiram uma vez antecipar uma volta para a Holanda, devido a um pressentimento/premonição/ansiedade (acharam do nada que eu na Holanda eu iria parir do primeiro filho uma semana antecipadamente).  Muitos tranquilos que são, obviamente não fizeram reserva para nenhum hotel antes de partirem. Devido a um engarrafamento inesperado na Franca no meio do percurso, acabaram decidindo que iriam pernoitar em Lille.  Como eles não tinham muita intimidade (alias, não tem nenhuma intimidade…) com celulares e sites de viagem online, começaram a procurar em toda a cidade por hotéis. Tudo lotado. Acabaram tendo que dormir num hotel meia boca. No meio da madrugada, acordaram assustados. No quarto ao lado ouviram uma discussão aos berros em árabe, entre três homens. Uma longa discussão. Em pânico ouviram um grito de dor e depois só duas vozes discutindo. Mais um grito de dor e depois uma voz que continuou falando horrores em árabe. Nisso meus sogros ja tinham colocado moveis, malas, cadeiras atras da porta, por precaução. Barulho de passos nas escadas, murros na porta do quarto vizinho, um estampido. Sirene de ambulância ou coisa que o valha. Os meus sogros a essa altura tentavam dormir suando embaixo das cobertas pesadas de olhos arregalado e em posição fetal, chupando os polegares e sem dar um pio. Na manhã seguinte fizeram o check out do hotel super cedo sem pronunciar uma palavra e se escafederam linea recta para a Holanda.

BLOG Hotel

At some hotels you can check out anytime you wish – but you can never leave. 

Antes de viajar, prepare-se de antemão, através de informações bem atualizadas. Invista em boas malas, estude o mapa da cidade que estará visitando. Memorize varias expressões básicas na língua de destino. Tome cuidado com pegadinhas, principalmente na rua em pontos turísticos. E quando tudo der errado, tente ver algumas coisas com humor. Tome as medidas judiciais cabíveis quando necessário. O resto aceite e deixe para lá.

Travel isn’t always pretty. It isn’t always comfortable. Sometimes it hurts, it even breaks your heart. But that’s okay. The journey changes you – it should change you. It leaves marks on your memory, on your consciousness, on your heart, and on your body. You take something with you… Hopefully, you leave something good behind. -Anthony Bourdain.

__________________

Ana Fonseca vive desde 1999 na Holanda. Para ver fotos dela e de outros autores do BZ pelo mundo visite nosso perfil no Instagram clicando aqui. Siga nossa pagina no Facebook: http://www.facebook.com/blogbrasilcomz

8 Comentários leave one →
  1. 19/10/2015 12:56

    Adorei o texto, Ana!!!É verdade. Viagens nem sempre são lindas e perfeitas, mas certamente, inesquecíveis. Na minha primeira viagem à Tailandia, eu fui enganada pelo motorista de tuk-tuk que, muito bravo por eu não ter comprado nada, me deixou no meio de um canto lá de Bangkok. E, nesta mesma viagem, eu ainda cheguei no aeroporto às 00:00 do dia 25, sendo que meu vôo era no mesmo horário do dia 24. Foi uma confusão só é quem me ajudou foi uma família do Paquistão!!!Enfim…essa viagem deu tudo errado, mas jamais esquecerei não só das furadas, mas principalmente, do carinho das pessoas que me ajudaram quando mais precisei. Um abraço

    • 19/10/2015 13:25

      Grata pelo comentário Juliana ! Isso mesmo. Durante uma furada no exterior a gente acaba ficando mais sábio(a). As vezes a gente acaba conhecendo pessoas boas também, que ajudam por pura boa fé. Não é necessário ficarmos amargurados, há sempre o lado bom de uma experiencia ruim.

  2. 19/10/2015 15:52

    É isso aí, Ana! Muito bom! Quando viajamos, saímos da nossa zona de conforto. Devemos mesmo planejar bem, estudar o local antes de irmos, etc., mas a gente também deve aceitar a ideia de que imprevistos acontecem. De alguma maneira, a experiência deve nos transformar um pouco, seja nos enchendo de deslumbramento, seja nos ensinando alguma coisa – mesmo se essa coisa for estranha ou desagradável. Senão, para que viajar? De uma forma ou de outra, viajar vale a pena – ou, pelo menos, vale a pena se a alma não for pequena, como dizia o maravilhoso Fernando Pessoa. 🙂 Abraços!

    • 19/10/2015 16:24

      E eu que esse ano reservei a pousada errada em Búzios ? Pensei que estava reservando a mesma de 4 anos atras (tinha paredes coloridas, ficava no centro), e quando cheguei lá não acharam minha reserva. Mostrei o papel e me disseram que o que eu tinha reservado ficava do outro lado da praça. Era de conforto inferior, café-da-manha parco, banheiro péssimo e cheia de pernilongos e baratinhas. Tive que comprar inseticida imediatamente. E o papo da mulher que servia o cafe com as outras funcionárias chilenas era de lascar ! Contava da vida íntima, ugh ! Mas isso não tirou o brilho da minha estadia em Búzios. Até agora não entendi como eu e meu marido pudemos nos enganar de pousada, somo muito observadores e não fazemos reservas por impulso.

  3. Junior permalink
    19/10/2015 16:02

    Muito bom o seu texto Ana, nada melhor que uma boa preparação de uma viagem. Quando eu comecei a viajar, eu cheguei à Santorini vindo de ferry era mais de meia-noite, o ônibus me deixou na cidade onde tinha reservado o hotel só para descobrir que ele estava fechado àquela hora. Eu rodei a cidade até encontrar um outro hotel ainda aberto e qual foi a minha surpresa ao acordar com o mais belo panorama que eu vi na vida !.

    • 19/10/2015 16:17

      A gente sempre tem que informar ao hotel no caso de “late arrival” né Fabinho ? Perguntar se tem porteiro `a noite e talz. Principalmente se viajamos com crianças. Homem solteiro é muito mais relax com isso !

  4. 02/11/2015 8:09

    Eu sempre fui muito cuidadoso em viagens. Mas, a primeira fria que me meti foi quando fui para a Inglaterra fazer intercâmbio. A família que me hospedaria se ofereceu para me buscar no aeroporto, mas eu, todo arrogante na flor da adolescência (pensando que já era adulto), educadamente, disse que queria experimentar ir sozinho, bastando apenas que me passassem o endereço e um roteiro para chegar até a casa deles. Bem, meu susto se deu logo depois de literalmente sair do aeroporto. Não sabia que direção tomar e ao me informar com um policial, percebi que meu inglês de escola não era o mesmo que passaria a vivenciar.
    Outra experiência delicada, foi quando fui passear no Brasil depois de 7 anos morando direto aqui no Japão. Viajei pela Qatar, uma excelente companhia aérea. Na conexão em Doha, fiquei tirando fotos das vitrines e exposições dentro do aeroporto, inclusive um Rolls Royce e um Mercedes, ambos com acabamentos em diamante, típica ostentação dos ricos árabes. Mas a fria veio quando fui no mezanino para tirar uma foto aérea dos carros. Já estava com a câmera toda ajustada e quando me debrucei ao parapeito para tirar a foto, um policial se aproximou de mim e num inglês macarrônico, mas muito claro e objetivo me alertou: “Fotos são permitidas, fotos de tudo que desejar, de todos andares, mas tirar fotos do alto para baixo, você vai ter um ‘big problem’ na cadeia”. Não sabia, mas na cultura islâmica, não permitem tirar fotos que peguem as imagens das pessoas a partir de suas cabeças. Foi a explicação que um outro árabe me deu. Se é assim e se é verdade eu não quis correr o risco de descobrir.

    • 04/11/2015 15:59

      O “problema” cultural é que no Brasil quando dizemos “não” para recusar um favor muitas vezes estamos apenas tentando dizer mal e mal algo como “Sério ? Tem certeza?” Fora do Brasil, e principalmente em países saxônicos, se alguém te oferece algo e você diz “não” eles aceitam o sua recusa na hora. Faltou da família inglesa argumentar que você teria um “hard time” tentando tomar uma solução com metrô, transporte, etc.. Olha, eu já tinha ouvido que na cultura islâmica (e cultura oriental em geral) a cabeça é um tabu. Não pode ser tocada, apontada, fotografada. do alto para baixo, etc.. Agora, dito isso acho muito estranho já ter vistos em revistas de viagem e de turismo fotos onde aparecem árabes que foram fotografados de uma grande altura, fotos aéreas onde a cabeça aparece, etc.. Acho que o policial pegou pesado e talvez receasse que algum árabe muito poderoso pudesse ser enquadrado por você.

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