No ano passado quando anunciei aos meus colegas de escritório que iria aproveitar para passar cinco dias na Coréia do Norte durante a minha viagem à China, pensaram que eu tinha perdido o juízo e que deveria ser internado num hospital psiquiátrico. Já me viam numa camisa de força tomando eletrochoque, todo despenteado e com baba rolando boca abaixo. Chegaram a me perguntar por que eu não podia ser como todo mundo e ir de férias para Ibiza. Era exatamente o que eu desejava explicar para eles: eu não vou de férias, eu gosto é de viajar e explorar o mundo. E já que conseguira um visto para a Coréia do Norte através de uma agência de viagens em Pequim, por que não aproveitar essa oportunidade única para visitar um dos países mais misteriosos do mundo?
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No dia 21 de abril eu e meu parceiro embarcamos num vôo da Air Koryo em Pequim com destino a Pyongyang, último bastião comunista e stalinista na face da terra. Mal sabíamos que seria igualmente uma viagem no tempo, aos anos 40 do século passado, de volta a uma época quando a guerra fria fazia parte do nosso dia a dia e a ameaça de guerra pairava no ar como nuvens escuras fechando o céu e prenunciando um pé d’água arrebatador. Sabíamos que seríamos expostos à propaganda política e lavagem cerebral, porém não suspeitávamos que já começaria durante o vôo. Pouco após a decolagem, uma aeromoça se aproximou e nos mostrou uma revista que ilustrava todas as belezas do país, fotos de parques cheios de lilás, hospitais infantis muito modernos, fábricas com empregados desempenhando o seu trabalho com seriedade e cuidado, parques de diversão cheios de gente. O que mais me chamou a atenção era que todos sorriam, pareciam consumidos por uma felicidade que não era deste mundo. E é lógico que o grande líder aparecia na maioria das fotos, rodeado por um povo grato e contente. Eu bem que queria ter levado aquela revista comigo como lembrancinha mas não a levei pois fui avisado que não deveria dobrá-la pois ela continha fotos do grande líder e danificar a imagem do líder era um crime, mesmo se só dobrada.
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Mansudae Grand Monument
No aeroporto internacional de Pyongyang fomos recebidos pelos nossos guias, que não desgrudariam de nós em nenhum momento, somente na hora de dormir e ir ao banheiro, e que guardaram os nossos passaportes até a hora do nosso retorno a Pequim, cinco dias depois. Não foi difícil decorar os nomes do motorista nem dos nossos dois guias, pois todos se chamavam Kim, que nem o líder Kim Jong-un. Eles mesmos brincavam dizendo que se gritássemos “Kim!” nas ruas da capital, metade da população responderia ao nosso chamado. Levaram-nos ao nosso hotel, o Yanggakdo International Hotel, também chamado de Alcatraz por turistas que visitaram a capital da Coréia do Norte pois fica numa ilha do rio Taedong. Uma ilha de onde seria difícil sair sem a companhia dos nossos guias. Coincidência? Creio que não. Para dizer a verdade eu esperara encontrar guias sisudos, circunspectos, severos, austeros mas o que encontramos foram dois guias oficiais do governo da Coréia do Norte que eram muito simpáticos e que gostavam de contar piadas com frequência, com os quais ríamos enquanto nos deslocávamos de um monumento ao outro no furgão da companhia de viagens. E monumentos, há vários!
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Durante a nossa estadia, visitamos vários monumentos construídos em honra dos grandes líderes da nação: Kim Il Sung e Kim Jong Il. O mais adorado e venerado é sem dúvida nenhuma Kim Il Sung considerado o “pai” da Coréia do Norte. Sempre que visitávamos um monumento dedicado aos líderes, tínhamos que nos curvar diante das estátuas gigantescas em sinal de respeito. Durante a primeira visita ao maior monumento da capital, até pusemos flores junto das estátuas como era de praxe (e para evitar uma saia justa).
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 Kim Il Sung and Kim Jong Il
Toda essa devoção aos líderes me fascinava pois queria entender até onde era verdadeira e até onde simulada.
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Os turistas que visitam a Coréia do Norte só tem permissão para visitar determinados lugares. Imagem acima via: huffingtonpost.com
Antes de ir à Coréia do Norte algumas pessoas me disseram que eu visitaria um país de loucos, onde todos haviam passado por uma lavagem cerebral a nível nacional e que por isso eram tão dedicados aos líderes nacionais e acreditavam piamente nas estórias que lhes contavam nas escolas. Não acredito que seja um país de loucos mas acredita que haja “loucos” no poder, governando, manipulando e aterrorizando toda uma população e obrigando a milhões de pessoas a se comportarem da mesma forma e a repetirem o mesmo discurso constantemente. E para dizer a verdade não é tão diferente de outros países que aterrorizam a população mas de um modo mais sutil. Mas uma coisa é certa, não é um país de robôs onde ninguém sabe o que está acontecendo fora do país.
Mas disso falarei no próximo post do blog…
(Todas as fotos desse post são de autoria do próprio Ricardo Schaeppi).