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Viver no Japão, primeiras impressões

05/11/2015

O W. Anderson estará mensalmente nos contando sobre sua vida de expatriado no Japão. Esse é o seu primeiro texto no BZ, onde conta que a crise brasileira no mercado de trabalho o fez ir buscar emprego no terra da família de sua mulher. 

 japãoW. Anderson – Tóquio, Japão

Sou brasileiro, engenheiro elétrico, trabalhei por mais de 25 anos com tecnologia da informação no Brasil. Em 2005, depois de 2 anos que cheguei a gerente de departamento, fui o último executivo demitido após a compra da empresa que eu trabalhava por um grupo francês.  Minha esposa, que é descendente de japoneses, fez doutorado em química pela USP, com vários artigos publicados em renomadas revistas internacionais. Eu tentei buscar uma recolocação no mercado mas naquela época a incerteza gerada pela conduta do governo do Lula já dava medo a muitos empresários que reduziam quadro de funcionários, faziam fusões e não contratavam, me deparei em muitas entrevistas com o elogio do meu conteúdo curricular, mas que não seria contratado. Minha esposa, que muito tentou ingressar na indústria, também não teve sucesso. Restou para ela, dar aula na rede pública e privada. Ela chegou a ser titular e responsável pelo curso de química em uma faculdade local, mas logo que a faculdade obteve a aprovação do MEC para continuar o curso ela foi dispensada.

BLOG Jardim de Cactus em Nagoya

Jardim de Cactus, zoo de Nagoya (foto: W. Anderson)

Resolvemos então, encarar o desafio de vir para o Japão. Teoricamente, ela por ser descendente, teria tudo mais fácil na adaptação, além de estar mais perto da irmã e de outros parentes. Eu, que já havia morado sozinho na Inglaterra e também nos Estados Unidos, achava que não teria tanta dificuldade assim. Pensava inclusive, que mesmo não sabendo nada de japonês, poderia usar o inglês. Descobri na prática, que proporcionalmente, há muitos mais brasileiros que sabem inglês do que japoneses que falam inglês. Aqui no Japão, eles aprendem o inglês na escola fundamental e secundária, da mesma forma que nas escolas públicas do Brasil, com um agravo, eles transformam tudo que está escrito em letras do “nosso” alfabeto para o silabário deles, inclusive com a pronúncia deste mesmo silabário.  Ou seja, o inglês aqui é um outro idioma, acreditem !

A chegada no Japão foi uma aventura. Depois de um vôo entre São Paulo e Amsterdã e escalas longa, desembarcar em Nagoya parecia bom demais após 34 horas de viagem. A primeira impressão do Japão depois do desembarque, confesso, não foi boa. A pessoa que foi nos buscar (um brasileiro que trabalhava na empreiteira), já reclamava do trânsito na rodovia expressa. Decidiu então, sair da expressa e seguir pelas vias locais. Meu susto, foi ver que numa rua, à beira de um rio (sem guard rail), passava veículos nos dois sentidos, coisa que naquelas condições, seria impossível no Brasil, ainda mais em São Paulo.

Outra coisa…, os carros japoneses que eu via nas ruas, eram feios demais, se comparados com o design dos carros no Brasil. Pensava eu, onde está a beleza dos carros japoneses que tanto falam pra gente no Brasil?

Aquele caos do trânsito na expresso em Nagoya, nas vias locais, cuja, fazer ultrapassagens é praticamente impossível, já me decidia que “jamais eu iria dirigir neste país”. Para quem deixava São Paulo, com avenidas largas e várias faixas de rolamento para carros, ver avenidas estreitas, com faixa amarela dupla, ser obrigado a andar constantemente atrás de outro carro, dirigir no Japão estaria fora de cogitação.

É…, minha primeira impressão me dizia que eu estaria “lascado”. E eu tinha jogado todas as fichas que sobraram em São Paulo para vir para o Japão. Para mim, eu tinha duas opções, dar certo ou dar certo. Não poderia ter uma terceira. Sabia que teria muita coisa para mudar, muito sapo para engolir e eu não queria voltar para o Brasil, me sentindo fracassado, afinal de contas, eu já tinha experiência de morar fora, então, o que poderia ser ruim pra mim?

BLOG J Uvas na Cidade de Shiojiri-shi provincia de Nagano-ken

Uvas na Cidade de Shiojiri-shi, provincia de Nagano-ken  É comum andar pelas ruas da cidade e ver parreiras de uvas, na calçada, nas praças e parques e ainda, ninguém pega ou rouba as frutas. Se cairem do pé, ficam aguardando que o “seu dono” limpe o local. (foto W. Anderson)

Bem, nem tudo foi fácil, nem tudo foi simples.

Eu, um dia pouco depois que chegamos, estava  numa loja de eletrônicos e vi um gravador de vídeo em hdd, algo que sendo novo, despertou grande interesse. Pedi então para minha esposa, que perguntasse ao vendedor como o equipamento iria funcionar, se teria menu em outro idioma e etc e tal. Ela simplesmente me respondeu, “eu não sei falar isso”. Na minha cabeça, como alguém que só falava japonês dentro de casa, que possuía certificados de proficiência no idioma, poderia “não saber falar isso”, se eu mesmo, em inglês, nem precisaria pensar no que falar, seria como apertar a minha tecla SAP, assim, ela também que apertasse a dela.

Num outro dia, estava em casa assistindo t.v., passava uma novela e, perguntei novamente para a minha esposa, por qual razão a garota não podia namorar aquele rapaz. Mesmo não sabendo “necas de pitibirebas”, dava claramente para entender o que se passava na história daquela novela. Ela me respondeu: “não dá para assistir e traduzir para você”, simples assim, curto e grosso !

Decidi então, que precisaria definitivamente aprender esse idioma. Não poderia e não queria depender, nem dela e nem de intérprete nenhum, ainda que onde trabalhávamos, havia intérpretes e muitos outros brasileiros. Procurei então, um centro de voluntários e iniciei o aprendizado do idioma japonês. Antes disso porém, cheguei a procurar escolas de idiomas, mas todas, só ensinavam idiomas estrangeiros para crianças e adolescentes e, pouquíssimos adultos, porém, nenhuma ensinava japonês. Restava assim, procurar pelos voluntários.

Eu ficava fascinado com a facilidade que via minha esposa falar com os japoneses. Me surpreendia também, quando estávamos passeando, ela via um anúncio, uma propaganda ou mesmo outdoor, falava de algo que estava ali escrito, como se eu pudesse até então, ler e saber do que se tratava: “olha, esse lugar aí no cartaz, é um passeio famoso”, por exemplo, no que para mim, não fazia o menor sentido, afinal de contas, aquela foto, aquele monte de tracinho, era indecifrável.

Vocês podem questionar: “Mas como alguém que não sabe nada do idioma vai para um lugar desses?” Bem, precisaria falar do início do movimento decasségui, mas isso seria tema para um outro post. No entanto, com tantos estrangeiros, foi normal os diversos níveis de governo, criar mecanismos que pudessem facilitar a integração entre nativos e estrangeiros. As prefeituras de muitas cidades, possui intérpretes, folhetos explicativos sobre acidentes naturais, coleta de lixo e outros. Muitas empreiteiras que alocam mão de obra, possui intérpretes que estão dentro das fábricas para facilitar o trabalho dos operários, além dos veteranos, que muitos, sabem também o idioma, acabam fazendo o “meio de campo”, ou mesmo, ensinando aos novatos o serviço. Desta forma, surgiu no Japão, principalmente na comunidade de brasileiros, um nicho de negócio, que facilitando muito a vida, muitos jamais se interessaram em aprender o idioma, isolando-se dentro da comunidade, colocando os filhos em escolas brasileiras, fazendo compras em lojas de produtos brasileiros e por aí afora.

Não vou negar que eu vá em lojas de produtos brasileiros, seja para comer pastel, coxinha, comprar um pacote de feijão, um maço de couve, coisas que não se encontra em lojas e mercados japoneses. Mas nunca fiquei exclusivamente vivendo dentro da comunidade, pois sempre tive para mim, o pensamento de que “se você vive em Roma, viva como um romano”. Assim, participar do convívio com nativos e encontrar amigos japoneses, foi sempre minha prioridade.

No final de 2008, o Japão se deparou definitivamente com a crise econômica mundial. As demissões, inicialmente da mão de obra temporária (estrangeiros em quase toda maioria), foi massiva. Já havia comprado uma passagem para minha esposa passear no Brasil. Seria a primeira viagem dela depois que chegamos. Contudo, uns 45 dias antes dela viajar, eu fui demitido no segundo corte de pessoal. Não sabia, mas os outros cortes de pessoal, seria um golpe doloroso para a comunidade brasileira, que naquela época, já passa a dos 320.000 brasileiros. Minha esposa já cogitava cancelar o passeio quando viu o anúncio de emprego num jornal japonês, procurando um “engenheiro de sistemas com conhecimento em redes e segurança”, algo que fazia no Brasil. Entrei em contato (em inglês) e consegui marcar uma entrevista. Em 1 de novembro, eu já estava trabalhando novamente. Foi neste emprego, o primeiro lugar a usar o inglês de forma natural e compreensível, pois todos com quem eu trabalhava, ou eram estrangeiros ou japoneses que sabiam o idioma). Minha esposa então manteve o passeio e eu fiquei aqui no Japão trabalhando.

BLOG TOkyo

Tóquio. Foto: http://www.voulezvousdiner.com

Vale notar que quando a crise estourou, morávamos numa cidade do interior e, esse novo emprego, era em Tóquio, significando que uma mudança estaria para acontecer. Durante o período que ela foi viajar e o seu retorno 4 meses depois, eu deixei nossas coisas guardadas num quarto vazio do apartamento onde a irmã dela morava e fiquei no alojamento que o escritório possuía para alguns funcionários, até que conseguisse encontrar um apartamento em Tóquio, economizando neste reinício.

Foi em Tóquio também, que meu conhecimento e independência do idioma japonês se formou e solidificou. Em Tóquio, ao contrário das cidades no interior, não há intérpretes nas prefeituras, hospitais ou outros serviços públicos. Você precisa, literalmente, se virar, assim, estando eu sozinho em Tóquio, tive de seguir o aprendizado do japonês “à forceps”.

Pouco antes do retorno da minha esposa, eu já havia encontrado um apartamento em valor acessível e feito a mudança definitiva. No dia da chegada dela, lá estava eu na saída da catraca da plataforma do Shinkansen da estação de Tóquio, aguardando ansioso para poder abraçá-la novamente!

_____________

W. Anderson é engenheiro elétrico e mora com a família há 11 anos em Tóquio. Para saber mais sobre ele clique aqui

Vejam fotos dele e de outros autores no perfil do BZ no Instagram. E sigam nossa página no Facebook acessando aqui.

13 Comentários leave one →
  1. 05/11/2015 16:55

    Bem-vindo ao blog ! Estivemos por um bom tempo sem um autor fixo do Japão. Apesar da Juliana Paula de vez em quando escrever sobre esse pais e o Brenno ter escrito uma vez, precisamos de muitos mais posts. Já estou curiosa para saber do seu próximo texto !

    • 05/11/2015 17:09

      Muito obrigado pela oportunidade.
      Pretendo abordar temas diversos, entre coisas boas e também não tão boas, pois nenhum lugar é perfeito. Aceito sugestões.

  2. 05/11/2015 17:13

    A última foto deste post, é o cruzamento da avenida Yasukuni Dori, em Shinjuku, na entrada do bairro de Kabuki-cho, onde uma badalada vida noturna acontece. À direita, a loja Don Quijote (leia-se don kihote), uma espécie de “tem de tudo”.

  3. Adalberto permalink
    06/11/2015 23:52

    Artigos como este, são excelentes para descobrir que nada é fácil como parece ser. Também é possível ver que tudo que puder dar errado vai dar e se não houver planejamento e persistênci, não haverá vitória. Parabéns Anderson

    • 07/11/2015 1:13

      Obrigado!
      Realmente não podemos desistir de um objetivo quando esbarramos com alguma dificuldade, sem pelo menos, se empenhar e se dedicar com afinco.

  4. 07/11/2015 14:32

    Gostei, bem escrito. Estou esperando o convite para aparecer

  5. Paul permalink
    07/11/2015 19:47

    This is a great way to follow Anderson’s adventures in Japan. I look forward to reading his next posts!! Great job.

  6. 08/11/2015 15:18

    Não compartilho das mesmas experiencias que você, afinal, não dominava o inglês quando cheguei. Mas apreciei muito sua atitude de contar sua história, de compartilhar suas experiências pois a partir delas tenho base para recordar de tempos que já se foram. O passado não deve ser remoído nunca, mas deve ser levado em consideração pois é um tesouro de conhecimentos que prova para o mundo que existimos e vivemos nele. Parabéns pela sua iniciativa. Aguardo ansiosamente pela continuação, na esperança de encontrar mais fatos que me ajudem a recordar o início desta minha aventura asiática, a qual se iniciou a 15 quase exatos anos, onde no ano de 2000, mês 10, era eu mais uma criança que embarcava para o Japão junto a seus pais sem entender o porquê da viagem, apenas pensando que seria divertido, sem imaginar que enfrentaria as crises das quais comentou, e que hoje estaria eu, com filho nascido aqui, casado, e vivendo sem previsão de volta ao meu país de origem. Meus parabéns e continue com o bom trabalho.

  7. Marcio Bastos permalink
    29/01/2016 22:05

    W.Anderson, boa tarde, pois aqui no Brasil são 19:03.

    Teho 45 anos e sou formado em Processamento de Dados, trabalho como Analista de Suporte a mais de 13 anos, não sei falar Japonês e nada, só português, acha que consigo emprego ai no Japão na minha especialidade?

    • 29/01/2016 22:17

      Márcio, sinceramente, creio que seja muito difícil conseguir uma colocação na sua área, sabendo apenas português. Seria como uma loteria. Aqui, há muita gente que se diz entendida em mexer com micro, afinal de contas, montar um PC não é difícil e, infelizmente, muitos pensam que basta saber comprar placas, memórias e conectar, que já sabem de tudo.
      As empresas que trabalham com a comunidade brasileira, não investem em pessoal qualificado e nem em tecnologia para melhorar o desempenho. Se está funcionando do jeito que está, pra eles, está bem demais. Se não, eles pesquisam no Google de como fazer para chegar, senão naquilo que querem, pelo menos no que for possível.
      Sua chance, acredito eu, seja caso alguma multinacional brasileira, aí no Brasil, estiver procurando alguém disposto a vir pra cá. Neste caso, suas qualificações podem ter interesse, mesmo que saiba apenas o português.

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