Hoje temos o primeiro post do Filipe Teixeira, que depois de viver por mais de dois anos em Lisboa, decidiu se mudar definitivamente para Medellín, na Colômbia. Ele nos conta como e por que tomou essa decisão. 

No fim de 2011, uma amiga me perguntou, meio que despretensiosamente, se eu queria dar aula de português na Colômbia. Imediatamente disse que sim.

Uma resposta dada assim pode não parecer confiável, dado o tamanho da mudança que essa decisão acarretaria e, claro, a impulsividade da resposta, que faz menos sentido ainda quando você analisa a vida que eu levava: eu tinha carro, quarto com ar-condicionado, cortina blackout, Sky e um emprego que mantinha tudo isso.
Mas era verdade e, menos de três meses depois de dizer o tal sim, eu estava em Medellín dando aulas de português para colombianos, ganhando 3 vezes menos do que eu ganhava no Brasil, compartilhando um quarto que servia de passagem em uma casa onde viviam outras 10 pessoas de todo lugar do mundo. Também não tinha cortina blackout, nem ar-condicionado. E, obviamente, deixei o carro no Brasil.
 
Aparentemente foi uma escolha tola. Mas, na verdade, foi uma das grandes decisões que tomei na vida.
Cheguei a Medellín em um dia frio, nublado e chuvoso – meu clima preferido… Tive ainda uns 10 dias até começar a trabalhar, que aproveitei para explorar um pouco a cidade. Passei a andar a pé, o que fazia pouco em Fortaleza. Mas o clima ameno e as ruas arborizadas de Medellín são sempre um convite a uma caminhada.
Metro de Medellin aula de português na Colômbia Felipe Teixeira @podcastdeontem @blogbrasilcomz
O metrô de Medllin. Via: commons.wikimedia.org
À medida que conhecia as pessoas, ia me envolvendo cada vez mais com o lugar, pois aqui a cordialidade não é convenção, ela é natural, orgânica. Um mero “buenos dias” é dito da maneira mais efusiva possível e segue-se então um diálogo cheio de amabilidade, não importa com quem, pode ser com o porteiro do seu prédio, sua chefe, o taxista, o caixa do supermercado e por aí vai.
Além de todos os aprendizados que adquiri, como o desapego, a convivência, a cordialidade, aqui entendi o que significa o apego que se adquire a um lugar. Até chegar aqui, nunca entendia quando alguém dizia que amava sua cidade, talvez porque minha relação com Fortaleza, minha cidade natal, não seja lá das melhores. E em pouco tempo na Cidade da Eterna Primavera, já a chamava de minha casa, “mi hogar”.
 
Isso ficou notório quando, ao voltar de uma viagem, desci do ônibus no terminal e sorri involuntariamente por estar aqui de volta, porque mesmo minha rotina que começava às 6h30 – quando começava a primeira aula – era boa, porque era em Medellín. Mas claro que nem tudo são flores. Medellín é uma cidade grande de um país latino-americano em desenvolvimento e ainda apresenta desigualdade social, violência e um trânsito pesado em certos horários. Mas em nada se compara àquela Medellín que conhecíamos do começo da década de 90. E nos últimos 20 anos, a cidade se tornou um modelo no que diz respeito à integração social das camadas mais pobres e à inovação, tendo sido considerada em 2014 a melhor cidade da América Latina para se viver e ganhado prêmios internacionais por ser tão inovadora.
Passei os cinco primeiros meses de 2012 aqui e fui embora para Lisboa. Nos dois anos e meio seguintes vivendo na capital portuguesa, um desejo se manteve: o de voltar.
Até que, em junho deste ano, devido a uma conjunção de fatores, voltei para Medellín com minha namorada, sem ter deixado nada para trás como da primeira vez, mas sim com uma vida a construir e sem data para ir embora.