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Tirando a Carteira de Motorista no Japão

20/11/2015

japão W. Anderson – Japão

Na cidade que morei quando cheguei ao Japão, fui trabalhar numa fábrica de componentes eletrônicos. A cidade era praticamente plana, então, andar de bicicleta era algo que eu fazia todos os dias, fosse para o trabalho, fosse para um passeio ou mesmo para fazer compras no supermercado. Mas o escritório da empreiteira por onde eu trabalhava, vivia me perguntando quando eu iria tirar carta de motorista. Eu, que havia tido uma péssima impressão de dirigir aqui, já tinha “decidido” que dirigir não era uma prioridade. Porém, de tanto eles cobrarem, 3 meses depois que cheguei lá estava eu tirando minha habilitação.

O interessante disso, era o fato de muitos brasileiros reclamarem da rigidez das regras para tirar a habilitação. Ainda que na maioria dos casos, o processo todo era bem facilitado, pois as autoridades japonesas consideravam que você estaria “transferindo” sua habilitação do Brasil para o Japão, então, os testes e procedimentos, eram bem mais simples. Os custos também. Apenas para ilustrar, uma pessoa (independente de ser japonês ou não) que tire sua carta de motorista “do zero”, vai pagar algo perto de ¥300,000 (trezentos mil ienes) e, nessa “transferência”, eu gastei menos de ¥50,000 (cinquenta mil ienes). Eles reclamavam e falavam que era “quase” impossível você tirar sua carta em um único teste lá no órgão de trânsito. Bem, depois de apresentar todos os documentos exigidos, passaporte, CNH brasileira, identidade, tradução da CNH, obtive autorização para as aulas e/ou os testes. Sim, eu e qualquer um poderíamos fazer o teste imediatamente, se desejasse. Mas, seguindo a orientação da pessoa que me levou, fiz algumas “aulas”, para conhecer o percurso do teste prático. Vale salientar que tais aulas, era apenas uma única volta no percurso, com você dirigindo o carro da auto escola. Se desejasse outra volta, teria que pagar outra aula. Assim, eu fiz 5 voltas/aulas. O que realmente fez a diferença, foram as dicas que o instrutor e o intérprete deram, sobre como fazer e cumprir o percurso para não ter problemas.

Quando me senti seguro, marcamos o dia do teste. Ambos, teórico e prático, foram feitos no mesmo dia. O primeiro, pouco antes do almoço e o segundo, logo depois. Primeiro, fiz uma provinha teórica, 20 questões de múltiplas escolhas, todas em português, logo após um breve resumo explicativo do teste, sobre as “pegadinhas” das leis de trânsito japonesas. Na verdade, era praticamente as respostas do questionário. Houve sim, uma pessoa que repetiu esse exame escrito. Pasmem! 😦🤔😩

“Aprovado” no exame teórico, fui fazer o exame médico, um teste de visão em duas etapas, simples e fácil. Antes do exame prático, um policial (o órgão de trânsito é gerido pela polícia), explicou num quadro enorme, como seria o exame. Disse que várias coisas não podiam acontecer, sob pena de ser reprovado. Na minha opinião, isso mais atrapalhou do que ajudou.

Definido a sequência das pessoas para o exame, eu fui para o carro, junto com outro candidato. Talvez por ele estar na minha frente naquele instante, o policial/examinador, mandou ele ser o primeiro. Eu, que naquela altura já estava sentindo calor, queria tirar a blusa, o policial gritou “meio grosso” que entrasse rápido no carro, sentando no banco traseiro, atrás do motorista.

De todas as dicas e orientações, fazer “kakunin” (verificar/examinar/conferir) do exterior do veículo, na frente, no lado oposto e na traseira, o rapaz não fez. Também fazia parte do teste, a saída com o carro. Você deveria literalmente “quebrar o pescoço, para esquerda e direita, olhando para tras, além dos respectivos espelhos retrovisores. Ajustar o banco, espelhos, cinto de segurança, tudo, era parte do exame. O rapaz não fez muitas das verificações, não “demonstrou a atenção” para a saída, esqueceu de dar seta, mudar de faixa corretamente e antes de atingir a metade do percurso, o policial mandou que ele voltasse para o início, sinalizando (sem dizer) que estaria reprovado.

Eu que já estava assustado com tanta regra naquela pré explicação do quadro gigante, com o esporro para entrar rápido no carro, com os erros do candidato anterior, não via a hora daquilo tudo terminar e eu remarcar meu próximo teste prático.

Quando chegou a minha fez, lá fui eu, verificar a lateral e também a frente, depois fui para a traseira. Assim que entrei no carro, ajustei o banco, os espelhos, coloquei o cinto. Dei partida no carro, liguei a seta para sair, quebrei o pescoço para esquerda, direita e olhei todos os retrovisores. Por dentro, eu estava em pânico. Não enxerguei nada quando virei o pescoço, nem que o olhei o retrovisor, estava fazendo aquilo porque era necessário. Fiz meu percurso todo e no final, o policial chamou o intérprete para me perguntar porque eu demorei para reduzir a velocidade num determinado ponto. Minha resposta foi que não havia trânsito suficiente que oferecesse perigo. Não tive coragem de perguntar se fora aprovado ou não. Também, a recomendação era para não perguntar ao policial, pois eles não iriam responder.

Pista de exame prático. O percurso varia se a carta é nova ou

Pista de exame prático. O percurso varia se a carta é nova ou “transferida” de outro país. (by Polícia de Saitama-ken)

Fomos avisados que eles iriam chamar as pessoas, para entregar o papel para a próxima tentativa e para concluir o procedimento e pegar a carta, caso aprovado. Começaram a chamar os nomes, eu suava, literalmente. Ao ouvir meu nome, o policial entregou o papel. Eu já conformado, fui me dirigir ao intérprete para pedir que remarcasse logo a próxima tentativa. Ele então me disse, “você vai aprovado, você foi aprovado”, esse papel é para você ir tirar a foto. Eu não processei aquilo tão rápido e ele falou alto: “Vai tirar a foto, você passou! Passou de primeira!”.

O estresse e a pressão psicológica foram tão grande, que eu estava naquele momento, muito aéreo. Tanto a minha carta no Brasil, como a carta aqui no Japão, foram tiradas em primeira tentativa, no mesmo dia e mês, apenas com quase 20 anos de diferença entre elas. Coincidência! 😊

A primeira carta, geralmente válida de 12 a 23 meses, possui uma faixa verde, sinalizando motorista novato.

A primeira carta, geralmente válida de 12 a 23 meses, possui uma faixa verde, sinalizando motorista novato. (by Google)

Depois da primeira renovação, uma faixa azul sinaliza que você já não é um motorista novato mais.

Depois da primeira renovação, uma faixa azul sinaliza que você já é um motorista experiente. (by Google)

Se você ficar 5 anos sem levar NENHUMA multa, uma faixa dourada sinaliza que você é um excelente motorista. Há descontos vantajosos no seguro. Eu já tenho a minha.

Se você ficar 5 anos sem levar NENHUMA multa, uma faixa dourada sinaliza que você é um excelente motorista. Há descontos vantajosos no seguro. Eu já tenho a minha. (by Google)

Na semana seguinte, meu concunhado já havia feito eu comprar meu primeiro carro no Japão.

Chariot Grandis - Meu primeiro carro no Japão - (by www.beforward.jp)

Chariot Grandis – Meu primeiro carro no Japão – (by http://www.beforward.jp)

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W. Anderson é engenheiro elétrico e mora com a família há 11 anos no Japão. Para saber mais sobre ele clique aqui

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9 Comentários leave one →
  1. Paul permalink
    20/11/2015 16:45

    Nice going Anderson!

  2. Paulo permalink
    14/12/2015 3:16

    Ótimo relato, tirou a dúvida de muitos brasileiros sobre essas coisas corriqueiras da vida em outro país.

  3. Cris permalink
    25/09/2016 2:59

    Se vc tem a carteira provisória do Brasil no Japão tem que começar do zero? Ou seja,vai gastar os 300,000 mil yenes mesmo tendo uma carteira provisória?

    • 25/09/2016 8:22

      Cris,

      Houve muitas mudanças, tanto no Brasil, quanto no Japão.
      Estarei verificando suas questões junto ao “menkyou center” e volto aqui para deixar as respostas que você precisa.
      No entanto, adianto que já é possível você tirar a habilitação, fazendo apenas as provas de 50 e 100 questões, além dos exames práticos que cada uma dessas provas acompanha, obtendo assim, sua habilitação japonesa, além de pagar somente as taxas dos exames e provas, a cada repetição. Saindo assim, mais barato que um plano de auto escola.

    • 鈴木 permalink
      25/09/2016 16:37

      não amigo só vc estando dentro do pais de origem da habilitação ,ou seja no brasil apos ter obtido a habilitação por 3 meses sera valida aqui no japão pois tera que agir rapido pois a habilitação provisoria sera de 1 anos vc tera 9 meses para chegar no japão e transfirir e não se esqueça de trazer o prontuario da habilitação obtido no detran ou no poupa tempo para provar vericidade da mesma. e no caso sera a transferencia vc não tera que tirar do zero,cabe a você decidir se ira em uma auto-escola como nosso amigo ai fez ou vai direto tentar tirar a habilitação que ai no caso so ira gastar na tradução na JAF do prontuario e habilitação, e pagar o selo para poder fazer a prova entre tudo não passara de ¥10.000 porem fazer algumas aulas para aprender o kakunin ( checagem de segurança ) uma que facilita e outra que em questão de segurança nunca é demais . espero ter ajudado boa sorte e vitorias na sua jornada.

      • Cristiane permalink
        26/09/2016 14:09

        Muito obrigada pela ajuda!

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