Muitas pessoas já me perguntaram como é dirigir na Holanda com tantas bicicletas, ruas antigas, pouco lugar para estacionamento, etc.. Apesar de ser um país bem organizado, bem sinalizado, muitos estrangeiros se sentem intimidados por não saber ler/interpretar as placas de trânsito e avisos nas auto/estradas.

Só para ter uma ideia, um filminho abaixo para ilustrar como todos sabem imediatamente de quem é a preferência. Se essa rotatória fosse no Brasil, sei não… Vejam como os carros param ao sair da rotatória para os ciclistas cortarem seu caminho. Vejam como os bondes tem prioridade total e não páram (e os ciclistas repeitam mesmo). Vejam como mesmo crianças participam do tráfego. Os ciclistas na Holanda também comunicam esticando o braço para esquerda ou direita mostrando assim que direção irão tomar, algo que os estrangeiros tem que aprender a fazer.

Meu sogro (Deus o tenha) era um tipo  meio à moda antiga. Enfim, um tipo prático, durão e destemido que nunca teve uma aula teórica de direção na vida. Aprendeu a dirigir aos 10 anos, utilizando um trator na fazenda do pai. Por isso começou a ensinar o meu marido a dirigir quando ele tinha 8 anos de idade, sentado entre as pernas do pai. Meu marido esticava o pescoço e mal via à sua frente (eu sei: to-tal-men-te desaconselhável). Isso durante ferias no interiorzão da França, lá onde o vento faz a curva nos campos de girassóis e milhos. Por volta dos 14-16 anos meu marido já dirigia por vilarejos franceses para cima e para baixo durante as férias – ninguém o denunciava e nenhum gendarme jamais o viu. O gajo estava tranquilo e auto confiante quando aos 18 anos foi tirar carteira de motorista na Holanda. Pagou por 20 aulas e na 16a decidiu já fazer o exame e passou. Foi uma grande economia de stress e $$$. Muita economia de $$$ por sinal.

E´ necessário ter assertividade para tirar a carteira na Holanda. 

No Brasil eu dirigia bem pouquinho e ao lado da minha mãe. Quando eu fui fazer aulas de direção na Holanda fui toda auto-confiante e já estava na autoestrada na sexta aula. O instrutor e dono da autoescola tratou de destruir tim-tim por tim-tim da minha auto-confiança. Passei com só um erro na prova teórica de 25 questões, ele nem acreditou. Três exames práticos de direção mais tarde e quase 50 aulas já feitas (e mentalmente em frangalhos) desisti de continuar tentando. O cara vivia me criticando e me desestimulando –  mandei ele ir catar coquinho, cheguei a pensar a me mudar para o Brasil forever. Um ano depois de ficar totalmente sem aulas, decidi a última tentativa. Contratei uma instrutora, desabafei com ela e desde a primeira aula foi uma maravilha. Ela me dava uma aula normal e antes de concluir mandava eu parar e estacionar, pegava uma papel e caneta e desenhava em linhas gerais um trecho do percurso que tinha acabado de fazer. E dizia como eu poderia ter ido mais rápido ou mais devagar naquele trecho e porquê. Ou então dizia: “Sorria e mostre que você está tendo prazer em dirigir durante o exame. Eu sei que você é uma pessoa concentrada e fala muito pouco, mas o examinador pode achar  que você está super tensa e com medo de cometer uma falha. Sorria.” Ou seja: ela viu que eu dominava a parte técnica, mas me instruiu quase como uma psicóloga a mudar minha atitude e comportamento durante o exame. Eu paguei por 10 aulas com ela, mas depois da sexta já decidi fazer exame. Passei.

Concluo o seguinte sobre dirigir na Holanda:

* As placas de sinalização são realmente muitas, e o significado podem ser exatamente ao contrário do Brasil. Aqui o que é proibido está dentro de um círculo vermelho. Por exemplo, “proibido estacionar” (parkeren, park the car) está representado assim:

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Placas de proibição de estacionar. Ha muitas outras placas de proibição para estacionar, mas essas duas são as mais comuns

MAS (há sempre um “mas” com as regras de trânsito na Holanda) se o que estava sendo continuamente proibido passa a ser permitido a partir de um determinado trecho, você vê a mesma placa circundada em vermelho e com um X também em vermelho. Isso significa “final da proibição”.  Isso confunde muitos motoristas estrangeiros. E também muitas placas não contem são símbolos, são frases na língua holandesa

* Holandeses passam rápido nas provas práticas. Tentam só umas duas vezes. Nem tente se comparar a eles, não funciona. Incrivelmente, vários holandeses nascidos e criados aqui fazem provas teóricas mais de uma vez, alguns várias vezes.

* Quem não nasceu e viveu na Holanda tem dificuldades em passar no primeiro (ou segundo)  exame prático. Precisa em média tentar três a cinco vezes (staats exam, um tipo especial de exame para quem ja perdeu quatro vezes). Também necessitam de um número tremendo de aulas. Não é absurdo ter 70 ou 100 aulas ao longo de anos antes de conseguir dominar o tráfego.

* Se quer tirar carteira, procure conhecer bem sua cidade e arredores. Ande bastante de bicicleta para cima e para baixo, em diversos horários e condições climáticas. Isso porque o transporte público e principalmente os ônibus, tem pistas especiais fora do perímetro urbano e que te alienam na hora de dar uma impressão das cidades. Como eu trabalhava em Amsterdam e saía por lá também no fim-de-semana, não conhecia mesmo a Zaanstad (toda a área de Zaandam e villages ao redor), que era onde fazia aulas e exames.

* Reserve milhares de euros para as aulas e os exames. Reserve também tempo, muito tempo para ficar fazendo aulas (1 ou 2 anos) . A escola fecha de férias por seis semanas, depois você sai de férias, depois aulas são canceladas durante tempo ruim ou neve nas estradas, o instrutor fica doente, você fica doente,  etc..

* Durante o exame há que se mostrar destria como se estivesse há anos dirigindo. Não pode “destoar” dos demais motoristas que já tem prática. Não pode  ser muito lento nem muito rápido. Não ficar repetindo nem checando os comandos do examinador. (Exemplo: o examinador diz: “Você vai dobrar na próxima rua à direita” e você tenta confirmar se ouviu direito “Na próxima rua ? À direita ? Essa ? Agora???” Isso soa péssimo!).

* Ajuste sua mentalidade se for o caso (como eu). Como a Holanda é pequena, o domínio de autoestradas é fundamental para poder tirar carteira de motorista. Algumas estradas de alta velocidade (autosnelweg)  são bem cascudas com pistas curtas para a inserção e saída, várias pistas com tráfego a 120km/h ou 130 km/h, túneis com veículos pesados e tráfego intenso, rotatórias com várias pistas, várias saídas e até semáforos. Há muitos, muitos ciclistas na Holanda que tem que ser respeitados! Há crianças pedalando, grávidas, idosos. Todos rápidos, autoconfiantes e audaciosos. Isso pode ser intimidador para o motorista durante uma prova, que pode ficar com muito medo de encostar em alguém. Há rotatórias complicadas, aonde circulam bondes, bicicletas, cadeiras elétricas para pessoas com handicap, ônibus interestaduais.

Enfim, simplesmente não funciona ter aquela mentalidade de: “Dirijo mas não pego autoestrada./ Dirijo mas não sei estacionar muito bem. / Dirijo mas não gosto de ladeiras. / Dirijo mas só na minha cidade. / Dirijo mas não à noite ou  quando chove, neve, venta, tem granizo”, etc.. Aqui não “cola” desculpa para alguma incompetência na hora de ir tirar carteira. Tem que dirigir pra todo lado, em qualquer circunstância de tempo.

BLOG RIJ  BLOG RIJ2

Modelo antigo de carteira de motorista (`a esquerda) que se abria em três partes. Recentemente foi substituído por um modelo do tamanho de um cartão de credito (foto da direita). Se chama “rijbewijs” (a pronúncia é algo como “rái – bêvais”. Rijden = dirigir, bewijs= comprovante) 

Quanto a mim, tenho carteira e gosto muito de me alternar com meu marido nas autoestradas quando vamos para outros países. Mas detesto ter que procurar o caminho dentro das cidades desconhecidas, ter que procurar uma vaga para estacionar. Prefiro sempre que possível usar o transporte público e a bicicleta. É legal ter meu carrinho para levar minha sogra e filhos a percursos pequenos e mais ou menos conhecidos. Ou seja: caminhos descomplicados, com possibilidade de estacionamento. Eu sei que nunca serei uma motorista pra qualquer situação, pau pra toda obra. Tenho meus limites (miopia agressiva e limitante, pouca visão noturna) e vivo “bem” assim.

Conclusão: tirar carteira para dirigir na Holanda é um processo caro, rígido e leva tempo. As provas (teórica e prática) são em holandês, caras e difíceis. A prova é feita no trânsito comum. Porém o prazer de desfrutar de ruas e estradas bem planejadas e bem conservadas/sinalizadas com motoristas educados e experientes supera todas as dificuldades para se tirar a carteira de motorista.