bz_franca Sheila Ward – Paris

A chocante notícia de que lugares de Paris estavam sendo atacados nos chegou no início da tarde, já que a Califórnia fica nove horas atrás do horário francês. Naquela sexta-feira, um grupo de amigos preparava uma festa de despedida para minha família. Depois de quatro anos morando em São Francisco, estamos de mudança para Paris. Acompanhamos os acontecimentos estarrecidos, preocupados e muito tristes. E fomos para o jantar sem que minha família ou nossos amigos estivessem com o menor espírito para festejar coisa alguma.

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Poucos dias depois, chegamos à França. Aproveitamos que não haveria aulas por causa do feriado americano de Thanksgiving e fomos passar uma semana em Paris, com o intuito de visitar a cidade, conhecer a escola onde meu filho vai estudar a partir de janeiro e os bairros onde, possivelmente, será interessante procurar apartamento.

À primeira vista, Paris parece estar levando uma vida normal. Mas basta ajustar o foco para vermos muito policiamento pela cidade toda, em especial, em lugares de maior movimento. Há um mal-estar generalizado, embora um pouco encoberto. As pessoas olham com desconfiança para coisas que, antes, passariam despercebidas. Já no aeroporto notei um funcionário olhando por cima dos ombros de um jovem que lia qualquer texto no computador e fazia anotações num papel.

Devido ao ‘estado de emergência’ imposto, ao entrar nas lojas, você tem que abrir a bolsa para o segurança inspecioná-la. Eu abri a minha, um pouco envergonhada pela bagunça e um pouco incomodada pela chateação: tenho lá eu cara de terrorista? Mas quem é que tem, não? Não há exceções. E é melhor que não haja mesmo…

No fim de semana, resolvemos deixar Paris e ir de trem a Lyon. Na estação, vimos soldados com armas em mãos espalhados por diversos locais. Aquilo intimida bastante, mas, na verdade, é impossível controlar o que acontece num lugar daqueles. O entra e sai de pessoas é constante. Há muita gente por todos os lados. Qualquer um entra num trem. Ou você deixa de pensar no assunto e tenta se distrair com uma revista qualquer, ou corre o risco de ficar paranoico. Preferi a primeira opção, mas não sem checar primeiro quem estava por perto…

De volta a Paris, fomos visitar a escola onde meu filho vai estudar. A segurança, que já existia em um certo grau, aumentou muito. Ninguém entra sem ser autorizado. Os portões fecham logo que seu carro entra. Você só anda pela escola se tiver uma etiqueta de identificação. Mas o que nos  impressionou mesmo foi a presença de soldados armados e com coletes à prova de balas já na recepção. Passei por dois que me cumprimentaram amigavelmente e não pude deixar de pensar na sensação que as crianças e adolescentes que estudam ali, e mesmo os adultos que trabalham lá, devem ter ao ver aquilo todos os dias (o estado de emergência deve durar pelo menos três meses).

No dia seguinte, saímos para visitar os bairros com a funcionária da agência de relocação que está nos ajudando. Ela nos mostrou apartamentos lindos em ruas incríveis, cheia de lojinhas, mercadinhos, floriculturas, cafés e restaurantes. A gente passou na frente, do lado e atrás da Torre Eiffel e eu fiquei deslumbrada todas as vezes. Como não ficar? Assim como a ponte Golden Gate me encantou durante esses quatro anos que morei em São Francisco, a torre vai me seduzir todas as vezes que eu passar por ela, tenho certeza. Algumas coisas não se tornam ordinárias jamais. E foi assim, com a alma elevada e cheia de ânimo, que quase esqueci por alguns momentos da tragédia que manchou essa cidade fantástica e da apreensão que há no ar. Mas então, quando paramos num farol vermelho, vimos, do nosso lado, um carro também parado com cinco policiais armados em volta, dois deles revistando o motorista que havia sido retirado do carro e que tinha as mãos presas atrás das costas. Senti um balde de água gelada me acordar para uma realidade que não é aquela com a qual eu vinha sonhando até uma semana antes…

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Agora é esperar para ver o que vem pela frente. Vai ser muito bom poder sentar para tomar um café-crème sem ficar desconfiada daquela mochila no chão, ao lado do balcão… E pegar o metrô sem outra preocupação senão a de chegar no horário… A normalidade vai voltar, Paris é resiliente. Vamos torcer para que ela volte o mais depressa possível.

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* Sheila Ward se formou em tradução. Já morou na Inglaterra, Portugal, Itália e EUA e adora escrever sobre o que vê em suas andanças por aí. Em janeiro de 2016 se muda para Paris.  Mais fotos da Sheila e outros autores no nosso InstagramCurtam a fanpage do BZ no Facebook clicando aqui. Twitter ? Clique aqui!