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Paris depois dos ataques terroristas: primeiras impressões

03/12/2015

bz_franca Sheila Ward – Paris

A chocante notícia de que lugares de Paris estavam sendo atacados nos chegou no início da tarde, já que a Califórnia fica nove horas atrás do horário francês. Naquela sexta-feira, um grupo de amigos preparava uma festa de despedida para minha família. Depois de quatro anos morando em São Francisco, estamos de mudança para Paris. Acompanhamos os acontecimentos estarrecidos, preocupados e muito tristes. E fomos para o jantar sem que minha família ou nossos amigos estivessem com o menor espírito para festejar coisa alguma.

BLOG Paris apres les attaques 2

Poucos dias depois, chegamos à França. Aproveitamos que não haveria aulas por causa do feriado americano de Thanksgiving e fomos passar uma semana em Paris, com o intuito de visitar a cidade, conhecer a escola onde meu filho vai estudar a partir de janeiro e os bairros onde, possivelmente, será interessante procurar apartamento.

À primeira vista, Paris parece estar levando uma vida normal. Mas basta ajustar o foco para vermos muito policiamento pela cidade toda, em especial, em lugares de maior movimento. Há um mal-estar generalizado, embora um pouco encoberto. As pessoas olham com desconfiança para coisas que, antes, passariam despercebidas. Já no aeroporto notei um funcionário olhando por cima dos ombros de um jovem que lia qualquer texto no computador e fazia anotações num papel.

Devido ao ‘estado de emergência’ imposto, ao entrar nas lojas, você tem que abrir a bolsa para o segurança inspecioná-la. Eu abri a minha, um pouco envergonhada pela bagunça e um pouco incomodada pela chateação: tenho lá eu cara de terrorista? Mas quem é que tem, não? Não há exceções. E é melhor que não haja mesmo…

No fim de semana, resolvemos deixar Paris e ir de trem a Lyon. Na estação, vimos soldados com armas em mãos espalhados por diversos locais. Aquilo intimida bastante, mas, na verdade, é impossível controlar o que acontece num lugar daqueles. O entra e sai de pessoas é constante. Há muita gente por todos os lados. Qualquer um entra num trem. Ou você deixa de pensar no assunto e tenta se distrair com uma revista qualquer, ou corre o risco de ficar paranoico. Preferi a primeira opção, mas não sem checar primeiro quem estava por perto…

De volta a Paris, fomos visitar a escola onde meu filho vai estudar. A segurança, que já existia em um certo grau, aumentou muito. Ninguém entra sem ser autorizado. Os portões fecham logo que seu carro entra. Você só anda pela escola se tiver uma etiqueta de identificação. Mas o que nos  impressionou mesmo foi a presença de soldados armados e com coletes à prova de balas já na recepção. Passei por dois que me cumprimentaram amigavelmente e não pude deixar de pensar na sensação que as crianças e adolescentes que estudam ali, e mesmo os adultos que trabalham lá, devem ter ao ver aquilo todos os dias (o estado de emergência deve durar pelo menos três meses).

No dia seguinte, saímos para visitar os bairros com a funcionária da agência de relocação que está nos ajudando. Ela nos mostrou apartamentos lindos em ruas incríveis, cheia de lojinhas, mercadinhos, floriculturas, cafés e restaurantes. A gente passou na frente, do lado e atrás da Torre Eiffel e eu fiquei deslumbrada todas as vezes. Como não ficar? Assim como a ponte Golden Gate me encantou durante esses quatro anos que morei em São Francisco, a torre vai me seduzir todas as vezes que eu passar por ela, tenho certeza. Algumas coisas não se tornam ordinárias jamais. E foi assim, com a alma elevada e cheia de ânimo, que quase esqueci por alguns momentos da tragédia que manchou essa cidade fantástica e da apreensão que há no ar. Mas então, quando paramos num farol vermelho, vimos, do nosso lado, um carro também parado com cinco policiais armados em volta, dois deles revistando o motorista que havia sido retirado do carro e que tinha as mãos presas atrás das costas. Senti um balde de água gelada me acordar para uma realidade que não é aquela com a qual eu vinha sonhando até uma semana antes…

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Agora é esperar para ver o que vem pela frente. Vai ser muito bom poder sentar para tomar um café-crème sem ficar desconfiada daquela mochila no chão, ao lado do balcão… E pegar o metrô sem outra preocupação senão a de chegar no horário… A normalidade vai voltar, Paris é resiliente. Vamos torcer para que ela volte o mais depressa possível.

__________

* Sheila Ward se formou em tradução. Já morou na Inglaterra, Portugal, Itália e EUA e adora escrever sobre o que vê em suas andanças por aí. Em janeiro de 2016 se muda para Paris.  Mais fotos da Sheila e outros autores no nosso InstagramCurtam a fanpage do BZ no Facebook clicando aqui. Twitter ? Clique aqui!

4 Comentários leave one →
  1. 03/12/2015 21:11

    O nome Paris pode ter a origem nas tribo celta dos parisii, que ocupavam a atual Île de France e foram massacrados pelos romanos. Agora, quantos massacres, quantos ataques, quantas guerras de religião as paredes daquela cidade já não viram ao longo dos milênios? Vamos assistir de novo à “La Reine Margot”… Paris será sempre Paris e você vai ter anos maravilhosos da sua vida por lá. Aproveite bem essa oportunidade e nos conte em 2016 sobre os parisienses, os festejos, as atrações culturais, a sua adaptação e beaucoup, beaucoup more !

  2. 04/12/2015 1:06

    Obrigada, Ana! Você tem razão. Temos mais é que focar em tudo de maravilhoso que aquela cidade tem para oferecer… Vou compartilhando, conforme for descobrindo (e me encantando)! Grande abraço.

  3. 21/01/2016 17:36

    Oi Sheila, tudo bom?
    Meu marido e eu (ele tem cidadania portuguesa) estamos nos planejando pra mudar pra França no fim do ano.
    Gostaria de saber como foi a parte burocrática, conta de banco, inscrição no secure social… Se puder compartilhar, ficarei muito grata!
    Um abraço,
    Ludmila

    • 21/01/2016 18:29

      Oi, Ludmila! Tudo bem? Chegamos no início de janeiro e estamos passando por isso neste momento (eu escrevi esse texto quando estive aqui por uma semana em novembro). Felizmente, temos assistência de uma ‘relocation agency’. Isso ajuda muito! Mas algumas coisas temos que fazer nós mesmos. Aqui pode ser bastante burocrático, sim. E olha que meu marido também é europeu! Talvez seja interessante vocês procurarem uma agência que trabalhe com relocação e que possa, pelo menos, orientá-los. Vocês estarão vindo como expatriados ou por conta própria? Desculpe, gostaria de te ajudar mais, mas ainda não passei pelo processo todo e não sei te dizer com certeza. Mas espere alguma complicação, sim. O início é sempre chato, mas depois melhora. Vale a pena! Continue pesquisando! Há muita gente que já passou por isso e poderá te ajudar. Muito boa sorte! Um abraço.

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