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As comemorações de fim-de-ano no Japão

21/12/2015

japão W. Anderson (*) – Japão

Quando morava em São Paulo, adorava a passar na Av. Paulista e ver a decoração de Natal do Banco de Boston e do Banco Real. Ambos já não existem mais e eu não estou mais lá para ver o que ficou no lugar.

Para eu falar das comemorações de fim de ano no Japão, precisamos antes compreender um pouco da cultura que antecede esse grande evento no país. No caso de brasileiros vivendo no Japão, imagino eu, seja difícil passar esta data trabalhando ou indo para a escola, afinal de contas, é Natal. Eu mesmo já trabalhei neste dia, inclusive à noite e, confesso, no intervalo da janta (meia-noite) eu queria mesmo era descansar.

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Nota-se que dia 25 não está sinalizado em vermelho como feriado, apesar de estar escrito que é dia de Natal (Christmas – クリスマス). Dia 23 é feriado nacional, aniversário do Imperador (by happyprintable.com)

Aqui no Japão, a região de Kyusho, no sul/oeste, extremo oeste, foi a região que mais teve contato com estrangeiros. Nagasaki mesmo, foi fundada por mercadores portugueses. Essa região é considerada o berço do budismo no Japão, contudo, por influência européia, é o local do Japão onde o Natal é mais comemorado. Oficialmente, o Japão é laico, ainda que a grande maioria seja budista ou xintoísta. Assim, dia 25 de dezembro é um dia normal, de trabalho ou estudo. Não é feriado. Aliás, dia 23, é feriado nacional, aniversário do Imperador. Neste dia são abertos os portões do Palácio Imperial para visitantes em seu jardim, podendo inclusive, ver a família imperial em aparições programadas na sacada, com direito a um discurso do Imperador. E depois de um feriado, tem-se que trabalhar. No Japão, após um ano longo de duro trabalho, mesmo hoje na era industrial como também antigamente na era literalmente agrícola, os japoneses mantém o costume de se reunir em uma festa de ano, onde os relacionados ao trabalho, assim como famílias se reúnem para a realização das festas de final de ano, conhecidas como “bonenkai”. O interessante é analisarmos o significado das letras japonesas que constituem essa palavra, onde “bonenkai” (em japonês 忘年会), tendo como significado reunião para esquecer-se do ano, não esquecer no sentido literal, mas deixar de lado os acontecimentos ruins para se concentrar para o início de um novo ano que está por vir.

Hoje em dia, essas festas são motivadas tanto pela ideia de se expressar gratidão pelo trabalho duro das pessoas durante o ano, como pela ideia de se esquecer das dificuldades, além de se ter um tempo agradável ao final do ano. Pessoas de todas as idades e pertencentes a todos os tipos de grupos, incluindo estudantes e funcionários de empresas, se ocupam na preparação desses eventos. Na maior parte dos casos, cada participante gasta do seu próprio bolso, mas existem casos onde as empresas financiam o “bonenkai” para seus funcionários, cobrindo os custos da festa.

Não podemos deixar de exclamar que nestas festas, assim como em qualquer festa japonesa, nunca a hierarquia é esquecida, pelo contrário, na maioria das vezes é mais visível ainda nestas festividades. As mulheres servem os homens, os de status mais importantes permanecem sentados enquanto os menos importantes se locomovem ao encontro de seus superiores para conversar… Muitos outros detalhes fazem destas festividades algo não muito relaxante para os de uma hierarquia mais baixa, tendo como única diferença da maioria das culturas externas à japonesa o fato de que os superiores também servem os hierarquicamente abaixo de si, após serem servidos como forma de demonstrar proximidade, afetividade e amizade para com seu companheiro de trabalho ou demais relacionados.

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O Bonenkai é uma confraternização esperada por muitos (by japantimes.co.jp)

Após estas festas de final de ano, as quais se iniciam entre o início de dezembro terminando em seus meados, chega a hora da felicidade das crianças, o Natal. Esse é um tempo especialmente empolgante para elas, as quais aguardam a chegada dos presentes trazidos pelo Papai Noel enquanto elas dormem.

No Japão, o Natal se tornou popular como uma comemoração sazonal, onde os japoneses tomaram gosto por exibir árvores de Natal, comer o “bolo de Natal” e trocar presentes de Natal. Geralmente, esses itens, sem nenhum contexto religioso. Porém, diferente da maioria dos países espalhados pelo mundo, no Japão o Natal é uma máquina econômica, onde ao invés de cozinhar-se inúmeros pratos especiais para a época, os japoneses prezam por comprar pratos derivados de frango, pizzas e comer os tradicionais “bolos de Natal” preparados por lojas especializadas com decoração relacionada à data. As decorações de Natal focam mais em luzes, sinalizando o inverno, a neve em árvores e a figura do Papai Noel, mas dificilmente o simbolizam o contexto cristão.

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Shinjuku Mitsubishi Mall – Christmas Illumination (by japantimes.co.jp)

Apesar de ingerirem frango na maioria das vezes, induzidos pelas tradições dos países externos, como sabe-se o Japão não é cristão em sua maioria, sendo normal encontrar pessoas comemorando o natal em restaurantes comendo pratos derivados de carne vermelha ou preparando a árvore de natal com a estrelinha no topo, sem sequer saber que ela representa a estrela que guiou os três Reis Magos até Jesus de Nazaré, após seu nascimento. Aos olhos de muitos o Japão é um país discriminador, porém é um país que tem muita facilidade em absorver costumes de outras etnias – apenas não fazem questão de compreender os significados atribuídos à esses costumes.

Com o término das festividades de natal, inicia-se a época mais corrida do Japão, os preparativos para a virada de ano, onde várias tradições mesmo nos tempos de hoje são mantidas, prezando pelo bem estar da família ou bom bons ventos para o novo ano, demonstrando que o Japão é um país muito supersticioso. Essa época é tão corrida que o governo nem sequer cogitou ainda a possibilidade de ajustar o ano fiscal japonês à mudança de ano.

Em 1869, ano 2 da Era Meiji, se discutiu a necessidade de se ajustar uma data para o início do ano fiscal, tomando por base os governos dos países estrangeiros, inicialmente foi decretada como sendo em 1 de outubro. Em 1886, ano 19 da Era Meiji, foi mudado para 1 de abril, finalizando em 31 de março seguinte, ajustando-se à principal economia da época que era a agricultura. Isso foi baseado pela antiguidade da era romana, onde o ano iniciava-se no mês de março justamente ajustado à agricultura, sendo a mesma bem aceita pelos japoneses de forma geral em abril pelos mesmos motivos, além do fato de que considerava-se a época da primavera, época florida e de temperatura agradável, uma ótima época para se iniciar o ano fiscal.

Assim, quando o Natal acaba e terminam os “bonenkai”, já é quase 31 de dezembro, data conhecida pelos japoneses como “omisoka”, onde pouco antes da meia-noite, os templos budistas por todo o país começam a bater os sinos em tradição chamada de “joya no kane”, sendo os sinos badalados 108 vezes, simbolizando a purificação do que se conhece como os “108 desejos mundanos”, em japonês conhecido como “bonno”, dando início ao novo ano a partir do feriado de ano novo japonês, o “shogatsu”.

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Concentração de pessoas de frente a templo para a celebração da “omisoka” (by Azumino-shi Temple)

Contudo, tomou-se o costume de empresas fazerem um novo “bonenkai” dias após o retorno ao trabalho, depois do feriado do “oshogatsu”, como uma espécie de renovação de boas intenções para o novo ano que se iniciou.

Mas esses costumes não se baseiam apenas em tradições religiosas vindo de crenças japonesas, sendo algumas dessas tradições ações simples em busca de um próspero ano novo.

Um exemplo desses rituais é o “oosouji (大掃除)”, que significa a ‘grande limpeza’ em japonês, onde eles costumam limpar as residências, templos, escolas e até o local de trabalho, acreditando que desta maneira receberão o ano de alma limpa.

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oosouji – A “grande limpeza” acontece em residências, escolas, empresas e conta com a participação de todos, sem exceção. (by google.com)

Tradicionalmente, os feriados de Ano Novo, conhecidos como “shogatsu” (usa-se falar “oshogatsu”, usando a partícula ‘o’ precedendo a palavra, como uma meio de tratar de forma polida a palavra), eram uma época para se agradecer os deuses (“kami”) que zelavam pelas colheitas e também para dar as boas vindas aos espíritos dos ancestrais que protegiam as famílias.

Ainda hoje se mantém o costume de exibir o “kadomatsu” (decorações de galhos de pinheiros e bambus colocados nos dois lados das entradas das casas) e o “shime-kazari” (decorações com cordões de palha) para dar boas vindas a esses deuses e espíritos.

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decoração de “kadomatsu” em templo de Okinawa (by Nara Dream Trips)

Assim, no dia primeiro de janeiro realiza-se o “hatsuhinode” (o primeiro nascer do sol do ano), onde os japoneses se reúnem com os familiares e amigos e vão para litorais ou montanhas para assistir o primeiro nascer do sol do ano, como forma de receber as forças da natureza para enfrentar com disposição a dura batalha de mais um longo ano pela frente.

No começo do ano, as pessoas expressavam apreciação aos deuses e espíritos dos ancestrais e rezavam por uma colheita próspera no ano novo e devido a isso o feriado de Ano Novo para os japoneses é o mais importantes de todas as celebrações do ano, onde muitas pessoas elaboram projetos e tomam novas decisões para o ano que se inicia nessa época.

Durante o feriado de Ano Novo, as pessoas recebem cartões de saudações, conhecidos como “nengajo”, de parentes, amigos e conhecidos. O número de “nengajos” enviados para o Dia de Ano Novo de 2013 por exemplo foi de aproximadamente 1,9 bilhões de cartões, sendo esta tradição mantida ainda nos tempos atuais tanto pelos japoneses de forma geral, como pelas empresas que aproveitam para demonstrar à seus clientes a importância que dedicam a eles e é natural esses cartões serem enviados inclusive para crianças como por exemplo no caso de professores que enviam para seus alunos.

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uma única pessoa chega a enviar o “nengajo” para mais de 100 outras. o correio entrega ‘todos’ examentamente em 1º de janeiro (by yamawa-magokoro2.sakura.ne.jp)

Após se esquecer das dificuldades do ano anterior, limpar as impurezas (do até então) com a ‘grande limpeza’, preparar com decorações as boas vindas para os espíritos e deuses, receber a força do primeiro nascer do sol do ano novo e com os cartões de saudações de ano novo enviados para os familiares, amigos e clientes, falta cumprir com suas responsabilidades religiosas, sendo a mesma realizada atravéz do “hatsumode” (a primeira visita do ano aos santuários e templos).

Durante os feriados de ano novo, as famílias e amigos vão juntos realizar a primeira visita do ano, conhecida como “hatsumode”, aos santuários xintoístas e templos budistas. No caso dos santuários xintoístas, essas visitas eram feitas originalmente aos santuários que são conhecidos por estarem em “direção favorável” a partir da casa do visitante, onde o propósito dessas visitas era o de rezar por uma rica colheita e pela proteção da família e do lar no ano que estava por vir, onde hoje é atualizado esse conteúdo como pedidos por mais trabalho, elevações de cargo, aprovações em escolas renomadas dentre outras realizações desejadas pelos que pedem.

Logicamente, existem templos e santuários mais visados pelos que buscam por ajudas sobrenaturais, onde o Santuário Meiji Jingu em Tóquio recebe o maior número de visitantes no “hatsumode” (3.13 milhões em 2013), durante os três primeiros dias do ano, valores que não são tão absurdos quando comparados à outros preferidos pelos japoneses como o Templo Naritasan Shinshoji na Província de Chiba que chegou a 3 milhões, e o Templo Kawasaki Daishi na Província de Kanagawa, 2.98 milhões, em 2013.

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templo em Asakusa, Tóquio, com visitantes durante o hatsumode (by Asakusa Temple)

Nos tempos antigos, a comida era uma preocupação das donas de casa pois por tradição, consome-se o “osechi ryouri”, um ‘obento’ (marmita) especial que é servido em caixas também especiais chamadas “jubako”, com algumas das comidas típicas do Japão, onde cada alimento, assim como sua forma de preparo tem um significado positivo para o ano novo, além da idéia de deixar pronto muitos pratos de comida de modo que as mulheres possam tirar folga da cozinha para passar o ano novo junto à família, sendo que o preparo dessas marmitas em si é o mais trabalhoso de todo o ano.

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a “marmita” do ‘osechi ryouri’. cada alimento possui um significado na comemoração (by Google)

São servidos pratos como o “mochi” (bolinho de arroz), preparado à partir de uma goma de arroz (o arroz é cozido apenas em água e posto em um pilão de madeira, onde é socado até virar goma), e o “toshikoshi soba” (macarrão de trigo sarraceno), além de muitos outros pratos típicos dessa época, onde segundo a tradição, o “mochi” deve ser oferecido aos deuses antes do seu consumo e ser o primeiro alimento ingerido no início do ano, tradição a qual que se originou de uma lenda chinesa que diz que quem comê-lo no ano novo estará comendo o espírito do arroz, enriquecido pelos deuses e, onde o “toshikoshi soba” que garante longevidade e é uma forma de se despedir do ano velho e saudar o ano novo, sendo ambos pratos indispensáveis para o reveillon japonês.

Hoje em dia, com a industrialização em seu auge, a maioria desses pratos típicos dessa data, são comprados prontos como forma de diminuir o trabalho para se manter a tradição, podendo-se acompanhar a guerra entre empresas em busca de consumidores para seus produdos como o “osechi ryouri”, o “toshikoshi soba” ou o “mochi” que pode ser comprado já enfeitado e pronto para consumo após a virada do ano.

Após toda essa correria, percebe-se que até este momento as crianças não puderam fazer o que mais gostam que é brincar e ganhar coisas, sendo entediados para as mesmas, seguir tradições junto as suas famílias por esse longo período de cumprimento de crenças. Mas existe uma razão para que as mesmas sigam a risca essas tradições, afinal após essa correria é a vez delas se beneficiarem das tradições de sua cultura.

Durante os feriados de Ano Novo, as crianças recebem presentes especiais em dinheiro conhecidos como “otoshidama”, de seus pais e parentes, motivo o qual as crianças têm uma razão especial para aguardar com ansiedade a chegada do Ano Novo, não sendo incomum para crianças no Ensino Fundamental e Médio nos dias de hoje receberem quantias de 5.000 ou 10.000 ienes por presente, podendo totalizar uma quantia de muitas dezenas de milhares de ienes por criança. Muitas vezes, a quantia recebida é volumosa, uma grande parte é reservada para a poupança dos estudos, permitindo gastar apenas uma pequena parcela.

otoshidama

o “otoshidama” é uma tradição que resiste aos tempos (by Google)

Mas nem todas as tradições japonesas, até então seguidas a risca, são mantidas para todo o sempre.

Antigamente, quase todas as crianças participavam de brincadeiras especiais de Ano Novo ao ar livre como empinar pipas, rodar piões (especialmente para meninos) e um jogo para meninas parecido com o ‘badminton’, chamado “hanetsuki”.

Brincadeiras dentro de casa incluíam os jogos de cartas “uta karuta”, que testavam a rapidez em que os participantes reconheciam poemas de “Hyakunin Isshu” (“100 Poemas por 100 Poetas”), e um jogo de tabuleiro chamado “sugoroku”, similar ao gamão.

Entretanto, para as crianças de hoje, cercadas por tantas formas diferentes de entretenimento, esses jogos de Ano Novo vêm perdendo a sua prévia popularidade, dando espaço para a criação de novas tendências como boliche de ano novo, karaoke de ano novo ou qualquer outra atividade realizada em centros de diversão que se mantêm abertos mesmo que na virada de ano. É normal nos tempos de hoje encontrar pessoas solitárias que passam o ano novo comendo comidas de lojas de conveniência sozinhos, mantendo a tradição de ingerir determinados alimentos, com a diferença de os mesmo serem industrializados ou fornecidos por lojas e restaurantes, tirando a necessidade de fazê-los por si próprio, realidade a qual é comum de se verificar nesses tempos de modernidade atual.

Assim, é muito comum que muitos estrangeiros, independente da nacionalidade, pratiquem essas tradições (da mesma forma que os japoneses assimilam costumes estrangeiros sem saber também o significado desta cultura que relatamos aqui).

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W. Anderson é engenheiro elétrico e mora com a família há 11 anos no Japão. Para saber mais sobre ele clique aqui

(*) Participou deste post, Kenji Kawanishi, diretor do Conselho de Residentes Estrangeiros grupo Putz Network de Nagano-ken. ケンジさん、どうもありがとうございます!

Vejam fotos do W. Anderson e de outros autores no perfil do BZ no Instagram. E sigam nossa página no Facebook acessando aqui.

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