japão W. Anderson – Japão

Lendo um post de alguém que curtiu o meu, me inspirei a escrever sobre esse tema.

Sempre fui desencanado com tabus ou com trocar de roupa perto da minha mãe ou da empregada. Minha mãe era costureira nas horas vagas e muitas vezes eu estava no lugar que ela costumava costurar, fazendo minhas tarefas de casa, enquanto algumas freguesas dela tiravam a roupa para experimentar as costuras. Eu era criança, então, que mal haveria ver uma mulher de calcinha e soutien? Nenhum.

Uma das muitas coisas que fiquei surpreso aqui no Japão, foi quando minha esposa pediu para que eu comprasse absorventes para ela. Depois de sair do serviço, passei no mercado para comprar algumas coisas e a “encomenda” dela. Ao passar no caixa, a moça pegou o pacote de absorventes e agachou-se de repente (eu me assustei, o que teria acontecido?), mas ela logo em seguida levantou-se olhando para um lado e outro, como se fizesse algo errado ou então, como se quisesse saber se tinha alguém mais olhando. Com o pacote de absorvente ainda na mão, ela colocou dentro de um saco de papel (daqueles que colocavam pão francês dentro no Brasil), depois ainda, dentro de uma sacola cinza (daquelas que você não vê o conteúdo) e continuou a registrar as demais coisas.

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absorventes femininos em embalagem “com privacidade” (arq. pessoal)

Confesso que esse “ritual” me foi surpreendente demais. Afinal, será que a mulher teria sentido vergonha ou timidez por um homem comprar absorventes? Seria isso mesmo?

Numa outra oportunidade, numa farmácia grande, “estando de longe”, reparei que a moça do caixa agiu de forma semelhante, certo que não daquela forma que foi comigo, mas ela colocou também dentro de um saco de papel e em seguida numa sacola não transparente.

Vou “abrir um parênteses” sobre a cultura japonesa. Principalmente com estrangeiros, fazer uma pergunta “incisiva demais”, pode preceptar o fim de uma conversa e mesmo um relacionamento comercial ou pessoal. O desejo é inspirado pelo pensamento e uma pergunta direta demais, não é bem vista pelos japoneses, mesmo entre eles, nativos. Por essa razão, é comum que eles dêem muitas vezes, respostas indiretas (ou evasivas), o mesmo vale para as perguntas. Mas com essa amiga, não teria problema, no entanto, quis ter certeza. Com o conviver com os japoneses, você acaba assimilando esse tipo de comportamento, ainda mais, quando se fala o idioma mais horas do que o seu próprio, no dia-a-dia. Por outro lado, japoneses não gostam de falar de coisas pessoais (deles), mas adoram saber das suas. 

Tenho uma amiga japonesa, que fala bem inglês, ela é casada, mas possui um comportamento bem internacionalizado. Conversa sobre tudo, mesmo com homens (estrangeiros). Por sermos amigos há alguns anos,  tomei a liberdade de perguntar algumas coisas, inclusive sobre os absorventes. Claro, que sabendo da questão cultural, tomei todo cuidado e “cerimônia”, para consultar se poderia fazer tais perguntas. Por exemplo… o mais surpreso foi eu encontrar nas lojas absorvente com tamanhos de comprimento, de 16 cm até 36 cm. Fiquei imaginando, como a maioria das japonesas são pequenininhas e magrinhas, o maior deles talvez s seja usado como fralda, não?

Ela me respondeu que para evitar que a privacidade de uma pessoa (no caso, das mulheres) seja exposta, as lojas colocam os absorventes em embalagens que dificultam saber do conteúdo. Então perguntei ainda:  “Se fazem isso com absorventes, então se uma mulher está com uma sacola assim, ela está tendo o período?”, sim,  respondeu. E completou: -“Homens japoneses não compram produtos de uso feminino, mesmo que as esposas peçam a gentileza deste favor”.

Não muito contente com a resposta, perguntei: -“E no que mais as mulheres japonesas diferem?” Ela respondeu (sem nenhuma cerimônia ou constrangimento): -“Meu marido e eu preferimos o estilo ‘brazilian wax in airstrip’ – suas palavras -, mas a maioria (natureza) das mulheres japonesas não depilam  (aquilo mesmo), porque frequentam ‘onsen’ e, as outras mulheres ficam reparando. Quando vêem uma mulher depilada, falam que, ou é prostituta ou tem algum amante para ter de fazer ‘isso’ “. E imagina o bairro todo ficar pensando que você tem um amante ou que é uma ‘biscate’, só porque (se) tem uma preferência diferente (da maioria) de todas delas, completou  a minha amiga.

Confesso que conhecendo a cultura nipônica e, sabendo disso (agora), é difícil imaginar uma mulher japonesa preferindo fazer uma ‘pista de pouso’. E entendo perfeitamente o receio, para quem gosta de frequentar onsen, em fazer algo que “escandaliza”. Somente mesmo para japoneses internacionalizados também na cultura.

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brazilian wax – pista de pouso, a preferência da minha amiga e do marido dela (by wikipedia.org)

Eu fiquei mudo por instantes, mas me recompus e mudei de um assunto. Já tinha ficado “vermelho” e não faltaria muito para me sentir constrangido.

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W. Anderson é engenheiro elétrico e mora com a família há 11 anos no Japão. Para saber mais sobre ele clique aqui

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