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Era somente para esclarecer (uma) dúvida

01/02/2016

japão W. Anderson – Japão

Lendo um post de alguém que curtiu o meu, me inspirei a escrever sobre esse tema.

Sempre fui desencanado com tabus ou com trocar de roupa perto da minha mãe ou da empregada. Minha mãe era costureira nas horas vagas e muitas vezes eu estava no lugar que ela costumava costurar, fazendo minhas tarefas de casa, enquanto algumas freguesas dela tiravam a roupa para experimentar as costuras. Eu era criança, então, que mal haveria ver uma mulher de calcinha e soutien? Nenhum.

Uma das muitas coisas que fiquei surpreso aqui no Japão, foi quando minha esposa pediu para que eu comprasse absorventes para ela. Depois de sair do serviço, passei no mercado para comprar algumas coisas e a “encomenda” dela. Ao passar no caixa, a moça pegou o pacote de absorventes e agachou-se de repente (eu me assustei, o que teria acontecido?), mas ela logo em seguida levantou-se olhando para um lado e outro, como se fizesse algo errado ou então, como se quisesse saber se tinha alguém mais olhando. Com o pacote de absorvente ainda na mão, ela colocou dentro de um saco de papel (daqueles que colocavam pão francês dentro no Brasil), depois ainda, dentro de uma sacola cinza (daquelas que você não vê o conteúdo) e continuou a registrar as demais coisas.

File_000 (1)

absorventes femininos em embalagem “com privacidade” (arq. pessoal)

Confesso que esse “ritual” me foi surpreendente demais. Afinal, será que a mulher teria sentido vergonha ou timidez por um homem comprar absorventes? Seria isso mesmo?

Numa outra oportunidade, numa farmácia grande, “estando de longe”, reparei que a moça do caixa agiu de forma semelhante, certo que não daquela forma que foi comigo, mas ela colocou também dentro de um saco de papel e em seguida numa sacola não transparente.

Vou “abrir um parênteses” sobre a cultura japonesa. Principalmente com estrangeiros, fazer uma pergunta “incisiva demais”, pode preceptar o fim de uma conversa e mesmo um relacionamento comercial ou pessoal. O desejo é inspirado pelo pensamento e uma pergunta direta demais, não é bem vista pelos japoneses, mesmo entre eles, nativos. Por essa razão, é comum que eles dêem muitas vezes, respostas indiretas (ou evasivas), o mesmo vale para as perguntas. Mas com essa amiga, não teria problema, no entanto, quis ter certeza. Com o conviver com os japoneses, você acaba assimilando esse tipo de comportamento, ainda mais, quando se fala o idioma mais horas do que o seu próprio, no dia-a-dia. Por outro lado, japoneses não gostam de falar de coisas pessoais (deles), mas adoram saber das suas. 

Tenho uma amiga japonesa, que fala bem inglês, ela é casada, mas possui um comportamento bem internacionalizado. Conversa sobre tudo, mesmo com homens (estrangeiros). Por sermos amigos há alguns anos,  tomei a liberdade de perguntar algumas coisas, inclusive sobre os absorventes. Claro, que sabendo da questão cultural, tomei todo cuidado e “cerimônia”, para consultar se poderia fazer tais perguntas. Por exemplo… o mais surpreso foi eu encontrar nas lojas absorvente com tamanhos de comprimento, de 16 cm até 36 cm. Fiquei imaginando, como a maioria das japonesas são pequenininhas e magrinhas, o maior deles talvez s seja usado como fralda, não?

Ela me respondeu que para evitar que a privacidade de uma pessoa (no caso, das mulheres) seja exposta, as lojas colocam os absorventes em embalagens que dificultam saber do conteúdo. Então perguntei ainda:  “Se fazem isso com absorventes, então se uma mulher está com uma sacola assim, ela está tendo o período?”, sim,  respondeu. E completou: -“Homens japoneses não compram produtos de uso feminino, mesmo que as esposas peçam a gentileza deste favor”.

Não muito contente com a resposta, perguntei: -“E no que mais as mulheres japonesas diferem?” Ela respondeu (sem nenhuma cerimônia ou constrangimento): -“Meu marido e eu preferimos o estilo ‘brazilian wax in airstrip’ – suas palavras -, mas a maioria (natureza) das mulheres japonesas não depilam  (aquilo mesmo), porque frequentam ‘onsen’ e, as outras mulheres ficam reparando. Quando vêem uma mulher depilada, falam que, ou é prostituta ou tem algum amante para ter de fazer ‘isso’ “. E imagina o bairro todo ficar pensando que você tem um amante ou que é uma ‘biscate’, só porque (se) tem uma preferência diferente (da maioria) de todas delas, completou  a minha amiga.

Confesso que conhecendo a cultura nipônica e, sabendo disso (agora), é difícil imaginar uma mulher japonesa preferindo fazer uma ‘pista de pouso’. E entendo perfeitamente o receio, para quem gosta de frequentar onsen, em fazer algo que “escandaliza”. Somente mesmo para japoneses internacionalizados também na cultura.

image

brazilian wax – pista de pouso, a preferência da minha amiga e do marido dela (by wikipedia.org)

Eu fiquei mudo por instantes, mas me recompus e mudei de um assunto. Já tinha ficado “vermelho” e não faltaria muito para me sentir constrangido.

________________

W. Anderson é engenheiro elétrico e mora com a família há 11 anos no Japão. Para saber mais sobre ele clique aqui

Vejam fotos dele e de outros autores no perfil do BZ no Instagram. E sigam nossa página no Facebook acessando aqui.

8 Comentários leave one →
  1. 01/02/2016 9:17

    No JP, vergonha em comprar (e vender) absorventes femininos. Enquanto isso, na Holanda…nas drogarias, caixas de vibradores são expostos em cima do balcão do caixa, ao lado das fraldas infantis. Todo mundo faz cara de paisagem, tipo “não acho nada demais”.

    • 01/02/2016 12:07

      Realmente coisas que não conseguimos entender.
      E olhe que aqui, tem loja de camisinha, que vende os mais variados tipos reais de preservativos e, alguns doces, que imitam, ou o próprio preservativo ou um pênis. E é frequentado por crianças e idosos, inclusive.

  2. Margot permalink
    01/02/2016 14:10

    Aproveitando a “deixa” que sou gaijin tbm, rs vou contar o que passou comigo aqui no Japao tbm… Minha primeira vez num onsen…. Recebi duas toalhas: uma grande e outra pequena… Fui no vestiario e tirei minhas roupas pra entrar nos ofuros… Aí me enrolei na toalha grande e fui toda saltitante e feliz kkkk…. Só que: me barraram e uma senhora disse q eu nw poderia entrar com a “toalha grande”…. Voltei pro vestiario e peguei a toalhinha… Só que:…. Se eu tampasse os peitos, a pirikita ficava de fora, se eu tampasse a pirikita, os peitos ficariam à mostra… Rsrs entao deixei a toalha de comprido (na vertical) onde consegui tampar tudo, menos o bumbum, kkkk mas daijoubu! Achei estranho e segui pra dentro de novo… Entrando no recinto, percebi q a toalhinha as japas usam na cabeça pra proteger os cabelos e ficam todas peladonas kkkk fiquei rindo de mim mesma sozinha e aí veio o “choque” : OMG!!! Todas tinham uma “selva amazônica” no meio das pernas!!! Impossível nw reparar!!!! Mas foi aí que me dei conta de que quem estava sendo observada era “EU” !!!! Eu era a única diferente la… A estranha! Kkkk mas resolvi relaxar e curtir depois passando o “choque” entre TODAS, rs tudo foi divertido!!! Acho muito interessante esses “conflitos de culturas” !!!

    • 01/02/2016 22:38

      Eu ri muito com sua performance com as toalhas. Deve ter sido muito engraçado. Mas são coisas que podem acontecer com qualquer um, quando não sabemos ao certo como proceder em alguns lugares ou situações.
      Muito obrigado por participar.

  3. 01/02/2016 15:06

    Opa! Saiu o post! Haha vim ler, viu?
    Eu nem me surpreendo que essa seja a reação dos japoneses… Pode ser algo meio internalizado com os clichês que conhecemos, mas imaginei que eles reagiriam assim mesmo pra esses tipos de tabu! Sou totalmente a favor das mulheres serem livres pra escolher se depilar o não, e enquanto no ocidente o preconceito é com as que escolhem não se depilar (processo chato, caro e doloroso), aí no Japão o preconceito é com as que se depilam. Ninguém nunca fica feliz nessa história! Nós mulheres estamos sempre presas à amarras sociais com medo de escândalos, olhares tortos e pré-julgamentos… É muito complicado.

    • 01/02/2016 20:51

      A humanidade criou tabus para justificar o tamanho da hipocrisia.
      Muitas vezes nos sentimos envergonhados sem necessidade, noutras, escandalizamos sem entender a razão.
      Será que um dia isso acabará?
      Obrigado por participar.

  4. edvanfleury permalink
    25/02/2016 9:25

    Morri de rir como esse post. Parabéns!!! Gente, se japonês é reservado o Chinês já é o oposto. Além de querer saber da sua vida, eles falam da deles sem muito pudores. Para mim os chineses são os Brasileiros na Ásia. Como eu moro na comunidade Japonesa/Coreana em Beijing, eu sempre achei os Japonese e os Coreanos muito educados com um nível que vai ao extremo. Acho que como tem muita gente aqui na China essa coisa de privacidade não existe muito. Por exemplo, em alguns banheiros públicos é possível encontrar banheiros sem paredes, aí vc faz o serviço conversando com a outra pessoa. As pessoas colocam a roupa para secar na calçada onde todo mundo passa e mesmo estando cercado de arranha-céus.

    • 25/02/2016 10:38

      Uma coisa em comum entre chinês e japonês: – querer saber da vida alheia.
      Mas isso parece mesmo ser inerente do ser humano.

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