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Somos todos “gaijin”

11/04/2016

japão W. Anderson – Japão

Gaikokujin.svg

 gaikokujin

“Gaijin”, é uma contração de “gaikokujin”, que significa pessoa de país estrangeiro. É assim que japoneses se referem à todos que não são japoneses e que, a princípio, morem no Japão. Ao pé da letra, gaijin” seria a pessoa de fora, que numa tradução literal, não faz muito sentido ao real significado.

No Brasil, é normalmente usado apenas “gaijin” entre as pessoas da colônia japonesa. Eles se referem ao brasileiro, como uma pessoa não descendente, sem nenhum sentido pejorativo, apenas para demonstrar que não pertencem à colônia. Engraçado notar, que mesmo  eles sendo  estrangeiros no Brasil, os brasileiros são os “gaijin”. Isso talvez, porque no idioma japonês, raramente encontramos narrações na terceira pessoa. Eles narram como executores ou como espectadores.

No Japão, o uso da forma contraída, leva à um sentido pejorativo. E, sempre que algum nativo usa desta forma, há sempre outro nativo para chamar a atenção, de que não se deve falar neste sentido. Muitos deles podem não gostar de estrangeiros, mas neste sentido, não deixam que tal opinião se torne pública.

Segregações à parte, eu não posso reclamar de preconceito por parte do meu sogro ou das demais pessoas familiares. Todos, sem exceção, me receberam bem e com muito respeito. Me tornei entre eles, uma referência para ajudar a todos que precisavam, inclusive sobre assuntos que poderiam ser considerados mais fechados.

Em meu casamento, familiares de ambos os lados compareceram em peso. Tiramos fotos todos juntos e separados, para mostrar o quanto cada parte fazia questão de marcar presença e se integrarem.

Mas o engraçado foi mesmo viver aqui no Japão.

Certa vez, eu estava com minha esposa andando da estação do metrô em Tóquio, para o estádio de baseball, aqui chamado de “yakyu”, quando um outro casal de japoneses vindo logo atrás, comentava que era estranho que “gaikokujin” se interessasse pelo “esporte nacional”. Nem dei chance para aquilo esboçar um bullying e, educadamente, me virei e falei para eles, dizendo: “Cuidado com o que vocês falam de estrangeiros, muitos como eu, entendem o que vocês dizem. Mas vocês, com certeza, não entendem meu idioma e muitos, nem mesmo entendem inglês”. Eles sem graça, me pediram desculpas e encerraram o assunto.

Gaijin2

gaijin – palavra contraída de gaikokujin

Talvez eu tivesse “pegado pesado demais”, mas ouvir um comentário que possa desmerecer alguém, não me agrada nem um pouco.

Um conhecido meu, quando chegou com o pai ao Japão em 1990, viu na imigração japonesa, um cartaz com a orientação de “japoneses” se dirigir aos guichês de 1 a 4 e estrangeiros, de 5 a 12. Ele e o pai, foram para a fila dos japoneses, mas tão logo entraram, um funcionário, já direcionou-os à fila dos estrangeiros. Na fila da imigração, se você não tem um passaporte vermelho, não é japonês. É nesta fila que acontece a primeira separação.

Depois de 11 anos juntos, dos quais, 8 de casamento, em 2012 nasceu o nosso filho, aqui no Japão. No entanto, ele não possui e nem poderia reivindicar a cidadania japonesa, perante à lei.

Se olhassem para mim e para minha esposa, lado a lado, diriam que ela é japonesa, esculpida em carrara e eu, 200% brasileiro. Mas aqui, mesmo que eu fosse negro ou índio, seria tão e igualmente estrangeiro quanto ela. Afinal de contas, brasileiro puro, mestiço ou descendente direto de japonês nativo, no Japão somos todos gaijin, sem diferença nenhuma aos olhos e à lei  dos japoneses.

Se você é expatriado, por favor conte-nos: Como seria a situação de um filho seu no país que mora?

________________

(*) todas as imagens utilizadas neste post foram extraídas de wikipedia.org

W. Anderson é engenheiro elétrico e mora com a família há 11 anos no Japão. Para saber mais sobre ele clique aqui

Vejam fotos dele e de outros autores no perfil do BZ no Instagram. E sigam nossa página no Facebook acessando aqui.

6 Comentários leave one →
  1. edvanfleury permalink
    12/04/2016 10:19

    Aqui na china os caracteres são quase os mesmos que os japoneses, mas a pronuncia é diferente 外国人 (Waiguoren ). Soa bem como “gringo” e muitas das vezes não é usado com o intuito pejorativo até pq chineses adoram estrangeiros (ainda mais se for branco, loiro e dos olhos azuis).

    • 12/04/2016 23:52

      Sim, os kanjis usados no Japão, são todos introduzidos da China, por volta do século III, se não me engano.
      No entanto, dos mais de 20,000 kanji chinês, apenas por volta de 6,000 foram aproveitados, sendo que na faculdade, usa-se por volta de 4,500.
      As leituras, também variam em japonês, mas basicamente, possuímos a leitura chinesa e a japonesa. Por exemplo, pode-se ler “中”, como “naka” ou como “chuo”.

  2. Arlete permalink
    13/04/2016 9:44

    Aqui é parecido. Filho de estrangeiro nascido aqui só tem direito à cidadania dos pais.

    • 13/04/2016 12:58

      Esse assunto é polêmico, mas compreensivo quando um país não reconhece a cidadania de um filho de estrangeiro quando nasce em seu território.
      Mas me parece que essa política é prática de poucos países, sendo que a maioria concede a cidadania aos que nascem em seus territórios.
      Estou enganado?

  3. Somos todos iguais permalink
    02/01/2017 15:41

    Sabe o que existe de pior do que ser considerado um gaijin fora do Brasil? ….é ser 200% brasileiro e ser considerado um gaijin pela comunidade japonesa dentro do Brasil, ou pior ainda, ser subjulgado de ser incapaz de entender outras culturas. Só digo que, entender e aceitar são verbos diferentes não só no vocábulo como também no significado. Dizer que sou capaz de entender não significa que tenho que aceitar. Um exemplo: Sou perfeitamente capaz de entender que existam tribos canibais, mas isso não significa que tenho que aceitar a prática dessas tribos. Sei que é um exemplo extremo, mas se aplica a qualquer situação. Recentemente minha esposa 100% descendente de japoneses e eu 100% brasileiro descordamos disso, e acho que mesmo depois de quase 20 anos de união ela ainda acha que sou incapaz de entender sua cultura. Um abraço a todos, Japoneses ou não, que isso tanto faz para mim.

    • 07/01/2017 9:29

      Creio que você não leu o artigo que escrevi. No Brasil, o conceito de ser gaijin não é pejorativo. Mas quando um brasileiro descobre o sentido literal da palavra, sem sequer conhecer e aprender a cultura, fica revoltado pelo que você reclamou.
      Contudo, entender e compreender a cultura japonesa, requer saber se posicionar do lado de fora da situação, sem tomar partido nem de quem é descendente quanto também de quem não é. Se você não analisar desta forma, vai com toda certeza, tomar um julgamento e não uma opinião. No entanto, na minha opinião, os japoneses são sim racistas, tanto quanto negros e judeus também são. É claro, que não são todos destes grupos étnicos, mas são os grupos que mais reclamam de sofrer racismo, mas em contra partida, são os que mais também são.
      Particularmente também, não acho que você seja incapaz de entender a cultura nipônica, mas talvez, “cabeça dura” demais para sequer ver por um outro ponto de vista.

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