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Carta de desculpas à Irlanda

13/04/2016

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Carlos FernandesSantiago, Chile e Dublin, Irlanda

 

Dear Ireland,

Pode ser que você nunca mais me aceite de volta. Que você nunca mais me queira ver nem pintado de verde, branco e laranja. Mas eu devo um pedido de desculpas a ti, “Ilha Esmeralda”.

Pois saiba também que eu não te troquei pelo Chile porque eu quis. Foram as circunstâncias que me fizeram te trocar pelos Andes.

Aaah Irlanda… Como sinto falta de seus gramados verdes ocupados pelas ovelhinhas coloridas e manchadas. Seus cliffs e a imensidão azul do mar. Seus castelos espalhados pelas sinuosas e estreitas estradas. Suas igrejas de pedras circundadas por graveyards e cruzes celtas. Aliás, quando eu resolvi tatuar a Irlanda em meu corpo, escolhi uma cruz celta como a lembrança maior e mais importante daquele tempo.

Cliffs of Moher

Cliffs of Moher , Condado de Claire (com altura máxima de 214m) – Foto: Carlos Fernandes

St. Stephen`s Green… Você sempre será meu lugar favorito no mundo. Se eu não te troquei pelo Coliseu, pela Torre Eiffel e nem pelo Big Ben, pode ter certeza que não te trocarei pela Cordilheira dos Andes. Se bem que a cordilheira é linda, né? Mas saiba que só você será meu local favorito para ouvir uma música, ler um bom livro ou ficar apenas observando as pessoas se esbaldando nos únicos três dias ensolarados do mês em Dublin. Suas flores anunciando a primavera, suas árvores coloridas no outono, sua grama congelada no inverno e todo seu espaço repleto de pessoas sedentas pelo verão não saem dos meus pensamentos.

St Stephen`s Green, em Dublin - Foto: Carlos Fernandes

St Stephen`s Green, em Dublin – Foto: Carlos Fernandes

Aaah Dublin… Seus dias gelados e chuvosos me fazem falta. Aqui no Chile não chove. Lá se vão mais de cinco meses sem uma gota de água em Santiago. Nunca mais vi um arco-íris se formar no horizonte. Nunca mais vi uma rua ficar congelada pela fina camada de água sob a temperatura negativa. Mas tenho que ser honesto e dizer que tanta chuva e céu cinzento, muitas vezes, me deixava depressivo. Acordar e sair para trabalhar com chuva e temperatura negativa em seu inverno era complicado. Ainda mais trabalhando por suas ruas, tendo apenas o teto dos pubs para me esconder. Aqui em Santiago não passo por isso. Os dias são ensolarados e de céu azul. Mas em compensação sinto falta de seu ar úmido e puro para respirar.

Dublin

Do alto do prédio onde eu vivia em Dublin, no inverno – Foto: Carlos Fernandes

Sabe do que mais sinto falta? Da Penneys e os baixíssimos preços de suas roupas. Do Lidl e do Tesco e sua variedade de bolachas, iogurtes e chocolates. Esses supermercados faziam parte da minha vida, assim como fazem parte da vida de todos os brasileiros que lá residem. Ainda mais eu que sou um aficcionado por supermercados. E o “Tescão”? Qual brasileiro que vive ou já viveu na ilha não lembra desse apelido e nunca aproveitou um “reduced” a 1 euro?

Aaah Dublin… Sua arquitetura georgiana e as tradicionais portas coloridas de suas casas dão um charme todo especial à sua paisagem urbana. Isso me enganou muito quando cheguei por aí porque, naquele momento para mim, todas as ruas eram iguais. Mas com o tempo passei a entender que essa era sua marca registrada.

Georgiana

Tradicionais moradias irlandesas – Foto: Carlos Fernandes

Caminhar fotografando as margens do rio Liffey também povoa meus pensamentos. Suas pontes que atravessam tal rio contam sua história até os dias atuais. Aquele aglomerado de pessoas das mais variadas localidades do mundo atravessando a O`Connell Bridge e o por do sol ao fundo. Era lindo. Paisagem rara, claro, pois o sol raramente era convidado para fazer parte de nossas vidas. Então aí vai meu puxão de orelha.

O`Connell Bridge

Entardecer na O`Connell Bridge, que corta o rio Liffey – Foto: Carlos Fernandes

Assim como fotografar os artistas de rua pela Grafton Street nos faz entender sua rica história musical. Lembro-me como se fosse ontem aquela tal véspera de Natal em que os grandes músicos irlandeses, capitaneados por Bono Vox, se unem para uma cantoria nessa rua em meio ao povo. Estar frente a frente com esse ícone irlandês, cantando para alguns sortudos que estavam ali naquele momento, fez daquele Natal algo inesquecível para mim.

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Cara a cara com Bono Vox – Foto: Carlos Fernandes

E meus St Patrick’s days então… Eles são sempre saudosos. Não importa se ao meu lado eu tenha uma Guinness. Pois eu não tenho mais os pubs do Temple Bar me cercando e nem a música celta ecoando.

Malahide Castle, St Patrick’s Cathedral, Christchurch, Spire, O`Connell Street, Harcourt Street… Por um ano vocês fizeram parte da minha vida e hoje a distância é tão grande! As fiéis Cork Street e Ranelagh Road. Todos os dias me aguentando. Tudo bem, vai. Quando a temperatura negativa era caprichada, ventava, chovia e nevava ao mesmo tempo você nem via a minha cara. Mas aí era complicado, não é verdade?

St Patrick's Cathedral - Foto: Carlos Fernandes

St Patrick’s Cathedral – Foto: Carlos Fernandes

Kilkenny e suas ruas e igrejas medievais… Galway e suas casinhas coloridas… Cork, Limerick, Waterford, Wexford, Tullow, Killarney, Derry, Donegal, Tipperary…

St Canice's Cathedral

St Canice’s Cathedral, em Kilkenny – Foto: arquivo pessoal

Hoje o Chile é o país que me oferece um trabalho e uma vida estáveis. Vida tranquila eu não digo porque, a qualquer momento, eu sei que tudo vai começar a tremer e teremos que evacuar o prédio do trabalho ou o prédio onde vivo. Assim é nossa vida. Mas o Chile tem me dado aquilo que um dia pensei em ter e que o Brasil faz questão de esquecer de nos oferecer. Mas saiba Irlanda que você vive em meus pensamentos e que, mais cedo ou mais tarde, esse pedido de desculpas será feito pessoalmente. E eu estarei de verde, branco e laranja para te abraçar e dizer: te amo!

_________________

Carlos Eduardo Fernandes é publicitário,  já morou na Irlanda e atualmente é professor de inglês online em Santiago, no Chile. Saiba mais sobre ele e o blog pessoal clicando aqui. Sigam-nos no Facebook acessando aqui. Instagram e Twitter: @blogbrasilcomz

10 Comentários leave one →
  1. Arlete permalink
    13/04/2016 9:32

    Que linda carta, Carlos. Que linda a Irlanda! Dá vontade de ir pra lá agora mesmo. Mas talvez seja melhor dar uma olhadinha na previsão do tempo primeiro, né?! 😀

    • carlosfernandeschile permalink
      13/04/2016 16:55

      Obrigado Arlete. A Irlanda é linda sim. Mas a previsão do tempo é fácil adivinhar. Se não estiver chovendo ainda é porque vai chover mais tarde.

  2. 13/04/2016 11:05

    Classe. Sua carta ficou com muita classe.

  3. 13/04/2016 12:35

    Muito bacana a sua homenagem, Carlos! Também adoro a Irlanda. Ô, país lindo e de gente para lá de especial. Tenho fotos de arco-íris lá, rs. Adorei o texto! Abraços.

    • 13/04/2016 12:40

      Você é suspeita, né? (rs)

    • carlosfernandeschile permalink
      13/04/2016 16:59

      Obrigado Sheila. Eu tinha muitas fotos de arco-íris em meu celular, pois eu trabalhava nas ruas. Acabei deixando o celular lá quando deixei o país e fiquei sem essas recordações. E tantas outras também.

  4. vera permalink
    13/04/2016 18:05

    Parabéns pelo sentimento expressado, genrinho.Senti-me lá de novo, e deu saudade.

    • carlosfernandeschile permalink
      13/04/2016 18:15

      Obrigado Dona Vera. A hora que quiser, voltamos…rs.

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