japão W. Anderson – Japão

Quando cheguei aqui, a comunidade brasileira era muito grande, já batia a casa dos 300.000 brasileiros morando no Japão. O comércio local, já habituado com tanto brasileiro, procuravam sempre uma forma de atender melhor. Dentro da comunidade, escolas até o segundo grau, expandiam-se com vigor, empresas exploravam o nicho que a comunidade proporcionava com alto poder aquisitivo e renda. Às vésperas da crise de 2008, já passávamos de 320.000 pessoas.

Até a crise de 2008, brasileiros que se tornaram empreendedores garantiam um padrão de vida muito acima da média da elite japonesa. Tinham carros importados, mesmo que aqui, os carros nacionais fossem infinitamente impossíveis de ter no Brasil, queriam mais, mais e mais.

Nas cidades com alguma concentração de brasileiros (geralmente acima de 4.000 pessoas), era normal a existência de loja de produtos brasileiros, sempre mais de uma, vendendo de tudo que pudesse trazer o Brasil mais perto e ao mesmo tempo, matar a saudade, fosse por um pacote de feijão, fosse por uma coxinha, guaraná da Antarctica ou mesmo um pacote de arroz “Tio João”, para aqueles que se diziam não se adaptar ao arroz tipo cateto, existente para os japoneses. Era comum ouvir: – “ah… eu gosto de arroz agulhinha”.

Pessoalmente, eu sempre comprei carne bovina em loja de produtos brasileiros, isso porque, no mercado japonês, a carne bovina (vinda da Austrália) não é vendida em cortes como conhecemos no Brasil, mas em fatias, finas ou grossas, em cubos, mas nada que pudesse lembrar aquele filé suculento de alcatra, filé mignon ou um cupim. Além do mais, o preço também era muito alto. Apenas para ilustrar, 1 kg de carne moída japonesa, sem saber de qual corte era, custava o triplo do mesmo 1kg de um patinho moído. Picanha, bem, isso (ainda) não existe em mercado japonês. Mas lembro bem, 1 kg de carne de 2ª no mercado japonês era o dobro de 1kg de picanha na loja de produtos brasileiros. Hoje, a diferença de preço caiu, mas a oferta pelos cortes, ainda inexistente aqui. Há alguns mercados japoneses, que vendem frango brasileiro, a um preço, ainda caro, mas possível de pagar. Outros, no estilo de “atacados”, vendem a preços melhores. Um exemplo, pacote de sobre coxa sem osso, de 2 kg, ¥789.

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anúncio de “kit p/ churrasco” – (by brasmarketonline.jp)

Mas algo que realmente assustava, apesar de muitos ainda aderir, era a assinatura da Globo Internacional. Aqui, quando cheguei, existiam 2 canais brasileiros, um era o 333, que transmitia programação da Globo e o outro 334, que transmitia um mix de Record e outras emissoras. Ambos, pelo sistema de parabólica da Sky Perfect TV e eram operados pela mesma empresa, a IPC Digital. Hoje, a numeração desses canais mudou. A IPC passou a ser afiliada da Globo e a Record abriu escritório aqui.

O custo mensal somente da Globo era de ¥4,200, do segundo canal, ¥3,500. Mas os demais canais da Sky, tinha um pacote com 60 canais ao preço de ¥768 (isso mesmo, com a assinatura da Globo – um único canal, você pagava 5.45 meses por 60 canais, inclusive HBO, Warner, AXN, e outros). Eu mesmo por vontade da esposa e por ganhar um antena/receptor, paguei até que mudamos para Tokyo, onde lá, instalar a antena na varanda, era “proibido” pela administradora do condomínio.

Depois da crise de 2008 e com o retorno ao Brasil de muitos brasileiros, os preços caíram (mas nem tanto). Os comércios e serviços oferecidos por brasileiros para brasileiros muitos fecharam, outros poucos que sobraram, se adaptaram e também passaram a oferecer produtos para o público filipino, principalmente. Escolas brasileiras fecharam aos montes, deixando muitas vezes, alunos sem a documentação necessária para poder continuar os estudos no Brasil.

Hoje, temos a Globo internacional, operado pela afiliada IPC e a Record, operada pela Record Japão. A Globo, ainda tem a mensalidade mais cara, mas também, o maior número de assinantes. A programação da Globo aqui, tem muito mais programas do Globosat do que da própria Globo de canal aberto. Além do mais, “ao vivo”, somente o Jornal Nacional, que aqui passa pela manhã, com delay de 20 minutos, com reprise a noite. Novelas e outros programas, somente depois de exibidos no Brasil. Filmes dublados e jogos de futebol, nem pensar, somente por um canal a parte. A programação da Record (apesar de jamais ter assistido) tem somente programação deles, com parte, para os programas religiosos, também, sem opção de esportes. Uma terceira opção, ainda cara também, é um canal de esportes, o PFC, que é um produto da Globo. Todos, caros demais.

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opções de assinatura de canais brasileiros, sem a necessidade de antena/receptor, por streaming (by fibertv.co.jp)

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anúncio da Record para cartão pré-pago, em assinatura pela web ou app para mobile. (by tv.recordjp.com)

Sinceramente, nos dias de hoje, com a queda de salário, em função da redução de horas trabalhadas, não vejo sentido algum, pagar por esse tipo de serviço, no preço que está, sabendo da qualidade que é oferecida.

Ainda que seja considerado ilegal, eticamente incorreto ou etc e tal, existem opções disponíveis na internet, que vão desde free até com pagamentos bem vantajosos, o que deveria alertar para que essas empresas operadoras, propusessem um preço mais acessível para atingir um maior número de assinantes. Esse “Custo Brazil” não é justificável apenas porque você quer ver programas de TV em seu idioma.

Mas alguém pode argumentar, que quer que os filhos aprendam também o idioma português. Ok, claro, tem toda razão. Meu filho mesmo, hoje, está em uma creche brasileira, mas apenas por isso e enquanto ainda está usando fraldas, já que se fosse em uma creche japonesa, o preço seria praticamente o mesmo.

Meu filho por exemplo, tomou posse do tablet que dei para a esposa. Ele acessa o YouTube e procura seus desenhos preferidos (sempre monitorado por mim ou pela minha esposa), em idiomas diversos:

  • Marsha e o Urso (original em russo)
  • Tayo Little Bus (original em coreano, mas também dublado em inglês)
  • OnePiece (original em japonês)
  • DragonBall (original em japonês)
  • Turma da Mônica (original em português)
  • Peppa Pig (dublado em português e original em inglês)
  • Galinha Pintainha (original em português, mas já achou em versões inglês e espanhol)

Eu faço torcida para que, um dia, essas empresas de TV façam valer a realidade de preço justo e qualidade que hoje deixam a desejar e ajudem a brasileiros no exterior a sentir menos saudade do Brasil e de conteúdo em português.

E vocês, quais as opções que fazem as vezes em seus países?

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W. Anderson é engenheiro elétrico e mora com a família há 11 anos no Japão. Para saber mais sobre ele clique aqui

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