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Carlos Fernandes – Santiago, Chile

“The winter is coming”. Quem não conhece essa tradicional frase do seriado Game of Thrones? Essa marca registrada dessa famosa série da HBO pode ser facilmente utilizada aqui no Chile, mais precisamente em Santiago e em toda zona central do país.

O inverno 2016 está prestes a chegar e hoje darei um testemunho de como eu, um brasileiro acostumado a altíssimas temperaturas e que já viveu abaixo de zero na Irlanda, com um verão de 19 graus, enxergo o tamanho exagero que o santiaguino trata essa estação do ano por aqui.

Santiaguinos nas ruas em uma tarde de domingo com 20 graus - Foto: Carlos Fernandes

Santiaguinos nas ruas em uma tarde de domingo com 20 graus – Foto: Carlos Fernandes

Vale o parênteses sobre o motivo o qual separo Santiago e a zona central do Chile do restante do país. Bom, o sul do Chile é realmente gelado, pois estamos falando da região que compreende a Patagônia. E sobre o norte falamos do deserto do Atacama, onde a altitude que varia entre 2.500 a 5.000 metros faz com que as temperaturas sejam absurdamente gélidas.

Já nossa querida capital chilena possui uma média de temperatura no inverno de 10 graus positivos, tendo tardes com 15 graus, por exemplo. Já as noites são bem mais frias podendo chegar na casa do zero grau. Mas não é aquele frio que penetra na pele, como encontramos em países úmidos. Afinal, esse país andino é conhecido por ser seco a maior parte do ano. Se você estiver agasalhado caminhará nas ruas com tranquilidade, diferente de certos países europeus, por exemplo. E outro grande exemplo é que os carros amanhecem secos e sujos. Ou seja, por mais que faça frio eles não “embaçam” por não haver o sereno ou geada.

O que acontece em Santiago, na verdade, é que o povo é exageradamente friorento e já se veste no outono com roupas pesadas muito comuns as roupas utilizadas no inverno do velho continente. Eles não abrem mão do moletom enquanto as temperaturas no verão não ultrapassarem os 30 graus. Quando chegamos na casa dos 20 graus no outono chega a ser assustador, e engraçado, vê-los vestindo sobretudo, cachecol, gorro e… pasmem: luvas. Sim, luvas com 20 graus de temperatura. Daí vocês devem estar pensando que eu sou exagerado e que nem o mais friorento dos brasileiros vestiria luvas nessa temperatura. Pois acreditem. Quando a temperatura está em 17 graus o número de pessoas usando luvas aumenta de uma forma absurda. Me sinto um estranho caminhando nas ruas de camiseta.

Parque Araucano, em Santiago, em uma tarde de 20 graus - Foto: Carlos Fernandes

Parque Araucano, em Santiago, em uma tarde de 20 graus – Foto: Carlos Fernandes

Outra curiosidade é o fato de que eles caminham ou pedalam nas ruas escondendo o nariz com um lenço ou cachecol depois de uma chuva ou a partir do outono. A mínima umidade e o mínimo vento que possa existir são como uma criptonita ao santiaguino.

Assim que entra o outono, ainda com temperaturas acima dos 20 graus, os edifícios comerciais desligam o abastecimento de ar condicionado aos escritórios. Por aqui o sistema de ar condicionado é guiado por uma central e não pelos escritórios. Não que o ar condicionado seja utilizado durante as altas temperaturas, diga-se de passagem. Mas eu trabalho com muitos gringos e, obviamente, precisamos desse sistema para deixar o ambiente menos quente e agradável. E ainda tem o fato de que os prédios mais novos de Santiago possuem apenas vidros no lugar das janelas. Isso mesmo, não possuem janela para deixar o ar entrar. Então imaginem vocês trabalhar em um escritório sem ventilação, sem ar condicionado, todo de vidro e tendo o sol como companheiro a uma temperatura externa acima de 20 graus.

Prédios comerciais de Santiago - Foto: Carlos Fernandes

Prédios comerciais de Santiago – Foto: Carlos Fernandes

Na academia onde treino as janelas estão sempre fechadas e os ventiladores desligados. Sempre que eu ou outra pessoa tenta abrir uma janela para ventilar o ambiente, surgirá um chileno para fecha-la. Nos dias de verão, por exemplo, os ventiladores ficam voltados para o teto e raramente estão voltados para uma linha reta.

Conversando com chilenos para tentar entender o motivo o qual eles gostam de viver sob temperaturas abafadas e a resistência existente ao uso de ventiladores e ar condicionado, o que ouvi foi o seguinte: vento faz mal a saúde e é propício a doenças.

Outro fator muito difícil que tenho que lidar por aqui é o uso do aquecedor quando essas temperaturas estão abaixo dos 18 graus mais ou menos. Transpirar dentro de ambientes fechados como lojas é comum nessa época. O dia em que o prédio onde vivo liberou o uso do aquecedor aos moradores fazia uma temperatura de 25 graus. No inverno passado eu chegava a acordar suado e tendo que dormir apenas com uma colcha, por exemplo, tamanho era o bafo quente. Esse “quentura” durava o dia todo. E detalhe: não liguei o aquecedor um dia se quer, apenas com o reflexo dos vizinhos de baixo e de cima. Daí vocês pensam em temperaturas negativas e tal. E então recordo que falamos de temperaturas médias de 10 graus positivos. Me lembro de começar a usar aquecedor na Irlanda a partir de 5 graus e apenas em momentos necessários, já que dormir com o aquecedor ligado faria mal ao meu bolso. E porque é bom demais dormir embaixo de muita coberta no inverno.

Exemplos de vestuário dos santiaguinos em uma tarde de 18 graus - Photo Collage: Carlos Fernandes

Exemplos de vestuário dos santiaguinos em uma tarde de 18 graus – Photo Collage: Carlos Fernandes

A maneira como os edifícios chilenos mantém o aquecimento é através da queima de lenha úmida. Essa queima de lenha alimenta o ar de Santiago e o deixa ainda mais poluído do que normalmente já é. Pelo fato de não chover devidamente na cidade e dela estar encravada no meio da cordilheira, o ar não circula e a poeira se acumula fazendo com que problemas respiratórios sejam comuns. O que acontece nesse tipo de calefação é que o ar recebe uma grande quantidade de sulfato, nitratos e carbono, que penetram nos pulmões e nos sistema cardiovascular. Dias atrás o portal UOL disponibilizou um artigo que fala exatamente dessa questão, apresentando a cidade chilena de Coyhaique como a mais poluída da América Latina. Clique aqui e confira esse texto

Ano passado fiquei um semana sem voz, o pior problema para um professor, como no meu caso. E passei quase um mês tossindo demais e de uma maneira ininterrupta, fazendo com que eu passasse noites literalmente em claro. Entendam melhor o que quero dizer com a foto abaixo.

Santiago coberta pela poeira - Foto: Natalia Maimoni

Santiago coberta pela poeira – Foto: Natalia Maimoni

Acredito ter exemplificado bem como o chileno lida com o inverno. E indico aos amigos que vivem ou já viveram o inverno na Europa uma visita à Santiago nessa época do ano para tirar suas próprias conclusões. E se alguém puder compartilhar suas experiências, o espaço está aberto aos comentários.

Antes de finalizar lembro que o inverno na serra catarinense faz muito, mas muito mais frio que no inverno santiaguino.

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Carlos Eduardo Fernandes é publicitário. Já morou na Irlanda e atualmente é professor de inglês online em Santiago, no Chile. Saiba mais sobre ele e o blog pessoal clicando aqui. Sigam-nos no Facebook acessando aqui. Instagram e Twitter: @blogbrasilcomz