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Uma aventura chamada Monte Fuji

14/07/2016

japão W. Anderson – Japão

O Monte Fuji, é chamado carinhosamente pelo povo japonês de “Fujisan”, isso porque, o kanji de montanha (yama) também se lê como “san”, nada a haver com o tratamento honorífico que se aplica quando chamamos alguém pelo nome, colocando o sufixo também “san”. É patrimônio cultural, declarado inclusive pela ONU.

É muito fácil encontrar informações de como subir o ‘Fujisan’, mas em tudo que pesquisei, era muito genérico e geralmente com traduções do japonês para o inglês ou português, muito confusas.

Desde que cheguei ao Japão, sempre tive vontade de subir e assistir o nascer do sol lá no topo. Uma vez, cheguei a ir de carro até a 5ª estação, com um primo, para conhecer. Fiquei mais fascinado ainda. E naquele dia, prometi a mim mesmo que iria muito brevemente, impor o desafio de subir até o cume.

Foram muitas as pesquisas que fiz, até vídeos no youtube eu assisti, mas planejar com a convicção de cumprir integralmente, ainda me deixava receoso. Eu não queria falhar ou ser obrigado a desistir durante a caminhada.

Estava tudo certo para em 2012 eu fazer a escalada. Seria no feriado japonês do obon (geralmente entre os dias 12 e 16 de agosto),  mas devido ao nascimento do meu filho no dia 31 de julho, tive de adiar meus planos. Em 2013, bati o pé, feito criança pirracenta. Tudo devidamente estudado e planejado. Ao comentar com um amigo que mora nos Estados Unidos, ele ficou animado e tomou para si, o mesmo desafio. Iríamos subir juntos. Mas a surpresa do inesperado bateu novamente, desta vez, de forma positiva. A esposa dele e a filha, também iriam vir para o Japão, nos acompanhar ao nosso desafio.

Talvez você encontre relatos de fracasso ou até desanimadores. Nem todos conseguem, apesar de ser bastante explorada. Há extra oficialmente, uma estatística que coloca em quase 20% os casos de insucesso. Bem, eu nunca dei nenhuma importância para isso. Fracasso ou insucesso, não estava e ainda não está no meu planejamento, quando se trata do ‘Fujisan’.

Há relatos de pessoas que subiram a montanha com o propósito de suicídio. Dizem (pois não consegui confirmar) que por ano, de 2 a 3 pessoas tentam contra a própria vida na aventura do ‘Fujisan’. Isso é triste, pois a beleza e a sensação de superar um desafio como a escalada, só faz querer viver para repetir a dose.

Mas posso garantir que uma vez superado, você vai ter vontade de voltar e tentar novamente e, por já ter conseguido, vai fazer de tudo para conseguir de novo. E se você, teve de desistir por razão de saúde, você vai querer voltar para  mais uma vez.  Você entra num ciclo vicioso que dá uma energia super positiva.

Das pesquisas que fiz, sempre observava a média de 3 a 6 horas para subir e de 2 a 3 horas para descer. Alguns até falava em tempos menores.

Quando se chega na 5ª estação, o ponto de partida para iniciar a escalada, monitores dão instruções importantes para ajudar, mas enfatizam que não se deve preocupar com o tempo que “se ouviu dizer”. Eles enfatizam que cada um deve fazer no seu próprio tempo. Eles recomendam que em cada estação, se faça um descanso necessário para continuar, não comprometendo principalmente o aparelho respiratório de cada um. E advertem, se durante a subida, começar a sentir dores de cabeça, pare, descanse e inicie a descida. Não insista em continuar a subir. É o que eles orientam por diversas vezes durante as instruções.

fuji005

na 5ª estação – pronto para iniciar escalada (arq. pessoal)

Quando eu, meu amigo, esposa e filha começamos a subir, estávamos numa alegria só. Éramos os verdadeiros turistas, com máquina fotográfica no pescoço, cajado pronto para receber os carimbos quentes de cada parada e, comentávamos sobre as pessoas que desciam e das que encontramos na subida. Famílias inteiras, dos netos aos avós, grupos da escola, solitários, entre muitos, muitos mesmo. Não tivemos um ritmo acelerado, apesar da esposa dele sempre seguir à nossa frente. Eu sempre tentava seguir atrás deles, pois achava que sendo o anfitrião, não poderia deixar eles para trás. Porém alguns instantes eu me distraía estava na frente do amigo. Voltava discretamente para trás.

No planejamento que havia feito (usando das técnicas – adaptadas –  de PMI, ITIL e ISO2000, que uso em I.T., afinal de contas, é assim que planejo meu trabalho), havia programado o pernoite na 9ª estação, para descansar e dormir um pouco, a fim de continuar a escalada para perto das 5:15, poder ver o sol nascer lá no cume do ‘Fujisan’. O pernoite daria direito a uma refeição e ao café da manhã. Decidimos então, tomar o café da manhã na volta da descida, depois que tivéssemos visto o nascer do sol.

Partimos com outras muitas pessoas em torno das 2:30 rumo ao topo. A quantidade de pessoas subindo, impunha um ritmo ainda mais lento e, por várias vezes, ‘entupia’ de tanta gente querendo subir. Mas mantendo aquele ritmo, ainda seria possível chegar antes do amanhecer. E a cada instante, o frio aumentava naquela madrugada, nada lembrava os 33ºC que havíamos enfrentado quando terminamos nosso almoço antes de começar a escalar. Eu lamentei ter esquecido minhas luvas de motoqueiro. Elas fizeram falta e tive sorte de conseguir aquecer minhas mãos e a ponta dos dedos.

Conseguir atingir o topo já foi uma enorme emoção, eu ria e chorava ao mesmo tempo. Mas com os primeiros raios de sol chegando ao horizonte lá no alto, não me contive e também comecei a sentir tremores na perna de tanta emoção. O Alexandre meu amigo, estava ao meu lado e o abracei forte. Eu estava comemorando o sucesso do meu desafio. Tudo havia dado certo e, dali a poucos minutos, iríamos iniciar a descida.

Em todas as paradas, chamadas de estações, carimbei meu cajado. Guardo ele como lembrança e troféu.

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o nascer do sol, fascinante II (arq. pessoal)

Antes de começar a descer, passamos no templo xintoísta, que existe lá no topo, para cumprir o ritual de agradecer e pedir por coisas boas. Não se trata de um cunho religioso, mas de uma tradição que muitos turistas também fazem. Eu não iria ser diferente.

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a boca da cratera – uma panela de pressão que pode explodir a qualquer hora (arq. pessoal)

Enquanto descíamos, agora observava aqueles que estavam subindo. Era inevitável. Você pensaria, “nossa, eles ainda vão passar algumas horas até chegar lá”.

Eu descia praticamente embriagado pela emoção. Não que eu duvidasse de ter sucesso, mas porque a adrenalina daquela conquista era tanta, que eu estava em estado de “bobo”. Antes de alcançar a 6ª estação, eu já sentia nas pernas o cansaço que estava chegando. Entre a 6ª e a 5ª estação, de onde iniciamos a escalada, demoramos muito mais do que previ. Tanto eu como o Alexandre, sentimos nas pernas o desgaste. Na 5ª estação, nós pegamos o ônibus que nos levou até o estacionamento onde o carro estava. Ao chegar então para embarcar no ônibus, eu voltei a sentir toda aquela sensação de euforia, emoção embriagada e pernas mais bambas ainda, mas porque, verdadeiramente, o desafio que tanto me impus, foi concluído com 100% de sucesso. Então, chorei e ri novamente. Abracei meu amigo, sua esposa e filha. O dever foi cumprido. No entanto, tudo só foi possível, porque tive o apoio de quem estava comigo naquela “empreitada”.

Durante a subida, conheci uma garota holandesa, Heidi, que havia tentado fazer a escalda na semana anterior, mas teve de desistir, porque a quantidade de neve encontrada a partir da 8ª estação, estava ainda muito perigosa. Ela comentou que havia retornado à Holanda  para trabalhar durante a semana e então, voltado ao Japão para então, subir sem nenhum obstáculo. 

Este ano, estava programado para ele (meu amigo Alexandre) vir, mas infelizmente não poderá. No entanto, eu vou. Quero ir mais uma vez em 2016! E vou vencer mais esse desafio, agora, com a torcida de todos vocês!  Então, tome coragem e venha comigo, escalar o Monte Fuji.

Resumo:

  • Subida: 9h30m (descontando as horas de pernoite – apenas escalada)
  • Descida: 7h23m (descontando o tempo do café da manhã)
  • Carimbos: 9 quentes, 1 frio (¥2000 total, ¥200 cada)
  • Cajado: longo, ¥798, curto ¥598 (preços de ago/2013)
  • Pernoite: ¥7000 por pessoa (com direito a jantar e café-da-manhã)
  • Cerveja: ¥800, lata de 355ml (caro? mas depois de uma subida, é até barato demais, encontrar uma cerveja gelada lá no alto)

Dicas:

  1. Leve agasalho forte (lá no alto, faz frio, muito frio, não duvide);
  2. Luvas, não repita o erro que cometi. Você vai sentir os dedos doerem muito, de tanto frio. Há um aquecedor em forma de sachê, é ótimo e me ajudou pela ausência das luvas;
  3. Capa de chuva. Eu não precisei. Tivemos a sorte de não chover, mas não conte com isso, afinal de contas, sorte não é garantia nenhuma;
  4. Chocolates – item muito importante, dá uma energia importante durante a subida, opte por aqueles tabletes pequenos, é melhor e tem uma dose na medida exata, nem muito, nem pouco;
  5. Água mineral – Leve pelo menos 3 garrafas de 500ml. Você poderá comprar também nas paradas, mas pode não haver no momento que passar por lá, garanta então pelo menos 3;
  6. Oxigênio em spray – Vendido em lojas esportivas, pode ser um item interessante, tomar uma bomba de ar, pode ajudar a evitar a dor de cabeça. Eu não precisei;
  7. Óculos escuros – durante a escalada/descida, raios solares são fortes e constantes. Não abuse;
  8. Protetor solar – Não é praia, mas, todo cuidado é pouco. Lembre-se disto;
  9. Dinheiro – Leve uma quantidade que julgue suficiente, de preferência, moedas ou notas de até ¥1000. Os carimbos, pernoite, bebidas são pagos com dinheiro, não são aceitos cheques viagem ou cartão de crédito – minha sugestão é ¥10,000~¥15,000 por pessoa;
  10. Lanterna – Se você quiser ver o amanhecer, vai ser importante, para ajudar na subida, quando não tiver nenhuma luz por perto;
  11. Alimentos – Bolachas tipo água/sal, lembre-se, se você levou chocolates, outro alimento doce não é necessário, afinal de contas o açúcar demais não é bom pra ninguém, nem os salgados demais;
  12. Celular e baterias sobressalentes, tipo “power bank”, pois encontrar tomada (eu até encontrei no banheiro da 9ª estação, mas duvido que você aguente ficar lá dentro segurando o celular, apenas para carregar a bateria), será como ganhar sozinho na Mega Sena;

Notas:

Os banheiros existentes nas estações, são tipo biodegradáveis, portanto, não espere que tenha “bom ar” no perfume preferido. Geralmente, cobram ¥200 para uso, para ajudar na manutenção deles. Se você se hospedar em alguma cabana/estação, o uso do banheiro nela, não será cobrado.

Não é permitido armar barracas nas trilhas da montanha. Não retirar pedras ou lavas, nem sementes que encontrar. Andar exclusivamente dentro das demarcações das trilhas.

Recomendo aqueles bastões usados para caminhadas nórdicas. Eles ajudam muito mais que o cajado de madeira que comprei para os carimbos. Você pode querer um cajado curto, que também será fácil despachar no avião e, usar os bastões para ajudar na subida e descida. Fazem uma diferença danada.

Não espere sentir cede, beba água constantemente. Beber de pouco em pouco, é melhor do que beber muito de uma única vez.

A temporada de escaladas se inicia em 1º de julho até 31 de agosto.

São 4 rotas disponíveis para a escalada. Eu fui pela rota de Fujinomiya, ela é a que a de menor grau de dificuldade (médio),  porém, a mais extensa inclinada e mais utilizada.

A rota de Gotemba, vai até inicio de setembro, mas ela possui um grau de dificuldade maior.

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as 4 rotas de acesso ao cume do Fujian (b

As rotas para acesso até o ponto de início da escada (5ª estação), é fechada para veículos particulares. Deve deixar o carro no estacionamento na base da montanha e seguir de ônibus, o ticket permite a viagem de volta, não perca! ¥2,100.

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ônibus entre estacionamento e 5ª estação – by foradazonadeconforto.com

Não inclua a escalada num roteiro de viagem muito apertado. Isso pode comprometer seu desempenho e pode frustar sua experiência.

E por fim, esteja física e mentalmente preparado. Praticar longas caminhas, acima de 1h30m, com freqüência mínima de 3 vezes semanais, ajuda a enfrentar o desafio. Nos dias que antecede a escalada, recomendo não abusar de alimentação gordurosa, que possa comprometer seu intestino.

Serviço:

________________

W. Anderson é engenheiro elétrico e mora com a família há 12 anos no Japão. Para saber mais sobre ele clique aqui

Vejam fotos dele e de outros autores no perfil do BZ no Instagram. E sigam nossa página no Facebook acessando aqui.

2 Comentários leave one →
  1. 14/07/2016 16:33

    Ola, Anderson!! Excelente post!!! Me senti subindo o Monte Fuji conforme lia o seu post!! Tenho varias amigas que ja subiram o Monte Fuji, mas eu, infelizmente, nao me aventurei a subi-lo enquanto morava no Japao. Em contrapartida, escalei um monte chamado Mittokusan, em Tottori, que eh uma trilha usada para treinamento de monges. Quase chorei na subida, mas quando cheguei ao topo, a sensacao foi maravilhosa!! Um abraco!!

    • 14/07/2016 20:56

      Já ouvi falar dessa trilha dos monges. Deve ser interessante mesmo. Vou pesquisar. Um grande abraço e obrigado pelo prestígio.

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