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Chile: um dos países mais sísmicos do planeta

05/09/2016

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Carlos Fernandes – Santiago, Chile

Traduzindo o título… “Chile: o país onde a terra treme a todo instante”.

Quando fui viver em Santiago já sabia que enfrentaria alguns tremores de terra. Mas não sabia que isso seria uma constante em minha vida. Na verdade, nós brasileiros não temos ideia do que realmente ocorre nesse país. E raros são os turistas que se preparam para o caso de enfrentar algum sismo durante sua viagem aos Andes.

A minha iniciativa de escrever sobre esse tema aconteceu depois da tragédia ocorrida na Itália uns dias atrás e que devastou algumas belíssimas cidades do interior. Isso me fez lembrar da experiência que tive em setembro de 2015 em Santiago.

Mas antes de contar essa minha experiência com o terremoto de 2015 e todos os demais movimentos telúricos que por lá ocorreram, vou explicar um pouco porque o Chile é um dos países mais sísmicos do mundo. Se não for o mais, diga-se de passagem.

Terremoto de 8,3 na escala Richter que atingiu o Chile em 2015

Terremoto de 8,3 na escala Richter que atingiu o Chile em 2015 – Foto: youtube.com

Dentro do “círculo de fogo”

Constantes tremores ocorrem no país porque ele se localiza na junção de duas placas tectônicas: a Sul Americana e a de Nazca. Está localizado no chamado “círculo de fogo”, que margeia os países banhados pelo Pacífico, onde ocorrem 80% dos terremotos do mundo.

Não é apenas o terremoto em si que existe nessas terras andinas. Também há os “temblores”. Temblores são pequenas tremidas de terra corriqueiras. Tremidas que podem chegar a 6 pontos na escala Richter e que duram poucos segundos, por exemplo. Esses temblores estão para os chilenos assim como uma forte pancada de chuva está para os brasileiros. Acontece a qualquer momento. Depois passa. E estamos conversados.

De acordo com o Instituto de Geofísica da Universidad de Chile, a interação entre as placas tectônicas de Nazca e a América do Sul produz um terremoto de grandes proporções a cada 10 anos, uma média de dez pequenos tremores diários e 3,5 mil movimentos sísmicos anuais.

Mapa das placas tectônicas - Foto: atlasescolarmundi.blogspot.com

Mapa das placas tectônicas – Foto: atlasescolarmundi.blogspot.com

Minha experiência no Chile

Agora vocês já sabem que existem os “temblores” e que, segundo informa o Instituto de Geofísica da Universidad de Chile, uma média de dez pequenos tremores diários ocorrem dentro do “círculo de fogo”. E quem possui algum app que controla o movimento telúrico consegue verificar que a terra está constantemente tremendo, mas nós não sentimos.

Os temblores que conseguimos sentir são aqueles acima dos 4 pontos na escala Richter mais ou menos. Se você estiver em um prédio, por exemplo, sentirá ele balançar suavemente. Eles duram poucos segundos, mas é suficiente para te deixar atento. Principalmente se ocorrer pela madrugada. Esses são os que mais odeio. Você está embalado no sono e, de repente, leva um susto com o apartamento tremendo. E não é só o susto em si. Você tem que estar atento também para saber se esse temblor vai se tornar um terremoto.

Os chilenos nomearam a mais tradicional bebida da festa de independência do país como Terremoto - Foto: Carlos Fernandes

Os chilenos nomearam a mais tradicional bebida da festa de independência do país como Terremoto – Foto: Carlos Fernandes

Cheguei à Santiago em janeiro de 2015 e meu primeiro temblor foi logo em fevereiro. Estava na academia treinando quando balançou forte. Foi uma mistura de susto com “o que está havendo?” e uma pitada de “o que eu faço?”. Foi tipo duas balançadas daquele brinquedo “La Bamba” dos parques de diversões. Os chilenos que estavam na academia se moveram em direção a escada, pois estávamos no segundo piso. Depois que passou eles voltaram ao treino normalmente.

Assim foram 7 temblores perceptíveis até o mês de setembro. Alguns balançando suavemente o prédio onde eu trabalhava no sexto piso. Outros com um tipo de tranco. Uma sacudida mais rápida. No Chile não basta ter temblores. Tem que ter diferente tipos do movimento.

O terremoto de 16 de setembro

Já no dia 16 de setembro eu senti a força da natureza de verdade. Estava no trabalho, no sexto andar, aguardando para iniciar uma aula online com meu aluno que estava no Brasil. De repente o prédio começou a balançar e muito. Como se sacudíssemos uma mesa cheia de garrafas de cerveja pra lá e pra cá. O prédio seria uma garrafa de cerveja. As persianas sacudiam e faziam muito barulho. As baias de madeira, onde os professores dão as aulas, rangiam freneticamente.

Foram dois minutos que pareceram duas horas. O que senti? Por mais que você esteja familiarizado com os temblores, o terremoto é algo mais intenso, claro. Eu estava tranquilo na verdade, mas porque não dá tempo de você pensar em nada. Você está no meio de uma situação que chegou sem aviso. Me lembro do nosso coordenador chileno, já habituado com a situação, dizendo para todos os professores que lá estavam que o prédio não iria cair. E já havíamos feito um treinamento antes em que ele nos disse que os prédios no Chile estão prontos para aguentar terremotos de até 9 pontos. E esse foi de 8,3 em seu epicentro.

Comprei o jornal no dia seguinte. Afinal, é uma experiência para a vida toda - Foto: arquivo pessoal

Comprei o jornal no dia seguinte. Afinal, é uma experiência para a vida toda – Foto: arquivo pessoal

Depois que passou o terremoto, a adrenalina estava lá em cima. Fui avisar meu aluno que já estava online do que havia ocorrido. Só que ninguém nos avisou que depois de um grande tremor ocorrem as réplicas, que são novos terremotos com intensidade menor. Ou seja, coisa de 15 minutos depois começou a sacudir tudo de novo. Essa réplica foi de 7,6. E ainda tivemos outra cerca de 20 minutos depois, algo em torno de 7,2. Só daí recebemos a ordem de evacuar o prédio.

E tem mais. As réplicas continuam por dias, semanas e até meses. Naquela noite sentimos tremores mais rápidos, na casa dos 6 pontos, a todo instante. Ninguém dormiu nas regiões afetadas. Simples assim. Foi em meu apartamento, no oitavo piso, assistindo o noticiário na TV e sentindo as réplicas, que a ficha caiu.

Ao todo, entre perceptíveis e não perceptíveis, foram mais de 1.400 réplicas no intervalo de 30 dias, de acordo com as autoridades chilenas responsáveis. Era muito comum balançar tudo nas primeiras duas semanas pós terremoto.

Os canais de TV estavam ao vivo com seus telejornais - Foto: youtube.com

Os canais de TV estavam ao vivo com seus telejornais – Foto: youtube.com

A partir disso eu parei de contar o número de temblores que eu sentia. Primeiro porque perdi a conta. Segundo que isso acaba se tornando parte de sua vida no Chile. E, quando demora muito para ocorrer um movimento, você fica sentindo falta daquilo. Não que eu goste, muito pelo contrário.

A verdade é que ainda em 2015 houve um movimento pela madrugada acima dos 6 pontos que durou cerca de 15 segundos. Esse me tirou da cama literalmente.

O Chile está preparado para os terremotos

Confesso que na temporada 2016 eu me tornei mais temeroso. Principalmente porque fui viver em um prédio mais antigo. Mas, como disse anteriormente, os prédios no país estão preparados para fortes terremotos.

A história conta que o maior sismo que já houve no mundo ocorreu justamente no Chile. Foi em 1960 na cidade de Valdivia, com magnitude 9,6 na escala Richter.

Em 2010, Santiago sentiu um terremoto de 8,8 pontos. Poucas construções antigas desabaram, o que mostra que o Chile é referência em construções antiterremotos. Em vídeos que encontramos no Youtube é possível ver que as pessoas precisaram se segurar em pilastras nos prédios para não cair. Não tenho a mínima dúvida de que foram 3 minutos de muito pavor.

Quem mais sofre são as pequenas cidades do interior pela menor infraestrutura. E as cidades litorâneas, que são atingidas por tsunamis. Em 2014, a pequena Iquique foi atingida por um sismo de magnitude 8,2.

Tsunami nas costa chilena - Foto: emol.com

Tsunami nas costa chilena em 2010 – Foto: emol.com

Somente lembrando: o terremoto que atingiu o Nepal em 2015 teve magnitude 7,8 com cerca de 10.000 mortes. O Afeganistão sofreu no mesmo ano um sismo de 7,5 com 398 mortes. Já em 2016, o Equador registrou 673 mortes em um abalo de 7,8. E a Itália com cerca de 300 mortes em um terremoto de 6,2. O movimento telúrico no Chile em 2015 bateu na casa de 8,3 com apenas 16 mortes. Algumas delas por problemas de ataques cardíacos, por exemplo.

Dicas para quem vai ao Chile

Esteja ciente de que temblores podem acontecer. Não se apavore porque a vida não para se a terra tremer rapidamente. Apenas guardem essa experiência para contar depois para os amigos.

Como precaução, deixe a chave da porta de entrada da casa ou do apartamento fácil. Eu costumava deixa-la na porta mesmo. Ou fechava apenas um trinco que existia no meu apartamento mais antigo.

Se um terremoto de grande escala ocorrer, não evacue um prédio durante o mesmo. Está aí uma grande chance de se machucar. E nem ouse querer entrar em um elevador.

Tenha sempre um par de calçado fechado ao seu lado se estiver dormindo. Se for necessário a evacuação do prédio, seus pés tem que estar preparados para pisar em destroços.

Ao chegar em um apartamento ou casa para se hospedar, verifique se não há nada que possa cair na cabeça. Normalmente não, pois tudo é preparado no país para tais situações.

E se você estiver na costa, o cuidado ainda aumenta devido ao reflexo natural de um terremoto, o tsunami. Fique atento ao noticiário televisivo local e evacue automaticamente se estiver muito próximo ao mar.

Orinentações oficiais do governo chileno - Foto: Natalia Maimoni

Orinentações oficiais do governo chileno – Foto: Natalia Maimoni

O que posso dizer para finalizar é que estar em meio a um terremoto é mais uma daquelas lembranças que vou levar para o resto da minha vida. Assim como tantas outras que já presenciei viajando. Situações diferentes e únicas que somente a vida fora do Brasil nos proporciona.

____________

Carlos Eduardo Fernandes é publicitário,  já morou na Irlanda e atualmente é professor de inglês online em Santiago, no Chile. Saiba mais sobre ele e o blog pessoal clicando aqui. Sigam-nos no Facebook acessando aqui. Instagram e Twitter, procure por: @blogbrasilcomz

4 Comentários leave one →
  1. Fátima Santos permalink
    07/09/2016 23:57

    Maravilhoso o teu relato,vou viajar viajar para Santiago,quero subir na Torre Costanera ,e o medo?Tudo porque uma senhora chilena que conheci em Curitiba me contou que a cada época acontece um grande terremoto em Santiago e o prazo para o próximo já venceu.

    • carlosfernandeschile permalink
      08/09/2016 0:59

      Olá Fátima. Obrigado. Mas não precisa ficar temerosa. Ainda é impossível calcular quando acontecerá um terremoto. Infelizmente ocorreram grandes terremotos em 2010, 2014 e 2015. É uma questão da natureza que o homem não pode prever. Aproveite sua viagem e curta o Chile.

  2. 24/09/2016 15:29

    Oi, Carlos. Interessante seu relato e eu estava no dia do terremoto de setembro. Foi algo inesquecível mesmo e pra guardar pelo resto da vida. Eu estava no andar 11 de um prédio que fica ao lado do Cerro Santa Lúcia. No meu caso não consegui ser tão calmo e sai correndo durante o tremor mais forte de 8.3. Fiquei mais dez dias no Chile depois do terremoto e acho que só dormi, mesmo, na volta para o Brasil e no avião. rs

    • carlosfernandeschile permalink
      24/09/2016 15:55

      Legal seu relato Tiago. É uma experiência para o resto da vida. Para quem estava visitando o Chile foi como um bônus turístico…rs. Valeu!

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