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China: Gringo rico x Gringo pobre

07/09/2016

BZ_ChinaEdvan Fleury – Beijing, China

Esses dias estava conversando com uma amiga minha brasileira que mora em Shanghai sobre como alguns gringos acabam gastando muito dinheiro para ter a comodidade de não ter trabalho. Isso me fez pensar no que eu ouço quando digo para alguém que moro na China. Logo vem várias perguntas do tipo “você fala chinês?” (Não), “Como você faz para viver lá?” (sei lá, levo uma vida normal igual como se estivesse no Brasil) ou “Mas é possível morar aí sem entender o que as pessoas dizem?” (Sim, claro). Quem nunca morou na Ásia, pode até achar que morar por aqui é um bicho de sete cabeças e, talvez por isso, muitos dos estrangeiros que vêm morar aqui chegam com um certo receio de não conseguir se adaptar.

Naquela mesma semana, eu apelidei nós gringos de duas formas: os gringos pobres e os gringos ricos. Creio que essas duas categorias  não sejam uma realidade exclusiva da China, mas também de tantos outros lugares ao redor do globo. Pois bem, como eu vim para cá com um emprego bem mais ou menos (leia aqui para entender do que estou falando), dinheiro sempre foi um problema.  Eu tinha que literalmente vender o almoço para comprar a janta e tudo o que ganhava ia embora em poucos dias devido às despesas com aluguel, transporte, alimentação e outros gastos que vão simplesmente surgindo.

Quando se faz parte do grupo dos gringos pobres, você não pode se dar ao luxo de gastar o dinheiro porque cada centavo vai fazer a diferença no bolso. E como fazer para sobreviver? Bom, se estou escrevendo esse texto é porque sobrevivi. O fato é que o grupo dos gringos pobres acaba descobrindo ferramentas para garantir a sua sobrevivência e muitas vezes as nossas descobertas ajudam o grupo dos gringos ricos. Como assim? Deixe-me citar uma outra situação que passei não faz muito tempo.

Eu estava visitando um amigo que mora em um apartamento de luxo em uma das melhores zonas de Beijing conhecida como Sanlintun. Ele mora em um apartamento lindamente decorado em branco pela empresa na qual trabalha. Quem conhece Beijing, sabe que morar nessa área sozinho não é barato, aliás, morar em Beijing em qualquer lugar não é algo que um gringo pobre pode dar-se ao prazer. Enfim, como ele queria comer uma comida mexicana, logo tirou o celular do bolso e entrou em um app no qual os estrangeiros usam para pedir comida. Ao acessar o app ele descobriu que o restaurante estava fechado. Veio a cara de frustração e ele disse que teríamos que ir ao restaurante. Como eu não estava muito afim de andar até o restaurante, foi a minha vez de tirar o telefone do bolso e pedir a comida mexicana de outro restaurante, usando um outro aplicativo. Quando ele viu que o app estava todo em chinês, logo, deduziu que meu nível de mandarim era igual ao de um chinês (que ledo engano). E ele disse:

–  Ah, para você é fácil usar esses aplicativos locais por saber mandarim.

– Mas eu não falo mandarim, aliás, nem sei o que tá escrito em boa parte desse app. – eu disse na lata.

Nem precisa dizer o quão surpreso ele ficou com aquilo. Eu expliquei que não precisava ser um gênio para usar aplicativos chinêses. Mostrei para ele que na tela do celular aparecia o desenho de um hambúrguer, logo, se clicar naquele ícone podemos deduzir que o app exibiria uma lista de restaurantes de comidas estrangeiras ou ao menos as opções de fast food. Fui clicando nas opções até achar um restaurante que tinha imagens de comidas mexicanas. Eu olhava para a foto e ia apertando no simbolo de mais (+) e adicionando tudo ao simbolo de carrinho e pronto!

A expressão dele foi a de que eu tinha inventado a roda. Não satisfeito ele perguntou:

– Nossa, você é bem esperto.

tela.png

O app 百度外卖 (Baidu waimai) tem interface intuitiva e é super prático para pedir comida.

Eu respondi que não era questão de ser esperto ou ter uma inteligência sobrenatural e, sim, de necessidade. Se eu usasse o aplicativo projetado para os gringos, acabaria pagando uma taxa maior pelo serviço. Quando você não mora em um apartamento cedido pela empresa ou quando não se tem um motorista à disposição, você aprende a se virar com pouco e com esse pouco ainda tem que fazer milagres. No meu caso, eu fui aprendendo pela lógica e quando possível usando o tradutor do computador para saber o que estava pedindo caso a imagem não estivesse clara.

Até pouco tempo eu conseguia fazer dinheiro extra ajudando os gringos ricos a comprar coisas em um site de comprar em chinês, tipo mercado livre. O que eu fiz para usá-lo sem entender nada de chinês? Fui no Google e digitei “Tutorial para comprar no site X”. E lá estavam vários tutoriais com fotos de onde tinha que clicar, tudo bem detalhado. Peguei qualquer um, abri o Google tradutor e fui às compras!

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O Taobao é onde faço as minhas compras online. Quando não entendo, uso o Google.

Certa vez ouvi de uma colega gringa rica: “Eu prefiro pagar mais caro para não ter trabalho e não ter que me estressar tentando entender o que está escrito”. Parece um absurdo, né? Mas quem tem um pouco de dinheiro aqui acaba se dando a esse luxo de pagar a mais. Na minha visão, muita gente que mora aqui na China na condição de gringo rico acaba vivendo em uma bolha, cercado por condomínios de luxo onde tem tudo ao dispor e o que não está à disposição eles mandam comprar – isto porque sempre vai ter um gringo pobre mais esperto para oferecer aquilo que eles não conseguem ter acesso tão facilmente.

200

O que as pessoas imaginam quando digo que moro na China

Por isso eu digo que morar aqui não é tão difícil como as pessoas imaginam. Morar fora do Brasil é sim difícil, mas não é porque a pessoa vem pra Ásia que essa dificuldade será multiplicada por mil. Aqui as dificuldades principais são de adaptação com a cultura, com a comida e até mesmo com os chineses, a língua acaba sendo um problema mínimo se comparada a tantos outros desafios que temos que enfrentar.

Caso você venha para a China com um bom trabalho e na condição de gringo rico, sua adaptação com certeza será bem mais confortável. E caso você venha na situação oposta, aventurando-se na condição de gringo pobre, as dificuldades até podem parecer maiores, mas no final sempre vamos usar a nossa força de vontade e necessidade para contornar essas barreiras que viver no exterior nos impõe.

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Edvan Fleury nasceu em Manaus e é jornalista. Atualmente encontra-se Perdido na Chinatrabalhando com e-commerce e fazendo vídeos na horas vagas com amigos para o Youtube. Para saber mais sobre ele acesse a mini-bio clicando aqui. Sigam nossa página no Facebook clicando aqui e no Instagram clicando aqui. Para seguir o nosso Twitter clique aqui

2 Comentários leave one →
  1. 08/09/2016 7:12

    Essa parceria do gringo pobre com o gringo rico deve ter um nomenclatura científica, tipo “mutualismo”. A vespa e o figo. Uma espécie não sobrevive sem a outra. https://www.youtube.com/watch?v=9DQTjv_u3Vc

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