bz_alemanha Juliano Emílio – Munique, Alemanha

Muito prazer, leitores do blog Brasil com Z! Me chamo Juliano, nasci no Paraná. Atualmente vivo na Alemanha, em Munique, trabalhando como médico anestesista e…

Puxa, como é complicado escrever sobre si mesmo! A gente corre o mesmo risco de quando se preenche o próprio currículo: coloca tudo no papel como se desde a infância já estivesse planejado, organizado e executado tudo o que realizou para estar aqui, neste exato momento da sua vida. Meus caros, cá para nós, isso é uma mentira que adoramos escrever elaboradamente no papel e que, aqui, vou tentar evitar ao máximo. Prometo!

Vamos ao meu caso: brasileiro, médico formado, com o sonho de morar fora do país e apenas esperando pela oportunidade certa. Na época, eu fazia residência de Patologia na Universidade Federal de Florianópolis. Foi lá que recebi a oferta (que parecia boa demais para ser verdade) de emprego para trabalhar no norte da Alemanha. O hospital interessado mandou passagens para que eu fizesse uma entrevista na Europa, em inglês, de onde voltei já com um contrato assinado. Expliquei para eles que não falava uma palavra de alemão e eles propuseram que eu fizesse o curso no “Goethe Institut” bancado por eles até que atingisse o nível necessário para trabalhar na Alemanha. E eu teria que mudar de área, da Patologia para a Anestesia, uma especialidade interessante, na qual tinha pouquíssima experiência.

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O centro da cidade de Bremen, Alemanha

Nos dois meses seguintes vendi o carro, entreguei o apartamento e fiz aulas particulares para nao chegar lá sem saber o mínimo. O curso foi organizado para Bremen, a cidade do conto “Os Músicos de Bremen”, aquele dos animais que afugentam os ladrões. Cheguei em julho e a mudança de clima foi sutil porque naquele ano fez um verão muito agradável. Adorei a cidade, os colegas de várias partes do mundo, as novidades em cada canto da cidade. Nestes dois meses morei junto com uma família de artistas, ela artista plástica, ele fotógrafo, numa parceria com o próprio “Goethe Institut”.

O terceiro mês de curso foi feito em Hamburgo, quando já começava a esfriar; lá vivi com uma família muito simpática de idosos (que mandavam todo mês dinheiro para pessoas pobres do nordeste brasileiro através da igreja). As memórias que tenho desta época são dos livros de gramática alemã e a eterna garoa caindo sobre mim a caminho do curso. A saudade do Brasil já começava a brotar…

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Hamburgo

Depois, no meu último mês de curso fui morar em Berlim, com um casal de assistentes sociais aposentados, envolvidos com refugiados da Eritréia. Neste período não aproveitei a cidade, me mantendo no esquema casa-metrô- curso-metrô- casa.

No último dia de aula, quando saí cedinho do apartamento de Berlim, andando pela rua ainda escura, percebi gotas caindo do céu, estranhamente lentas: foi a primeira vez que vi neve. E senti saudade das praias de Floripa…

Quando passei na prova de alemão, um caminhão saiu da minhas costas… para dar espaço para um porta-aviões! A residência de Anestesiologia na Alemanha dura 5 anos (no Brasil são 3), incluindo um ano na UTI. Como no Brasil, os residentes são colocados no trabalho mais pesado, sendo sempre os primeiros a chegar e os últimos a sair. E assim se passaram rapidamente três anos, incluindo aquele na UTI, com muitas histórias, boas e tristes, que talvez eu compartilhe aqui algum dia. Nesta época as férias eram oportunidades douradas de conhecer a Europa e, muitas vezes, viajei só com uma mochila nas costas e uma ideia na cabeça: procurar por tesouros da humanidade e conhecê-los de perto. A cidade onde morei era pequena, agradável, com uma natureza exuberante, mas meu espírito cosmopolita pedia por uma metrópole para morar.

No quarto ano, decidi experimentar a vida no sul da Alemanha, em uma cidade maior, e fui contratado para trabalhar em um hospital aqui de Munique. A cidade tem tudo que eu poderia esperar: cinemas, teatros, palácios, cursos, gente do mundo todo. Capital mundial da cerveja, da BMW, do time de futebol do Bayern, da Oktoberfest. Munique é uma cidade segura, verde e rica. Poderia ficar aqui para sempre… se não fosse a saudade do Brasil.

Sim, meus caros, a saudade ainda não passou. Aos meus amigos alemães eu explico com a seguinte metáfora: eu sou como um animal da selva que foi capturado e levado para um zoológico. Ele tem comida, uma casinha, não precisa nem me estressar com seus predadores. Agora, pergunte ao animal se ele não trocaria tudo isso para voltar a viver na sua selva!

Palácio Nymphenburg, Munique

Perceba que não digo para você não vir. Venha mesmo! Viver no exterior amplia horizontes, abre a cabeça, e vale a pena. Mas não é para os fracos; muita gente que conheço desistiu na última hora, porque sob algum aspecto é sempre trocar o certo pelo duvidoso além de ficar a milhares de quilômetros da família e dos amigos. O trabalho de estabelecer um lar em outro continente é hercúleo, sim; bastando pensar, por exemplo, em resolver toda a burocracia envolvida em uma língua que não é a sua.

Aqui aprendi que existe um lugar que não tem catracas no metrô porque as pessoas são conscientes de sua cidadania; não reclamam de receber uma nota grande no caixa e devolvem o troco nem que seja um centavo; passeiam com cachorros sem coleira. Como eu queria que este tipo de coisa existisse no Brasil! Mas isso, eu não posso mudar. As mudanças executáveis acontecem na forma de bifurcações na sua vida. Eu poderia não ter aceitado o convite para ir para a Aleamnha, e ter me tornado um patologista em Florianópolis… Não se pode mudar o mundo, mas pode-se decidir entre permanecer em sua zona de conforto para sempre, ou viver tão longe dela, que nem com um telescópio você possa enxergá-la.

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Juliano Emilio nasceu no Paraná e é medico. Mora atualmente em Munique, na Alemanha, com a família. Para saber mais sobre ele clique aqui. Para atualizações diárias nossas, sobre a vida fora do Brasil, acompanhem-nos no Facebook e Twitter. Veja fotos do Juliano Emílio e dos outros autores no nosso Instagram. Blog Brasil com Z, um site feito por brasileiros expatriados, vivendo nos quatro cantos do mundo! Quer participar como autor? Envie-nos sua minibio e motivação para: blogbrasilcomz@gmail.com