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Em Munique, muito longe de casa…

24/10/2016

bz_alemanha Juliano Emílio – Munique, Alemanha

Muito prazer, leitores do blog Brasil com Z! Me chamo Juliano, nasci no Paraná. Atualmente vivo na Alemanha, em Munique, trabalhando como médico anestesista e…

Puxa, como é complicado escrever sobre si mesmo! A gente corre o mesmo risco de quando se preenche o próprio currículo: coloca tudo no papel como se desde a infância já estivesse planejado, organizado e executado tudo o que realizou para estar aqui, neste exato momento da sua vida. Meus caros, cá para nós, isso é uma mentira que adoramos escrever elaboradamente no papel e que, aqui, vou tentar evitar ao máximo. Prometo!

Vamos ao meu caso: brasileiro, médico formado, com o sonho de morar fora do país e apenas esperando pela oportunidade certa. Na época, eu fazia residência de Patologia na Universidade Federal de Florianópolis. Foi lá que recebi a oferta (que parecia boa demais para ser verdade) de emprego para trabalhar no norte da Alemanha. O hospital interessado mandou passagens para que eu fizesse uma entrevista na Europa, em inglês, de onde voltei já com um contrato assinado. Expliquei para eles que não falava uma palavra de alemão e eles propuseram que eu fizesse o curso no “Goethe Institut” bancado por eles até que atingisse o nível necessário para trabalhar na Alemanha. E eu teria que mudar de área, da Patologia para a Anestesia, uma especialidade interessante, na qual tinha pouquíssima experiência.

blog-bremen

O centro da cidade de Bremen, Alemanha

Nos dois meses seguintes vendi o carro, entreguei o apartamento e fiz aulas particulares para nao chegar lá sem saber o mínimo. O curso foi organizado para Bremen, a cidade do conto “Os Músicos de Bremen”, aquele dos animais que afugentam os ladrões. Cheguei em julho e a mudança de clima foi sutil porque naquele ano fez um verão muito agradável. Adorei a cidade, os colegas de várias partes do mundo, as novidades em cada canto da cidade. Nestes dois meses morei junto com uma família de artistas, ela artista plástica, ele fotógrafo, numa parceria com o próprio “Goethe Institut”.

O terceiro mês de curso foi feito em Hamburgo, quando já começava a esfriar; lá vivi com uma família muito simpática de idosos (que mandavam todo mês dinheiro para pessoas pobres do nordeste brasileiro através da igreja). As memórias que tenho desta época são dos livros de gramática alemã e a eterna garoa caindo sobre mim a caminho do curso. A saudade do Brasil já começava a brotar…

blog-hamburg

Hamburgo

Depois, no meu último mês de curso fui morar em Berlim, com um casal de assistentes sociais aposentados, envolvidos com refugiados da Eritréia. Neste período não aproveitei a cidade, me mantendo no esquema casa-metrô- curso-metrô- casa.

No último dia de aula, quando saí cedinho do apartamento de Berlim, andando pela rua ainda escura, percebi gotas caindo do céu, estranhamente lentas: foi a primeira vez que vi neve. E senti saudade das praias de Floripa…

Quando passei na prova de alemão, um caminhão saiu da minhas costas… para dar espaço para um porta-aviões! A residência de Anestesiologia na Alemanha dura 5 anos (no Brasil são 3), incluindo um ano na UTI. Como no Brasil, os residentes são colocados no trabalho mais pesado, sendo sempre os primeiros a chegar e os últimos a sair. E assim se passaram rapidamente três anos, incluindo aquele na UTI, com muitas histórias, boas e tristes, que talvez eu compartilhe aqui algum dia. Nesta época as férias eram oportunidades douradas de conhecer a Europa e, muitas vezes, viajei só com uma mochila nas costas e uma ideia na cabeça: procurar por tesouros da humanidade e conhecê-los de perto. A cidade onde morei era pequena, agradável, com uma natureza exuberante, mas meu espírito cosmopolita pedia por uma metrópole para morar.

No quarto ano, decidi experimentar a vida no sul da Alemanha, em uma cidade maior, e fui contratado para trabalhar em um hospital aqui de Munique. A cidade tem tudo que eu poderia esperar: cinemas, teatros, palácios, cursos, gente do mundo todo. Capital mundial da cerveja, da BMW, do time de futebol do Bayern, da Oktoberfest. Munique é uma cidade segura, verde e rica. Poderia ficar aqui para sempre… se não fosse a saudade do Brasil.

Sim, meus caros, a saudade ainda não passou. Aos meus amigos alemães eu explico com a seguinte metáfora: eu sou como um animal da selva que foi capturado e levado para um zoológico. Ele tem comida, uma casinha, não precisa nem me estressar com seus predadores. Agora, pergunte ao animal se ele não trocaria tudo isso para voltar a viver na sua selva!

Palácio Nymphenburg, Munique

Perceba que não digo para você não vir. Venha mesmo! Viver no exterior amplia horizontes, abre a cabeça, e vale a pena. Mas não é para os fracos; muita gente que conheço desistiu na última hora, porque sob algum aspecto é sempre trocar o certo pelo duvidoso além de ficar a milhares de quilômetros da família e dos amigos. O trabalho de estabelecer um lar em outro continente é hercúleo, sim; bastando pensar, por exemplo, em resolver toda a burocracia envolvida em uma língua que não é a sua.

Aqui aprendi que existe um lugar que não tem catracas no metrô porque as pessoas são conscientes de sua cidadania; não reclamam de receber uma nota grande no caixa e devolvem o troco nem que seja um centavo; passeiam com cachorros sem coleira. Como eu queria que este tipo de coisa existisse no Brasil! Mas isso, eu não posso mudar. As mudanças executáveis acontecem na forma de bifurcações na sua vida. Eu poderia não ter aceitado o convite para ir para a Aleamnha, e ter me tornado um patologista em Florianópolis… Não se pode mudar o mundo, mas pode-se decidir entre permanecer em sua zona de conforto para sempre, ou viver tão longe dela, que nem com um telescópio você possa enxergá-la.

__________

Juliano Emilio nasceu no Paraná e é medico. Mora atualmente em Munique, na Alemanha, com a família. Para saber mais sobre ele clique aqui. Para atualizações diárias nossas, sobre a vida fora do Brasil, acompanhem-nos no Facebook e Twitter. Veja fotos do Juliano Emílio e dos outros autores no nosso Instagram. Blog Brasil com Z, um site feito por brasileiros expatriados, vivendo nos quatro cantos do mundo! Quer participar como autor? Envie-nos sua minibio e motivação para: blogbrasilcomz@gmail.com 

13 Comentários leave one →
  1. 24/10/2016 11:45

    Bem-vindo Juliano! A Alemanha agora está muito bem representada com dois autores (e sempre há espaço para um terceiro autor(a) !)

    • Juliano Emilio permalink
      24/10/2016 16:10

      Obriggado por me aceitarem nesta família de Brasileiros longe do Brasil!!!

  2. 24/10/2016 12:20

    Oi Juliano
    Que legal vc abordar essa parte das impressões de um imigrante que reconhece o lado bom de morar fora, mas que não deixa de citar que imigrar não é pra qq um, exatamente pelo fato de não ser tudo sempre tão maravilhoso como a gente imagina quando ainda está no Brasil. Mesmo me considerando aberto à outras culturas, adorando idiomas e sem planos pra voltar para o Brasil, a saudade mora em mim tb. Porém, tenho consciência que depois de tantos anos fora, se um dia voltasse pra lá, já sentiria saudade de muitas coisas e pessoas daqui. Vida de imigrante é assim, sempre dividido entre dois mundos. Abraço.

    • Juliano Emilio permalink
      24/10/2016 16:15

      Oi Arlete! Que bom que você gostou! Acho que uma hora a gente aceita que somos mesmo é cidadãos do mundo… gostamos daqui e de lá, com amigos aqui e lá… o blog, por exemplo, é a prova maior de que o que nos conecta não é só o país onde vivemos!

  3. carlosfernandeschile permalink
    24/10/2016 13:35

    Pois é Juliano. Sentir falta da família é algo que nunca deixará de ser fato. Mas, falando por mim, já tive a experiência de voltar duas vezes ao Brasil após viver em dois países bem distintos. E o que ocorre é que sempre senti falta de estar longe do Brasil. Sim… o Brasil não é o país que me faz feliz. Muito pelo contrário. O Brasil não é mais o país que se encaixa em meu estilo de vida, pensamento e tantas outras coisas mais. Aprendi a separar essa questão de sentir falta da família e do país em si. No Brasil, me sinto literalmente um peixe fora d`água. Se eu pudesse levaria as pessoas que amo comigo para meu próximo destino. Enfim… Seja bem-vindo ao blog e nos conte sempre boas estórias da Alemanha! Um país pelo qual tenho um imenso carinho. Abs

    • Juliano Emilio permalink
      24/10/2016 16:17

      Obrigado pelas palavras Carlos! Pode deixar que vou trazer muitas coisas interessantes nos próximos textos!

  4. 24/10/2016 14:03

    Muito bacana sua história, Juliano! Esperamos muitos outros relatos de suas experiências! Abraços.

    • Juliano Emilio permalink
      24/10/2016 16:19

      Obrigado Sheila! Quero que vocês viajem comigo através das palavras! Abraços!

  5. 25/10/2016 1:28

    Olá tudo bem ? Espero que sim , estou adorando visita este blog muito bom mesmo parabéns !

  6. Camila Eufrazio permalink
    28/10/2016 21:12

    Muito Bonita sua história!!

  7. 02/11/2016 12:35

    Gostei muito do seu texto. Expressa bem o sentimento de um expatriado. Eu mesmo que já pude viajar bastante pelo nosso Brasil e um pouco mundo a fora, sei bem o quanto é difícil estar longe do pastel da feira, do caldo de cana, até mesmo do trânsito infernal de São Paulo. Imagina então você, longe das praias de Floripa.
    No entanto, a maioria das pessoas, acham que pessoas como nós, que vive fora do Brasil, está nadando em dinheiro. E também na maioria das vezes, julgam-nos como soberbos. Mas enfim, o bom é saber que somente os fortes sobrevivem fora da sua zona de conforto. E posso dizer, sem medo algum, cada um de nós expatriados, somo vencedores.
    Em meus 12 anos morando no Japão, só fui ao Brasil uma única vez em 2011.
    Não que a saudade não aperte no peito. Aperta sim. E muito. Mas a vitória de nossas conquistas acontece aos poucos.
    Seja bem-vindo. Um grande abraço!

    • Juliano Emilio permalink
      04/11/2016 10:10

      Obrigado W. Anderson! Acho que minhas palavras ecoaram o que muitos brasileiros fora de casa sentem! Quero acompanhar teus relatos também! O Japão é uma terra com elementos muito interessantes… mais ainda sob o olhar de um conterrâneo! Grande abraco!

  8. 20/10/2017 10:33

    Amei a metáfora do animal selvagem no Zoológico, acho que é bem assim mesmo, o Sol e os abraços das pessoas queridas fazem falta.

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