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Não sou chique, só estou com frio…

22/11/2016

Edu C. Justo –  A Coruña, Espanha

 

Uma vez, postei uma foto no meu Facebook usando um cachecol e um sobretudo. Era durante o coração do inverno europeu, com temperaturas quase beirando zero graus, portanto não dava para dar mole com roupas inadequadas. Meia hora depois de postar a foto, vieram os comentários dos amigos: “Nossa, tá chique!”. Achei aquilo super engraçado, e minha resposta imediata foi “Galera, não estou chique, estou com frio!!!”

É curioso como nós brasileiros associamos casacos e cachecóis com ser chique. Bom, vou corrigir. É curioso, como nós CARIOCAS fazemos este tipo de associação. Acredito que em São Paulo, ou no sul do Brasil, onde as temperaturas são mais frias, este tipo de associação não seja tão comum.

De qualquer forma, este post vem com a intenção de derrubar um mito. “Quem mora na Europa é chique ou é rico”. Você vai se surpreender quando souber que é o europeu que acha que o brasileiro é chique e rico, e você vai se dar conta disso a partir do que vou contar agora:

Quem mora em uma grande cidade brasileira e pertence a classe média, está acostumado a ter a disposição os serviços de porteiros, empregadas,

faxineiras e babás, então a vida fica um pouco mais fácil de se levar. A Maria faz a comida para mim, a Janete passa minhas roupas no sábado, a Penha vai buscar minha filha na creche e o Zé tira as compras do meu carro e leva até meu apartamento. Um dia, você se cansa do calor tropical e decide morar na Europa. Quando chega, leva o primeiro choque: Não tem Maria, nem Janete, nem Penha, nem Zé. Aliás, até tem. Só que ninguém vai passar sua roupa por 50 Reais ou carregar suas compras por uma cervejinha. Quer ter o mesmo conforto do Brasil? Então pode começar a trabalhar muito, mas muito mesmo, porque o teu salário INTEIRO vai ter que ser utilizado para pagar por estes serviços, que não são baratos na Europa.

Aqui na Europa não tem vida chique não. A classe média, inclusive algumas famílias de classe media alta vão fazer compras no mercado, lavam a louça, fazem faxina, e lavam o carro. Eu já reparei por exemplo, que tem muita mulher chique nas ruas de salto alto, bolsa de marca e usando jóias, porém com um detalhe curioso: as unhas não estão pintadas. A razão? A “perua” lava a louça em casa. Cadê a vida chique?

Tenho um amigo francês que nasceu e vive em Paris, chamado Bernard, e que foi para o Rio de Janeiro em 2010 passar 3 semanas de férias. Ele se sentiu um milionário no Brasil. As pessoas o chamavam de “Doutor Bernard”, ele entrava no elevador e tinha ascensorista para apertar os botões. Por onde andava, havia porteiros abrindo e fechando portas, manobristas estacionando seu carro, etc.

Para um cidadão comum europeu, ter o carro estacionado por um manobrista é algo surreal, que só é possível em restaurantes de altíssimo luxo. Porteiro carregando as compras até o apartamento, nem pensar. Aliás, na Europa, são raros os prédios com porteiro. Um cidadão de classe média europeu é incapaz de manter uma tropa de “serviçais” a sua disposição, portanto, se você acha que é chic morar na Europa, você ainda não percebeu que é no Brasil que as pessoas (aparentam) ter vida de rico.

Existe outra coisa que transmite a sensação de que as pessoas que moram na Europa tem vida boa: O fato de poder consumir diariamente produtos que no Brasil são considerados caros (perfumes, vinhos, roupas, etc). Isso é outro mito. Infelizmente no Brasil paga-se uma carga tributária extremamente elevada nos produtos importados. Não sei se isso ocorre para proteger o mercado nacional, se é ganância do governo ou dos importadores. O fato é que uma garrafa de vinho francês no Brasil pode custar em média 50 reais, sendo que este mesmo vinho custa em Paris 5 euros. Se você consumir 1 garrafa de vinho francês por semana no Brasil, vai ter que desembolsar 200reais, uma quantia proibitiva. Já o francês gasta 20 euros por mês tomando um bom vinho (o que dá uma média de 60 centavos por dia). O mesmo ocorre com os perfumes e roupas.

No Rio de Janeiro, um morador de um prédio com garagem na Zona Sul pode chegar a pagar 1000 reais de condomínio. Em Madrid, o morador de um edifício equivalente paga no maximo 60 euros. A razão é simples: Na Europa os edifícios normalmente não tem empregados, portanto não existe a necessidade de condomínios caros para pagar os salários, FGTS, vales-transporte, etc… No Brasil existem prédios que podem ter 10 empregados entre porteiros e faxineiros. Para manter estes empregos é necessário pagar um condomínio alto.

Para fechar este post, vou fazer uma confissão: Aqui na Espanha eu ganho bem menos do que ganhava no Brasil. Aliás, se eu tivesse que viver no Rio de Janeiro com o salário que eu ganho na Espanha, eu teria uma qualidade de vida bastante inferior. Nas grandes cidades brasileiras você tem que ganhar muito bem para poder sustentar condomínios altos, empregadas, faxineiras, porteiros, planos de saúde, etc.. Aqui na Europa, um cidadão comum não dispõe de toda esta estrutura, e portanto ele pode ter uma excelente qualidade de vida, ganhando bem menos.

Em suma, se você quiser continuar ser chamado de “Doutor” ou de “Madame” não saia do Brasil. Aqui de chique, só mesmo o cachecol.

___________

*Eduardo Caamaño Justo é blogueiro e autor de biografias históricas. Seu último livro, a biografia do Barão Vermelho (Piloto da Primeira Guerra Mundial), está à venda em português e espanhol. Filho, neto e bisneto de espanhóis, mora há 12 anos na cidade de La Coruña. Saiba mais sobre ele clicando aqui. Veja fotos do Edu e de outros autores do BZ clicando na nossa conta do Instagram. Sigam-nos também no Facebook e no Twitter

18 Comentários leave one →
  1. Leandro Nunes permalink
    28/07/2011 20:42

    Acompanho o blog há algum tempo… achei seu texto fantástico. Parabéns!

  2. 29/07/2011 9:32

    Acho interessante que (de modo geral) o Europeu nao tem cultura de “aparentar ser rico”, que é talvez a coisa que eu mais odeie na “cultura” da classe média brasileira. O abismo social que temos no Brasil e essa necessidade ridicula de ser “socialmente reconhecidos” faz com que muitos de nós queramos aparentar aquilo que nao somos. Acho triste.

    • Antonio permalink
      07/08/2011 14:35

      Também é triste uma pessoa em crise de identidade. Saber olhar o próprio umbigo e compreender suas mazelas pessoais. Quando nos olhamos no espelho e vemos nossos próprios defeitos, somos mais tolerantes com os defeitos alheios. Talvez vc odeie tudo demais, Edu. Uma pessoa que busca reconhecimento social apenas tem autoestima baixa. Não é odiosa, nem ridícula. Odiando menos e compreendendo mais, vivemos melhor.

    • 30/08/2011 15:27

      Concordo com voce,Edu!No Brasil essa necessidade de ostentar é odiosa e demonstra falta de carater.Se nos calarmos, essa omissao faz com isse so torne normal como acontece na nossa sociedade brasileira,cuja inversao de valores é assombrosa(como ex.Prender e algemar bandido segundo nossa presidente é contra os direitos humanos,no caso do escandalo do Turismo).
      Mas lembrando que todo o mundo esta meio assim,ostentando.Aqui na Italia em corrupçao, ostentaçao e QI superando qualificaçao demonstra que herdamos muitos defeitos deles!

  3. 29/07/2011 16:33

    Edu, adorei teu post!! 🙂

    Serviços na Europa são realmente mais caros… a mulherada que vai ao salão todo mes e gasta 20 reais pra cortar o cabelo, 15 pra fazer as unhas… não gastaria menos de 80 euros para fazer tudo isso na Europa…

    E o que tu falou de a classe média fazer compras no supermercado, lavar a louça etc… eles não só fazem as compras no supermercado como eles mesmos tem que empacotar suas compras e carregá-las (não tem empacotador nem aquele cara que leva as tuas compras no carrinho até o teu carro – e ainda ajuda a colocá-las no carro)… e quando vão a uma loja experimentar roupa, depois de escolher as roupas, levá-las ao provador e prová-las, precisam devolvê-las aos cabides ou dobrá-las e colocar nas prateleiras… e caso não tenha ficado boa, tem que se vestir e sair do provador pra buscar outra peça… porque lá não tem aquelas meninas que carregam as roupas pra gente, buscam uma peça maior ou menor caso não tenha ficado boa e depois ainda dobram e organizam tudo pra gente!

    É verdade, chiques mesmos somos nós, no Brasil, que temos todas essas mordomias!!

    • 30/08/2011 15:31

      Barbara
      Fui a varios lugares na Europa e muitas roupas nas lojas eram deixadas jogadas pelos clientes.Londres, Paris, Milao,etc.Nao é bem assim em tudo. Mas com o resto eu concordo!Isso faz parte da cultura e tambem pq tem gente que paga e outros que trabalhham fazendo isso!

      PS:Empregada domestica existe aqui na Italia tambem.Em geral, estrangeira do Peru,Russia,Leste da Europa e ate Brasil

  4. joao paulo - smo permalink
    31/07/2011 17:25

    Primeiramente parabéns pelo site, muito bom. Pois então quando eu falo que nos Estados Unidos minha via era diferente os caras ficam achando que brinco com eles, mas é assim mesmo. Creio que seja por este motivo que muitas coisas custam menos, vc mesmo limpa seu jardim, abastece o carro, pega as compras do mercado, quando não entra em uma loja e é self service a loja. E os serviços caros são para pessoas que tem muito dinheiro mesmo. Abraço. Quando conheci Londres aprendi isso e muito.

  5. 31/07/2011 21:28

    Sempre, desde adolescente, achei/acho uma vergonha uma pessoa pagar a uma outra para cuidar do seu básico/pessoal. Como assim, ter alguém para lavar SUA louça, passar SUAS roupas, aspirar o chão que VOCÊ sujou ? Ficar apertando botão pra você no levador e vir trazer café à sua mesa de trabalho ? Parece que no Brasil ter um empregado(a) doméstico é um direito divino. Minha irmã foi pro quarto chorar convulsivamente durante horas quando a empregada contou que não queria mais trabalhar prá ela. Perguntei à minha mãe se isso era alguma piada, já que minha irmã nem tem filhos e mora numa casa pequena aí no Brasil.
    Mudando de assunto: até a dona da academia que frequento na Holanda, depois da aula de spinning+Zumba+Pilates (ufs !) desce para o vestiário, põe uma roupa mais simples e abre o armário de material de limpeza para ir aspirar o salão de dança… SORRINDO ! Será que ela não tem verba para pagar uma faxineira ? Tem, claro que tem. Só que não existe ninguém que queira viver disso, pelo menos não legalmente. E não iria pegar “bem” ela pagar alguém para fazer isso. Ah, e detalhe: depois de uma aluno usar uma máquina de cárdio ou musculação tem que ir pegar uma quadrado de papel absorvente, apertar um spray líquido desinfetante e limpar toda a máquina. E os próprios “coaches” limpam o piso, as janelas, os computadores, os toaletes, a recepção. As vendedoras de lojas também cuidam da limpeza na hora do fechamento. Diga-me se não é mais pratico, rápido e arejado, viver assim ?

  6. Sandra permalink
    03/08/2011 9:06

    Amei o texto!! Vivo em Zürich e posso dizer que me “encontrei” aqui. Achava ridículo no Brasil as pessoas se endividarem em salão de beleza para estarem sempre com mão, pé e cabelo feitos, tudo para aparentar uma realidade que não viviam. Conheci muitas pessoas que viajavam todos os anos para o exterior mas reclamavam de terem que pagar a conduçâo para diarista limparem suas casas, um absurdo! Mas isso está mudando, em grandes cidades brasileiras está cada vez mais difícil ter profissionais como domésticas ou diaristas e pagando pouco.

  7. Renata Weiss permalink
    08/08/2011 16:29

    Poderia falar da crise na Espanha,pq.conheço pessoas que estão com uma qualidade de vida péssima e retornando,até a imprensa brasileira,que só mostrava maravilhas da espanha,esta mostrando a vida dificil dos brasileiros na crise espanhola,que esta dificil p/todos especialmente brasileiros

  8. 15/08/2011 8:06

    Legal o seu texto, porém muito idiossincrático e subjetivo. Queria comentar algumas coisas:

    1- Não só os cariocas, mas o Brasil inteiro acha que cachecol e sobretudo é sinônimo de nobreza. Sou do sul, e mesmo lá, com temperaturas baixissimas, cachecol é objeto de luxo.

    2 – Europeu acha que brasileiro é rico? Essa para mim é nova. Moro na Europa há dez anos e a impressão que eu tenho é exatamente o contrário. E pior, em Portugal, onde passei a maior parte desses 10 anos, a ideia dos brasileiros é que são todos miseráveis e que vieram todos da favela. Na Alemanha, que é mais tolerante e mais informada, a imagem é a de que somos um país de 3º mundo com muita gente pobre e desfavorecida.

    3 – Só para confirmar o ponto dois e acrescentando que brasileiro é um povo deslumbrado e ignorante, cito suas próprias palavras: “Tenho um amigo francês que nasceu e vive em Paris, chamado Bernard, e que foi para o Rio de Janeiro em 2010 passar 3 semanas de férias. Ele se sentiu um milionário no Brasil. As pessoas o chamavam de “Doutor Bernard”, ele entrava no elevador e tinha ascensorista para apertar os botões. Por onde andava, havia porteiros abrindo e fechando portas, manobristas estacionando seu carro, etc.”

    4 – E só para finalizar, o poder de compra no Brasil aumentou sim mas a classe “C” que é a mais consumidora do Brasil, denomidada por “classe média” por lá ainda se acha pobre e prova que classe media no Brasil é diferente de classe media nos EUA ou nos países ricos da Europa (Portugal e leste europeu excluído daqui). E esta noticia de sexta-feira passada na Folha de São Paulo só confirma isso: http://www1.folha.uol.com.br/mercado/959462-brasileiro-nao-sabe-a-qual-classe-social-pertence-diz-estudo.shtml

    Um Abraço,
    Wellington

  9. 15/08/2011 11:18

    O post me chamou a atenção pelo título. Quem mora em lugares frios deve ouvir coisas assim direto… mas o que mais me surpreendeu foi a qualidade do texto. Digno de revista de alta circulação. Parabéns Edu!

  10. 16/08/2011 13:46

    Wellington, você tem razao no seu ponto 2. Eu me expressei mal. O que eu quis dizer é que o europeu quando vai ao Brasil e conhece o cotidiano da classe-media (a verdadeira), percebe como uma familia (nao rica) tem a disposiçao uma tropa de serviçais que fazem a faxina, passam a roupa, levam as crianças para a creche, etc. Conheço europeus que viajaram para o Brasil e nao ficaram hoteis, mas na casa de amigos, e viram as facilidades de dispôr destes serviços domesticos, que aqui na Europa custam uma fortuna.

  11. Ferraro permalink
    27/08/2011 4:19

    Na verdade existe uma explicação socioeconômica para isso, o que acontece é que em um país como o Brasil em que há enormes desigualdades sociais, existe uma camada desprivilegiada da população que realiza funções de serviçais para sobreviver, em um país de maior equilíbrio social o cidadão comum (de renda média) acaba não desfrutando destes confortos, pois não há uma maioria de pobres fazendo trabalhos inferiores para obter sustento.

    Então enquanto ter uma empregada que faz todas as tarefas domésticas no Brasil é possível até para a classe média baixa, em certos países como o Japão por exemplo é um item de extremo luxo que apenas os mais ricos da sociedade possuem.

  12. Adri permalink
    08/01/2012 22:23

    Bacana o post..concordo com Welligton almeida.. aqui somos tratados como imigrantes mesmo com o curso superior te enxergam menos que eles..
    acho que o Brasileiro em si vejo mais metido..se compra um carro novo ou velho se expoem pra todo mundo com sua musica alta e seu ritmo boy..aqui os jovens compram seus carros vao a universidade e dirijam como qualquer outro no volante, sem tantos exageros e mesquises. talvez pela facilidade de ter um automovel e nada..)
    – Realmente tudo no Brasil esta muitoo caro prncipalmente nos ultimos 3 anos.. mas se vc envia um perfume que foi fabricado na França para o Brasil ele triplicara o valor..vinhos etc..sò porque esta sendo importando..:)
    Feliz 2012 pra todos

  13. Sophia permalink
    06/03/2012 9:45

    Adorei o comentário!
    Estou morando na grécia, e o que voce falou se reflete exatamente aqui! Sensacional!!!

  14. André Fernandes permalink
    15/01/2016 10:15

    Oi Eduardo, é bem verdade! No sul do Brasil (sou de SC) o pessoal também tem aquela percepção de casaco e ser chique, ainda longe de ser como vi no Rio. Lembro de ter visto algumas vezes em aeroportos casacos de pele… não sei pra quê!

    O mostrar, “se pagar de rico” é algo que eu acho bizarro no Brasil, a ponto de aparentar o que não tem. Morando na Suíça, convivendo com suíços e escandinavos, é clara a diferença da noção de riqueza.

    Vejo pessoas de famílias ricas que usam trem e transporte público, limpam suas casas, preparam as suas refeições, etc.. É algo que não se imagina na cabeça de muitos brasileiros, até na classe média, a não ser no interior onde é mais comum fazer um pouco de tudo – como foi o meu caso.

    E ter empregada na Suíça, o dia todo, pelo menos 30 francos a hora… Faz os cálculos!

  15. 15/01/2016 16:23

    Adorei seu texto, J. Eduado! Há mesmo uma distorção tremenda de valores no Brasil… Um dia há de melhorar, mas não é para já…

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