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A Festa do Sinterklaas na Holanda

05/12/2016

bz_holanda Ana Fonseca – Holanda

Algo que muita gente não sabe é que na Holanda a festa mais forte de fimde ano é a festa do Sinterklaas. Não, não se deve chamar de “a celebração de Natal dos holandeses” ou dizer que “O Sinterklaas é o Papai Noel na versão holandesa”. O Sinterklaas não substitui o Natal na Holanda. Ambos festejos coexistem, em datas diferentes. Simplesmente os festejos de Sinterklaas existem na Holanda muito antes do Papai Noel (Santa Claus) ter sido criado nos EUA e adotado nas celebrações de Natal no mundo ocidental. O Sinterklaas chega em meados de novembro à Holanda e fica aqui pela terrinha até  5 de dezembro quando volta de barco a vapor (oi?) para a Espanha (!).

Pra quem não sabe, a figura do Santa Claus é um  arremedo. Foi figura muito difundida pela Coca-Cola, baseada em mitos escandinavos antiquíssimos, e nas crenças que circulavam pela Europa do Norte e Ásia desde o seculos XV e XVI. Alguns dizem que o Santa Claus faz referência às crenças de gnomos gordinhos da Europa do Norte e Escandinávia (daí a barba platinada ou loura, cabelo louro cacheado, roupinha medieval vermelha, gorro, olhos azuis, renas). Outros dizem que se baseiam nos cultos de santos católicos europeus benevolentes com os pobres (daí ele dar presentes). Ou o deus Odin dos povos germânicos e celebrações de solstício de inverno.

Santa Claus segundo o cartunista Thomas Nast, em 1889. Há outros desenhos do Santa Claus feito pelo Nast (70 desenhos no total) antes dessa época, mas de difícil qualidade para reprodução. 

De qualquer forma, o próprio nome dele (Santa Claus) é uma corruptela do nome São Nicolau em holandês (Sint Nikolaas ou Sint Nicklas, abreviadamente que vriou de Sinterklaas mal e mal falando pelos americanos: Santa Claus). Como havia uma colônia expressiva de holandeses na costa leste dos EUA no início do século XX, marqueteiros e publicistas se basearam nas crenças dele para desenvolverem a figura do Santa Claus vestidos de vermelho (a cor do refrigerante Coca Cola) para promover o produto. Se basearam muito por sinal nos traços do cartunista alemão Thomas Nast, que vinha publicando desenhos da figura desde 1890. A partir do marketing da Coca Cola a figura ganhou popularidade, músicas tipicas, renas psicodélicas voadoras com nomes (Rudolph) etc. etc. nas décadas seguintes.

BLOG Santa 1BLOG Santa

Acima: anúncios feitos pela equipe de publicidade da Coca-Cola nos EUA

Os holandeses batem o pé e dizem que eles são donos do verdeiro culto ao santo e que Papai Noel (que eles chamam “o homem do Natal” ou “de kerstman”) é uma figura menor, invenção de marketing americana e deve ser ignorada. Realmente, as poucas vezes que vi um homem fantasiado de papai Noel numa loja em Amsterdam ele não tinha a mínima ideia do que fazer ou dizer e as crianças se afastavam dele.

BLOG St Nicolas 2BLOG St Nicolas 3BLOG St Nicolas

Acima: o Santo Nicolau como aparece no imaginário cristão (grego ortodoxo e católico romano) durante a Idade Media

Mas quem foi São Nicolau ? Há muita coisa na internet a respeito da figura histórica e muita dúvida e controvérsia também.  Foi um bispo caridoso da Capadócia (região da Turquia), que ajudava garotas pobres que não tinham como se casar colocando moedas de ouro num saquinho nas portas da casas delas para ajudar com o dote (por isso na Holanda se distribui pepernoten ou biscoitinhos de especiarias nessa época do ano, seria uma referencia `as  “moedas de ouro” da lenda). Outros dizem que foi um bispo que viajava pela Ásia Menor a cavalo, e teve filhos bastardos (“escuros” ou “negros”) por onde passou. O culto ao “bom velhinho” com a expansão do cristianismo entrou na Europa e recebeu novos elementos. Na Holanda ele ganhou roupas medievais, símbolos de poder (cetro, capa, mitra etc.) e atualmente se parece mais com um Gandalf do Senhor dos Anéis.

BLOG NIklaas

O São Nicolau, versão holandesa (Sinterklaas) da década de 50/60, já com a adição de um barco a vapor e um “servo” mouro, o Pedro Negro.  Com o tempo vários ajudantes apareceram.

BLOG Zwarte Piet

Duas figuras bem contrastantes. Um é santo, o outro trabalha. Vá  ao Google e digite “Sinterklaas” ou “Zwarte Piet” para ver mais fotos.  

Com a entrada de imigrantes antilhanos na Holanda, as estórias do Sinterklaas passaram também a contar com figuras de “escravos mouros” que servem o Sinterklaas. Depois, com os anos, a mídia suavizou a parceria do santo com o escravo(s) dizendo que não eram bem escravos mas “ajudantes” ou “pajens”. No pós guerra e anos 50/60 anos  do século passado, como a Holanda é cheia de canais, acharam melhor dizer que o Sinterklaas viajava de barco para ficar uma coisa mais conto-de-fadas.  E o Pedro Negro era desajeitado, burro, malicioso, ultrapassado. Com as críticas de mais e mais estrangeiros e comunidade antilhana e do Suriname que crescia na Holanda a partir da década de 70 passaram a dizer que o Pedro Negro não era necessariamente africano, mas estava preto por causa da fuligem da chaminé e os lábios vermelhos por ter ralado nas paredes da mesma. A verdade é que afro-descendentes na Holanda não suportam essa estória do Sinterklaas ser alto, magrinho, calmo, ponderado, distante e magnífico e os ajudantes serem infantis, muito físicos, atrapalhados, enganadores. Quem sai (ou saía) às ruas fantasiado de Pedro Negro eram holandeses que pintavam a cara de pretinho, ou crianças que sujam os rostos de fuligem. Os antilhanos e os surinameses mesmo nunca se sentiram confortáveis com esse deboche, mas sempre toleraram.

Porém, com mais conscientização no mundo, mais informação e ferramentas de comunicação disponíveis pela internet as minorias começaram a verbalizar seu descontentamento. Desde os dois últimos anos vem ganhando força um movimento organizado pelo Quinsy Gario, um ator nascido em Curaçao, nas mídias sociais pela a abolição da figura do Pedro Negro. Ele, o Quinsy,  apareceu num protesto de rua com uma camiseta com dizeres “Pedro Negro é racismo!” e foi silenciado e preso pela policia, junto com outras pessoas que filmavam o ato (como a filósofa e documentarista Sunny Bergman). Isso causou comoção nacional e um forte debate entre os defensores do Pedro Negro (a maioria branca holandesa) e os que são contra e querem abolir definitivamente a figura (nessa categoria entram a maioria de todos os estrangeiros, de todos grupo étnicos, eu inclusive).

Tem os que defendem o Pedro Negro: “É tradição, não podemos/devemos mudar!” Ora, como se as tradições nascessem prontinhas desde o primeiro dia que apareceram no mundo e ninguém tem o direito de criticar, só obrigação de seguir.  A festa do Sinterklaas começou na Holanda aos pouquinhos, no início era uma festa religiosa associada à entrada da inverno e só existia o culto ao bispo Nicolau (Nikolaas), venerado por católicos.  O culto foi tomando força ao longo dos anos/séculos e foi adicionando elementos: atores coadjuvantes entram em ação (o ajudantes  “Pedro Negro” e  o cavalo albino “Amerigo”), canções rimadas infantis, legendas (“era um bispo da Capadócia”), incongruências (“ele atualmente mora na Espanha”) e absurdos (“viaja de barco a vapor”, “volta para a Espanha dia 5 de dezembro”, “coloca as crianças que se portaram mal durante um ano num saco de estopa e leva pra Espanha”). Ao longo dos anos virou uma estória sem pé nem cabeça, cheia de disparates.

Outro argumento que os defensores do Sinterklaas usam (além de dizer que é uma linda tradição holandesa desde o século XVI a idade de Ouro, e não deve ser abolida por estrangeiros ou substituída pela celebração  do Natal) é de que é um direito das crianças se divertirem e  ganhar presentes. Ora, os pais das crianças holandeses podem muito bem dar presentes ao longo do ano, não precisam de um motivo/feriado ou coisa que o valha para deixar as crianças felizes com presentinhos supostamente dados por um velhinho que ninguém sabe na verdade de onde veio, como vive ou o que faz (Seria um milionário benfeitor ? Porque ele só vive com outros homens, e muito mais jovens ?  Por que vive na Espanha mas só presenteia as crianças da Holanda ? Por que leva crianças levadas com ele ? Seria um pedófilo ? Hmm… ).

ALMERE - Sinterklaas en zijn Pieten zwaaien vanaf de Pakjesboot tijdens de aankomst zaterdag in Almere-Haven. ANP PHOTO KOEN VAN WEEL

Sinterklaas e os ajudantes chegam a cidade de  Almere-Haven. ANP fotoK oen van Weel. 

Quando cheguei à Holanda, claro que como a maioria dos estrangeiros que se deparam com uma nova cultura achei essa estória do “zwarte piete(en)” / Pedro Negro super de mau-gosto. Minha cunhada teve logo uma filha no ano que cheguei, e achava o máximo celebrar Sinterklaas na casa dos pais dela. Eu ia, fotografava, sorria o tempo todo (forçado e amarelo), mas realmente não ia fantasiada de Pedro Negro nem me ligava no lance de escrever poeminhas (tinha a desculpa de que não tinha intimidade com a língua). Quando meus filhos nasceram, eles obviamente participavam dos festejos do Sinterklaas na creche, escola e na casa dos meus sogros. Mas eu nunca os fantasiei de “mini Pedro Negro” e também decidi a começar a comemorar o Natal na minha casa. Não que eu ache o Natal uma coisa super importante, mas fui criada com pernil/farofa/bacalhau/peru e afins (os presentes, a árvore ainda que falsa, cartões) e não queria deixar os meus filhos alienados dessa festa cristã ocidental. Ou comemorar pobremente. A minha cunhada veio à minha primeira ceia de Natal com raiva, comeu rápido, deu presentes para nós e as crianças de segunda mão/usados e saiu logo arrastando marido e as filhas. Ao longo dos anos ela só celebrou uma vez na casa dela, e com pouco caso. Mas aos poucos passou a adorar vir a minha casa com as filhas, o novo marido, um ano ela trouxe até a mãe do segundo marido.

BLOG WItte

Será esse o futuro da festa do Sinterklaas na Holanda ? Foto via eterinathe.wordpress.com

Esse ano  meus filhos tem 13 e 10 anos, e obviamente nem acreditam no Sinterklaas. Nas lojas do país há uma redução da figura do Pedro Negro e a loja de departamentos HEMA informou oficialmente que nunca mais venderá seus tradicionais papéis de presente/embrulho com a figura controversa. Tenho aqui minhas dúvidas se a festa do Sinterklaas resiste a mais uma geração de holandeses do jeito que é hoje. Acho que vai acabar se modificando, se alterando, tendo elementos suprimidos – coisa natural, afinal o mundo gira e as tradições se adaptam.

Para saber mais sobre as origens do Natal (em inglês):

http://www.evolveandascend.com/new-blog-1/2014/12/2/the-psychedelic-origins-of-santa

http://educateinspirechange.org/alternative-news/7-weird-wonderful-things-didnt-know-christmas/

________

Ana Fonseca vive na Holanda. Siga a fanpage do “blog Brasil com Z” clicando aqui. 

3 Comentários leave one →
  1. 17/11/2015 9:03

    É muito interessante ver como as diversas culturas pelo mundo celebram o fim do ano. Parece consensual a necessidade de celebrar o ano que se finda e aplaudir com expectativa o ano que vai se iniciar.
    Com certeza, penso eu, para nós brasileiros, mesmo que não cristãos, a celebração do Natal seja o primeiro choque cultural que temos ao sair para morar fora do Brasil.
    Lá no Brasil, presenciei muitos judeus e muçulmanos preocupados em solidarizar com os cristãos, o desejo de que estes tivessem um Natal cheio de felicidades, mesmo que para eles, o significado seja apenas do feriado que o país institucionalizou.

    • 17/11/2015 9:35

      Acho que as culturas antigas do hemisfério norte sempre celebraram o solstício de inverno, desde os primórdios da civilização humana. Depois com os séculos essas celebrações de ritos da natureza ganharam elementos culturais locais. O Sinterklaas chegou à Holanda dia 14, sábado passado, foi muito televisionado, e eu ainda acho tudo muito “samba do crioulo doido” essa tradição. Eu nunca fui terminantemente contra, mas faço vista grossa.

  2. 21/11/2015 17:09

    Já comentei com você da habilidade de pensar em muitas coisas enquanto durmo… Bem, nesta semana, depois de ler esse seu artigo, sonhei com essa “sua festa”, pior, foi me ver recebendo uma chacota de quem não podia ver (???) o rosto, tirando o sarro de que fui avisado. Me senti personagem de sua história, a qual, deve ser mesmo muito ruim participar de um mico desses, por melhor que seja o aprendizado da cultura local.

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