Desta vez resolvi tratar de um assunto que é de utilidade pública e que pode acontecer com todos nós que buscamos um trabalho em outro país: o golpe do falso emprego no exterior.

Quando fui contratado para trabalhar no Chile, recebi uma indicação de pessoas conhecidas que já estavam trabalhando no país para uma determinada empresa. Mais precisamente, uma escola online de idiomas. Fiz a entrevista via Skype para essa escola, onde o responsável apresentou, inclusive, todo o prédio onde estava a escola e os professores que lá estavam trabalhando. Foi feito um treinamento a distância e tudo foi tratado por e-mail. Antes do meu embarque já havia um apartamento alugado com contrato assinado. Estas e outras situações me ajudaram a ter certeza de que se tratava de algo lícito.

Fachada da escola que me contratou no Chile via Skype | Imagem de Carlos Fernandes @blogbrasilcomz

Fachada da escola que me contratou no Chile via Skype | Imagem de Carlos Fernandes

Mas nem sempre as vagas de emprego no exterior anunciadas são verdadeiras. E eu mesmo estive envolvido em uma dessas situações recentemente com minha namorada. Como já estávamos mais atentos quanto ao procedimento, pesquisamos bastante e não seguimos no falso processo de seleção, que terminaria com a solicitação de valores.

Portanto, vou explicar como funcionou essa tentativa de golpe e como podemos nos prevenir quanto a isso. Afinal, muitos brasileiros estão doidos para deixar o país. E motivos não faltam, eu sei. E cair em um golpe pode ser mais fácil do que imaginamos.

A falsa vaga de trabalho na Itália

Eu e minha namorada, além de termos nossas profissões normais, somos também professores de inglês. E possuímos uma certificação que nos permite lecionar em qualquer país de língua não inglesa. Há boas vagas abertas que solicitam essa certificação. E uma das páginas do Facebook especialista na divulgação destas vagas é o ESL Base.

Nesta página surgiu poucos meses atrás vagas para professores de inglês na cidade de Molfetta, na Itália. Era necessário enviar currículo, cópia do passaporte, cópia de certificado de curso superior e foto recente para se candidatar. Nada de diferente do que havia sido solicitado quando participei do processo seletivo para trabalhar no Chile.

Fraude Online | Imagem de PublicDomainPictures.net @blogbrasilcomz

Fraude Online | Imagem de PublicDomainPictures.net

Pesquisamos a escola pela internet e ela realmente existia: English Academy Molfetta. Procuramos pelo nome da pessoa que assinava o email como “manager” e ela também existia: Nicoletta Paparella. Tudo nos pareceu correto a princípio.

Começamos a desconfiar quando nos chegou a confirmação do recebimento dos documentos com a descrição da vaga por completo. A descrição continha tudo o que envolvia a escola, como os tipos de cursos oferecidos, os alunos que lá estudam, enfim… Essa parte era perfeita.

Mas quando vimos que a oferta envolvia passagens pagas para a Itália (na verdade o gasto seria reembolsado quando chegássemos no país), apartamento individual pago, convênio médico pago e um salário de 2.600 euros para 25 aulas semanais. Seriam 25 euros a aula para trabalhar 25 horas por semana. E tinha mais… Esse valor já estava com as taxas governamentais descontadas, o profissional receberia mais um salário ao fim do contrato de um ano e todos os feriados seriam pagos. Como diz o ditado, esmola demais o santo desconfia.

Mesmo assim resolvemos seguir em frente para ver no que dava. Até surgir o convite para a entrevista via Skype. A minha aconteceria primeiro, em uma manhã de sábado. Depois de 50 minutos esperando a Nicoletta Paparella, me aparece um homem, com a câmera bem distante dele, se apresentando como David Paparella. O sotaque dele era terrível. E o áudio estava ruim também. Quando eu disse a ele que eu não o ouvia, a ligação caiu. E ele sumiu. Fiquei desanimado porque achei que era a internet. Entrei em contato via email mais tarde e ficamos de fazer uma nova tentativa em outra oportunidade.

English Academy Molfetta - Foto: arquivo da <a href="https://www.englishacademymolfetta.it/?utm_source=@blogbrasilcomz">escola</a> @blogbrasilcomz

English Academy Molfetta – Foto: arquivo da escola

Minha namorada fez a entrevista mais tarde. Aconteceu o mesmo com ela. A pessoa distante da câmera, áudio ruim e de repente ele some. Mas ele continuou via chat dizendo que faria a ligação sem vídeo, apenas com áudio. Foram 4 perguntas ridículas que duraram 3 minutos. E a entrevista terminou. Dois dias depois minha namorada recebeu um email dizendo que ela havia passado na entrevista. Foi aí que percebemos o golpe.

Minha segunda entrevista estava marcada para o dia seguinte do recebimento desse email por ela. É claro que eu aceitei fazê-la. E tudo correu da mesma maneira. A pessoa distante e áudio ruim. Ele desligou e fez a entrevista sem vídeo com as mesmas 4 perguntas ridículas e pelos mesmos 3 minutos. Bingo! Recebi o email dizendo que eu havia passado também.

Mas uma coisa não se encaixava: a escola e a Nicoletta Paparella, quem assinava os emails, realmente existiam. Refizemos a pesquisa via internet e encontramos um aviso de 2014 dessa escola alertando sobre um grupo de falsos recrutadores que estavam usando o nome da empresa em busca de professores para dar um golpe. Infelizmente, esse aviso não estava mais no site da escola. Depois do nosso contato, eles o retomaram.

Aviso de Fraude da English Academy Molfetta - Foto: arquivo da <a href="https://www.englishacademymolfetta.it/?utm_source=@blogbrasilcomz">escola</a> @blogbrasilcomz

Aviso de Fraude da English Academy Molfetta – Foto: arquivo da escola

Encontramos, ainda, depoimentos de pessoas dizendo que o resultado final dessa tramoia era pedir dinheiro para os “contratados” para a compra da passagem na Alitalia e para o pagamento do visto de trabalho na Itália. E que uma pessoa se passando por um vendedor da empresa aérea também entraria na jogada utilizando um endereço de email da Alitalia. Assim como o tal de David Paparella (nome que na realidade não existe) usava um email muito parecido com o real da English Academy.

Entramos em contato com a verdadeira Nicoletta Paparella e contamos o ocorrido. Ela agradeceu e disse que a polícia italiana já conhece esse golpe e que ela reportaria essa situação, já que continuavam a usar o nome dela e o da escola para tal. Entrei em contato via email com a Polícia Federal do Brasil, já que uma cópia dos passaportes estavam com os bandidos e outros brasileiros poderiam estar caindo nesse golpe. Mas nunca recebi resposta alguma.

Verificando a conta de Skype utilizada para a entrevista, percebemos que havia mais de 100 pessoas adicionadas. Provavelmente pessoas que estavam participando do falso processo seletivo. Não respondemos mais o email que constava que havíamos passado na entrevista e que seríamos contratados.

Cuidados para se tomar contra o golpe do falso emprego no exterior

De cara fica difícil sabermos se uma vaga no exterior é verdadeira ou não. Mas nunca aceitem um procedimento fácil demais e nem uma oferta espetacular sem antes participar de várias fases dentro de um processo de seleção. Nenhum recrutador vai querer um profissional desconhecido e gringo, principalmente sem visto de trabalho naquele país e sem fazer um processo de seleção minucioso. Principalmente uma entrevista longa via Skype te questionando tudo o que for possível.

Fake Jobs | Imagem de SCF @blogbrasilcomz

Fake Jobs | Imagem de SCF

Verifique sempre o email da empresa. Veja se ele é corporativo. Empresas não utilizam contas no Gmail, Outlook, Yahoo, enfim. Muitas vezes eles conseguem utilizar uma extensão bem parecida com o email verdadeiro, como foi o caso que citei.

Pesquise muito sobre a empresa e os nomes envolvidos nos emails trocados. Veja se essa vaga existente está em outros sites e páginas do Facebook confiáveis, além do Linkedin, analisando o salário e os benefícios oferecidos. Ninguém, nem mesmo na Europa, Estados Unidos ou Canadá, por exemplo, está distribuindo dinheiro fácil para poucas horas de trabalho.

Tente pesquisar o perfil das pessoas envolvidas no processo no Facebook e no Linkedin. Veja se elas realmente existem. Se elas vivem onde dizem. Se estão ligadas a empresa realmente. Nós brasileiros sabemos fazer isso bem.

Ao fechar um contrato, leia-o atentamente para certificar-se de sua legalidade. Principalmente com empresas menores.

Essa são algumas dicas mais pontuais. Mas é claro que cada pessoa poderá encontrar outras alternativas para se certificar que não está caindo no conto do vigário.

E se você já passou por algo semelhante, compartilhe com a gente sua experiência e ajude nossos amigos leitores do BZ com informações valiosas contra o golpe do falso emprego no exterior.