bz_alemanhaManuela Marques Tchoe – Alemanha

Não adianta negar que a imagem que temos da Alemanha é formada por eficiência, organização e obsessão por regras. É claro que esse estereótipo tem um quê de verdade, mas não se engane quando digo que nem tudo segue o primor de eficiência que nós imaginamos. Quem mora na Alemanha sabe que muitas vezes nos deparamos com o exato oposto. Assim como no Brasil nem tudo é Carnaval ou futebol, nem tudo na Alemanha será de acordo com nossas altas expectativas pelo padrão alemão.

Nem tudo é eficiente ou pontual

Se nos irritamos com a frequência do sistema estar fora do ar em bancos, aeroportos, et cetera, não se espante quando digo que esse também é um mal que afeta os alemães. Talvez não seja com a mesma regularidade que os instáveis sistemas brasileiros, mas já vi tais acontecimentos algumas vezes. Pontualidade é outra coisa que nem sempre é respeitada por aqui: seja no transporte público (ultimamente com bastante atrasos em Munique), seja nos atrasos para reuniões de meus colegas alemães, minha experiência me mostrou que alemães podem ser tão bagunçados e confusos quantos nós, imprecisos brasileiros.

O sistema de saúde também não é necessariamente o mais eficiente. Já fomos parar na emergência pediátrica de um hospital de Munique onde apenas um médico estava de plantão, e a espera mínima era de três horas.

Civilizado não significa ser educado

Quando adentramos os portões da Europa, imaginamos que as pessoas tenham um mínimo de educação para, por exemplo, oferecer o assento no metrô a uma grávida ou idoso. Acredite que nem sempre esse será o caso; aliás, em muitos locais grávidas nem têm prioridade em assentos ou filas. Nem sempre os mais jovens cedem assentos, e já vi várias vezes alguns que não dão preferência a carrinhos de bebê em elevadores, mesmo com escadas rolantes disponíveis.

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Há muito tempo atrás, quando meu filho ainda era um bebê e estávamos num Biergarten, um casal de alemães pediu para sentar na nossa mesa. Nós deixamos e, sem cerimônia, os dois começaram a fumar, sem se importar que um bebê estaria respirando toda aquela nicotina. Reclamamos, e eles não se importaram nem um pouco, apesar de estarem se aproveitando da nossa gentileza ao ceder espaço para eles. Essa falta de empatia é, na minha teoria, uma ênfase muito forte de individualismo, principalmente quando não se conhece a outra pessoa. Quando os alemães te conhecem, tendem a ser mais gentis e educados, e com delicadeza te oferecem não só o assento, como um cafezinho e, se você tiver sorte, até um sorriso!

Malandragem não é patrimônio dos brasileiros

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“Malandro é malandro e mané é mané”. Grande Bezerra da Silva! 

Logo quando comecei a trabalhar na Alemanha me surpreendi em como nem sempre as regras são seguidas. Se respeitamos os sinais de trânsito, a situação muda de figura quando estamos no mundo corporativo. Há muito tempo atrás, meu primeiro chefe, um mão-de-vaca convicto, ia para conferências e não pagava um centavo. Uma vez, em Londres, ele pediu um tíquete de graça para um evento, alegando que ele seria o próximo a dar uma palestra. Uma mentira deslavada que nem eu acreditei, numa cara-de-pau que raramente vi até nos brasileiros. Os alemães podem ser tão malandros quanto nós; é só ter motivação e oportunidade.

Frieza nem sempre é a regra

Se os alemães são um pouco mais reservados que os brasileiros, sempre dispostos a conhecer a vida alheia na fila do supermercado, isso não quer dizer que sejam frios. Apenas a forma como eles deixam pessoas fazerem parte de suas vidas é um pouco diferente da nossa. É claro que essa distância inicial, além do costume de criticar as pequenas coisas que os brasileiros consideram café pequeno, são uma leve dificuldade para quem quer fazer amizades com alemães. Entretanto, é só você dar um tempinho para eles se sentirem à vontade e pimba! Amizades verdadeiras e leais são criadas e estabelecidas com o passar do tempo.

Eles não são mais honestos

Lembre-se do exemplo que dei do meu ex-chefe há alguns parágrafos atrás? Este também vale para o tema honestidade. Se na Alemanha é possível pegar metrô ou ônibus sem carimbar o tíquete, ou comprar jornal de uma caixinha sem que o dinheiro seja depositado antes, é porque existe punição para quem burla as regras. Pegou ônibus sem pagar e foi pego pelo fiscal? Paga-se 60 euros em Munique. Se honestidade parece ser algo intrínseco no país germânico, é porque existe controle e punições para quem pisa na bola.

A diferença em comparação com o Brasil? É simples: aqui as punições são levadas à sério, enquanto no Brasil nós aplicamos o tal jeitinho para nos livrarmos das consequências. No fundo, acredito que é mais uma questão de costumes e um sistema legal que não distingue as punições de acordo com raça ou posição social.

A realidade

Viver no exterior nos dá uma outra perspectiva e, com sorte, a possibilidade de vermos além dos estereótipos. Importante é não criar grandes expectativas de que a Alemanha – ou qualquer outro país desenvolvido – é um mundo cor-de-rosa. Não é. Como em qualquer lugar do mundo, aqui também existem problemas, e caso não se aceite que o mundo desenvolvido também pode cometer erros, nós imigrantes brasileiros estaremos vivendo uma corrente de decepções. A Alemanha tem muitas coisas maravilhosas para oferecer, mas sempre haverá turbulências que nos farão acreditar que a Terra Prometida da eficiência é mais ineficiente do que imaginávamos.

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Manuela Marques Tchoe tem 36 anos, é diretora de marketing e escritora nas horas vagas. Para saber mais sobre ela e o blog pessoal o Baiana da Baviera  clique aqui. Para atualizações diárias, sigam-nos no Facebook, Instagram e Twitter. Quer participar do “blog Brasil com Z”? Envie-nos um e-mail para blogbrasilcomz@gmail.com informando-nos da sua motivação e dois textos: uma mini biografia, e um texto de apresentação (como esse da Manuela, por exemplo). Entraremos em contato com os melhores candidatos para trocar mais informações e, quem sabe, convidar para participar do blog.