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O “boom” de brasileiros no Chile II

13/02/2017

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Carlos Fernandes – Santiago, Chile

Na primeira parte desse meu artigo, intitulada O “boom” de brasileiros no Chile, pudemos acompanhar um pensamento baseado no turismo. O Chile se tornou um dos destinos mais procurados pelos brasileiros, fazendo da capital Santiago a sétima cidade mais visitada por nossos compatriotas no mundo.

Hoje vou abordar esse “boom” de brasileiros no país com relação ao mercado de trabalho. Afinal, o Chile vem se tornando uma válvula de escape do nosso povo que busca sair do Brasil em busca de dias melhores.

A partir dessa situação, temos algumas perguntas para responder. Como isso tem acontecido? Vale a pena? É viável se arriscar? Qual o custo de vida? E os terremotos? A segurança? Os chilenos são tão simpáticos assim? Sem perder mais tempo, vamos às respostas.

O “boom” de brasileiros no Chile: mercado de trabalho

Tem sido mais comum do que vocês imaginam a quantidade de brasileiros que estão querendo ou se arriscando a ir ao Chile começar uma nova vida. E isso passa, muitas vezes, pelo fato dessa pessoa ter viajado ao país e se encantado com tudo o que ele oferece. Eu, quando conheci Santiago há anos atrás, cheguei a comentar com minha namorada que moraria fácil na capital chilena. E de fato é uma cidade interessante e com uma qualidade de vida boa. Não a toa está entre as 3 melhores cidades da América do Sul para se viver, junto com Buenos Aires e Montevidéu.

Por essas voltas que a vida dá, fui parar em Santiago à trabalho e realmente me encantei com a cidade. Esse encantamento foi sofrendo algumas alterações com o tempo. Mas isso é normal. Existem situações como os temblores e terremotos que incomodam, o atendimento no comércio, enfim… Quando somos turistas não temos a ideia real do que é morar em um determinado lugar. E isso serve para qualquer cidade e país do mundo. É só virando um cidadão local e vivenciando o dia a dia para que tenhamos uma conclusão exata desse assunto.

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Eu e a galera do trabalho em um momento de folga em dia de jogo do Chile – Foto: Arquivo Pessoal

Quando eu percebo um brasileiro querendo se mudar para o Chile após dias como turista, me assusto um bocado. E incluo essa conclusão que acabei de citar. Mas também incluo o fato de que podemos acreditar que o Chile seja igual ao Brasil. E não é tão simples assim. Para exemplificar, vou citar o exemplo de um amigo que queria morar em Santiago vendendo lanches e salgados na rua. Isso é assim no Brasil. É só chegar chegando. Em Santiago existem leis para esse tipo de comércio. Não basta ficar na rua e pronto. Há fiscalização da polícia. Há efetivamente polícia nas ruas. Há uma padronização de carrinhos e bancas para os comerciantes. E assim por diante.

Assim, como em qualquer mudança, deve-se ter um planejamento bem feito para que o investimento financeiro não seja em vão. E para que decepções não ocorram. Não é simplesmente fazer as malas e cair em Santiago, só porque é fácil tirar o visto Mercosul. No meu caso, saí do Brasil com uma proposta de trabalho. Comecei a trabalhar quinze dias depois de minha chegada. E, mesmo assim, foram três meses para equilibrar as finanças.

Meu primeiro apartamento tinha 38m² - Foto: Carlos Fernandes

O início é mais difícil e precisamos ter pés no chão: meu primeiro apartamento tinha apenas 38m². E o aluguel custava $360mil – Foto: Carlos Fernandes

E eu trabalhava com gringos e brasileiros, conversando em inglês e em português. Chegar no Chile para procurar emprego sem falar espanhol é loucura. Desculpa a maneira direta de me expressar, mas é bem por aí. A paciência do chileno com quem não é fluente é muito curta. Mesmo sendo um cliente em uma loja, por exemplo. Agora imaginamos isso em uma entrevista de emprego.

Vivendo o dia a dia em Santiago percebemos o que um turista nunca enxergará: os chilenos não são tão simpáticos assim. É difícil lidar com eles. Em todas as vezes que estive no Brasil a passeio me sentia um rei sendo tratado por vendedores em lojas, por garçons em restaurantes ou por caixas em supermercados. Tamanha a diferença de educação nesse âmbito.

Com chileno não tem mãozinha na cabeça. Eles são secos e, muitas vezes, pensam devagar demais. Antes que eu seja massacrado, existem sim chilenos super simpáticos, educados e que adoram um brasileiro. Não estou generalizando. É apenas uma visão da cultura local. É uma questão cultural. Assim como os brasileiros costumam marcar um churrasco com uma pessoa que acabou de conhecer. Assim como alguns povos europeus não gostam que você os toque sem que ele tenha dado essa liberdade.

Olha eu no trabalho outra vez vendo futebol - Foto: Arquivo Pessoal

Olha eu no trabalho outra vez vendo futebol – Foto: Arquivo Pessoal

Custo de vida, terremotos, transporte e segurança

O custo de vida em Santiago é alto. Temos a ideia que os pesos chilenos não tem muita validade. Na verdade tem zeros demais. É isso que confunde nossa cabeça. É necessário ganhar bem por lá para ter uma vida boa. Chego a comparar com o custo de vida com o de São Paulo. Sendo que, na realidade, a maioria dos chilenos ganham mal.

Um salário na casa dos $700 mil pesos, o que equivaleria a R$3.500,00, estaria bom para uma pessoa viver. O mínimo no Chile é $270 mil pesos, ou R$1.350,00. O que pesa muito é o aluguel. É caro demais. Um apartamento de um quarto em uma região legal de Santiago, que te oferece segurança, transporte público, lazer, supermercados e outras facilidades, não sai por menos de $360 mil pesos, ou R$1.800,00. Sem contar os “gastos comunes”, o que corresponderia ao nosso condomínio.

Protesto a favor de aumento salarial - Foto: 915espaciofm-cl

Protesto a favor de aumento salarial – Foto: 915espaciofm-cl

Outra questão a se preocupar no Chile são os constantes terremotos. Além dos temblores, rápidas tremidas que não passam dos 6 pontos na escala Richter. Há brasileiros que não se acostumam com isso. Não adianta. Uma tremida ou outra poderá acontecer a qualquer momento. Podem ocorrer duas em um mesmo dia. Ou pela madrugada, atrapalhando nosso sono. Enquanto fica no temblor, ótimo. O problema é engatar uma quinta e virar um terremoto de verdade. E isso faz parte do cotidiano local, fazendo do Chile o país mais sísmico do mundo.

Já o transporte público me agrada de certa forma. O metrô cobre a cidade inteira praticamente. Os preços dos tickets são iguais aos do Brasil. Há o bilhete integrado, onde você poderá usar o ônibus gratuitamente em até duas horas depois de usar o metrô.

O único incômodo no transporte é o fato dos motoristas de ônibus serem ruins de volante e de não haver limite de velocidade nas ruas. Eles aceleram de verdade, assim como os carros, e se você não tomar cuidado poderá cair no assoalho. Uma vez vi uma pessoa cair feio por não ter conseguido se equilibrar devido a velocidade e freagem brusca. Alguns motoristas não param quando o sinal é dado pela noite por um cidadão. E há outros que fecham as portas do ônibus sem que todos tenham entrado. Motorista de ônibus em Santiago é um caso sério.

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Ônibus em Santiago – Foto: Carlos Fernandes

Quanto a segurança, nunca tive problema com nada no Chile. É claro que em algumas regiões de Santiago devemos ficar atentos. Mas são áreas que podemos nem nos envolver. O centro requer atenção. Mas é com batedores de carteira. Diferente do Brasil que a qualquer momento alguém pode encostar uma arma em seu rosto.

Já saí do trabalho diversas vezes após a meia noite e voltava a pé para casa sem se quer duvidar de alguém que viesse em minha direção ou pelas costas. Mais uma vez vale o fato de saber onde estamos. Por isso é importante escolher um bom bairro para morar. Querer viver em outro país em um bairro ruim para pagarmos aluguel baixo e trabalhar para ganhar mixaria, sinceramente, não vale a pena.

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A simpática, charmosa e agradável área de Providencia, melhor região para se viver em Santiago – Foto: Carlos Fernandes

Por isso reforço a ideia de um planejamento bem feito e executado antes de se mudar para o Chile. E não tomar a decisão de se mudar apenas por ter curtido um passeio a turismo. Ou por saber que há muitos brasileiros ganhando a vida e sendo felizes onde moram. Para se chegar a esse nível, há que saber onde se está pisando.

Para finalizar, digo que, se você tiver uma oportunidade de trabalho a partir do Brasil com um salário legal, aceite. Nessas condições vale muito a pena. Será uma experiência pessoal e profissional riquíssimas. Deixando os problemas de lado, já que lugar nenhum no mundo é perfeito, o Chile é um país rico em diversidade natural. E Santiago é uma cidade agradável, com muitas árvores, parques, shopping centers e com estações do ano bem definidas.

Espero que todos tenham lido o artigo completo e entendido que eu não quero desanimar ninguém. Apenas estou fazendo alguns alertas. E que cito apenas o convívio com o povo com alguns altos e baixos. Mas saliento que o Chile é um país incrível e que me mostrou coisas que nem a Europa havia me mostrado antes.

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Carlos Eduardo Fernandes é publicitário,  escritor, já morou na Irlanda e atualmente é professor de inglês online em Santiago, no Chile. Saiba mais sobre ele e o blog pessoal BR Chile clicando aqui. Sigam-nos no Facebook acessando aqui. Instagram e Twitter, procure por: @blogbrasilcomz

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