bz_italiaJuliano Emílio – Florença, Itália

Meu caros leitores do “Brasil com Z”, tem coisas que acontecem com a gente que merecem ser publicadas, mesmo sendo experiências não tão legais assim. Hoje, o que eu trago para vocês é, o que chamaria de “um importante serviço de utilidade pública aos que pretendem viajar pela Itália de carro”.

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Ano passado, eu fiz uma viagem de uma semana pela região da Toscana. O passeio foi sensacional, com lindas paisagens, passeios por vilarejos medievais, além de uma gastronomia que me fez dizer “Mamma mia!” várias vezes. Quatro meses depois, quando já estava planejando a minha próxima aventura, recebi pelo correio uma carta vinda de Florença: uma multa de trânsito. No valor de 109 euros, apresentava a “cômoda” possibilidade de ser paga pelo cartão de crédito através da internet, em um site para lá de suspeito – na minha opinião, tinha um visual de que havia sido programado por um adolescente. Depois de uma rápida busca na internet, percebi que não era o único que havia caído nesta “armadilha florentina”.

Segundo o site “Bella-Toscana“, o que existe é uma “indústria de multas” em Florença, funcionando há pelo menos uns cinco anos. O site afirma que a média é de 1253 multas geradas por dia, ou seja, 457345 por ano! O resultado? Um saldo de  52 milhões de euros arrecadados anualmente para os cofres da prefeitura. A cidade, com 377207 moradores segundo o Wikipedia, tem mais de uma multa por habitante ao ano, me levando a pensar… quem é que anda pagando esta conta? Nós, pobres turistas desavisados!

Procurando por mais informações em sites de viagem, como o Tripadvisor, encontrei vários fóruns de discussão, em diferentes línguas, contando como os turistas do mundo todo receberam a mesma infame cartinha, até um ano depois de sua passagem pela cidade. Nestes fóruns, irlandeses, alemães, americanos e até brasileiros ficam perguntando uns aos outros se vale a pena não pagar a multa ou tentar recorrer (a proposta é de escrever uma carta às autoridades florentinas, em italiano é claro, com uma justificativa razoável – não vale dizer que não sabia das regras). As cartas chegam sempre na língua do país para onde foi enviada e em italiano; em um tom ameaçador, informam que se não for paga em 60 dias, o valor será dobrado.

A armadilha é muito bem elaborada: no centro antigo da cidade existem várias ruelas onde a circulação de veículos é proibida (chamada de “zona a traffico limitato” ou ZTL), mas sem barreira física alguma. Nos postes próximos existem placas bem pequenas avisando da proibição (olhe a foto e veja que não é exagero meu); acopladas a elas estão as (muitas) câmeras, fotografando mais que “paparazzis”, os carros dos turistas desinformados.

Para piorar, muitos hotéis que ficam no centro de Florença disponibilizam vagas de estacionamento para hóspedes que só podem ser alcançadas passando pelas tais ruas de trânsito proibido. Neste caso, o hóspede tem que passar a placa do carro ao hotel antes, que avisará a polícia, que autorizará a passagem. Olha a trabalheira… Como se não bastasse toda essa malandragem, existem agências de locação de veículos famosas, localizadas exatamente nestas ruas interditadas. O que acontece? Os turistas recebem, pelo menos, uma multa na retirada e outra na entrega do carro. Neste caso, ele não precisa nem se estressar com a multa, porque a “prestativa” agencia de locação já passa o número do cartão de crédito do coitado diretamente para a polícia, que desconta o valor automaticamente. Que eficiência, não? Na internet encontrei casos de gente com oito, dez multas deste tipo; um americano desavisado possui uma dívida somada de dez mil euros só em multas no centro de Florença. Imagino como ele deve estar animado para retornar ao país da pizza…

Em uma reportagem do jornal alemão “Süddeutsche Zeitung”, de 2011, a recomendação de advogados é que a multa não seja paga . O repórter informa que nada de grave acontece e a chance de ser checado durante uma “blitz” na Itália ou na entrada através de aeroportos é mínima. Além disso, em cinco anos a multa legalmente expira. Já o setor jurídico da ADAC (Clube do Automóvel da Alemanha) recomenda que a fim de “não se estressar futuramente”, a multa deve ser paga .

Depois de tentar abrir o site oficial várias vezes sem sucesso, finalmente consegui acessar uma foto que comprovava a minha falha. Na dúvida, paguei, e entrei para a milionária estatística de usurpação dos turistas daquela metrópole.

Há relatos de abusos similares em outras cidades italianas, como Pisa, Siena e Roma, onde parece haver também essa fascinação por mandar essas “lembrancinhas” aos turistas, meses depois de suas visitas; em janeiro de 2017 uma amiga recebeu uma multa de Verona, por andar na faixa exclusiva de ônibus. No calor do momento ela até sugeriu que fizéssemos uma campanha para ninguém mais viajar de carro pela Itália! O que eu recomendo é: antes de viagens de carro, procurar na internet o máximo de informações possíveis sobre o tráfego nas cidades em que for dirigir, porque a legislação muda muito de um país para outro.

A armadilha montada em Florença foi tão bem arquitetada fisicamente, legalmente e juridicamente que, apesar da astronômica arrecadação, só contribui em desprestigiar e desonrar a memória e o símbolo que Florença foi e é para o resto do mundo. Contra esta ardilosa artimanha, nós visitantes contamos com uma única, porém potente arma: disseminar a informação. Este é um texto que eu peço empenhadamente que seja compartilhado, para que outros como nós não caiam nesta arapuca.

Fica a dica!

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Juliano Emilio nasceu no Paraná e é medico. Mora atualmente em Munique, na Alemanha, com a família. Para saber mais sobre ele clique aqui. Para atualizações diárias nossas, sobre a vida fora do Brasil, acompanhem-nos no Facebook e Twitter. Veja lindas fotos do Juliano Emílio e dos outros autores no nosso Instagram. Blog Brasil com Z, um site feito por brasileiros expatriados, vivendo nos quatro cantos do mundo! Quer concorrer a participar como autor? Envie-nos sua mini biografia e motivação para: blogbrasilcomz@gmail.com Contactaremos os melhores candidatos.