bz_alemanha Manuela Marques Tchoe – Alemanha

Maternidade longe de seu país não é café pequeno. Enquanto no Brasil muitas de nossas conterrâneas contam com a família por perto ou babás, aqui na Europa enfrentamos a maternidade sem muita ajuda. Temos desafios como a dificuldade de nos comunicarmos em outra língua, mas temos vantagens como segurança, boa educação e leis que protegem mães no mercado de trabalho. Conheça um pouco mais sobre a realidade de ser mãe fora do Brasil, especialmente na Alemanha.

Parto normal é padrão

Diferentemente do Brasil, na Alemanha – assim como na Europa em geral – o padrão é o parto normal, não a cesariana. É muito comum que o ginecologista que acompanhe a gravidez não seja o obstetra, sendo doulas ou parteiras quem atendem a paciente no parto normal. Lógico que cesárea está disponível para quem quiser, entretanto a pressão que mães sentem aqui é para parir de forma natural.

Licença maternidade

Existe muita diferença entre países da Europa com a licença maternidade. A Alemanha e países escandinavos estão bem avançados nessa questão; por exemplo, na Alemanha a mãe pode tirar até três anos de licença, sendo doze meses pagos (em torno de 60% do salário líquido). Papais têm a escolha de dividir a licença, também ele podendo cuidar do bebê por alguns meses, apesar de que ainda na maioria dos casos é a mãe que pára a carreira para se dedicar à família. Para motivar homens a dedicar-se à paternidade, o governo alemão dá mais um pontapé nessa direção: pais podem tirar até dois meses de licença pagos (também 60% do salário líquido), o que estende a licença para

um total de quatorze meses pagos, sendo que as duas partes – mãe e pai – tirem a licença. Que diferença em comparação com o Brasil ou outros países, não?

Cultura do ¨ar fresco¨

Muitos dos alemães e nórdicos têm a cultura do ¨ar fresco¨, ou seja, de sair de casa para respirar ar puro. Diz a lenda que que o tal ar fresco faz bem a saúde, tão bem que muitos escandinavos deixam seus bebês na rua em pleno inverno para que eles possam fortalecer os pulmões. Aqui na Alemanha é muito comum mães exaustas passeando com seus bebês em parques – às vezes até em cemitérios! – para que eles possam dormir nos carrinhos e respirar ar puro, independentemente do tempo.

Filhos em tempo integral

Sem babás ou família por perto (a não ser que seja do marido), mães imigrantes não têm muita opção a não ser carregar seus filhos para todos os lados. Por causa dessa necessidade, muitos aqui investem mundos e fundos em apetrechos que facilitem essa mobilidade, de carrinhos com tração de rodas (importante para desbravar a neve!) até camas portáteis para levar em viagens e casas de amigos.

Preconceito e despreparo para as working moms 

Se você acha que países de primeiro mundo como na Europa têm uma bela infraestrutura para mães retornarem ao mercado de trabalho, pense novamente! Por esse lado do oceano Atlântico também existem certas dificuldades. Para começar, enquanto mães no Brasil acham normalíssimo voltar ao trabalho após alguns meses e não há mais tanto preconceito quanto a mães que seguem carreiras, na Alemanha existe um termo chamado Rabenmutter, literalmente significando mãe corvo, que  tem uma conotação muito negativa.  Essa denominação é utilizada para as mães que passam o dia inteiro no trabalho, deixando os coitados de seus filhos na creche. Além de precisar lidar com o horário de funcionamento limitado das creches (muitas fecham às quatro da tarde), dos preços altos para contratar ajuda e das limitadas opções de carreira, precisa-se ainda lidar com essa mentalidade parada no tempo.

Ser bilíngue

Bilinguismo é uma natural consequência de criar filhos no exterior. Para quem acha, entretanto, que tornar-se bilíngue é automático, se surpreenderá que muitas crianças não têm interesse ou apresentam dificuldades para falar português. Com frequência, crianças crescendo com dois idiomas preferem usar apenas um, e é necessária muita paciência, dedicação e até certas estratégias para que a criança tenha acesso aos dois idiomas. Não só insistir no uso do idioma é preciso, mas investir em desenhos de TV em português, áudio-books, livros e, se possível, encontros com outras crianças brasileiras e com a família.

Mesmo assim, é muito possível que a criança tenha resistência ou que o sotaque seja bastante forte. Continue firme na batalha mesmo que seu filho resista e só responda em outra língua, deixe críticas de lado e persista!

Independência

Uma das coisas que mais te fazem repensar é a questão da independência das crianças. Na Alemanha valoriza-se bastante que crianças sejam independentes, desde trocarem de roupas sem ajuda ainda pequenas até irem para a escola sozinhas (ou em grupos de crianças). É comum ver crianças de sete, oito anos, em supermercados, no ônibus, na padaria, caminhando na rua. Para mim esse é o tema que eu, pessoalmente, tenho mais resistência.

É claro que a realidade no nosso Brasil é muito diferente e não dá muito espaço para que nós nos sintamos à vontade para deixar nossos filhos pequenos perambulando por aí. Aqui, no entanto, há uma realidade diferente: não existe essa violência explícita que justifique um comportamento de super-proteção ou paranoia, até. Entretanto, vejo que muitas pessoas acabam descuidando da segurança das crianças: no jardim-de-infância de meu filho, por exemplo, praticamente qualquer pessoa pode entrar no recinto. Se alguém com más intenções resolve entrar, não existe cadeado, nem senha na porta ou segurança. É justamente essa distração que mais causa medo nas mães brasileiras que vivem na Alemanha.

Ser mãe no exterior – na Alemanha ou qualquer outro lugar – é recriar referências, reinventar-se, confrontar medos que muitos não conseguirão entender. Mesmo com certas dificuldades, podemos enxergar ótimas possibilidades, principalmente na oportunidade de ter contato com diferentes idiomas e culturas – o que para mim não tem preço.

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Manuela Marques Tchoe tem 36 anos, é mãe e diretora de marketing e escritora nas horas vagas. Para saber mais sobre ela e o blog pessoal o Baiana da Baviera  clique aqui. Para atualizações diárias, sigam-nos no Facebook, Instagram e Twitter. Quer participar do “blog Brasil com Z”? Envie-nos um e-mail para blogbrasilcomz@gmail.com informando-nos da sua motivação e dois textos:  uma minibio, e um texto de apresentação. Entraremos em contato com os melhores candidatos para trocar mais informações e, quem sabe, convidar para participar do blog.