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Ser mãe no exterior – desafios e possibilidades

07/03/2017

bz_alemanha Manuela Marques Tchoe – Alemanha

Maternidade longe de seu país não é café pequeno. Enquanto no Brasil muitas de nossas conterrâneas contam com a família por perto ou babás, aqui na Europa enfrentamos a maternidade sem muita ajuda. Temos desafios como a dificuldade de nos comunicarmos em outra língua, mas temos vantagens como segurança, boa educação e leis que protegem mães no mercado de trabalho. Conheça um pouco mais sobre a realidade de ser mãe fora do Brasil, especialmente na Alemanha.

Parto normal é padrão

Diferentemente do Brasil, na Alemanha – assim como na Europa em geral – o padrão é o parto normal, não a cesariana. É muito comum que o ginecologista que acompanhe a gravidez não seja o obstetra, sendo doulas ou parteiras quem atendem a paciente no parto normal. Lógico que cesárea está disponível para quem quiser, entretanto a pressão que mães sentem aqui é para parir de forma natural.

Licença maternidade

Existe muita diferença entre países da Europa com a licença maternidade. A Alemanha e países escandinavos estão bem avançados nessa questão; por exemplo, na Alemanha a mãe pode tirar até três anos de licença, sendo doze meses pagos (em torno de 60% do salário líquido). Papais têm a escolha de dividir a licença, também ele podendo cuidar do bebê por alguns meses, apesar de que ainda na maioria dos casos é a mãe que pára a carreira para se dedicar à família. Para motivar homens a dedicar-se à paternidade, o governo alemão dá mais um pontapé nessa direção: pais podem tirar até dois meses de licença pagos (também 60% do salário líquido), o que estende a licença para

um total de quatorze meses pagos, sendo que as duas partes – mãe e pai – tirem a licença. Que diferença em comparação com o Brasil ou outros países, não?

Cultura do ¨ar fresco¨

Muitos dos alemães e nórdicos têm a cultura do ¨ar fresco¨, ou seja, de sair de casa para respirar ar puro. Diz a lenda que que o tal ar fresco faz bem a saúde, tão bem que muitos escandinavos deixam seus bebês na rua em pleno inverno para que eles possam fortalecer os pulmões. Aqui na Alemanha é muito comum mães exaustas passeando com seus bebês em parques – às vezes até em cemitérios! – para que eles possam dormir nos carrinhos e respirar ar puro, independentemente do tempo.

Filhos em tempo integral

Sem babás ou família por perto (a não ser que seja do marido), mães imigrantes não têm muita opção a não ser carregar seus filhos para todos os lados. Por causa dessa necessidade, muitos aqui investem mundos e fundos em apetrechos que facilitem essa mobilidade, de carrinhos com tração de rodas (importante para desbravar a neve!) até camas portáteis para levar em viagens e casas de amigos.

Preconceito e despreparo para as working moms 

Se você acha que países de primeiro mundo como na Europa têm uma bela infraestrutura para mães retornarem ao mercado de trabalho, pense novamente! Por esse lado do oceano Atlântico também existem certas dificuldades. Para começar, enquanto mães no Brasil acham normalíssimo voltar ao trabalho após alguns meses e não há mais tanto preconceito quanto a mães que seguem carreiras, na Alemanha existe um termo chamado Rabenmutter, literalmente significando mãe corvo, que  tem uma conotação muito negativa.  Essa denominação é utilizada para as mães que passam o dia inteiro no trabalho, deixando os coitados de seus filhos na creche. Além de precisar lidar com o horário de funcionamento limitado das creches (muitas fecham às quatro da tarde), dos preços altos para contratar ajuda e das limitadas opções de carreira, precisa-se ainda lidar com essa mentalidade parada no tempo.

Ser bilíngue

Bilinguismo é uma natural consequência de criar filhos no exterior. Para quem acha, entretanto, que tornar-se bilíngue é automático, se surpreenderá que muitas crianças não têm interesse ou apresentam dificuldades para falar português. Com frequência, crianças crescendo com dois idiomas preferem usar apenas um, e é necessária muita paciência, dedicação e até certas estratégias para que a criança tenha acesso aos dois idiomas. Não só insistir no uso do idioma é preciso, mas investir em desenhos de TV em português, áudio-books, livros e, se possível, encontros com outras crianças brasileiras e com a família.

Mesmo assim, é muito possível que a criança tenha resistência ou que o sotaque seja bastante forte. Continue firme na batalha mesmo que seu filho resista e só responda em outra língua, deixe críticas de lado e persista!

Independência

Uma das coisas que mais te fazem repensar é a questão da independência das crianças. Na Alemanha valoriza-se bastante que crianças sejam independentes, desde trocarem de roupas sem ajuda ainda pequenas até irem para a escola sozinhas (ou em grupos de crianças). É comum ver crianças de sete, oito anos, em supermercados, no ônibus, na padaria, caminhando na rua. Para mim esse é o tema que eu, pessoalmente, tenho mais resistência.

É claro que a realidade no nosso Brasil é muito diferente e não dá muito espaço para que nós nos sintamos à vontade para deixar nossos filhos pequenos perambulando por aí. Aqui, no entanto, há uma realidade diferente: não existe essa violência explícita que justifique um comportamento de super-proteção ou paranoia, até. Entretanto, vejo que muitas pessoas acabam descuidando da segurança das crianças: no jardim-de-infância de meu filho, por exemplo, praticamente qualquer pessoa pode entrar no recinto. Se alguém com más intenções resolve entrar, não existe cadeado, nem senha na porta ou segurança. É justamente essa distração que mais causa medo nas mães brasileiras que vivem na Alemanha.

Ser mãe no exterior – na Alemanha ou qualquer outro lugar – é recriar referências, reinventar-se, confrontar medos que muitos não conseguirão entender. Mesmo com certas dificuldades, podemos enxergar ótimas possibilidades, principalmente na oportunidade de ter contato com diferentes idiomas e culturas – o que para mim não tem preço.

______________

Manuela Marques Tchoe tem 36 anos, é mãe e diretora de marketing e escritora nas horas vagas. Para saber mais sobre ela e o blog pessoal o Baiana da Baviera  clique aqui. Para atualizações diárias, sigam-nos no Facebook, Instagram e Twitter. Quer participar do “blog Brasil com Z”? Envie-nos um e-mail para blogbrasilcomz@gmail.com informando-nos da sua motivação e dois textos:  uma minibio, e um texto de apresentação. Entraremos em contato com os melhores candidatos para trocar mais informações e, quem sabe, convidar para participar do blog.   

13 Comentários leave one →
  1. edvanfleury permalink
    07/03/2017 9:35

    Nossa e aqui na China a mulher pare e j;a tem que trabalhar… fiquei com a impressão de que onde moro é um país com leis mais crueis para quem quer ser pai/mãe..

    • manuelamsp permalink
      07/03/2017 9:38

      Pois, acho que na Alemanha, apesar de certas dificuldades, ainda é um lugar muito bom para criar filhos! Nos EUA também não se tem licença maternidade regulamentada- e olha que é país de primeiro mundo!

  2. 07/03/2017 10:08

    Em questões de parto a Holanda é referência mundial. 1 em 3 mulheres tem o filho em casa com parteira. E a maioria dos partos são naturais (diferentes dos normais que são com peridural). Tem quem critique isso, dizendo ser medieval. Eu acho que está bem melhor do que o BR, campeão mundial de cesáreas desnecessárias.
    Esse negócio de “mãe corvo” é um resquício do azedume dos machistas de plantão do século passado. A mulher que cria filhos e não trabalha fora é uma “folgada” e a mãe que trabalha full time é um “corvo”? Gimme a break!

    Você mencionou a questão da segurança. Sempre achei muito estranho mesmo o fato de escolas de ensino fundamental serem totalmente acessíveis a estranhos. Na escola onde meus filhos estudaram, o acesso se dava por uma roleta giratória. Quando meu filho tinha 4 aninhos e ia começar na escola, aconteceu um caso na Bélgica onde um atirador entrou em um creche e matou umas 30 crianças, incluindo bebês. Fiquei apavorada e fui visitar a escola que meu filho iria estudar. Cheguei ao pátio no meio do dia empurrando o carrinho da minha baby, passei na roleta giratória e fui até a porta da escola (destrancada). Comecei a andar pelos corredores da escola. Uma secretária veio atra’s de mim perguntar o que eu queria. Informei que tinha um filho de 4 anos na creche e que ele iria começar o ano letivo naquela escola, totalmente sem segurança. Ela falou: “Você está assim por causa daquele evento na Bélgica, não é? Olhe, fique sabendo que aqui nessa escola temos câmera!”. Pensei: “E daí? Já é tarde, o psicopata já entrou e já fez estrago!” Ainda há o dado cultural que eles acham que escola não pode ter muros altos e o pátio com brinquedos tem que servir também á comunidade, ou seja: gente de fora, quando a escola está fechada, também pode ir brincar na gangorra e jogar bola, etc. ..

    Pequena nota: na creche aqui na minha village, instalaram na época desse acidente na Bélgica um controle com código eletrônico de acesso para os pais. Só que eles vivem distribuindo as senhas, quase nunca mudam, e muitas crianças de fora da creche também tem acesso ao código pois utilizam o prédio para fazer clubinhos de aula de violão, artes, etc. Totalmente frágil essa segurança com “senha eletrônica”.

    • manuelamsp permalink
      07/03/2017 19:13

      Pois é, Ana, essa questão de segurança que acho de matar por aqui, viu? nesse aspecto acho o pessoal aqui muito ingênuo .

  3. Arlete permalink
    07/03/2017 10:53

    Oi Manuela,
    Legal seu post. Acho que vc conseguiu resumir os pontos principais de forma geral.
    Em comparação à Suìça é quase tudo igual, com exceção da licença-maternidade que aqui é um tema polêmico. Oficialmente as mães têm 3 meses e meio e os pais um dia (!!). O que se faz bastante é pegar férias não-pagas, ou seja, muitas mães fazem acordo nas empresas para ficar 3 ou 6 meses além da licença oficial, porém ficam sem receber durante esses meses adicionais. Os pais tb costumam pegar férias depois do nascimento de um filho.
    O tema já foi muito discutido, mas ainda não foi resolvido. Talvez pelo fato da facilidade de pegar férias não-pagas, coisa que todo mundo e em várias fases da vida faz por aqui.
    Ainda tb não me sinto muito à vontade com o fato da minha filha ir sozinha à pré-escola, apesar de toda a segurança.
    No começo, tinha meus receios em deixar a minha filha tirando a soneca diurna dela no carrinho do lado de fora de casa (podia vê-la através da porta de vidro) com temperaturas abaixo de zero, apesar de toda a endumentária invernal e a bolsa de água quente. Com a segunda já estava mais que acostumada e hj em dia acho que eles dormem até melhor apesar do ar frio.
    Vc tem razão em dizer que nem sempre é facil, mas é realmente um aprendizado enriquecedor, não só como mãe, mas como imigrante em geral. Abraço.

    • manuelamsp permalink
      07/03/2017 17:06

      Oi Arlete, obrigada pelo comentário! Pois é, aos pouquinhos a gente vai se acostumando com as diferenças! Que bom que você já está mais acostumada, eu ainda estou no primeiro filho, então ainda tenho muita coisa para me acostumar! 🙂

  4. 07/03/2017 14:30

    Não há que enxergar ‘bondade’ nem ‘crueldade’ na concessão de licença-maternidade. Os países adiantados e os que, ainda que emergentes, seguem planificação rigorosa e de olho no futuro têm política de natalidade. Afinal, a nação é constituída por gente. A quantidade de habitantes tem de atingir a massa crítica, nem mais, nem menos.

    Decisões relativas ao crescimento da população são intimamente ligadas à política nacional de assuntos educacionais, militares, estratégicos e econômicos.

    A Alemanha, como a maioria dos países europeus, conhece, há anos, decréscimo populacional. O crescimento vegetativo não compensa a mortalidade. A continuar assim, o número de habitantes tende a diminuir com os anos. Essa situação explica a acolhida (um tanto precipitada, é verdade) feita por Frau Merkel a refugiados econômicos e a fugidos de guerra. Explica também a ‘generosidade’ da licença-maternidade. O intuito é tornar a maternidade prática e economicamente vantajosa.

    Na China, a história é outra. As estatísticas (oficiais) dão conta de uma população atual vizinha de um bilhão e meio! É muita gente, muito mais do que seria necessário pra manter o país funcionando. Está aí a razão da política do filho único, que, depois de vigorar por décadas, está atualmente sendo afrouxada. Mas atenção: afrouxar regras não quer dizer favorecer a natalidade! Naquele país, o que puder ser feito para desencorajar a procriação continua sendo feito.

    José Horta Manzano
    BrasildeLonge.com

    • manuelamsp permalink
      07/03/2017 19:12

      Oi José, obrigada pelo seu comentário! Infelizmente só as políticas de licença maternidade não funcionam para aumentar a taxa de natalidade. Não sei se foi esse o motivo para a licença maternidade generosa da Alemanha, mas o fato é que depois da licença muitas mães penam para conciliar carreira e filhos, porque creches são caras ou não tem vagas suficientes, o horário de fechamento não ajuda, etc. muitas acabam optando por não terem filhos ou terem apenas um. No caso da China, pelo o que li recentemente o governo agora deixa que famílias tenhas dois filhos, porque mesmo com a população na casa dos bilhões, a taxa de natalidade atual não conseguirá cobrir as pensões dos mais velhos, que também vivem mais tempo.

  5. Cris permalink
    07/03/2017 19:04

    Meus 2 filhos nasceram no Japão.Achei o acompanhamento antes e pós parto muito bom! Apesar de estar sozinha,longe de minha família,das dificuldades,conversando com outras brasileiras que tiveram seus filhos no Brasil,eu acho que fui privilegiada! Foi uma ótima experiência!

    • manuelamsp permalink
      07/03/2017 19:15

      Que bom, Cris! Acho que no geral é uma experiência válida de criar os filhos no exterior (é claro que depende de caso a caso), pois é uma chance que a criança tem de aprender línguas, lidar com outras culturas, etc. Eu também estou satisfeita, e acho que da Alemanha não mais saio!

  6. Nilce permalink
    11/04/2017 9:52

    Penso que sim a criança deve conviver com a natureza muito ar puro muito amor carinho compriencao a criança é maior tesouro do mundo que nós podemos ter Bj para todas as criancas

  7. tbrulinger permalink
    14/07/2017 15:47

    Excelente artigo, Manuela. No ponto!

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  1. Mamá, Papá e Eu <3

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