Skip to content

País desenvolvido = povo honesto?

05/05/2017

 Ana Fonseca – Mundo

Há anos ando querendo falar de um assunto que penso que todo expatriado já se pegou divagando muito à respeito: o fator honestidade na nova sociedade onde ele/ela se encontra. Uma forma de honestidade bem disseminada entre a população e, em certo grau, entre os políticos que a governam. Principalmente se você está num país europeu nórdico e pequeno, no Japão, e outros poucos lugares bem desesnvolvidos (Canadá?), isso é um fato muito marcante. No sudeste asiático também.

A maioria dos leitores assíduos do blog sabem que vivo há muito tempo na Holanda. O holandês é, no geral, considerado um povo razoavelmente honesto. Claro que há furtos e assaltos a casas, assassinatos, estupros e todo tipo de violência na Holanda. Mas o índice é bem baixo. Os assaltos às casas, por exemplo, tem um verbo interessante: “Inbreken”, ou seja: quebrar a entrada. Os “(woning)inbraken” são feitos geralmente durante a ausência do morador. Se feito à noite, e se o morador ousa superar o medo e descer para ver o que está acontecendo, geralmente o bandido interrompe a ação e foge. E geralmente não está armado. Ele não quer matar nem torturam ninguém, ele quer obter tecnologia/aparelhos/cartões de crédito/chave de um automóvel, etc. e se mandar o mais rápido possível. Geralmente são homens e são estrangeiros. Triste fato.

Penso que os holandeses são também muito relaxados nesse aspecto, de zelar pela própria segurança. Não usam capacete, fazem jogging em parques escuros, não usam pneu especial no inverno… É comum para muita gente que mora no interior do país sair de casa e bater a porta, sem passar a chave. Ou deixar a casa destrancada à noite e apenas ligar o alarme. Ou não passar tranca no motor do barco. Isso porque pensam que moram no interior então todo mundo é honesto e o lugar é seguríssimo. Só que sai muito criminoso da cidade grande para ir assaltar casas no interior, à noite. Tem anúncio de TV dizendo para lembrar de trancar a casa durante uma saidinha, por mais rápida que seja. Veja no vídeo abaixo, uma campanha de prevenção feita pelo governo. Um casal sai de casa batendo a porta, a casa está toda escura. A casa imediatamente passa a ser um chamativo para ladrões. “Bem-vindos! Jóias! Entrem! Aberta!” Um bonequinho animado em forma de lâmpada avisa mais ou menos o seguinte, exasperado: “Hallo! Hallooo! Nunca bata a porta atrás de você. Volta e tranca a casa, nem que você saia só por um tempinho! Um ladrão consegue entrar em 10 segundos!”.

Os holandeses tendem a confiar em outros holandeses e, ultimamente nas últimas décadas, a desconfiar de estrangeiros. Isso porque eles durante muitas e muitas gerações sempre trabalharam em grupo, sempre dependeram uns dos outros para sobreviver como nação. Por isso, sempre confiaram na boa vontade do próximo para cumprir sua parte.  Pensem que esse povo sempre teve que dragar pântanos e agir em mutirão para o bem comum. Isso exige muita disciplina, pontualidade, planejamento, transparência, exposição (das forças e fraquezas de cada um), logística e cobrança de performance. Nem todo mundo de fora que chega ao país tem esse prática de entrar nesse ritmo. A honestidade pode ser brutal por aqui, preto no branco. Você volta e meia se sente “nú com a mão no bolso” – e está todo mundo olhando. Às vezes, num nível pessoal, eles ficam ainda muito tempo utilizando a famosa política de “fechar os olhos”, para ver se a pessoa desonesta/recalcitrante vai usar “semancol” um dia. Mas depois, esquecem dessa tolerância e falam tudo (pessoalmente ou enviando uma carta) que está engasgado na garganta diretamente para a pessoa com a qual têm um conflito ou discordância. Já soube de casos assim (carta rompendo a amizade, e as razões espalhadas em duas páginas, tenho a cópia) e fiquei com o queixo no chão!

Mas eu fico me perguntando se não é justamente essa honestidade, essa cobrança, exposição e controle social que fazem da Holanda um país civilizado e desenvolvido, com todas suas boas consequências e riqueza.

Não acho apropriado comparar países de culturas, populações e valores tão distintos sem uma perpectiva histórica. Mas o vídeo a seguir (do “Fantástico”) é bem feito, e levanta a questão dos fatores de controle social, transparência e honestidade como motores para o desenvolvimento de uma sociedade. Para quem não mora no Brasil creio que o vídeo é uma novidade, vale a pena ver:

Um povo honesto faz al longo dos séculos um país ser desenvolvido e rico? Ou seria o contrário: um país rico tende a ter uma população honesta nos valores morais? Considerações, perguntas, experiências próprias, dúvidas? Concorda, discorda? Deixe aí nos comentários!

Até a próxima, tot de volgende keer! 

_____________

Ana Fonseca vive desde 1999 na Holanda. Sigam o “Brasil com Z” no Facebook para atualizações diárias sobre viver, turistar, estudar e trabalhar no exterior. Vejam fotos dos nossos autores pelo mundo seguindo nossa conta do “Brasil com Z” no Instagram. O blog Brasil com Z dá tuitadas também: http://www.twitter.com/blogbrasilcomz.  Quer participar como autor(a)? Envie-nos uma mini biografia e um texto sincero de apresentação. Caso seu potencial combine com as expectativas do blog, entraremos em contato: blogbrasilcomz@gmail.com Agradecemos! 

4 Comentários leave one →
  1. carlosfernandeschile permalink
    05/05/2017 14:18

    Pois é Ana. A falta de honestidade no Brasil vai além. Trata-se de uma sociedade corrupta, desonesta e oportunista que reclama da corrupção, da desonestidade e do oportunismo. Tá no sangue do brasileiro. Crescemos assim. Depois nos tornamos jornalistas, vendedores, médicos, pedreiros e políticos, por exemplo. E cada um vai ser desonesto com aquilo que está a sua mão. Ou será que vender o ticket alimentação para pegar o valor em dinheiro não é ser desonesto? Ultrapassar pela direita não é ser desonesto? Motociclista criar uma lei em que sinal vermelho não precisa ser respeitado não é ser desonesto? Deixar o filho ou a esposa em uma fila no supermercado e entrar na outra para ver qual vai mais rápido não é ser desonesto? Estacionar em vaga de idoso não é ser desonesto? Receber troco errado e não devolver não é ser desonesto? E por aí vai. Se a corrupção nasce com o brasileiro nunca teremos a chance de ver um país desenvolvido. Se é cultural, não se muda. Me lembro de um professor de geografia na escola que um dia disse: “Não existe país em desenvolvimento. Existe país desenvolvido e país subdesenvolvido. E ponto.”.

    • AnaFonseca permalink*
      05/05/2017 15:25

      Nunca tive competência para viver no BR por não conseguir ser “esperta”: colar na prova, pôr fio de nylon na ficha do orelhão (sou da época do orelhão), não devolver livro emprestado, querer levar “lembrancinhas” dos lugares. Acho que muita atitude correta em povos civilizados é porque o controle é grande (aqui na Holanda tem multa pra tudo) e aí eles querem controlar de volta, cobrar dos políticos, etc.. Ou seja: cobrança gera cobrança, as leis sempre funcionam e os cidadãos também reclamam muito dos seus direitos. No Brasil o pessoal tem aversão à “compromissos” em todas as esferas: dar a palavra, confirmar presença (e realmente comparecer), dizer que vai ligar e ligar, realizar um trabalho dentro de um prazo estrito… não é mesmo? Promessas vazias nas famílias, entre os amigos, nas escola, no trabalho. Sempre promessas para apaziguar, dar esperanças, impressionar, mas que realmente ninguém está a fim de cumprir ou tem os meios para realizar. Tudo é uma baita enganação. “Vou fazer mais tarde / depois do feriado / quando puder / estiver a fim / quando dels der bom tempo / um dia / sem stress / quando ganhar na loteria”, etc.

    • 05/05/2017 15:40

      Subdesenvolvido é doce eufemismo. Existe país desenvolvido e país atrasado. E ponto. Mas nem tudo está perdido. O atraso de uma sociedade se corrige.

      No século X, os vikings escandinavos eram o espelho de uma sociedade desonesta, que vivia de invadir e pilhar terra alheia para se apropriar das riquezas. Hoje, os escandinavos estão no topo dos povos honestos. E não terá sido por milagre divino.

      Singapura, até meio século atrás, era um antro de ladrões. Depois da instauração de rígido controle social, tornou-se uma cidade-Estado segura, limpa, livre de corrupção.

      O Brasil tem jeito, mas tem de começar do começo. Não adianta esperar que homens públicos se corrijam por obra e graça do Espírito Santo. Se quisermos realmente chegar lá, vamos precisar de muito tempo e de investimento em educação e formação.

      Se as autoridades se dispuserem a utilizar a extraordinária força da tevê, da internet e das redes sociais com intenção de incutir na jovem população princípios civilizatórios, vai dar certo. Nosso netos verão um país melhor. É de pequenino que se torce o pepino.

      José Horta Manzano
      BrasildeLonge.com

      • AnaFonseca permalink*
        08/05/2017 9:53

        Mas infelizmente, a vastíssima maioria dos políticos brasileiros só está interessado em assaltar o país como se esse fosse uma espécie de “Brasil S.A.”. O povo pode ser trabalhador e querer fazer parte de uma das maiores nações da Terra num futuro próximo, mas sem receber escolaridade em massa de alto nível, fica difícil. Cadeia para esses políticos, cobrança da devolução da grana roubada, vamos apoiar a Lava Jato!!! Está uma tremenda falta de fiscalização nesse país há muitas décadas. http://istoe.com.br/doce-vida-dos-pelegos/

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: