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Visitando o castelo e os vinhedos de Monbazillac, França

16/05/2017

Ana Fonseca – Dordonha, França

Continuando a série de posts sobre algumas atrações que visitei durante uma semana nos fins de abril na Dordonha, hoje vou falar sobre um castelo produtor de vinho importante na região: O Monbazillac, grande queridinho do paladar holandês, há muitos séculos.

Quando cheguei aos 30 anos na Holanda meu paladar era para chope ou vinho tinto. Até curtia um vinho branco no verão, talvez um vinho verde, mas ficava nisso. Morando na Holanda pude constatar a adoração dos holandeses por vinhos rosés e também por um vinho licoroso tomado como aperitivo, o Monbazillac. Pelo menos no norte da Holanda e na Randstad, o pessoal curte muito um Monbazillac como pós refeição. Eu curto muito fazer sobremesas na cozinha, mas para os outros. Curto mesmo comer é entrada e prato principal.  Prefiro uma sopa a um crème brulée. E um paté a um fondant chocolat. Com vinho tinto seco. Se tiver que optar por algo doce, que seja um Porto.

Mas de tanto ser oferecida vinhos rosés no verão, e Monbazillac na casa de parentes e amigos do marido, acabei aprendendo a apreciar outros vinhos além do tinto – mas o tinto pelo seus aromas e cor de rubi vai continuar sempre em primeiro lugar no meu coração, pour toujours.

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O castelo De Monbazillac fica ao lado da cidade de Bergerac e é bem facil de achar, com entrada bem sinalizada. A partir do estacionamento (florido, lindo!)  são um par de passos até a lojinha aonde você vai comprar os tíquetes de entrada do castelo. Atenção: se você não quiser visitar o interior do castelo, pas de problème! Não precisa comprar entrada se você quer só ver os vinhedos. Ninguém vai controlar isso. Eu penso em voltar lá no verão só para fotografar os vinhedos quando estiverem mais “carregadinhos” e pesados de uvas.

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Já a partir do estacionamento você pode ver o castelo e fazer fotos incríveis. O castelo, a lojinha e o restaurante são super fotogênicos, com as paredes de pedras limpíssimas e claríssimas. Eu fui num dia nublado e ainda assim o castelo aparece bem claro nas minhas fotos.

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Na lojinha há sanitários, aceitam dinheiro em espécie ou cartão de crédito, os preços são mostrados claramente e você pode olhar tudo e fotografar sem sentir estar “sob vigilância”.

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Como não amar um país que tem dezenas (sim, dezenas) de tipos de mostarda? Já que (tirando o sabor indiano “Tandoori”) a maioria daí eu consigo fazer num mixer em casa, só comprei no final do tour um pote de mostarda cor roxa. A vendedora esclareceu que era na verdade com uvas, e a cor resultante era “violette”. Comprei também um mostarda com nozes, isso é novo para mim. Tinha uma mostarda com trufas que dever dos deuses, para colocar sobre bife grelhado, ou batata frita – mas a 13EUR achei um pouco caro para meu orçamento. 

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Caixas e caixas e mais caixas e garrafas de Monbazillac de todos os tipos, com excelente preço. Atenção: o Monbazillac é um vinho doce, muito frutado, e com um frescor no final. Uvas utilizadas na confecção de um Monbazillac: Muscadelle, Sauvignon Blanc e Sémillon.  Portanto é um vinho usado como aperitivo ou para se tomar no final de uma refeição – para acompanhar sobremesas, sempre “macias”. Se for tomado como aperitivo, sirva-o com patés ou queijos maduros, fica um contraste muito interessante.  Se for tomado como pós refeição, sirva-o como acompanhamento da combinação clássica “pêra cozida + gorgonzola” ou com  “crème brulée”, ou “crème caramel”, flans e pudins de leites ou frutas, ou sobremesas cremosas. 

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Essas figuras são porta-vinho, e custam 30EUR em média. Já vi em outra partes da França também, e até na Espanha. É kitsch? É, com certeza absoluta. São peças únicas, criativas, feitas à mão e com esmero? Sim.  Meu marido é minimalista e pergunta “Qual a finalidade disso? Aonde você vai por um troço desses?” Sim, pergunta. Eu comprei? Não. Mas pode ser que eu compre no futuro, acho divertido, uai. 

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Aqui dá para se ter uma ideia como você vai andar para chegar até o castelo. Terreno planinho, mas vá de tênis, vá. E leve uma garrafinha d’água. Os vinhedos já começam antes de você chegar à entrada da casa. Só caminhar até lá te dá uma ideia da vastidão dos vinhedos.

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O castelo é do sécuulo XVI, portanto final da Idade Média e início do Renascimento. O estilo é de transição entre esses dois períodos: há um sistema de defesa (água ao redor e originalmente uma ponte levadiça, se me lembro bem) que são elementos típicos de um forte medieval, e a elegância dos tetos com picos sobre as torres, tão típicos da Renascença.

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Os vinhedos de Monbazillac estão por todo lado, a perder de vista. Antes da chegada ao castelo, dos lados, descendo os vales, subindo as colinas…

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Os vinhedos são de grande beleza, e agora nesse início de primavera ainda estavam bem “magrinhos”. Leve a melhor câmera que puder, e aproveite a claridade da manhã.

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E o que há para ser ver no interior do castelo? Você apresenta seu tíquete de entrada e pode apanhar um folheto em diversas línguas. Os pisos e escada de madeira são belíssimos. Cada sala/quarto do castelo no térreo mostra os móveis de relíquia das famílias herdeiras que ocuparam a propriedade, os brasões, os instrumentos usados nos campos para o cultivo, documentos sobre o Calvinismo (forma francesa de protestantismo que também foi adotada mais tarde pelos comerciantes holandeses).

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Na parte superior do castelo cada quarto é dedicado a homenagear famosos artistas moradores da região da Dordonha e proximidades. Como, por exemplo, o desenhista e jornalista “Sem” (George Goursat). O Sem nasceu no Perigueux (em 1863) e foi um grande crítico da superficialidade de sua época, a Belle Epoque parisiense. Foi correspondente durante a I Guerra no Front. Infelizmente, as pessoas hoje em dia pensam nele como um dândi alienado e que “só” sabia desenhar a alta sociedade. Fato curioso e tocante: A cadeia de restaurantes “Maxim’s” usa até hoje os desenhos e caricaturas do Sem.

Outro homenageado no castelo é o ator de teatro Mounet-Sully, que gozava de grande prestígio na França nos fins do século XIX e foi recebido com reservas quando atuou nos palcos dos EUA. Grande amigo e amante de ninguém menos que Sarah Bernhardt, ambos ficaram muito ressentidos da acolhida pouco calorosa que tiveram do outro lado do Atlântico, como dá para se ler nos recortes de jornais e revista da época. Há uma exposição da coleção de porcelana do Mounet-Sully  muito bonita.

Indo agora para o subsolo do castelo, uma magnífica adega e um pouco de história… No século XVII, com a perseguição religiosa aos franceses protestantes (huguenotes) muitos se fugiram dessa área francesa para a Holanda, especificamente Amsterdã. Esses refugiados franceses (mais de 12mil) da área de Bergerac-Monbazillac começaram a divulgar durante seu exílio a qualidade do vinho da sua terra natal: o licoroso e frutado Monbazillac, que caiu no gosto dos holandeses – os povos do norte da Europa têm mesmo um paladar mais adocicado do que os europeus mediterrâneos. No século XVII não só já tinham surgido as religiões protestantes, como também os Países Baixos viviam sua Época de Ouro: nas artes, no livre comércio, no domínio dos mares, grande tolerância religiosa e exploração comercial. Tendo 3/4 da frota marítima mundial, logo os holandeses deram um grande impulso ao comércio e consumo dos vinhos franceses, especialmente o claro e leve Monbazillac, “o ouro líquido”.  Optar por ser protestante e chegar à Holanda levando caixas de vinhos de Monbazillac passou a ser uma espécie de “passaporte” para os perseguidos huguenotes franceses, que chegaram a formar mais de 6% da população de Amsterdã. Tanto franceses produtores de vinho quanto comerciantes holandeses tinham muito a ganhar com esse produto.

Abaixo, relíquias exportadas para a Holanda no século XVII: vinhos Monbazillac produzidos para exportação feita pela Holanda através dos portos de Roterdã e Amsterdã. Os franceses reconhecem até hoje como os holandeses senhores do mares ajudaram a divulgar e comercializar mundo afora os vinhos franceses.

Nunca, mas nunca mesmo vi tanto vinho junto. O Monbazillac tem cor clara, e as garrafas mais antigas (foto abaixo) adquirem uma cor de mel ou de intenso dourado.

Acima e abaixo: imagens da antiga cozinha do castelo, no subsolo. 

Numa pequena nota de esclarecimento: tem gente que já me perguntou se esses castelos e casas produtoras de vinhos na Dordonha eram “bling-bling e glamour”. Bom, aqui é uma zona rural, e as pessoas trabalham nesses campos ao redor dos castelos. As uvas para a confecção do Monbazillac, acredite se quiser, são ainda colhidas à mão. Se você prefere ver castelos renascentistas italianados, tipo “palácios” com muitos candelabros, móveis de luxo, tapetes, obras de arte, cristais, arquitetura rendada e espelhos dourados, é melhor visitar os castelos do vale do Loire e/ou o de Versalhes, nos arredores de Paris. Em toda a Dordonha os castelos são medievais, de pedras, com funcão de proteção (chatêau-fort). São portanto pesados e escurecidos, milenares e de difícil restauração, muitos em ruínas. Ou casas produtoras de vinhos, como o de Monbazillac: uns poucos móveis chiques aqu e ali, mas de decoração esparsa e minimalista.

SERVIÇO:

Quando visitar?

Eu visitei Monbazillac no final de abril e estava um pouco frio. Eu estava com um cachecol e casaquinho fino de flanela e tremi. Nessa época (início da primavera) os vinhedos ainda estão bem magrinhos, com poucas folhas e sem uvas visíveis. A partir de junho os vinhedos estão bem mais bonitos. A vantagem de se visitar em abril/maio é que praticamente não há turistas, você pode ter o castelo quase que só para você (tudo é relativo) e  fazer fotos sem “figurantes” ao fundo. No verão (junho-agosto) o sol é bem quente na Dordonha, a quantidade de turistas é enorme – vem gente do mundo inteiro, EUA, Japão, China e, é claro, muitos ingleses e holandeses – em compensação os vinhedos estão no “pico” da beleza. Depois do verão os vinhedos estão dourados, é uma opção também. A partir de fins de outubro é bem frio nos vales da Dordonha, sem chance, esqueça.

Fotos com personagem principal, e sem figurantes: difícil, mas possível. Basta saber em que época do ano (e horário) ir. 

Minha super dica? Vá no verão (auge da beleza dos vinhedos), de sapatos confortáveis e CEDO mesmo, tipo “Uhuuu, primeirão na porta do castelo, bonjour, quero entrar s’il vous plaît, merci!”. Ele abre as 10h.  Assim cedo, há menos chance de turistas e “papagaios de piratas” em cima dos seus ombros na fotos.

Preços?

A entrada, que você compra na lojinha perto do estacionamento, custa €7.50  por adulto (maior de 18 anos) e €5.00 criança (13 a 18 anos). O estacionamento é bem arborizado e grátis, com mais de 300 lugares – e no verão há pessoas que fazem piqueniques ao lado do carro mesmo: tiram uma baguete grande da bolsa, uns copos e abrem um vinho.

Depois da visita ao castelo eu voltei à loja para adquirir potes de mostarda e meu marido comprou uma garrafa de Monbazillac com preço excelente a €6.00 (dispensamos a degustação, que aliás é grátis). Para quem tenta imaginar o bouquet, posso dizer que é mel-pêssego-flores. Há outros vinhos Monbazillac mais caros. Os postais têm exatamente o mesmo preço de qualquer loja em qualquer cidade da região: €0.60 o pequeno e €1.20 um bem comprido. As mostardas são especiais e caras: €5.05  (com os sabores que aparecem na foto: cidra, violeta, raiz forte, estragão, pimenta “Tandoori”, pimenta de Espelette, etc.), com nozes a €6.00 e uma com trufas a €13.00. Nos supermercados da região você pode achar várias mostardas finas, mas apenas uma especial: com vinagre balsâmico a €2.00, sempre compro várias unidades. Ou às vezes você até uma mostarda Dijon “verde” com ervas finas, ou rosada, com framboesa também relativamente barata. Então se você é foodie e gosta de investir um pouco mais em produtos alimentícios especiais (para compartilhar com pessoas especiais) para uma aperitivo, decorar uma torradinhas, dar uma levantada no visual de ovos cozidos ou confeccionar tapas diferentonas,  então vale a pena – compre esses produtos em castelos e lojas “traiteurs”.  Não há nenhuma pressão de compra quando você visita essas lojinhas de castelos ou museus, claro que não! Há uma parte da lojinha que é dedicada à degustação (frisando: grátis) de diferentes tipos de Monbazillac. Mas seria gracioso da sua parte comprar pelo menos uma garrafa se você fizer a degustação de umas tacinhas – na minha humilde opinião.  😉

*Todas as fotos são do arquivo pessoal da autora do post, usando uma Nikon d7100. 


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Ana Fonseca vive desde 1999 na Holanda e tem a França com um dos destinos favoritos de férias, já tendo visitado todos os lados do Hexágono.  Sigam o “Brasil com Z” no Facebook para atualizações diárias sobre viver, turistar, estudar e trabalhar no exterior. Vejam fotos dos nossos autores pelo mundo seguindo nossa conta do “Brasil com Z” no Instagram. O blog Brasil com Z dá tuitadas também: http://www.twitter.com/blogbrasilcomz.  Quer participar como autor(a)? Envie-nos uma mini biografia e um texto sincero de apresentação. Caso seu potencial combine com as expectativas do blog, entraremos em contato: blogbrasilcomz@gmail.com Agradecemos! 

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