“Você tem amigo japonês?”  Já ouvi essas perguntas trocentas vezes. Mas hoje resolvi escrever sobre isso, depois que pessoas diferentes, em situações diferentes, me fizeram essa mesma pergunta,  dois dias seguidos. Fiquei impressionado comigo mesmo, porque só depois que me pisaram na mesma ferida duas vezes, foi que eu me dei conta de que não é tão fácil assim responder a essa pergunta, que no Brasil parecia ser tão simples.

A resposta, a princípio seria, “depende”. Como assim depende? Depende ora! Depende do sentido da palavra “amigo”. Não vou entrar nem no mérito da diferença entre “colega” e “amigo”. Também não vou falar de cônjuges, namorados, rolos e afins japoneses. Isso é outra coisa (Mas que com certeza rende outro post). Mas para ficar menos complicado, vamos imaginar um amigo, amigo mesmo.

Julio Cesar Caruso Japao @muitojapao Blog Brasil com Z @blogbrasilcomz

Aqui no Japão… Amigo, amigo mesmo? Bom, eu saio para beber com japoneses. Trabalho com japoneses. Eu rio e me divirto com japoneses. Danço com japoneses. Troco emails. Falo japonês. Mas amigo japonês mesmo(suspiro).

Claro que já cheguei a pensar que eu era o problema. Mas já notei que eles mesmos sabem que amigo japonês e amigo brasileiro não são iguais. Eles sabem que há uma barreira entre eles e o amigo japonês. Se o tal amigo for mais velho ou se for de um ano acima do seu na faculdade ou mesmo na empresa, essa barreira que separa os dois ganha ainda mais cimento!!! Lembro de uma japonesa me dizer que estava afim de sair para beber, mas não tinha ninguém para chamar. Ela ainda comentou que tinha uma amiga que adorava beber. Eu perguntei: por que não chama ela então? Ao que ela me indagou: Agora? Detalhe: não era uma hora da manhã. Eram 7 da noite!!!

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Bom, sei que não posso generalizar, mas posso afirmar que ter um amigo japonês e um amigo brasileiro é diferente sim. Eu sinto isso quando paro para pensar que consigo ser mais íntimo com um brasileiro que vem do Brasil a passeio ao Japão e nunca nos vimos antes, do que com um japonês que trabalha comigo há anos e anos!! É impressionante! Consigo abraçar, dançar e contar piadas com uma amiga espanhola com que tenho amizade há menos de 1 ano e não faço nem metade com os japoneses que conheço há mais de 10 anos!! Já passei o dia na casa de um amigo brasileiro, sentei no chão, mexi no computador dele, liguei para ele às 23h da noite para choramingar que meu celular havia sido roubado e no entanto, conheço japoneses que já saí para beber e me divertir, mas nunca pisei na casa dele ou se já fui, não fui sem antes agendar com páginas e páginas da agenda com antecedência. E se fui muito provavelmente, foi porque ele chamou por algum motivo óbvio, como uma festa, por exemplo.

Se eu responder que não tenho amigos japoneses, os japoneses que me conhecem e entendem português, tratarão de fazer um bonequinho meu e tascar agulha nele. Ou ainda, aquele brasileiro que tem um amigão japonês de verdade vai me chamar de mal amado, revoltado e, por fim, dirá que se não tenho amigos japoneses, é porque eu devo ser um porre como pessoa. Tudo bem, falem mal mas fale de mim (risos).

Brincadeiras à parte, e para concluir, posso dizer que o que dificulta a pronta resposta afirmativa a polêmica (?) pergunta é a comparação que inevitavelmente faço internamente com os meus amigos do Brasil. Meus amigos no Brasil, não eram, mas são pessoas que me ligam a qualquer hora para dizer que estão tristes e precisam conversar. Mandam emails só com a piada da semana. São pessoas que quando EU estava triste, me obrigavam a botar a primeira roupa do armário e sair para dar uma volta. Meus amigos do Brasil são pessoas que eu chamo de viadinho, de galinha, de fresco, de vagabunda….tudo com carinho e sem cerimônias, e eles riem. Eles também me fazem os mesmos elogios e eu só rio.

Julio Cesar Caruso Japao @muitojapao Blog Brasil com Z @blogbrasilcomz

São pessoas que compartilho minhas gafes, as encrencas que me meti, as histórias e aventuras sexuais, tudo sem o menor pudor e com a certeza de que eles me entenderão e mais tarde, um dia, eu ouvirem as histórias deles também. E como last but not least, são pessoas que eu abraço, beijo, pego no braço, boto minha perna no colo (este item restringe-se às amigas), dou tapinha nas costas e, para me despedir, mando “bejunda”! Sendo assim, fica fácil responder. Se o sentido da palavra amigo for igual a esse que eu carreguei há anos no Brasil, eu respondo: Não, eu não tenho nenhum amigo japonês.