Mirelle Siqueira
Lyon, França
 

Vou parecer maluca, mas lá vai: eu não gosto das comidas da França. Confessei. Vai dizer que você também não tem seu segredo oculto? Não coloca o dedo no nariz quando está sozinho? Não odeia aquela colega de trabalho que todo mundo acha uma simpatia? Então pronto, falei!

Um bom p.f.. Quem não curte? 

O conceito de sabor do lado de cá do oceano é muito diferente do meu. Francês não come brigadeiro porque acha doce demais. O arroz deles é empapado e a carne, muito crua. Sem falar que SAL é um tempero que eles desconhecem. Cozinha saudável uma ou duas vezes por semana até vai, mas todo dia não há santo que aguente.

BLOG Quilo

Trem bão, sô! Comida à quilo, comida mineira, self-service: sustância e fartura… como não amar?! 

Tenho paladar de mineiro, gosto de torresminho, couve na manteiga, galinhada, queijo minas. De que me servem todos os queijos franceses se o mais gostoso eles não fazem? Os crepes são bons? Sim, mas você aguenta comer crepe todo dia? Os croissants são os melhores? Claro, mas não tem o nosso “pãozinho francês”. As sobremesas, de encher os olhos, têm gosto de vento, como os macarons. Ou têm muita fruta, muito creme e só. Meu paladar de formiguinha não aprova.

Macarons: são lindos, mas não enchem a barriga. Ah, mas são lindos. 

Natural o brasileiro que viaja de férias para a França achar tudo muito gostoso e diferente. Afinal, a gastronomia francesa faz parte do patrimônio nacional, mas chega uma hora que eu quero jantar fora e voltar de barriga cheia, sem precisar abrir um pacote de bolachas quando chegar em casa. Sinto falta da variedade dos restaurantes por quilo, de misturar e comer tudo junto, numa garfada só. A fórmula aperitivo+entrada+prato principal não me agrada nem um pouco. Em prato de mineiro a alface é misturada ao arroz com feijão, sem frescuras. Peixe sempre acompanhado de um bom purê+arroz+fritas. Abundância meu amigo! Muita abundância.

BLOG polvo

Poulpe à la crème. Très, très fin. 

Sei que parece estranho uma pessoa que vem estudar culinária na França falar mal sobre os pratos daqui. Seria como ir ao Brasil aprender a jogar futebol falando que brasileiro não sabe jogar bola, uma blasfêmia. Mas meu paladar, desenvolvido a partir do tutu de feijão, quiabo e feijoada, insiste em não criar apreço pela mostarda Dijon, pelo fígado de ganso e muito menos pelo polvo com nata, maldito!

BLOG Foie gras

O fino do finório: Foie gras. 

Claro que a errada sou eu, só faltava querer convencer alguém de que nos brasileiros é que comemos corretamente. Muito açúcar, muito óleo, muito sal, de deixar qualquer francês estarrecido. Talvez por isso, as mulheres daqui são tão magras e os idosos vivem quase um século – eles não comem!

Mas fazer o quê, se eu prefiro morrer cedo com a barriga cheia de coxinha? Casa de ferreiro, espeto de pau!