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Estrada, mesa e relações interpessoais: diferenças fundamentais entre o Brasil e a França

13/07/2017

 
Anatê Merger – França

 

Hoje temos uma repostagem. Um texto da Anatê Merger, brasileira morando na Provence e que contribuiu durante muitos anos com o blog. Vale a pena reler esse texto dela, que continua atual.

Há diferenças básicas entre os brasileiros e franceses que podem ser observadas em três áreas: no trânsito, à mesa e no modo de se relacionarem com as pessoas. Aqui vão algumas breves observações minhas:

Na estrada:

– Os caminhões não têm frases engraçadas e ditados nas carrocerias, o que faz as viagens ficarem mais sem graça. A compensação são os pomares de pessegueiros e macieiras floridas ao longo das auto-estradas;

– Os buracos nas ruas são raros e quando eles aparecem são consertados imediatamente;

– A manutenção excepcional das estradas e dos lugares onde podemos parar, comer e ir ao banheiro sem correr o risco de pegar uma doença também merecia ser copiada pelo governo e empresários brasileiros;

– A possibilidade de viajar de carro para a Itália e a Espanha em apenas quatro horas sem o menor risco de me perder por que a sinalização, sempre feita com placas que têm o mesmo padrão, é eficiente.

À mesa:

– O francês respeita as refeições, que devem ser saboreadas com tempo e calma;

– O vinho é sagrado, principalmente entre as velhas gerações e acompanha os pratos em quase todas as mesas  no almoço e no jantar;

– A melhor maneira de comer em um restaurante é pedir a fórmula-menu (prato + entrada ou prato + sobremesa);

– O que é servido tem o gosto e o cheiro dos legumes e frutas da estação;

– A quantidade “riquiqui” famosa dos restaurantes gastronômicos e motivo de piada não tem nada a ver com os pratos servidos nos restaurantes e brasserias normais que são mais do que suficientes;

– Restaurantes self-service são raros, francês não gosta, e pronto;

– Comida a quilo, nem pensar;

– Se o garçom não traz, peça uma garrafa de água no começo da refeição (“carafe d’eau”, gratuita). O serviço é gratuito na maioria dos restaurantes e faz parte dos hábitos locais.

Nas relações interpessoais:

– A sociedade francesa é muito mais formal do que a brasileira, chamamos todo mundo de “senhor” e “senhora”;

– Para chamar alguém de “você” (“tu”) é necessário perguntar antes se a pessoa a está de acordo;

– Até nos e-mails usamos fórmulas de educação extremamente elaboradas;

– Os atrasos são raros;

– Quando alguém diz que “liga tal hora” ele liga mesmo;

– Festas e eventos – até um simples churrasco em casa com os amigos – deve ser marcado com vários dias de antecedência;

– Francês não gosta de imprevistos, de visitas que aparecem sem avisar, de ligações no meio do almoço ou jantar e muito menos de serem interrompidos quando estão ao telefone ou fazendo alguma coisa.

Aqui, faço apenas uma pequena reflexão. Quando cheguei à França achava tudo isso muito chato, com o tempo fui mudando de ideia em relação à muita coisa. Hoje acho, sim, que educação e gentileza não podem ser confundidos com o jeito brasileiro de fazer “amigos de infância”, prometer mundos e fundos no domingo à tarde  e esquecer completamente o compromisso que assumiu na segunda de manhã, ou ainda de não responder aos e-mails que recebeu, ou de entrar em contato apenas quando precisa de alguma coisa, etc.. . Evidentemente, não dá para generalizar. Conheci e conheço muitos brasileiros extremamente gentis e bem-educados e franceses que dão medo de tão grossos e sem jeito, mas o que aprendi com esse jeitão esquisito é que a grande maioria dos franceses sabe dizer não e impor limites com uma enorme elegância. E hoje os respeito muito por isso.

_____________________

Anatê Merger é jornalista e mora no sul da França. 

3 Comentários leave one →
  1. 30/03/2011 8:07

    Essa dos caminhões nas estradas, eu lembro que quando viam a placa do nosso carro e se a deles fossem o mesmo país, eles buzinavam e buzinavam tanto! Eu contava a hora de aparecer outro para fazermos a mesma bagunça pq a gente respondia com as mesmas buzinadas! rs Era gostoso demais.
    Esse recantos para parar, descansar, comer e ir ao banheiro sempre era super bem cuidados. Fora a linda quantidade de girasóis que tinha pela estrada. Ahh.. que saudades!
    Bjs,
    Manddy
    http://tourdubaiguide.blogspot.com

  2. Arlete permalink
    19/07/2017 15:51

    Hábitos muito parecidos com os dos suíços, exceto quando se quer marcar um churrasco, festa, etc. Aqui não dá pra marcar com dias de antecedência, tem que ser semanas, meses, senão eles já têm outra coisa marcada. As férias então, chegam a plenajear e reservar tudo um ano antes. Como tudo na vida, também nesse caso existem os prós e os contras, mas confesso que até hj não me acostumei direito.

    • AnaFonseca permalink*
      19/07/2017 16:27

      Ô Arlete, bom te ver aqui de novo. Olha, no meu caso eu acho bom se planejar com antecedência, adoro! Por outro lado, esse ano por diversas razões pessoais decidimos nossas férias o mais tarde possível. Quando fomos buscar acomodação tinha apartamento disponível no airbnb, tinha vaga em camping, quarto de hotel em promoção… Então, quem não pode se antecipar na Holanda também não fica a ver navios. O mundo do turismo está cada vez mais flexível com ofertas e possibilidades.

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