Anatê Merger – França

 

Hoje temos uma repostagem. Um texto da Anatê Merger, brasileira morando na Provence e que contribuiu durante muitos anos com o blog. Vale a pena reler esse texto dela, que continua atual.

Há diferenças básicas entre os brasileiros e franceses que podem ser observadas em três áreas: no trânsito, à mesa e no modo de se relacionarem com as pessoas. Aqui vão algumas breves observações minhas:

Na estrada:

– Os caminhões não têm frases engraçadas e ditados nas carrocerias, o que faz as viagens ficarem mais sem graça. A compensação são os pomares de pessegueiros e macieiras floridas ao longo das auto-estradas;

– Os buracos nas ruas são raros e quando eles aparecem são consertados imediatamente;

– A manutenção excepcional das estradas e dos lugares onde podemos parar, comer e ir ao banheiro sem correr o risco de pegar uma doença também merecia ser copiada pelo governo e empresários brasileiros;

– A possibilidade de viajar de carro para a Itália e a Espanha em apenas quatro horas sem o menor risco de me perder por que a sinalização, sempre feita com placas que têm o mesmo padrão, é eficiente.

À mesa:

– O francês respeita as refeições, que devem ser saboreadas com tempo e calma;

– O vinho é sagrado, principalmente entre as velhas gerações e acompanha os pratos em quase todas as mesas  no almoço e no jantar;

– A melhor maneira de comer em um restaurante é pedir a fórmula-menu (prato + entrada ou prato + sobremesa);

– O que é servido tem o gosto e o cheiro dos legumes e frutas da estação;

– A quantidade “riquiqui” famosa dos restaurantes gastronômicos e motivo de piada não tem nada a ver com os pratos servidos nos restaurantes e brasserias normais que são mais do que suficientes;

– Restaurantes self-service são raros, francês não gosta, e pronto;

– Comida a quilo, nem pensar;

– Se o garçom não traz, peça uma garrafa de água no começo da refeição (“carafe d’eau”, gratuita). O serviço é gratuito na maioria dos restaurantes e faz parte dos hábitos locais.

Nas relações interpessoais:

– A sociedade francesa é muito mais formal do que a brasileira, chamamos todo mundo de “senhor” e “senhora”;

– Para chamar alguém de “você” (“tu”) é necessário perguntar antes se a pessoa a está de acordo;

– Até nos e-mails usamos fórmulas de educação extremamente elaboradas;

– Os atrasos são raros;

– Quando alguém diz que “liga tal hora” ele liga mesmo;

– Festas e eventos – até um simples churrasco em casa com os amigos – deve ser marcado com vários dias de antecedência;

– Francês não gosta de imprevistos, de visitas que aparecem sem avisar, de ligações no meio do almoço ou jantar e muito menos de serem interrompidos quando estão ao telefone ou fazendo alguma coisa.

Aqui, faço apenas uma pequena reflexão. Quando cheguei à França achava tudo isso muito chato, com o tempo fui mudando de ideia em relação à muita coisa. Hoje acho, sim, que educação e gentileza não podem ser confundidos com o jeito brasileiro de fazer “amigos de infância”, prometer mundos e fundos no domingo à tarde  e esquecer completamente o compromisso que assumiu na segunda de manhã, ou ainda de não responder aos e-mails que recebeu, ou de entrar em contato apenas quando precisa de alguma coisa, etc.. . Evidentemente, não dá para generalizar. Conheci e conheço muitos brasileiros extremamente gentis e bem-educados e franceses que dão medo de tão grossos e sem jeito, mas o que aprendi com esse jeitão esquisito é que a grande maioria dos franceses sabe dizer não e impor limites com uma enorme elegância. E hoje os respeito muito por isso.

_____________________

Anatê Merger é jornalista e mora no sul da França.