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A relação entre aluno e professor na Índia

24/04/2018

Juliana Paula – Índia

Dar aula na Índia é algo, no mínimo, interessante. Não são poucas as diferenças culturais entre as salas de aulas brasileiras e indianas. Para a alegria dos professores, o professor, tem um status muito alto aqui na Índia e é altamente respeitado e valorizado. O salário, não é alto, é verdade, mas o respeito que se ganha, muita vezes, compensa.

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Para entender o comportamento dos alunos indianos, é preciso ir até a antiguidade, onde no país, predominava o sistema de gurukuls. Gurukul vem da junção das palavras guru (mestre) com kul (domínio, espaço) e designava uma escola interna, onde os discípulos moravam nela e aprendiam diretamente de seu mestre. Além das aulas, os discípulos também limpavam o recinto, ajudavam nas tarefas domésticas, etc. E, o guru, claro, era a autoridade máxima.

Até hoje, este sistema existe, em instituições religiosas hindus e de artes clássicas indianas, como música e dança. Nas aulas de dança clássica indiana, por exemplo, o aluno deve fazer uma oração aos deuses antes de começar a aula e, também, tocar os pés do guru, pedindo, com aquele gesto, que ele lhe passe o conhecimento que possui.

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Em uma sociedade onde titulos e castas ainda prevalecem, o status do professor, como provedor de conhecimento e autoridade, não mudou. E, a relação entre aluno e professor, também não evoluiu tanto com o passar dos séculos.

E, para alguém que veio de um país onde o professor é pouco respeitado e, quando respeitado, tem-se uma relação amigável com o mesmo, o comportamento dos estudantes indianos, realmente é digno de um artigo. Vamos,então, conhecer alguns dos comportamentos dos alunos indianos que mais impressionam os professores ocidentais:

Professor, não! Senhor, senhora, doutor….

Pois é. Aqui, a maioria dos alunos não nos chamam de professora, nem de teacher, mas sim, de “Ma’am”, que é a forma resumida e indiana da palavra “madam”. Se o professor for do sexo masculino, vão chamá-lo de “sir”. Não importa se o professor é mais jovem que eles. Ainda assim, eles chamarão por estes pronomes de tratamento. Porém, nas aulas de português, desde que aprenderam a palavra “professora”, a maioria começou a me chamar assim.

Ainda sobre os pronomes de tratamento, fiquei extremamente surpresa (para não dizer chocada) com uma professora indiana de língua chinesa, que me abordou para perguntar como os meus alunos me chamavam. Disse que eles me chamavam de “professora” em português ou “madam”. Revoltada, ela virou e disse:

 “Tá vendo? Esse é o jeito certo de chamar uma professora. Meus alunos não me chamam de “madam” e eu estou muito chateada com isso. Vou reclamar com a diretoria da faculdade.”

Me pareceu algo bem ridículo. Mas, em uma sociedade onde títulos valem mais do que tudo, de certa forma até entendi o clamor da jovem professora indiana.

Levantar-se do assento

Na Índia, os alunos acreditam que devem estar na sala de aula antes do professor. E, quando o professor entra, todos se levantam e cumprimentam com um bom dia ou boa tarde. Vi o quanto meus alunos ficaram confusos quando chegaram para algumas aulas e eu já estava na sala, fazendo os preparativos finais da aula. Eu sempre fui assim. Gosto de chegar cedo e, terminar de corrigir alguns exercícios ou preparar algo extra nos minutos que antecedem a aula. Mas, vi que os alunos indianos ficaram se sentindo culpados por eu ter chegado antes deles. Olharam no relógio, olharam um para a cara do outro….Foi aí que percebi o embaraço e disse que não precisavam se preocupar em estar antes de mim na sala. E, que desde que chegassem na hora, poderiam entrar na sala, sem problemas. Desde dia em diante, parece que um peso saiu do ombro deles.

Outra ocasião na qual os alunos indianos levantam de seus assentos, é quando o professor pede para lerem algum texto ou responderem alguma questão. Este tipo de comportamento é bem comum aqui na Ásia, e também o era no Japão. Porém, com a mente brasileira, confesso que tudo isso me lembra um exército e, me dá nervoso vê-los levantar desesperadamente com o livro na mão, como pequenos soldados. Então, delicadamente, fui tentando tirar isso deles. Pòrém, quando eu caminho pela sala e faço alguma pergunta para algum deles, imediatamente, o mesmo se levanta com o livro na mão.

O carinho e a gratidão ao professor

Não são poucas as demonstrações de carinho dos alunos. Todas as aulas, e na hora do intervalo, saímos para tomar um chai lá fora, na barraquinha. Eles nunca deixam eu pagar o meu chai. No dia que eu quis pagar um chai para todos eles, não deixaram o vendedor pegar minha nota de cem rúpias e, acabaram pagando. Quando estou ocupada com algo e não posso ir lá fora com eles, sempre um deles traz o chai e deixa na minha mesa. Gente…é ou não é uma fofura? Fora quando junto com chai vem um docinho!..

Quando a aula termina, todos saem da sala agradecendo, como se eu tivesse feito algo fantástico para eles. No dia dos professores, desde cedo, mensagens carinhosas inundaram meu Whats app, com belos dizeres sobre a função do professor e desejando vida longa e sucesso. Semana passada, com o término do nosso curso, recebi diversas demonstrações de carinho dos alunos, mandando mensagens agradecendo pela minha dedicação e empenho em fazê-los aprender cada vez mais.

Aprendem rápido e são interessados

   Não sei se os outros indianos colegas de trabalho compartilham da mesma opinião, mas percebo que os alunos indianos são muito interessados na matéria e constantemente fazem seu dever de casa sem a gente precisar implorar. Quando não passamos dever de casa, eles acham estranho. E, quando deixo vários exercícios de revisão para casa, eles ficam felizes e agradecidos!!Além disso, após ou antes da aula, sempre tiram suas dúvidas e, durante a semana, se alguma dúvida aparece, eles enviam para o nosso grupo do Whats app, onde rapidamente, respondo. Nas turmas, há pessoas aposentadas, estudantes e alguns que trabalham em empresas. Tem uma estudante que é professora, também. Coincidência ou não, ela é a melhor aluna! Ela é casada, tem filhos, cuida da casa, do marido e ainda trabalha fora. Mesmo assim, não deixa nenhum exercício pendente. Ah, se ela soubesse o quanto me inspira!

Adoram testes e notas

Se tem uma coisa que eu não me acostumei no sistema educacional indiano é a fixação por avaliações e notas. Sei que avaliações são importantes, mas parece que tanto os alunos indianos quanto os professores, vivem para isso. Os alunos, sempre preocupados com as notas e seu desempenho. Os professores, por sua vez, sempre usando os vocábulos avaliação, prova, testes para assustar e intimidar os alunos. Aliás, os pais indianos também cobram muito notas altas de seus filhos e, em muitas vagas de emprego, eles pedem para você citar as notas de seu histórico escolar. Algo desnecessário, ao meu ver. Mas, as provas são sempre um momento de tensão entre os alunos indianos, mas procurei acalmá-los durante o curso, dizendo que nada além do que estudamos seria pedido e que podiam ficar tranquilos. Não sei se ficaram, mas de 12, 10 alunos foram aprovados!

__________

Juliana Paula já morou e trabalhou no Japão. Está na Índia desde 2013. Para saber mais sobre ela e o blog pessoal da Juliana, o Tabibito Soul, acesse a mini bio da Juliana. Para atualizações diárias sigam a página do “blog Brasil com Z” no Facebook. Temos também uma conta no Instagram com fotos dos nossos autores e uma no Twitter. Divirtam-se! 

2 Comentários leave one →
  1. 24/04/2018 15:48

    Como sempre um post interessante da Juliana. O atual estudo descrito lembra o do Brasil dos anos 60 e 70, quando tínhamos deferência e muito respeito pelos mestres. Muita coisa mudou desde então. Desculpe a autora. Mas penso que ao contrário de tentar (involuntáriamente talvez) mostrar costumes mais ocidentalizados aos alunos, melhor seria estimular e incentivar a forma como vêem e tratam os professores na Índia.

  2. marlicarmen permalink
    14/05/2018 0:39

    Gostei da educação e respeito que eles tem com os professores.

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