Vim para a Inglaterra por causa de bullying

Morar fora não é uma decisão fácil de se tomar. A minha decisão foi influenciada pela curiosidade de explorar terras anglo-saxônicas e decido à paixão pela língua inglesa, que só desenvolvi por causa de bullying. Sim, o destino me trouxe até a Inglaterra por bullying!

Quando eu era criança, meus pais queriam que eu fizesse algum tipo de atividade extracurricular, depois das aulas matinais na escola. Comecei a ir às aulinhas de balé ainda muito pequenina, e gostava da folia. Porém, tinha lá uma menina que me batia. Eu voltava pra casa cheia de beliscões e seguido choramingando. Naquela época não era como hoje, que os pais fazem um reboliço na escola e a coisa se resolve. Minha mãe até mencionou o problema para a responsável pela menina e para a diretoria da escola, mas o conceito de bullying foi posterior a esta época e nada mudou. Acabei não curtindo mais as aulas devido a esta situação constante. Como eu voltava pra casa desanimada, meus pais resolveram buscar outras alternativas. No mesmo prédio onde eu fazia balé, no andar de cima, tinha recém aberto uma escola de ensino de língua inglesa. Me transferir do balé pro cursinho de inglês aconteceu num piscar de olhos.

Eu lembro até hoje, quase quarenta anos depois, de tudo o que aprendi naquele primeiro dia de aula. Lembro de voltar pra casa super empolgada e mostrando meu livro de inglês pros meus pais no carro. Foi paixão à primeira vista! Tenho muitas lembranças carinhosas daqueles tempos, de situações, de pessoas, e dessa nova linguagem, que me permitia entender o que diziam as músicas que eu gostava, poder assistir os filmes de Hollywood sem legenda e sem a péssima dublagem daqueles tempos no Brasil. Aprender inglês me permitiu ver o mundo de um jeito diferente. Não só sem bullying mas também ver a minha própria cultura e meus próprios hábitos sob uma ótica diversa.

Com o tempo, fui me destacando na escola onde estudava e acabei recebendo uma proposta para começar a lecionar inglês. Fiquei lisonjeada mas muito insegura se deveria aceitar. Gente, eu tinha 16 anos. E a garotada de 16 anos naquela época, era bem mais pateta que um adolescente de 16 anos no mundo de hoje! Como eu disse, o mundo era outro…

Junto a escola de idiomas, criamos um plano, e comecei a lecionar. Inicialmente, apenas para criancinhas que estavam aprendendo suas primeiras palavras noutro idioma, e eu auxiliando a professora formada. Aos poucos fui aprendendo na prática e tendo mais independência. Mas tudo sempre sendo guiada e supervisionada pela dona da escola, que é uma profissional de peso e com anos de experiência nas costas. Resultado: com 17 anos eu lecionava inglês para médicos e advogados com pós-graduação e muitos outros títulos que eu nem sabia o que eram. E o meu caso de amor com a língua inglesa só se intensificava. Decidi fazer faculdade, e passei no vestibular da Federal no RS pra me tornar tradutora. Nesse meio tempo, minha família, que é de origem italiana, iniciou o processo de busca da nossa cidadania. Esse processo era bem caro e demorado. Contratamos uma advogada especialista nisso, que se encarregou da coisa. O processo era tão demorado que eu tinha até esquecido dele…

Finalmente, me formei como tradutora, e continuava lecionando inglês para crianças, adultos, inglês técnico, inglês comercial, preparação pro vestibular, lecionei na universidade, em escolas mais carentes, em escolas de gente fina, aulas particulares… Teve de tudo! Daí um dia, recebi uma carta que foi decisiva: era uma carta do consulado italiano me informando que eu agora era uma cidadã italiana e que poderia encaminhar meu passaporte.
Eu quase não acreditei… Durante anos eu estudei a língua inglesa, a história e geografia, cultura da Inglaterra (sempre pendi pro inglês Britânico. Acho o sotaque Americano muito arrastado) e como a Inglaterra fazia parte da União Europeia, a cidadania Italiana me permitia correr atrás dos meus sonhos, de conhecer e vivenciar na prática tudo o que eu tinha estudado e ensinado na teoria, tudo o que eu tanto admirava de longe!

Raquel Macagnan em Leeds, Millennium Square, 2004

Pra vocês terem uma ideia, recebi a carta do consulado italiano no início de setembro de 2003. Fiz meu passaporte e vendi tudo o que eu tinha. TUDO! Vendi roupas, livros (inclusive, estes eram meus xodós), acessórios, jóias, carro… E comprei uma passagem só de ida pra Europa no início de Dezembro de 2003. Em três meses, me desfiz de tudo, coloquei o que restou em duas malas e sai voando as tranças. Minha tia estava estudando em Barcelona neste período, e passei por lá primeiro. Fiquei um mês me aclimatizando.

Finalmente, desembarquei na minha terra dos sonhos dia 16 de janeiro de 2004, carregando minha vida em duas malas e com meia dúzia de trocados. Tinha um ou dois contatos na Inglaterra que me abriram caminhos, mas o que me valia mesmo, era o conhecimento, curiosidade e paixão que eu trazia comigo e a certeza de que aqueles beliscões da Mariana durante as aulas de balé não tinham sido à toa…