Você está preparado para sair do país?

Considerações sobre ir morar no exterior

A ideia de morar no exterior exerce fascínio sobre pessoas no mundo inteiro. Mesmo para aqueles que conseguem se estabelecer, com sucesso, em um local distante da terra natal, a experiência traz uma série de desafios. Para muitos, a chegada no país escolhido não tem glamour. Em geral, os expatriados carregam uma bagagem cheia de sonhos e pouco dinheiro. E a vida como imigrante exige um esforço significativo para se adaptar cultural e socialmente, exigindo um reajuste para atender às exigências da nova vida.

Um dos aspectos importantes da migração é que o espaço cultural familiar é deixado para trás e mudar implica perda, luto e readequação. O planejamento pode ter sido longo, mas a mudança é sempre repentina. Nenhuma preparação consegue antecipar com certeza os sentimentos de estar longe de todos, e de tudo, conhecidos até então como lar.

Muitos são os elementos da mudança e até a sonoridade do novo lugar e do novo idioma provocam efeitos inconscientes. Um amigo emigrante comentou, uma certa vez, que “nem o barulho das buzinas é familiar, parece que os europeus apertam a buzina de forma diferente”.

Ainda que se possa divergir a respeito de quando exatamente a constituição psíquica de um ser humano realmente se inicie, não há dúvidas a respeito da importância dos sentidos nesse processo. Dentro ou fora da barriga, os sons são importantes indicadores de ambientação e acolhimento ao bebê. São fenômenos somáticos, ou seja, experiências corpóreas, que apresentam o ambiente ao bebê. O ambiente sonoro, articulado pela fala materna (compreende toda e qualquer emissão vocal de uma mãe – ou substituta – para o bebê), se mostra como um espelho ressonante que auxilia na autoimagem infantil. Com o passar do tempo os “sons da vida” contribuem para um sentimento de acolhimento ou desamparo.

O cérebro utiliza áreas diferentes para processar o idioma nativo e o adquirido, mesmo para aqueles que são fluentes. O ambiente “materno” é deixado para trás até em nosso organismo. A linguagem de origem tem uma função estruturante, traz consigo as regras do Supereu e das normas sociais introjetadas. Ao deixar para trás o país de origem, o emigrante também abandona um mundo de tradição e cultura.

A psicanálise esclarece que toda a perda é sempre uma reedição da perda inicial da constituição psíquica. A forma como foi vivenciada o processo de separação/individuação infantil irá ditar as regras para todas as separações futuras. Quando existir só é possível a partir do reflexo, afastar-se pode abrir portas para novas formas de ser e estar ou simplesmente aniquilar a existência. Ao se aventurar para uma nova vida o expatriado abre uma ferida narcísica, pelo risco da dissolução da identidade, e muitas vezes, acaba em processos depressivos ou ansiosos importantes. O corpo tentará dar conta daquilo que o psiquismo não conseguiu.

Ao se mudar, o expatriado deve estar aberto para lidar com as dificuldades psicológicas que podem “bater a porta”. Os aspectos desestabilizadores são muitos e exigem tempo e um trabalho psíquico que foque na capacidade de adaptabilidade e tolerância. Subestimar as dificuldades próprias a uma mudança de ambiente psicossocial é uma das principais razões de sofrimento psíquico. Assim como em todas as áreas da vida, o melhor caminho é o pensar-se.